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quarta-feira, 22 de julho de 2020

9 (+1) livros sobre Juazeiro do Norte - Parte 1



por Ythallo Rodrigues e Luís André Araújo

“Juazeiro é uma terra de pouca geografia e muita história”. Com essa frase, Monsenhor Murilo de Sá Barreto naturalmente se referia a toda a riqueza de fatos, histórias e culturas na vida de um município relativamente novo e com pouca extensão territorial.

E neste 22 de julho – dia da emancipação política do município – para ilustrar que o que não falta é história sobre o Juazeiro, resolvemos lançar a primeira de uma série de listas com livros que contam muitos dos fatos ligados à gênese e ao desenvolvimento de Juazeiro do Norte, em seus aspectos religiosos, políticos, econômicos e culturais.

Assim sendo, é importante pontuar algumas questões:

A produção editorial e acadêmica de trabalhos sobre Juazeiro é vastíssima, mas as listas são finitas, implicando no inevitável: muita coisa boa (e importante) naturalmente (e infelizmente) ficará de fora.

Como faremos mais de uma lista (aguardem as próximas!), possivelmente um livro não contemplado agora pode ser citado numa próxima postagem.

Para tentar diversificar as épocas, estilos, autores e autoras das obras, a lista não segue um critério de importância/relevância da publicação, então colocamos em ordem cronológica, considerando a data de lançamento da primeira edição.

Ressaltamos que a lista não é assinada por especialistas na história do Juazeiro e sua religiosidade, mas O Berro resolveu se lançar nessa missão por sempre demonstrar um eminente interesse e admiração pelo assunto, como quem se surpreende com a riqueza de cada história deste lugar. Então as listas surgem dessa curiosidade e admiração.

Por fim, enfatizamos que não estão sendo listados, necessariamente, livros com qualquer tipo de temática ligada ao Juazeiro ou pelo fato do escritor ou escritora ser juazeirense. A ideia é enumerar livros “sobre o Juazeiro”, com temáticas caras à sua origem e desenvolvimento enquanto município, no que se refere às questões religiosas, à história do Padre Cícero e/ou da Beata Maria de Araújo (e demais religiosos conhecidos), das romarias, etc., também pincelando aqui e acolá as questões econômicas, políticas e culturais.

Boa(s) leitura(s)!



O Padre Cícero que eu conheci (verdadeira história de Juazeiro) - Amália Xavier de Oliveira (Gráfica Olímpica, 1969): o livro da professora e memorialista Amália Xavier busca descrever a vida de Padre Cícero, tendo como recorte o período em que este viveu em Juazeiro, entre 1872 e 1934 (ano de sua morte). O texto que abre a edição de 2001 é uma carta da escritora Rachel de Queiroz, de 1968, com considerações que demonstram algumas características importantes do texto da professora juazeirense: “Estou acabando a leitura de seu livro O Padre Cícero que eu conheci. E quero agradecer a distinção que me fez, proporcionando-me a leitura em original, desse depoimento honesto, veraz e fiel. Sabe quanto venero a figura do nosso padrinho Padre Cícero; é uma dor de coração ver esses ‘depoimentos’ e ‘interpretações’ que saem por aí, assinados por aventureiros, por pessoas que se querem beneficiar da glória do nosso santo – ou por conhecidos inimigos dele. O seu livro vem pôr a verdade no seu lugar. É claro, sincero – e se é apaixonado, algumas vezes, – será desse paixão da justiça, que reclama quando vê a mentira entronizada.”


 
Milagre em Joaseiro - Ralph Della Cava (Paz e Terra, 1976): publicado originalmente em 1970 nos Estados Unidos – com a primeira edição brasileira lançada em 1976 – tornou-se importante referência pela apreciação e divulgação de documentação até então inédita sobre o “Milagre da hóstia do Juazeiro”, protagonizado pela Beata Maria de Araújo e pelo Padre Cícero. Ralph Della Cava, um historiador e antropólogo estadunidense, acabou apresentando, assim, um dos trabalhos de grande fôlego sobre a formação e desenvolvimento de Juazeiro do Norte, calcado no fenômeno religioso do fim do século XIX e impulsionado ainda com mais vigor durante o século XX. O livro – lançado originalmente pela Paz e Terra e reeditado em 2014 pela Companhia das Letras – estimulou tantos outros trabalhos acadêmicos e produções audiovisuais sobre a história do Padre Cícero e de Juazeiro.


 
Juazeiro do Padre Cícero: a terra da mãe de Deus - Luitgarde Oliveira Cavalcanti Barros (Francisco Alves, 1988): nesse estudo pioneiro, desenvolvido no decorrer da década de 1970 e apresentado como tese de doutorado em 1980 pela antropóloga Luitgarde Oliveira, acompanhamos o percurso de constituição histórico-social do sertanejo, em que seguimos até a vila de Juazeiro em seu nascedouro no final do século XIX e a partir de lá somos convidados a entender os meandros do catolicismo popular na formação de Padre Cícero como um dos ícones desta categoria. O livro segue pelo século XX, observando a relação estabelecida entre os romeiros de Padre Cícero e a cidade que é o espaço sagrado da devoção de toda a gente do Nordeste que compõe as romarias. Na edição mais recente, de 2014, há ainda o acréscimo de um quarto capítulo que delineia alguns aspectos da chegada do Juazeiro de Padre Cícero no século XXI.


 
Juazeiro do Padre Cícero - Raimundo Araújo (org.) (Gráfica Mascoto, 1994): em 1994 Juazeiro tinha algumas datas importantes para comemorar – no sentido de trazer à memória, recordar: 80 anos da morte da Beata Maria de Araújo; 80 anos da Sedição de Juazeiro (a famosa “Guerra de 14”); 80 anos da elevação da condição de vila a cidade; 60 anos da morte do Padre Cícero e 150 anos do seu nascimento; 25 anos da inauguração da estátua do Padim no Horto... ufa! (correndo o risco aqui de esquecer outras efemérides importantes daquele ano). Para homenagear tantos fatos relevantes, o escritor Raimundo Araújo, um dos grandes entusiastas da história de Juazeiro, organizou essa antologia com textos dos mais variados profissionais, moradores, admiradores e estudiosos da história da cidade. Nas páginas do livro são explorados diversos assuntos e temos uma seção com fotografias, que hoje provocam um certo saudosismo, pois já se vão 26 anos do lançamento dessa obra impressa pela tradicional Gráfica Mascote.


 
Maria do Juazeiro: a beata do milagre - Maria do Carmo Pagan Forti (Annablume, 1999): dentre os mais variados assuntos e personagens que fazem parte da história de Juazeiro do Norte e do Cariri, para a equipe d’O Berro a Beata Maria de Juazeiro merece um destaque especial. Sendo assim, naturalmente haveríamos de mencionar uma das primeiras obras com um certo fôlego que se debruçou especificamente na figura de Maria Magdalena do Espírito Santo de Araújo. Coube então à psicóloga e professora Maria do Carmo Pagan Forti levantar uma questão que sempre merece um debate mais profundo: após o caso do milagre da hóstia, ocorrido em 1889, o Padre Cícero tornou-se o líder e grande referência de um dos maiores fenômenos sócio-religiosos da história do Nordeste brasileiro: as romarias de Juazeiro; entretanto, a grande protagonista daqueles fatos, a Beata Maria de Araújo, foi sendo apagada da história, tendo seu nome e sua importância poucas vezes lembrados no fenômeno em que se transformou o Juazeiro. Maria do Carmo não hesita em tomar partido e defender a beata de todas as acusações sofridas durante o processo eclesiástico que condenou Maria de Araújo ao enclausuramento e esquecimento nos seus últimos anos de vida – e em boa parte da história.


