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quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Curta-metragem sobre a Procissão das Candeias será lançado em Juazeiro



Curta-metragem sobre a Procissão de Nossa Senhora das Candeias será lançado em Juazeiro do Norte

Na quarta-feira, dia 1º de fevereiro de 2017, será lançado em Juazeiro do Norte o curta-metragem Candeias. Filmado durante a Romaria de Nossa Senhora das Candeias, em fevereiro de 2016, o curta apresenta um olhar voltado para uma das mais belas expressões da religiosidade popular do Cariri, a “Procissão das Velas”, que ocorre em Juazeiro desde o início do século XX, sempre no dia 02 de fevereiro.

Com direção de Reginaldo Farias e Ythallo Rodrigues, Candeias é uma produção de O Berro Filmes, e foi realizado com recursos do Fundo Estadual de Cultura, aprovado no XI Edital de Cinema e Vídeo (de 2014) da Secretaria de Cultura do Estado Ceará.

O lançamento acontecerá no Teatro Sesc Patativa do Assaré, em Juazeiro do Norte, no dia 1º de fevereiro, às 19h, com entrada gratuita. Após a exibição, haverá debate sobre a produção do filme com os realizadores e colaboradores.

Serviço:
Lançamento do curta-metragem Candeias
Quarta-feira, 1º de fevereiro de 2017, 19h
No Teatro Sesc Patativa do Assaré - Sesc Juazeiro
Rua da Matriz, 227, Centro, Juazeiro do Norte-CE
Entrada gratuita.

Sinopse
Candeias é torrente de luz, um imenso rio iluminado de fé, por sertanejos simples, a desaguar num mar de promessas realizadas e anseios pelo porvir. É o instante em que se entoa forte cada bendito e oração. É estar em Juazeiro do Norte, terra santa inventada por Padre Cícero, e na qual, no caminho de idas e vindas, nunca ninguém se perdeu.





Uma produção O Berro Filmes
Equipe:
Direção: Reginaldo Farias e Ythallo Rodrigues
Argumento e roteiro: Luís André Araújo, Reginaldo Farias e Ythallo Rodrigues
Diretor assistente: Luís André Araújo
Produção: Hudson Jorge
Direção de fotografia e câmera: Victor de Melo
Som direto: Pedro Diógenes
Montagem e edição de som: Ythallo Rodrigues
Mixagem e finalização de som: Lucas Coelho de Carvalho
Assistência de produção: Ravena Monte e Xico Fredson
Assistência de câmera: Antônio José Bezerra (Pajé)
Estagiário de produção: Rodolfo Santana
Vozes no primero bendito: José Arnóbio e Maria Zélia
Tradução para inglês e francês: Isabel de Sousa Ribeiro
Tradução para espanhol: Tarcísio Chagas


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Teaser do Candeias:

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Cordel ‘A pranteada morte do reverendíssimo Padre Cícero...’



Embalado pra viagem # 129

Cordel A pranteada morte do reverendíssimo Padre Cícero Romão Batista
Autor: José Bernardo da Silva
Composição dos versos: setembro de 1953
Reeditado pela Coleção Centenário - Cordéis Clássicos
Xilogravura da capa da reedição (Editora IMEPH, 2012): Stênio Diniz
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Muito triste e pesaroso
Chamo o leitor atenção
Para tratar num assunto
De grande lamentação
Que fez todo pessoal
Pela ausência fatal
Do padre Cícero Romão.

Há dias que meu padrinho
Estava muito doente
Principalmente dos olhos
Que sofria horrivelmente
Assim eu ouvi dizer
Que ele cegou pra não ver
O uso do tempo presente.

Devido ele está assim
Dona Mocinha dizia:
— Padre Cícero sem demora
Temos que ir a Bahia
Passar uns meses por lá
Melhorando voltará
Na paz da Virgem Maria.

Meu padrinho disse: — Joana
Para a Bahia eu não vou
Com pena de seus romeiros
Deu um aí e suspirou
O senhor bispo do Crato
Estava aí disse de fato
Esse conselho eu não dou.

Muitos senhores de bem
Estavam na ocasião
Disseram: — Por nós não faz-se
No padre a operação
Este corpo predileto
Está sofrendo por certo
A bem de toda nação.

