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quarta-feira, 18 de junho de 2014

Entrevista: Elvis Pinheiro fala sobre a exibição alternativa de filmes no Cariri



por Ythallo Rodrigues e Luís André Bezerra
fotos: Verônica Leite e Ravena Monte

Quando se pensa em cinema, atualmente é comum ter a imagem das salas dos Shopping Centers. No Cariri, entretanto, não se pode ignorar o trabalho alternativo de projeção de filmes realizado por Elvis Pinheiro. Desde 2003 ele organiza sessões (sempre gratuitas e seguidas de debates relacionados aos filmes) em algumas cidades da região, com a média de cinco filmes exibidos por semana.

Elvis costuma ter "folga" (de exibição dos filmes) apenas nas terças e domingos, comumente seguindo esta programação semanal: na segunda tem o Cinemarana do SESC Crato; na quarta é a vez do Cinematógrapho do SESC Juazeiro; na quinta tem o Cine Arte Leão (no Campus Saúde da Faculdade Leão Sampaio); sábado com o Cine Café do CCBNB Cariri; e esse último projeto agora também virou Cine Café Volante, alternando as sextas-feiras nas cidades de Nova Olinda e Brejo Santo. E não podemos esquecer, obviamente, da Mostra 21, grande evento realizado anualmente.

Elvis Pinheiro é irmão do poeta, cantor e compositor Ermano Morais, e mostrando que também segue essa polivalência, suas atividades ainda incluem organizar o Lume - Ciclo de Leituras, que se reúne às terças no SESC Crato, além da coordenação da Revista e Grupo de Estudos Sétima de Cinema (com reuniões nas tardes de quarta-feira, no SESC Juazeiro) e conseguir tempo para trabalhar como professor.

Mas, diante de tantas tarefas, era imprescindível fazer um recorte temático. E logo abaixo você confere uma entrevista com Elvis Pinheiro sobre o seu trabalho como exibidor de filmes e demais atividades relacionadas ao cinema. Boa leitura!
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O BERRO - Começando com um clichê, mas que acaba servindo pra situar o leitor no início da conversa: como começou sua relação com o cinema e, mais especificamente, com a ideia de espalhar sessões de filmes (gratuitas) em diversas salas no Cariri?
ELVIS PINHEIRO - Minha relação com o cinema começou muito cedo e foi via televisão. Sempre me fascinaram os seriados e os filmes que passavam em todos os horários na TV. Eu fui um aficionado. As chamadas para assistir os filmes davam dois tons, o do star system e o do cinema de autor, porque aconteciam da seguinte forma: “De Francis Ford Coppola...”, “De Martin Scorcese...”, “Do mestre do suspense, Alfred Hitchcock...” ou se elencava o nome dos grandes astros que fariam parte do filme: “Com Vivien Leigh, Clark Gable e Olivia de Havilland...”, “Sher, Susan Sarandon, Michelle Pfeiffer e Jack Nicholson em...”. Esse tipo de chamada me dizia que um filme seria muito bom se fosse de determinado diretor e/ou possuísse tais atores no elenco. Isso foi formulando a mística. O horário em que os filmes passavam também funcionavam como “salas de cinema”. À tarde passavam filmes do Elvis Presley, do Jerry Lewis e, pela madrugada, clássicos e filmes de outros países que não fossem exatamente os EUA. Cheguei a ver filmes, ainda criança, num cinema de interior: vi filmes de Kung fu, tenho muita lembrança disso: o cheiro do cinema e da sensação de Evento, de estar num templo da Imagem. Assim o meu gosto foi se formando. Mas no final de 1995, quando comecei a frequentar o Cinema Veneza, no centro de Recife, construí a minha relação espacial com salas de cinema propriamente ditas, em especial, as salas que exibiam o chamado circuito de filmes de arte.

Essa pergunta é imensa e cobra um segundo parágrafo, porque logo emenda me perguntando como tive a ideia de me tornar exibidor. Bem, ainda criança, quando já tinha visto um filme e sabia que ele era bom, se ele passasse de novo na televisão, já tentava agendar que minha mãe visse comigo, adiantando que se tratava de um filme muito bacana por isso, isso e isso... Sempre gostei de compartilhar aquilo que eu gostava. O meu prazer se renovava. Teve uma hora em Recife que eu já tinha visto tanta coisa boa, que achava absurdo que mais gente não tivesse acesso àqueles filmes, àquelas obras. Eu queria e quero que mais gente goste, ame e se relacione em profundidade com o Cinema. Quando voltei pro Cariri, em dezembro de 2002, voltei com a intenção de encontrar algum lugar para exibir os filmes que eu gostava. No final de maio de 2003 aconteceu a primeira sessão, quando exibi Pulp Fiction, e de lá pra cá não parei mais de compartilhar filmes na região.