 
Padre Cícero: poder, fé e guerra no sertão - Lira Neto (Companhia das Letras, 2009): com uma considerável lista de personagens da história brasileira no seu currículo como biógrafo, o jornalista e escritor cearense Lira Neto também se debruçou sobre a história do Padre Cícero. O resultado dessa pesquisa foi o livro Padre Cícero: poder, fé e guerra no sertão, que apresenta uma narrativa baseada em vasta documentação sobre a riquíssima e surpreendente história que envolve as questões políticas e religiosas da ascensão do Padim Ciço no sertão nordestino. Sem esnobar o mérito de sua pesquisa historiográfica, vale mencionar a recorrência de escutarmos leitores do livro falarem que se trata de uma narrativa instigante, envolvente, por ser uma história (de certa forma) “romanceada”, prendendo o leitor com um texto que flui facilmente, prendendo a atenção a cada página. Por fim, também vale citar o peso da editora Companhia das Letras e a sua capacidade de distribuição nacional, que fizeram desse livro um importante divulgador da história do Padre Cícero em todo o território brasileiro.



O teatro de Deus: as beatas do Padre Cícero e o espaço sagrado de Juazeiro - Edianne Nobre (Editora IMEPH, 2011): em seu primeiro livro, a professora e escritora Dia Nobre narra as histórias que estão em torno dos milagres de Juazeiro, a partir da perspectiva das nove beatas que acercavam o Padre Cícero em seu itinerário de fé. A partir da forma clássica de um texto dramatúrgico em três atos, a autora vai desenvolvendo em cada uma das cenas o desenrolar dessa história intrincada (iniciada nas últimas décadas do século XIX) e tramada por inúmeras vozes e contextos diversos. Fatos históricos (ou místicos) que reverberam até hoje na cidade em que Juazeiro do Norte se transformou. Ao final do percurso do livro a autora reafirma a potência “do fato extraordinário que é um pequeno povoado sombreado por juazeiros crescer no meio do nada e se transformar em um caloroso e famoso centro de religiosidade católica”. A obra faz parte da importante Coleção Centenário, lançada em 2011, quando foram comemorados os 100 anos de Juazeiro, e a autora posteriormente lançaria uma obra de grande impacto sobre a Beata Maria de Araújo – mas isso é assunto paras as próximas listas...


 
A Praça Padre Cícero - Daniel Walker (Expressão Gráfica e Editora, 2017): praticamente toda cidade possui uma praça que poderia ser chamada de “o coração da cidade”. E parece que não foi por acaso que um livro sobre a Praça Padre Cícero fosse capaz de representar toda dedicação de uma vida do professor, historiador e escritor Daniel Walker a Juazeiro do Norte – e, lógico, ao Padre Cícero. Lançada em 2017, a obra foi fruto de uma longa pesquisa (de mais de 5 anos) que esbarrava na falta de acervos públicos mais cuidadosos em registrar a história do nosso povo e das nossas cidades. Mas Daniel Walker abraçou a missão, consultando escritos e ouvindo “causos” de tantas pessoas que viveram muitas histórias na famosa praça, com destaque especial para as décadas de 1960 e 1970, quando, segundo o próprio autor “ela esbanjou todo o seu glamour e ficou cravada na memória de todos nós, como sendo nosso local de lazer e namoro”. O resultado é um livro com muitas histórias, informações e um rico acervo fotográfico.


 
Juazeiro sem Padre Cícero: expectativas e temores gerados pela morte do Padrinho (1934-1969) - Amanda Teixeira da Silva (Editora CRV, 2018): já a obra da professora e historiadora Amanda Teixeira segue o percurso temporal imediatamente posterior à morte de Padre Cícero, até o final na década de 1960. Na contracapa da primeira edição Amanda traça uma breve sinopse do seu trabalho. “Padre Cícero morreu em 1934. Havia, no período, diferentes expectativas sobre o que seria Juazeiro após o desaparecimento de seu fundador. Para muitos jornalistas, a morte de Padre Cícero representava um problema econômico, constituído pelo possível esvaziamento da cidade e pela fuga de mão de obra do Nordeste para o Sudeste e o Norte do país. Alguns temiam ainda possíveis acessos de fanatismo ou a consolidação de um problema social, já que os romeiros e retirantes ficariam então sem o apoio espiritual, moral e material do sacerdote. Para os devotos, por outro lado, o desaparecimento do Padrinho significava o fim da relação pessoal com um santo que falava a língua dos pobres e nunca se negava a ouvir e auxiliar os necessitados. De certo modo, a persistência de Padre Cícero nos corações de seus seguidores surpreendeu os intelectuais e as autoridades religiosas que planejavam dar fim à sua memória. A morte não foi capaz de eliminar o Padrinho. Juazeiro sem Padre Cícero passou a ser Juazeiro com mais Padre Cícero do que se imaginava.”


 
+1. A mulher sem túmulo - Nilza Costa e Silva (Armazém da Cultura, 2010): “Maria foi a segunda beata a receber a hóstia. Tomou um susto. Sentiu alguma coisa estranha em sua boca, um gosto de sangue... Teve vontade de expulsar aquilo de dentro de si, pois não sabia o que era. Terminou cuspindo tudo sobre a palma da mão. Só aí notou, visivelmente pálida, que a hóstia estava sangrando.” O livro de Nilza Costa e Silva através dos fatos romanceia a história de Maria de Araújo, a beata protagonista dos milagres da hóstia consagrada, a renegada santa de Juazeiro. Em 1930 o túmulo de Maria de Araújo foi violado e destruído por oficiais da igreja católica, um mistério que paira sobre a hoje populosa Juazeiro do Norte, e que faz ecoar a pergunta trazida ao final deste romance: “Onde está Maria de Araújo?”
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Confira outras listas postadas recentemente no blog O Berro:
9 (+1) poemas de Fernando Pessoa e alguns de seus Outros Eu(s), por Flávio Queiróz
9 (+1) poemas de O Belo e a Fera, livro de Geraldo Urano (Lima Batista)
9 (+1) referências do Design Cariri, por Fernanda Loss
9 (+1) discos preferidos do rock internacional, por Michel Macedo
9 (+1) importantes obras de filosofia, por Camila Prado
9 (+1) artistas visuais contemporâneos, por Adriana Botelho
9 (+1) leituras para quem quer conhecer melhor a literatura brasileira, por Edson Martins
9 (+1) músicas para ouvir no Primeiro de Maio, por Antonio Lima Júnior
9 (+1) obras que me fizeram refletir durante o isolamento, por Cecilia Sobreira
9 (+2) contos de Rubem Fonseca para ler, por Elvis Pinheiro


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sábado, 13 de junho de 2020

9 (+1) poemas de Fernando Pessoa e alguns de seus Outros Eu(s), por Flávio Queiróz



por Flávio Queiróz

Fernando Antônio Nogueira Pessoa (*13.06.1888 +30.11.1935): poeta, filósofo, dramaturgo, ensaísta, tradutor, publicitário, astrólogo, inventor, empresário, correspondente comercial, crítico literário e comentarista político português. Nele 1 é  um número múltiplo...