O padre Vicente Sota
Um seu legítimo amigo
Disse: — O senhor só vai
Se não ouvir o que digo
Aqui se operará
Sem ser preciso ir lá
Pra evitar o perigo.

Correu o vocal na rua
Homem mulher e rapaz
Diziam: — Ele não vai
Resolveram não ir mais
Mas a surpresa inda alerta
De vez em quando penetra
Com gestos descomunais.

Passando assim muitos dias
Dona Mocinha tratou
De arranjar um dinheiro
E vinte contos guardou
Mandou um capitalista
Atrás de um oculista
Que sem demora chegou.

Seguiu um homem a Bahia
De lá foi a Pernambuco
Onde encontrou sem demora
Um oculista de suco
Que deu bons exames lá
Mas aqui no Ceará
Nos deixou doido e maluco.

Antes do homem partir
Meu padrinho tinha ordenado
Dá o dinheiro de esmola
A quem for necessitado
Mas a dona não queria
Deu a quem não merecia
Conforme foi seu agrado.

Antes do doutor chegar
Meu padrinho no sermão
Disse a todos os romeiros:
— Cuidai-vos na oração
Peçam a Virgem que eu veja
Pra ver se assim não seja
Preciso de operação.

sábado, 1 de março de 2014

'Milagre do Padre Cícero e Maria de Araújo', cordel de Severino do Horto



Embalado pra viagem # 100

Neste 1º de março de 2014: 125 anos pra primeira transformação da hóstia em sangue na boca da Beata Maria de Araújo. Era uma sexta-feira da quaresma, dia 1º de março de 1889, e a hóstia consagrada ofertada pelo Padre Cícero se transformou em sangue pela primeira vez e alavancou as primeiras romarias em direção a Juazeiro do Norte (à época Joaseiro, um pequeno vilarejo). Há registros de que o fenômeno voltou a acontecer por mais de cem vezes.

Para a rememorar a ocasião, compartilhamos os versos do folheto de cordel Milagre do Padre Cícero e Maria de Araújo, de autoria de Severino José da Silva (Severino do Horto), publicado originalmente em 1991 e reeditado pela Coleção Centenário (Cordéis Clássicos), em 2012.
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Cordel Milagre do Padre Cícero e Maria de Araújo
Autor: Severino José da Silva (Severino do Horto)
Ano: 1991
Xilogravura da capa da reedição (Editora IMEPH, 2012): José Lourenço


Botei a pena na mão
Com o coração nervoso
Para descrever em versos
Um assunto melindroso
Desta verdade eu não fujo
Sobre Maria de Araújo
E o sangue misterioso.

No ano de oitenta e nove
Padrinho Cícero Romão
Celebrava na Matriz
No altar do Coração
De Jesus que não tem falha
O sangue banhou a toalha
Caindo pingos no chão.

Padrinho Cícero Romão
Cheio de amor e bondade
Deste ato de importância
Ninguém negue esta verdade
Deus fez o que fez na Cruz
Pois com seu sangue Jesus
Reina toda Eternidade.

Mas Satanás invejoso
No plano de perturbar
Disse: — Bispo, humilhe o padre,
Mande ele se calar
Faça que Cícero Romão
Negue a manifestação
E à igreja renunciar.

Padrinho Cícero Romão
Foi um padre honrado e forte
Disse: — A verdade eu não nego
Antes eu prefiro a morte
Sou um padre nordestino
Não nego o sangue Divino
No Juazeiro do Norte.

Padre Monsenhor Monteiro
Disse: — A verdade eu não nego
Quero cegar se eu negar
Pois esta cruz eu carrego
Mas o padre fracassou
Perante o Bispo negou
Terminou morrendo cego.

Seis de março data linda
Cem anos já foi embora
Na igreja de Nossa Senhora
Mas comemoramos inda
Que a verdade não se finda
Faço de conta que vi
Maria de Araújo ali
De Jesus sangue derramando
E a beata comungando
Heroína do Brasil.

Padrinho Cícero Romão
Sacerdote triunfante
Era mesmo o celebrante
Na fé e na oração
E hóstia branca na mão
Debaixo do céu de anil
Jesus disse mesmo aqui
O meu sangue derramando
E a beata comungando
Heroína do Brasil.

Assim a história diz:
Gente de toda camada
Viu a hóstia consagrada
Virar sangue na matriz
A beata bem feliz
Confia em Deus e em si
Nas terras do Cariri
Jesus sangue derramando
E a beata comungando
Heroína do Brasil.