Nesse contexto, interessa-nos o POETA lírico, épico, dramático, saudosista, nacionalista, Português e Universal!

A Obra Poética de Fernando Pessoa pode ser estudada a partir de três aspectos:
1.Textos Ortonímicos: aqueles escritos com o próprio nome.
Mensagem é o único livro escrito e publicado por Ele/Si mesmo em português (1934).

2.Textos Heteronímicos: escritos com outros nomes, poetas com biografias, características e estilos diferentes do Fernando Pessoa. Destacamos três:
* Alberto Caeiro
* Ricardo Reis
* Álvaro de Campos.

3. Textos Semi-heteronimicos: neste caso o poeta, apesar de assumir Outros Nomes, mantém traços característicos de Fernando Pessoa quando escreve.
* Bernardo Soares, um dos autores de uma das obras pilares da Prosa Moderna em Língua Portuguesa, é o principal responsável por mais uma estratégia literária inimitável de Fernando Pessoa.

E, para aprofundar ou se conhecer mais sobre o que falamos até aqui, deixo uma bibliografia para iniciantes; um livro que aborda boa parte da Obra Poética; e um terceiro para quem deseja uma Leitura Crítica do Autor(es) e da sua produção literária.

1.Para Iniciantes:
Margens do Texto / Fernando Pessoa, de José de Nicola e Ulisses Infante. Editora Scipione (1995).

2.Literária:
Fernando Pessoa / Obra Poética, volume único. Companhia Aguilar Editora (1965). Organização, Introdução e Notas de Maria Aliete Galhos.

3.Crítica Literária:
Introdução ao Estudo de Fernando Pessoa, de Fernando Cabral Martins. Editora Assírio & Alvim (2014).




E sem colocar um ponto final (não sejamos tão dogmático, pedia o próprio Poeta, ao tratar de sua obra), deixamos 9 (+ 1) POEMAS de Fernando Pessoa e alguns dos seus Outros Eu(s):


1. “Ulisses” (Fernando Pessoa)O mito é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo —
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.

Este, que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos criou.

Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecundá-la decorre.
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre.

*


2. “O infante” (Fernando Pessoa)

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma.

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!

*


3. “Mar Português” (Fernando Pessoa)

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena?
Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

*


4. “Nevoeiro” (Fernando Pessoa)
 

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer —
Brilho sem luz e sem arder
Como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a hora!

                Valete, Fratres.

*


5. “Autopsicografia” (Fernando Pessoa)

O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

*


6. “Isto” (Fernando Pessoa)
 

Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!

*


7. “Poema em Linha Reta” (Álvaro de Campos)
 

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza. 

*


8. “Segue teu Destino” (Ricardo Reis)

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

*


9. “Há metafísica bastante em não pensar em nada” (Alberto Caeiro)

Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do Mundo?
Sei lá o que penso do Mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que ideia tenho eu das coisas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das coisas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o Sol
E a pensar muitas coisas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o Sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do Sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do Sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

«Constituição íntima das coisas»...
«Sentido íntimo do Universo»...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em coisas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das coisas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.

O único sentido íntimo das coisas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as coisas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?),
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.

*


+1. “Emissário de um Rei Desconhecido” (Fernando Pessoa)

Emissário de um rei desconhecido
Eu cumpro informes instruções de além,
E as bruscas frases que aos meus lábios vêm
Soam-me a um outro e anómalo sentido...

Inconscientemente me divido
Entre mim e a missão que o meu ser tem,
E a glória do meu Rei dá-me o desdém
Por este humano povo entre quem lido...

Não sei se existe o Rei que me mandou
Minha missão será eu a esquecer,
Meu orgulho o deserto em que em mim estou...

Mas há! Eu sinto-me altas tradições
De antes de tempo e espaço e vida e ser...
Já viram Deus as minhas sensações...
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QUASE TODOS os poemas citados e outros não citados podem ser encontrados no YouTube, com  belas interpretações de atores, cantores, poetas e intelectuais do Brasil e de Portugal.

Apresentamos dois desses vídeos:

“Autopsicografia”, com Paulo Autran:


“Segue teu Destino”, com Maria Betânia (música de Sueli Costa):

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Flávio Queiróz: Professor das Disciplinas Literatura Portuguesa III e Introdução à Obra de Fernando Pessoa, no Curso de Letras da Universidade Regional do Cariri (URCA); Professor, Cronista e estudioso das influências ibéricas na leitura regional, assunto que o levará a uma viagem de estudos por terras lusitanas em 2021; publicou diversos trabalhos na área de Literatura e Cultura. Tem um livro publicado: Escrever de verdade: práticas de produção textual (2014).
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Confira outras listas postadas recentemente no blog O Berro:
9 (+1) poemas de O Belo e a Fera, livro de Geraldo Urano (Lima Batista)
9 (+1) referências do Design Cariri, por Fernanda Loss
9 (+1) discos preferidos do rock internacional, por Michel Macedo
9 (+1) importantes obras de filosofia, por Camila Prado
9 (+1) artistas visuais contemporâneos, por Adriana Botelho
9 (+1) leituras para quem quer conhecer melhor a literatura brasileira, por Edson Martins
9 (+1) músicas para ouvir no Primeiro de Maio, por Antonio Lima Júnior
9 (+1) obras que me fizeram refletir durante o isolamento, por Cecilia Sobreira
9 (+2) contos de Rubem Fonseca para ler, por Elvis Pinheiro
9 (+1) filmes para assistir na Netflix, por Wendell Borges



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quarta-feira, 10 de junho de 2020

9 (+1) poemas de ‘O Belo e a Fera’, livro de Geraldo Urano (Lima Batista)



Neste dia 10 de junho, data em que nasceu o poeta cratense Geraldo Urano (ou Efe, ou Lima Batista, ou Gandhi, ou Mérkur...), em 1953, nossa editoria inaugura uma perspectiva diferente das Listas O Berro 9 (+1), com a nossa própria equipe apresentando uma seleção de poemas do livro O Belo e a Fera (cantigas), lançado originalmente em 1989, com a assinatura de Lima Batista.

Em 2015 a obra de Geraldo Urano foi reunida e editada no volume O Ferrolho do Abismo, com design gráfico do Estúdio Caravelas e prefácio da poeta e professora Cláudia Rejanne. No dia 5 de fevereiro de 2017, Geraldo fez sua viagem para outros planetas, deixando como legado tantas histórias e poesias.

A imagem em destaque nesta postagem é uma ilustração de Reginaldo Farias, a partir de fotografia e desenhos do poeta (estes últimos incorporados ao design de O Ferrolho do Abismo) e a capa original do livro O Belo e a Fera.


Livro O Belo e a Fera (cantigas), de Lima Batista

Prefácio

O Poeta chega ao dia em que desperta e tem a certeza de que nunca adormecera. Olha o Sol e inicia um caminho de alguns poucos passos para beber na fonte cuja água lhe molha os pés, enquanto no peito dói a ânsia de sobrevoar o Universo, sem pátria e muito menos pouso certo.

Uma manhã de junho. Na Serra, esperança afoita, donde trinam pássaros coloridos, nas flanelas das bananeiras. O gado pasta indiferente ao triturar das moendas dos engenhos em começo de moagem. E as águas descem gorgolejantes as lajes da Cascata.

Frio bom, brisa gostosa e a música do estio. Uma solidão cúmplice a falar de planos maiores em elaboração na mente de Deus. O homem e a espera, qual centauro que abrisse os olhos pela primeira vez. Vê o Vale que desce das encostas, indo repousar lá embaixo, nas cidades esdrúxulas; minutos que voam em farejo do novo que nasceu.

O Cariri traz, em Geraldo Lima Batista, a escrita da renovação, mais do que poesia, vigília e certeza, aviso de preparação do Futuro.

José Emerson Monteiro Lacerda
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meu amigo geraldo,

acabei de brincar lendo teu livro. e que brincadeira gostosa e tranquila é sentir o encaixe perfeito das tuas palavras. essas palavras são nossas. são palavras de um mundo mágico que você sabe muito bem encontrar no meio de tantos truques baixos.

a vida tem disso. às vezes você recebe um soco por sobre o estômago. é um golpe seco e cruel. às vezes nós encaramos o algoz e partimos para um próximo e infinito round. às vezes nós vamos a nocaute técnico ou violento, humilhante e injusto, mas nunca definitivo.

imagine muhammad ali numa esquina de new york ou de mauriti distribuindo sorrisos em vez de socos, nocauteando a espera, pois quem sorri não tem o que esperar.

é, brother, só nos resta sorrir diante da baixaria. isto é uma arma. e como diz o poeta: uma arma muito quente.
do seu amigo,

carlos rafael dias
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9 (+1) poemas de O Belo e a Fera (cantigas)

os ladrões estão satisfeitos
com a terra nua
todos os poderes
tiram partido dela
políticos artistas e religiosos
fazem loteria de suas vestes
mas não tarda
o dia da verdade
não tarda a hora da justiça


*


o sino está tocando
nada de novo no manicômio
ela tem lábios encarnados
pergunta quando vou fugir
escrevo seu nome na parede
meu anjo
qualquer dia nós vamos sair


*


antes que eu te chame escandalosa
vê se achas uma rosa
deixa o sol entrar
adeus cidade de detroit
vou embora pra chicago
apenas outro lugar
a outra é não me toque
te abaixes nova iorque para o luar passar


*


és como um tigre minha flor de roma
lirismo meu
ou quem dirá que sonhas?
a semana passou
como um cavalo veloz
como uma flexa passou por nós
se eu fosse um bicho
eu não teria sábado
amo israel
saí do mar procurando o céu
meu anjo
essas coisas de menestrel


*


escuta o vento
tu que és inspirado
elas não vão mal?
se aborrecem com a claridade
não és tu que és desajeitado
que só sabes passar mal
é a noite que invadiu o dia
melhora!
lava o teu rosto na pia


*


não sei de nada
não digo nada
nem nadar eu sei
mas sai do meu caminho
tu que és violento
ladrão de ninhos


*


o destino cruel de um país
confusão na praia
hotéis vazios
a juventude castigada
do noticiário sai fumaça
a paz de cachimbo
some por entre dedos nervosos


*


as condições históricas
a distribuição geográfica das raças
os sobradões coloniais
o amarelo da ásia central
tudo é caleidoscópio
eu consulto o relógio
quando se quebrará o espelho?
nada a contar
a não ser cacos prá todo lado


*


lorena sabe o que é
ser nesse tempo mulher.
atirei o meu anzol
para pescar um sonho
pesquei o abandono.
quando o futuro vier
não quero estar tão nua
as multidões carentes
no modernismo das ruas.
o grito do tucano
no domingo pernambucano
lorena sabe o que é
ser nesse tempo mulher
é bolero prá um deus
por telefone um adeus.
sempre ouvindo o vento
guardado o velho senso
no céu o sol e a lua
na terra a vida crua.


*


o planeta amarelo está em brasa
são os vulcões que se espalham
se eu dissesse
as moças de saigon
caminham pela noite azul da ásia
estaria mentindo
a primavera agora é só verdade
quem deterá os oceanos?
ou impedirá os rigores do inverno?
e essas cidades
para onde querem ir?
que crescimento besta é esse? 
_


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quarta-feira, 3 de junho de 2020

Que saber é esse?



Poesia não é questão de verso, pressupõe trabalho, racionalização, construção e, principalmente, um saber. É o que mostra Amador Ribeiro Neto em Poemail, em linguagem experimental e consonante com o concretismo

por Anelito de Oliveira

Novo livro do paulista Amador Ribeiro Neto, radicado em João Pessoa, apresenta coletânea de poemas, em que apresenta a possibilidade de saber de si e do outro: “Livros nos devolvem quem somos”

Meu jovem filho
“quisera eu cosê-la / (a natureza) // a navalhadas /
e punhaladas // foices / e facadas // enxadadas / e machadadas //
sová-la / e sová-la // até devolver/ -me // intacta em sua alegria /
de mil sóis // a vida / de meu // jovem / filho”

Quando publicou seu primeiro livro de poemas em 2003, Barrocidade, Amador Ribeiro Neto, paulista de Caconde radicado em João Pessoa desde 1991, já era conhecido e admirado como um dos mais importantes pesquisadores da obra de Caetano Veloso e sensível crítico de poesia. Os poemas que publicou na antologia Na virada do século, organizada por Cláudio Daniel e Frederico Barbosa para a Landy, em 2002, constituíram uma “avant première” para uma poesia desejosa – não saudosa – de “avant garde”, de se concretizar como objeto dinâmico, movimento vivo. O segundo título publicado pelo autor depois de longos 12 anos, já em 2015, o “futurista” (ressoando Álvaro de Campos) Ahô-ô-ô-oxe, foi uma espécie de “tuitaço” artesanal, publicação aparecida em Florianópolis pelo selo Cartonera, anunciando o seu novo livro: Poemail, uma coletânea de poemas que agora sai pela Patuá.

A experimentação de linguagem, desarticulações e rearticulações do código verbal, é o traço que primeiro salta à vista numa poesia que se coloca abertamente no horizonte do concretismo e de outros tantos “ismos” do passado. Elucidar essa relação, num exercício de crítica intertextual, é importante, sem dúvida, num momento em que questões externas, sobretudo a questão de gênero e da mediação, sobrepõem-se muitas vezes de modo grotesco a questões internas, que dizem respeito à mecânica mesma da poesia. Todavia, o reconhecimento da relevância do gesto de Amador depende da qualificação dessa relação, da explicitação dos seus índices de autenticidade, de tal modo que possamos perceber um “intercessor” (Deleuze) dos “ismos”, que acrescenta dados ao repertório já convertido em tradição literária, não um mero emulador desses “ismos”.