Maria de Araújo
Foi santa desde menina
Tornou-se uma Heroína
Na fé e na oração
O padre Cícero Romão
Sempre se encontrava ali
Para bem lhe garantir
Os médicos lhe examinando
E a beata comungando
Heroína do Brasil.

A ciência não se rende
É duro o homem moderno
Segredo do pai Eterno
Ele morre e não entende
Jesus Cristo me atende
Quem visitou o Cariri
Viu grande milagre aqui
Jesus sangue derramando
E a Beata comungando
Heroína do Brasil.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Eis os novos centenários: Guerra de 1914 e morte da Beata Maria de Araújo



O Berro, em comemoração aos fatos históricos e centenários de nossa região, faz uma importante viagem ao passado para contar um pouco da Revolta de 1914 (conhecida como Sedição de Juazeiro) e, num segundo momento, discorrerá sobre o falecimento da Beata Maria de Araújo. Dois fatos que estão prestes a completar 100 anos e que têm relevância histórica para o Cariri e o Ceará.

A história da Sedição é rica, com muitos fatos ainda por serem descobertos, debatidos e (re)interpretados. Vale sempre lançar luz à memória dos que fizeram parte dela, além de poder destacar "filhos e netos da batalha" ainda vivos, já que aquele conflito não foi feito apenas por Generais e Políticos, mas, sobretudo, por nordestinos de fé, vindos de vários cantos do Nordeste, que escolheram Juazeiro do Norte (à época "Joaseiro") em defesa do padre Cícero. Esperamos que nessa viagem possamos conhecer pessoas como Francinilton — bisneto do beato Roque Pinto de Miranda, que era amigo do Padre Cícero e fundador da Irmandade do Santíssimo Sacramento — que luta para que histórias como a do seu bisavô permaneçam vivas na memória de Juazeiro.

No último dia 9 de dezembro completaram 100 anos da invasão de Floro Bartolomeu (juntamente com jagunços e um capitão da seção da Guarda Municipal) ao destacamento policial de Juazeiro, recolhendo rifles e trancafiando soldados atrás das grades. Com aquela investida podia-se dizer que a "revolução" era um caminho sem volta, o que fez com que rabelistas residentes no município partissem em debandada. Mostrava-se, portanto, que o então presidente do Ceará, Franco Rabelo, passava a ter seu poder cada vez mais ameaçado pelo seu antecessor, Nogueira Accioly, e pelo aliados do Padre Cícero.

Realmente muitos acontecimentos estariam por vir: menos de uma semana após a tomada de armas por Floro e seus jagunços, no dia 15 de novembro de 1913, a população de Juazeiro começou a construir um enorme valado, que ficou conhecido como o "Círculo da Mãe de Deus". Milhares de homens, mulheres e até crianças, lançando mão de ferramentas rudimentares (incluindo colheres e garfos), entrincheiraram o Juazeiro, preparando-se para a iminente invasão de tropas rabelistas, que se deslocariam de Fortaleza e outras localidades cearenses, objetivando derrotar o exército arregimentado por Floro Bartolomeu.

O "Círculo da Mãe de Deus", fruto dos trabalho dos devotos e amigos fiéis ao Padre Cícero, foi determinante para o desenrolar dos capítulos que aconteceriam naquela virada de 1913 para 1914. E detalhes de tais episódios acompanharemos no blog d'O Berro nos próximos dias e semanas.

Faz-se necessário frisar que rememorar tais fatos, trazendo à tona muitos dos personagens e episódios daquele conflito,significa, acima de tudo, conhecer um pouco mais da nossa história, saber como se formou a Região do Cariri que conhecemos hoje, sócio, político e economicamente. Entender como a virada do século XIX para o século XX, com a atuação do Padre Cícero, que exercia, inegavelmente, o papel de líder político e religioso naquele contexto.

Nosso interesse vai muito além (ou não nem chega a se valer) de questões que tentaram historicamente resumir aqueles conflitos a uma rixa entre Crato e Juazeiro, por exemplo. Até porque, como veremos nas próximas postagens sobre o assunto, as disputas políticas faziam com que houvessem defensores de um lado ou de outro do conflito em diversas localidades. Não podemos, portanto, esquecer da diversidade política e cultural de cada localidade, nem engessar em categorias estanques e estereótipos que muitas vezes tacharam "essa ou aquela cidade" como símbolo de determinadas características. É preciso entender a conjuntura política e a cultura diversa daquelas comunidades naquele contexto histórico.