Em consonância com o concretismo, a poesia não é, para o poeta de Poemail, uma questão de verso, mas uma questão de fazer, que pressupõe trabalho, racionalização, construção e, antes de mais nada, um saber. Que saber é esse? Este é o ponto fulcral, eu diria, que é preciso tensionar, tentar elucidar, sabendo, de antemão, que não é tarefa fácil, sobretudo em razão do fato de que estamos diante de um poeta “savant”, não de um criador de poemas espontâneo, movido pela famigerada inspiração. Toda a primeira parte de Poemail, denominada “Elos”, decantando poetas, críticos e prosadores, atesta não apenas uma rede de relações intertextuais – dado previsível –, mas um “modus operandi” do saber letrado, cuja particularidade consiste num dobrar-se, num volver sobre si mesmo: “Livros nos devolvem quem somos /: o avesso / do / nada / de / novo / a / o avesso” (A morte e os livros).

Ao contrário de grande parte dos poetas ditos cultivados, que ainda hoje percebe a relação com a poesia a partir de um preceito beletrista herdado do século 19, Amador Ribeiro Neto encontra nos livros – de poesia, no sentido genérico de “poiesis”, de criação – uma possibilidade de saber de si – e, concomitantemente, saber do outro. Seu gesto poético, como já o demonstrava desde o turbulento Barrocidade, não é narcísico, autocomplacente, mesmo quando se empenha em falar do sentimento de pai diante da morte trágica de um filho. Vejamos já, para exemplificar este aspecto, o que se passa no belo “Meu jovem filho”, um dos momentos viscerais de Poemail: “Quisera eu cosê-la / (a natureza) / a navalhadas / e punhaladas / foices / e facadas / enxadadas / e machadadas / sová-la / e sová-la / até devolver/ -me / intacta em sua alegria / de mil sóis / a vida / de meu / jovem / filho”.

Esse poema, ao lado de outros em que o poeta atém-se a eventos dolorosos, como depressão e suicídio, figura na terceira e última parte de Poemail, denominada “Dentros”, precedida por “Sítios” e a já citada “Elos”. Saber de si, adentrar-se, dobrar-se, coloca o poeta numa situação de enfrentamento brutal da natureza, em que reluz uma verdade experienciada, com sabor de agonia, que tem sido sistematicamente evitada, quando não censurada, desde os anos 1990 na poesia brasileira em nome (quem sabe?) de uma saúde institucional, acadêmica, do campo literário. O movimento – corajoso – que “Meu jovem filho” realiza é compreensível à luz do que Foucault explora n’A hermenêutica do sujeito: a perspectiva socrática do conhecer a si mesmo consiste num despertar da interioridade como esfera incômoda, cuja imagem é a de um animal acometido por um tavão, o inseto que produz uma coceira terrível, um mal-estar no corpo.

Resistência ao Estado opressor

Nascido em 1953, Amador Ribeiro Neto tinha 11 anos em 1964, quando os militares tomaram cinicamente – tal como tem acontecido no país de 2016 para cá – o poder, investindo na demonização da democracia e instaurando, a partir de 1968, um “estado de exceção”, com a negação de direitos fundamentais, a começar pela liberdade de expressão. Tendo vivenciado as agruras daquele cenário, Amador pertence à geração que teve no incômodo, na insubordinação, no “desbunde”, como se dizia nos anos 1960 e 1970 ao ritmo da contracultura, uma questão de honra, um índice de resistência ao Estado repressor. O fato de sua poesia ter começado a aparecer em livro somente em 2003 não pode constituir estímulo para leituras agorais, presentistas, convenientes, pautadas apenas em valores teórico-críticos considerados atuais. Evidente que, como Murilo Mendes se via, o poeta de Caconde não é seu próprio sobrevivente, mas seu próprio contemporâneo – com toda a complexidade que este conceito implica, todavia.

Ainda à luz do modo inquietante como Foucault repensa a subjetividade, é possível dizer que o tavão de Amador – e de todos os marginais, alternativos, vanguardistas da sua geração – é a ditadura militar, o “Estado de exceção”, que provoca ânsias rimbaudianas de desregramento de sentido, ataques de “beat generation”. Poemail nos permite perceber uma espécie de passo a passo desse processo no âmbito específico de uma poética: os “elos” autorais, os “sítios” habitados, os “dentros” acessados. O que conta nesse processo, segundo essa ordenação, é, em primeiro lugar, o nível discursivo, a representação, a “realidade de signos”, para lembrar Haroldo de Campos, uma das referências estruturantes do poeta em Amador, ao lado de Caetano Veloso e, como Poemail o revela agora, João Cabral. Em segundo lugar, contam nesse processo duas geografias – a paulista e a paraibana. E, em terceiro lugar, conta a vida vivida, a experiência nua e crua de existir, afeto familiar, doença, morte – e a alegria!



De fato, é a alegria que, como assinala o poeta Ronald Polito no prefácio a Poemail, desponta como fatura geral, ponto luminoso da geleia, nesse livro que é tão século 21, afim da internet, hipertextual, rizomático, quanto modernista, generoso com as brasilidades, as feiras, as malícias, os altos e baixos, as contradições cotidianas de um país transbarroco. A “alegria é a prova dos nove”, como sentenciou Oswald, mas não só isso; é um torquatiano porto seguro, mas também não só isso; é uma caetânica auto-afirmação sobre os podres poderes circundantes, mas algo que também vai mais além disso. A alegria de Amador é uma alegoria, para lembrar Celso Favaretto lendo a Tropicália, do processo de desregramento de sentido como processo de barroquização, que pressupõe uma compreensão da matéria de poesia – temas, eventos, sensações, experiências, signos diversos – como algo modulável, dobrável, variável. Trata-se de uma alegria que resulta de um saber sobre si mesmo como objeto comunicante, espécie de “eumail”.

Toda a autenticidade desconcertante que atravessa Poemail se deve, sem dúvida, a uma perspectiva sobre a alegria, esse controverso capital nacional, muito próxima àquela concebida pelo poeta e psicanalista mineiro Hélio Pellegrino, um dos maiores poetas-sabedores do país, numa crônica que é uma obra-prima, hoje constante do seu A burrice do demônio, coletânea organizada pelo jornalista Humberto Werneck. “Toda alegria longa e autêntica – é severa”, diz Hélio, “o que não impede que a alegria seja leve e tenha gosto de vinho.” Essa crônica se chama “A construção da alegria”. Ainda no início desse belíssimo poema em prosa, diz o autor de alguns dos versos mais pungentes de sua geração, reunidos pelo mesmo Werneck no volume Minérios domados: “Constrói-se a própria alegria como quem constrói um barco: com ferramentas difíceis”.

Realmente, não são fáceis as ferramentas com as quais Amador Ribeiro Neto constrói o seu barco-alegria. Poemas como “Ensimesmado” (“cada dia / entendo / mais & mais / profundamente / o som / surdo / dos / suicidas”), “A cerca da dor” (“a dor / corrói o metal dos edifícios”) e “Invocação das dores” (“largar livros / leituras / escritas / todo / & / qualquer / texto / para que / adentrem / angústias / desgraças / flagelos”), todos pertencentes aos “Dentros” de Poemail, dão a precisa dimensão existencial dessas ferramentas, desvelando a razão da particularidade “ivre”, bêbada, por isso mesmo humana, frágil, sensível, do barco do poeta. O artifício vanguardista, atualizado em clave concretista ou barroquizante, articula-se, nessa poesia, de modo produtivo a uma substância sempre tensa, agitada, transbordante, que não aspira apenas à leitura fria, mas a um envolvimento corporal, dançante, cantante, com o leitor. O Poemail do poeta do barco-alegria grita, como o Cazuza de “Boas novas”: “Então, vamos pra vida!”.
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Anelito de Oliveira, ex-editor do Suplemento Literário de Minas Gerais, é doutor em literatura brasileira pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de O iludido (Páginas, ficção), Traços (Patuá, poemas) e A aurora das dobras (Inmensa, ensaio) entre outras obras.

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terça-feira, 5 de maio de 2020

9 (+1) leituras para quem quer conhecer melhor a literatura brasileira, por Edson Martins



por Edson Martins


1. A Carta de Pero Vaz de Caminha (1500)
Ler A Carta de Caminha parece o tipo de coisa que, se você escapou de fazer no ensino médio, é porque você está imune para o resto da vida. Acontece que a leitura da Carta pode ser uma experiência muito mais interessante do que se imagina. Nela, temos algumas das ideias centrais que ajudarão a formar a imagem que temos do país: a noção de uma terra que é dádiva de Deus (rica, fértil e abençoada com maravilhas) habitada por seres humanos que não parecem merecê-la (Caminha vê os povos originários com um olhar que os diminui, animaliza e os apresenta como dóceis ao domínio e à manipulação). Para terminar, o escrivão da Descoberta ainda conclui a carta pedindo um favor pessoal: seu genro estava preso por ter roubado uma igreja e espancado um religioso.


 
2. Ubirajara (José de Alencar, 1874)
Ubirajara, de Alencar, é um romance pouco festejado, mas que merece – e muito – ser lido. A trama conta como Jaguarê, mais tarde chamado de Ubirajara,  se torna o herói do povo Araguaia e como, enfrentando provas que testam seus limites, unifica a tribo do seu povo com a dos Tocantins, dando origem a um novo povo, os ubirajaras. De quebra, casa com Jandira e Araci. A poligamia não é o único traço cultural dos povos originários que Alencar defende em seu romance. Construindo uma oposição forte entre a cultura do índio e a do europeu, o romancista produz uma obra capaz de revelar como nossa formação cultural é construída sobre essa tensão.


 
3. Memórias de um Sargento de Milícias (Manuel Antônio de Almeida, 1854)
Outra leitura com cara de escola é o romance de Manuel Antônio de Almeida, as Memórias de um Sargento de Milícias. O interesse da leitura não tem a ver com milicianos, tenham calma. A obra narra as aventuras de Leonardo, homem pobre, branco e livre, que mais tarde será explicado como uma síntese da imagem do brasileiro como um povo que oscila da ordem para a desordem e vice-versa. Ainda que os melhores momentos do livro estejam nas aventuras desse herói malandro, o romance também esquadrinha muitos costumes do Brasil da época de D. João VI.


 
4. Memórias Póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis, 1881)
O romance de Machado de Assis, qualquer um deles, vale a pena pela inteligência narrativa do autor, que faz o romance brasileiro assumir a sua forma mais madura e plenamente desenvolvida. Nesse sentido, destaca-se do conjunto das últimas obras, o Memórias Póstumas de Brás Cubas. Representante da elite econômica e intelectual brasileira, Brás Cubas é preconceituoso, avesso ao trabalho, vaidoso e intelectualmente limitado, mistura do que há de pior em fariseus e saduceus. Com a leitura do romance, entendemos muito do tipo de herói que se desenvolverá na nossa literatura, além de percebermos como a sociedade brasileira é moldada pela subserviência aos padrões culturais estrangeiros e pelos resultados de uma experiência histórica definitivamente marcada pela escravidão, extraindo-se desse conjunto os traços de caráter da nossa elite brazuca.


 
5. Angústia (Graciliano Ramos, 1936)
Graciliano Ramos é um autor que fascina muita gente e isso não é difícil de entender, depois que a gente abre um livro dele. Um desses romances, Angústia, na nossa opinião, é um caso de injustiça (e) de sucesso. É um sucesso, porque a melhor crítica literária reconhece nele os toques de genialidade que ele realmente tem. E é um caso de injustiça, porque não me parece que ele seja uma ocupação permanente do leitor (pelo menos, do leitor brasileiro). A miséria material e moral de Luís de Silva é esquadrinhada de uma forma tão intensa que podemos mesmo dizer que o romance, como gênero, é forçado a encontrar uma forma nova, uma linguagem nova, para cumprir o desafio que Graciliano exige dele.


 
6. Fogo Morto (José Lins do Rego, 1943)
Já o Fogo Morto, de José Lins do Rego, é um romance que se sustenta pela aposta que faz na fórmula bem consolidada do romance, sem cobrar dela nenhuma novidade. Acontece que as personagens que encontramos nele são, sem medo de estar exagerando, criações que se parecem tanto com criaturas que o mundo que desaba em cima delas acaba parecendo um mundo mais de verdade do que esse em que vivemos. Mestre Amaro, Seu Lula e Capitão Vitorino são gente mesmo, dessas que a gente conhece. A leitura do romance nos mostra como a literatura brasileira alcança, em certos autores e obras, esse efeito de pôr em movimento um jeito novo de olhar nos olhos de outras pessoas: esse romance de Zé Lins reinaugura o Brasil, porque o Brasil não é mais o mesmo depois que o lemos.


 
7. A Hora da Estrela (Clarice Lispector, 1977)
Depois que muitos romances nos fizeram pensar sobre as transformações do romance, vêm as obras que nos fazem pensar sobre como os romancistas se veem. Se isso já te ocorreu (e, principalmente, se isso nunca te ocorreu), está na hora de ler A Hora da Estrela. Clarice Lispector sofreu muito com a internet e virou açúcar na boca do povo. Isto não é ruim, todo interesse é positivo quando se trata de leitura. Mas ela já sofria antes, acusada de ser hermética, dificílima, incompreensível. Nesse romance, em que ela parece estar contando a história de Macabéa, Clarice faz um grande acerto de contas com os seus críticos e oferece a eles uma imagem extraordinária deles mesmos: o seu narrador, Rodrigo S. M. É uma leitura que não se resume à compaixão pela moça nordestina: é Clarice chamando a literatura brasileira pra briga e isso é lindo de se ver.


 
8. Gota d’Água (Chico Buarque e Paulo Porto, 1975)
Algo que não temos o hábito de ler é a dramaturgia brasileira. Há textos importantíssimos e, entre eles, Gota d’Água. Quando Chico Buarque recupera o mito de Medeia e a recria na pele de Joana, macumbeira e favelada, pisoteada e homicida, dá para perder o fôlego. A peça se situa em um período importante, em que o povo brasileiro é brilhantemente estudado no palco e a obra de Chico se destaca ao nos dar um feminino insubmisso e corrosivo.


 
9. Navalha na Carne (Plínio Marcos, 1967)
Se a dramaturgia nos mostra o povo na obra de Chico Buarque, Guarnieri, Dias Gomes, temos um autor que nos mostra os que estão tão na pior que melhorar de vida seria viver na sarjeta. Ele se chama Plínio Marcos e é o autor de Navalha na Carne. O encontro assustador que temos com Neusa Sueli, Vado e Veludo, depois que o digerimos, explica como, por baixo de todas as indignidades que a vida reserva para os que estão condenados a viver fora das vistas do cidadão comum, está ali o Brasil que todos reconhecemos. Esse Brasil que está lá, na pensão imunda em que vivem os três, nos embrulha o estômago e nos obriga a responder o quanto é preciso dizer para que o Brasil se escandalize consigo mesmo. Leitura fundamental.