Portanto, muito mais importante do que reduzir o conflito a uma disputa entre povos de diferentes localidades, faz-se necessário lançarmos luz ao desenrolar político, social e econômico daquelas disputas, verificando o que isso significou para o desenvolvimento do Cariri no século XX. É buscar entender como tudo aquilo teve que ser superado em algum momento, para que muitos coadunassem com a ideia de colaboração mútua entre as cidades vizinhas, que hoje formam a Região Metropolitana do Cariri, fruto da conurbação entre Juazeiro do Norte, Crato e Barbalha (e a soma de outros municípios circunvizinhos).

Já a personagem Maria de Araújo (que mencionamos no início da postagem), a Beata que protagonizou, ao lado do Padre Cícero, os famosos milagres da hóstia transformada em sangue em Juazeiro, impulsionando as primeiras romarias para o município, merece o devido reconhecimento pela sua importância na história da cidade. É preciso recontar a história de uma Beata que, na condição de mulher negra, pobre, analfabeta, acabou sendo perseguida e condenada ao isolamento, como que tivesse de pagar os pecados por um suposto embuste, por uma suposta farsa contra as regras da Igreja do Vaticano.

Independente do que significava aquele sangue da Beata Maria de Araújo durante as comunhões, tais eventos serviram para alimentar a crença de diversos nordestinos que elegeram Juazeiro como a capital da fé, como o espaço sagrado da sua religiosidade. Isso foi determinante (juntamente com a liderança política e religiosa exercida pelo Padre Cícero) para que Juazeiro se tornasse uma das grandes cidades do Nordeste brasileiro, um destino certo para milhões de romeiros anualmente. Que a Beata Maria de Araújo tenha o reconhecimento por seu importante (e decisivo) papel nessa história, mesmo que apenas agora, quando já se completam 100 anos da sua morte (a Beata faleceu no dia 17 de janeiro de 1914). Clique aqui e confira poema e ilustração sobre a Beata Maria de Araújo.
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Equipe O Berro

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terça-feira, 4 de outubro de 2011

Centenário da posse de Padre Cícero como prefeito de Juazeiro

Continuam as comemorações pelo ano do Centenário de Juazeiro do Norte. E hoje O Berro lembra que há exatos 100 anos (no dia 4 de outubro de 1911), o Padre Cícero Romão Batista tomava posse como primeiro prefeito de Juazeiro.

Reproduzimos citações de livros que relatam aquela data histórica nas terras juazeirenses. Inicialmente, um trecho do artigo "Independência de Juazeiro", do Prof. Boaventura de Souza, que integra o livro Juazeiro do Padre Cícero, organizado por Raimundo Araújo:

"22 de julho de 1911. Assinada a Lei nº 1.028, criando o município de Juazeiro. A lei é composta de 5 artigos. Assinam: Belizário Cícero Alexandrino (Presidente), Lourenço Alves Feitosa de Castor (1º secretário) e Oscar Feital (2º secretário).

4 de outubro de 1911. Em meio a grande festa popular, Padre Cícero é empossado no cargo de primeiro Prefeito do recém-criado município de Juazeiro. A sessão solene de posse, à qual compareceram 17 prefeitos, realizou-se na casa de Dona Rosinha Esmeraldo, localizada no cruzamento da Av. Dr. Floro com a Rua Padre Cícero.

Juazeiro conquistou sua Emancipação Política graças à determinação do seu povo, liderado pelo Pe. Alencar Peixoto, Dr. Floro Bartolomeu, Prof. José Marrocos, que movidos pelos anseios da população como autênticos líderes, se dedicaram ao grande projeto popular." (o artigo completo do Prof. Boaventura de Souza pode ser lido na nossa postagem "Capítulos da independência de Juazeiro e a realidade décadas depois", clicando aqui).
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O outro relato (sobre a posse do primeiro prefeito de Juazeiro) está no livro Padre Cícero: poder, fé e guerra no sertão, de Lira Neto:

"O receio era de que a reunião acabasse em tiro. Nunca se viram — nem jamais se voltaria a ver — tantos coronéis sertanejos assim reunidos em um mesmo lugar, como naquele 4 de outubro de 1911, em Juazeiro, o dia da posse de Cícero na prefeitura. Lá fora, as ruas estavam enfeitadas de bandeirinhas de papel e a banda do mestre Pelúsio de Macedo fazia a festa. No interior da casa que sediou a solenidade oficial, os dezesseis homens vestidos em roupa de domingo foram recebidos com chuvas de flores e papel picado. Mas não escondiam de ninguém que ruminavam uma coleção de rancores mútuos.