 
+1. A Rainha dos Cárceres da Grécia (Osman Lins, 1976)
Por fim, A Rainha dos Cárceres da Grécia é uma obra-prima do romance brasileiro do século XX. Sozinho, o romance já bastaria para situar seu autor, Osman Lins, entre os mais importantes romancistas brasileiros. A estrutura do texto, que se apresenta sob a forma de um diário, ao qual se agregam notícias de jornal, reflexões de (auto)crítica literária e um peculiar inventário das paixões do seu narrador, não torna o romance uma engrenagem de dificuldades. Pelo contrário, a leitura é deliciosamente fluida. Acompanhamos ali o balanço da paixão do narrador pela sua amante morta, a peregrinação de Maria de França (mulher negra, favelada e louca) em busca de uma aposentadoria como doente mental, além de uma extraordinária coleção de personagens inventados, que circulam entre personagens reais, pelas ruas de um Recife que está e não está ali. Famoso por ter criado Lisbela e o prisioneiro, Osman Lins deixou este último romance como uma obra irretocável, que ainda aguarda a celebração que muito merece.
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Edson Martins é professor de literatura brasileira e pesquisador dedicado ao estudo das poéticas orais nordestinas.

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sábado, 25 de abril de 2020

9 (+2) contos de Rubem Fonseca para ler, por Elvis Pinheiro



por Elvis Pinheiro

Rubem Fonseca

Em 15 de abril de 2020 comecei a escrever este texto. Foram quatro parágrafos que deixei pra lá. Não os reli, mesmo agora, antes desta nova tentativa, nesta manhã de quinta-feira, 23 de abril de 2020, nono dia de seu falecimento. Do que escrevi anteriormente, lembro apenas que era muito ruim, muito metido a besta e eu falava mais de mim do que do escritor. A gente vai escrevendo e não sabe se vai jogar tudo fora ou se dessa vez dará certo. Vou pedir ao Luís André, editor desta postagem, que publique meu texto a partir daqui e os quatro primeiros parágrafos anteriores, que não irei relê-los, venham num asterisco ao final de tudo, bem lá embaixo, no blog (e no Instagram ou Facebook nem apareçam).

Pediram-me para selecionar, indicar, na verdade, alguns contos do Rubem Fonseca. Não lembro se eram 10 ou 11. Selecionei 11. Tenho 12 livros de contos do Rubem Fonseca em minha Biblioteca, mas o 12º é o Carne Crua, seu último livro, e este eu quero ter vida e saúde para lê-lo em 11 de maio, quando Rubem completaria, se estivesse vivo, 95 anos. Então, dos outros 11 livros, com muita dificuldade, selecionei um conto de cada.

Considerações. A primeira: eu tenho os meus livros de contos preferidos, nos quais, todos os contos deles, posso considerá-los meus preferidos! Refiro-me aos livros Lúcia McCartney, Feliz Ano Novo e O Buraco na Parede. A segunda: do livro Histórias de Amor (1997) que me foi roubado (já que a mulher para quem o emprestei nunca me devolveu, mas em compensação fiquei com um outro dela, com uma seleção de poemas do Fernando Pessoa), eu escolheria o conto “Betsy” (acho que é assim que se escreve – não me lembro porque o latrocínio foi em 97 e depois disso nunca mais o li). E a terceira e última consideração: não escolhi contos de livros que não tenho em minha casa. Portanto, os interessados em me presentear podem me agradar com o envio de A Confraria dos Espadas (1998), Secreções, Exceções e Desatinos (2001), Ela e Outras Mulheres (2006) e Histórias Curtas (2015).


 
1. “Duzentos e vinte e cinco gramas”. Foi meu primeiro assombro. Foi quando o autor agarrou o meu pé para sempre naquela remota tarde de 1996. Tudo que eu leria depois, em Os Prisioneiros (1963) e em todos os seus demais livros, já me predispunham a considerá-lo o meu escritor preferido.


 
2. “A força humana”. Esses fortões de academia, esse povo que sua em ringues de luta livre, e que o Zé sabia fazer a gente ter empatia por eles, compreendê-los. Sentirmos sua dor, seus medos e fraqueza. A Coleira do Cão (1965).


 
3. “*** (Asteriscos)”. Que genial na estrutura, na perspectiva, na visão magistral do que é o sistema da Arte. Lúcia McCartney (1969).


 
4. “Intestino grosso”. Quer saber por que ele escreve do jeito que escreve? Mate a sua curiosidade lendo esse conto. Feliz Ano Novo (1975).


 
5. “Livro de ocorrências”. Cada caso que chega numa delegacia é um conto ou novela impressionantes. Eles tem vários contos nesse estilo, comece por esse, num livro cheio de outras obras-primas. O Cobrador (1979).


 
6. “Olhar”. Decidi que gosto de comer o que tem olho e pode me ver. Nossa! Nem sei. Mas você nunca mais vai comer do mesmo jeito depois de ler isso. Romance Negro e Outras Histórias (1992).


 
7. “Idiotas que falam outra língua”. Estrutura de peça de teatro. Acho muito engraçado. Vi-o, uma vez, adaptado para o cinema, num curta que assisti no festival Mix Brasil. Não está com este título. A leitura é uma delícia pra quem gosta mais de diálogos. O Buraco na Parede (1995).


 
8. “Ganhar o jogo”. Ah, os psicopatas de Rubem Fonseca… sempre tão criativos! Pequenas Criaturas (2002).


 
9. “Sapatos”. Dá um filme. Tão Brasil, tão nossa realidade social. Impressionante. Axilas e Outras Histórias Indecorosas (2011).


 
10. “Sopa de pedra”. Coloquei no sumário, ao lado do título deste conto, quase (ou por que não?) poema, “maravilhoso”. Acredito que não convença muita gente com essa impressão. Vão concordar os que pegarem as referências. Amálgama (2013).


 
11. “Mildred”. Ei, muito orgulhoso dessa guinada do Rubem Fonseca abordando o tema da homofobia. Muito bom e muito importante esse conto. Calibre 22 (2017).

Devo ter extrapolado o espaço devido. Mas é isso.
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* O leitor de Rubem Fonseca não suporta quem confunde seu nome e o chama de Rubens. Começa daí. Porque soa logo a leitor desatento ou pseudoleitor ou gente que quer passar por entendido de literatura ou leitor desse autor tão reverenciado. Quem leu de verdade Rubem Fonseca, e não um conto ou outro perdido, por obrigação escolar ou sabe-se lá, jamais esquecerá seu nome. Jamais o chamará de Rubens.

Sou admirador e divulgador de sua obra por onde quer que eu passe há 24 anos. Mais da metade de minha vida e a totalidade de minha vida adulta. Não existe pessoa que me conheça que não saiba de minha fascinação por Rubem Fonseca. Tenho tanto para falar sobre ele, mas o espaço, o tempo e a qualidade da minha escrita impendem-me. Espaço porque não adianta um texto longo que ninguém irá ler, tempo porque depois de amanhã já aconteceu muita coisa e não fará mais sentido esse assunto e quanto a qualidade da escrita é essa sofrível que se vê!

No entanto, aqui no Cariri poderá haver melhores e mais adequados comentadores da obra de Rubem Fonseca e até mesmo fãs mais apaixonados, mais certamente sou aquele leitor notório de sua obra. Nessa quarentena venho gravando a leitura de seus contos e publicando em meu canal no YouTube (clique aqui para conferir!). Mas sempre li em voz alta os seus contos para os meus amigos. Dei seus livros de presente. Há 24 anos quem me conhece também sabe quem é Rubem Fonseca. Por isso, agradeço este reconhecimento dos amigos dO Berro que me deram esse espaço de registro do meu amor.

Aqui eu faço a minha listinha de preciosidades.
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Elvis Pinheiro é mediador de cinema, vocalizador de literatura de ficção, professor formado em Letras pela URCA, editor da revista Sétima, membro fundador do grupo Sétima e se disfarça de Cais do Porto para publicar seus poemas.

Confira outras listas postadas recentemente no blog O Berro:
9 (+1) filmes para assistir na Netflix, por Wendell Borges
10 (+1) livros de escritoras que me tocaram, por Dia Nobre
 
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segunda-feira, 20 de abril de 2020

10 (+1) livros de escritoras que me tocaram, por Dia Nobre



por Dia Nobre

Listas são sempre objetos incompletos

Eu amo fazer listas. Ainda criança, costumava listar tudo o que eu gostava. Tinha um caderno para os meus filmes preferidos, minhas músicas, livros, coisas que eu queria fazer, projetos de futuro, etc. Mas, listas são sempre objetos incompletos. Parece que sempre falta algo. Invariavelmente, somos levados a escolhas bem difíceis. Sobre quem deixar de fora, quem sacrificar.

Eu cresci com a literatura. Desde muito pequena, fui estimulada a ler e tive contato com bibliotecas e livros de todos os tipos, mas confesso que li poucas mulheres entre a infância e a adolescência. Mais recentemente, investi em um projeto de só ler mulheres durante um ano (2019) e disso resultou uma incrível viagem dentro de mim mesma.

A lista abaixo traz dez +1 livros (sim, eu vou subverter o pedido que me fizeram!), que me tocaram de alguma forma: pela escrita maravilhosa, pela sensibilidade, pela identificação pessoal ou porque é algo que eu gostaria de ter escrito. É também a lista de um momento muito específico da minha vida, este em que me aventuro como escritora, ela pode mudar como já mudou tantas e tantas vezes.

Como leitora e escritora, deixo um apelo: precisamos conhecer a literatura feminina. Precisamos ouvir o que as mulheres têm a dizer. Esta lista, dedico às minhas irmãs, bruxas, subversivas, resilientes, resistentes mulheres que se sentem impelidas a escrever e precisam ser lidas.


 
1. A teus pés, Ana Cristina César (poesia, 1982)
Foi o primeiro livro de poesias que li ou assim a memória me faz crer. É, de longe, o livro mais usado da minha estante, aquele com mais marcas de uso, grifos, escritos. Ana é minha inspiração eterna.



2. A casa dos espíritos, Isabel Allende (1982)
Este me marcou muito. Primeiro, porque as protagonistas são mulheres muito fortes; depois, porque ele traz toda uma aura de crendice, mistério e política que só uma boa romancista poderia criar.



3. Orlando, Virgínia Woolf (1928)
Eu costumo dizer que se eu pudesse escolher voltar ao passado para conhecer alguém, essa pessoa seria Virgínia. É uma das escritoras que mais me obsessiona. Capaz de escrever poesia, prosa, crônicas, textos feministas, é uma escritora completa. Alguém para gente visitar num sábado à tarde e passar horas conversando, fumando e tomando chá com biscoitos.



4. A redoma de vidro, Sylvia Plath (1963)
Este livro, no momento em que foi lido, me fez perceber como a vida, às vezes, pode ser tão efêmera. Não é um livro para ser descrito. Você precisa ler para sentir.



5. A amiga genial, Elena Ferrante (2011 - aqui também temos uma pequena subversão, pois se trata de uma quadrilogia)
Elena Ferrante é o pseudônimo de uma mulher que não quer ser vista. Para mim, esta mulher que não se deixa ver é a representação do desejo maior de quem escreve: ela quer ser lida porque seus textos podem mover as pessoas e não, por quem ela é na “vida real”. A obra de Ferrante traz mulheres fortes, lutadoras, resilientes, que pensam o tempo todo sobre si mesmas e suas relações com outras mulheres.



6. Quarto de despejo, Carolina Maria de Jesus (1960)
Esse, eu posso dizer com convicção, é o livro mais dolorido que já li. Carolina era uma mulher negra, favelada que criou seus filhos com a venda de papel e que escrevia para alimentar a alma, ainda que sua barriga estivesse vazia. Carolina era a resistência em pessoa e sua obra, leitura super atual e obrigatória.



7. O olho mais azul, Toni Morrison (1970)
Toni intersecciona na sua narrativa questões muito caras às mulheres negras (e às mulheres brancas antirracistas): o racismo, a misoginia, os padrões de beleza excludentes. É um livro que a gente lê numa tarde, mas cuja digestão é longa e difícil.



8. Nada, Carmem Laforet (1945)
Este, sem dúvida, é um livro que eu gostaria de ter escrito. De uma sensibilidade, fôlego e primorosidade que me deixam sem palavras.



9. O coração é um caçador solitário, Carson McCullers (1940)
Esse foi um livro que me intrigou. Não é tanto a obra em si, mas uma personagem, especificamente, uma criança, que fez com que eu parasse e olhasse para dentro de mim mesma. E claro, esse é um mérito da escritora.



10. Redemoinho em dia quente, Jarid Arraes (2019)
Conhecer a obra de Jarid foi uma grata surpresa que 2019 me proporcionou. A ela, só tenho a agradecer por este lindo livro. Por dar a conhecer nossa cultura caririense, nossos lugares e nosso falar. Gratidão por me fazer lembrar que em Juazeiro não senti só tristeza e luto; também vivi coisas boas, também cultivei amor por alguns lugares, pessoas e momentos que estavam guardados na memória e que retornaram quando eu li os seus contos.



Bônus: Devoção, Patti Smith (2018)
Para Patti Smith, a escritora busca um vazio para encher de palavras. Neste livro, ela nos conta de seu processo criativo, da necessidade de solidão, da busca pela inspiração e o que move a sua escrita. A escritora se interroga sobre a necessidade de escrever e provoca o leitor com a possibilidade de a escrita ser um ato de amor, mas também de egoísmo. Penso, como Patti que nós escrevemos para poder nos livrar do peso da existência: “Porque não podemos simplesmente viver”.
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Dia Nobre - Nascida em Juazeiro do Norte, cariri cearense. É historiadora, escritora e poeta. Possui dois livros publicados na área da pesquisa histórica, inclusive o premiado Incêndios da Alma, publicado em 2016 pela Editora Multifoco. Atualmente vive em Petrolina (PE), onde trabalha como professora universitária desenvolvendo projetos ligados à literatura, história e feminismo. Prepara para 2020 o lançamento de seu primeiro livro de poesias intitulado Todos os meus humores.

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