(...) O padre, além de anfitrião, era o único capaz de presidir uma sessão como aquela. Ante qualquer desentendimento entre as partes, poderia brotar a faísca de uma conflagração armada.

Praticamente todos os chefes políticos do Cariri — incluindo o coronel cratense Antônio Luiz — haviam acatado o chamado do sacerdote para tão insólito conclave, que marcaria seu primeiro dia como prefeito. Estavam representadas por seus respectivos caudilhos dezesseis localidades que, quando vistas no mapa, desenhavam um extenso círculo de terra em torno do Juazeiro: Araripe, Assaré, Aurora, Barbalha, Brejo Santo, Campos Sales, Crato, Jardim, Lavras, Milagres, Missão Velha, Porteiras, Quixará (mais tarde Farias Brito), Santana do Cariri, São Padro (depois Caririaçu) e Várzea Alegre. Cada um dos senhores rurais ali presentes carregava nas costas um punhado de crimes desfechados em plena luz do dia, a seu mando ou debaixo de sua complacência. Aos meeiros e agregados, ofereciam a proteção patriarcal, em troca da obediência e da prestação de serviços em seus latifúndios. Aos opositores, reservavam apenas a fúria do rifle, o argumento do cacete, a sanha da peixeira. No infindável repertório de crueldades, não faltava a recorrência de tocaias, assassinatos, estupros, mutilações, castrações e degolas sumárias.

(...) Cícero queria chamar todos à razão Ou paravam de se trucidar ou não sobraria mais nenhum deles para contar história. O padre, é claro, tinha consciência de que não seria com pai-nossos e ave-marias que se decidiria questão tão espinhosa. Mas também não era caso de bater na mesa com o cabo do cajado. Estavam sentadas ali, diante dele, pessoas de espírito sanguíneo como o coronel Pedro Silvino de Alencar, que em 1909, depois de duas horas de acirrado tiroteio, batera no peito em sinal de vitória, após expulsar do município de Araripe o chefe político do lugar.

(...) Um por todos, todos por um. O lema, tomado emprestado aos três mosqueteiros imortalizados pelo escritor francês Alexandre Dumas, resumia o teor do documento [redigido pelo Padre Cícero e apresentado aos líderes na reunião] que passaria à história como o "Pacto dos Coronéis".

(...) Para Cícero, havia um significado particular naquele acordo: erguera-se um providencial campo de força a favor do Juazeiro, que dali por diante ficaria rodeado, de norte a sul, de leste a oeste, da farta proteção armada garantida pelos coronéis aliados. Em caso de uma possível ofensiva como a desfechada contra Canudos, os invasores teriam de vencer primeiro a jagunçada, antes de chegar aos calcanhares do padre. O Juazeiro, epicentro da fé, tornara-se também ponto de convergência entre as aristocracias rurais do Ceará.

Quando Cícero levantou da mesa ao final daquela histórica reunião e passou a colher a assinatura de todos, os coronéis do Cariri já tinham tomado consciência de que, diante da nova situação, precisavam eleger um chefe imediato entre eles. Esse chefe não seria, necessariamente, Accioly [presidente do Ceará na época]. Carecia ser alguém que estivesse mais perto deles e que, a despeito das diferenças e dos ódios pessoais que os separavam, fosse um homem cuja palavra seria acatada sem ressalvas. Os coronéis precisavam de um líder político no Cariri. Naquela tarde, esse líder se revelara naturalmente — e já tinha nome.

O nome dele, ninguém se atreveria a discordar, era Cícero.
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Floro [Bartolomeu] havia caprichado nos detalhes. O banquete e o baile que se seguiram à cerimônia de posse ficariam guardados na memória dos moradores como a maior de todas as festas da história do Juazeiro. A mesma casa que horas antes abrigou a reunião dos coronéis encheu-se de gente para comer e dançar em homenagem ao prefeito e padre Cícero Romão Batista."