Você está à frente de sessões no Cariri há 11 anos, exibindo e debatendo filmes na região. Analisando esse período, o que mais chama a atenção quando você pensa no público caririense de cinema? É possível traçar um paralelo entre o início do seu trabalho (as dificuldades e a aceitação) e como você hoje observa as mesmas questões, 11 anos depois?
Outra pergunta quilométrica! (risos) Bom, eu imaginava no início que a sessão seria para os amigos que eu já possuía e que faziam Teatro ou frequentavam um grupo de leitura da Biblioteca. Pensava que os artistas iriam divulgar e movimentar as sessões e que todo mundo que gostava de cinema que eu já conhecia iria se aproximar para juntar forças, para que a coisa não parasse. Nem amigos, nem gente do teatro, nem as pessoas mais conhecedoras de cinema se aproximaram de mim ou da sala de projeção do que se chamou na época de Cineclube Paradiso. De cara, na primeira mostra eu reuni novos cinéfilos e pessoas que começaram a frequentar a sala do Cineclube Paradiso, mas essas pessoas não eram os Cult, ou as pessoas “do meio”. Eram estudantes secundaristas, era gente do comércio, era dona de casa, costureira, era gente que ficava sabendo da sessão e que se viciava e não parava mais de ir, mas que nem me conheciam antes das sessões e nem eu costumava ver a maioria delas em nenhum lugar diferente da sala de exibição. Uma amiga fotógrafa e que gosta muito de cinema e que eu pedi na época que registrasse as primeiras sessões nunca tirou uma única foto de nenhuma sessão realizada e só apareceu na sessão de número 204, quando eu já estava exibindo filmes na cidade do Crato, em 2005. Muito cedo, então, eu descobri que público de cinema é um público único, heterogêneo, que não se enquadra em perfis estanques. Até hoje, quando escuto piadas de que frequentar o Cine Café é moda de “Cult bacaninha caririense”, eu fico muito tranquilo de ter uma sessão que coincida com um evento de música alternativa ou uma peça badalada, porque a minha sessão continua cheia, com gente sentada no chão de pessoas que aqueles que acusam o Cine Café de ser um lugar para determinado público, eles não conhecem, nem nunca viram aquelas pessoas. Não digo, claro, que não seja frequentado por pessoas da cena caririense, principalmente os mais jovens, mas eles não são, definitivamente, a maioria.

O que mudou então? Hoje eu sei que construí um nome, que as pessoas relacionam Cinema com Elvis Pinheiro. As instituições acreditam e aprovam o meu trabalho e já existe uma boa quantidade de público que confia nas minhas escolhas. Mas o número de pessoas que nunca pisou nem nunca pisará num espaço que eu organizo é astronômico e os que fazem campanha contra é dez vezes maior.

Explica um pouco a Mostra 21 (que ocorre anualmente e teve a última edição em janeiro deste ano). O que diferencia as exibições da Mostra 21 das outras sessões que você apresenta semanalmente no Cariri?
Basicamente, a quantidade de dinheiro envolvida. É um orçamento maior para um evento onde compramos direitos de filmes. É quando eu tenho maior liberdade para a escolha dos títulos. A publicidade é maior e isso acaba gerando um público muito abrangente. É como se fosse uma grande rede de pesca. Só que com filtro. Depois de uma sessão que juntou 130 pessoas, eu consigo retirar três pessoas que se tornarão frequentadoras assíduas das salas de projeção durante o ano. A cada Mostra 21, que reúne um atendimento de mais de mais de duas mil pessoas, eu fico com 15 novos frequentadores assíduos das sessões semanais. E isso pode parecer pouco, mas é um número muito importante e relevante.

Qual a relação que você pontuaria entre os eixos temáticos de todas as Mostras 21? Pensando ano a ano, desde a primeira, existiria alguma conexão entre essas temáticas, pensando nos filmes exibidos?
Sim, existe, claro. As primeiras mostras alertavam para a delícia de ver filme de arte e de que como era importante ver cinema. Alertava sobre o Olhar que se expandia, que se transformava. Depois, na retomada, comecei a chamar as pessoas para situações comportamentais, para que as pessoas se vissem: buscasse se concentrar, descobrissem que a convivência é algo difícil. E nesta última que respiramos Política e que não podemos fugir disso.

Sobre cineclubismo: qual a relação que você estabelece entre as sessões que você realiza na salas do Cariri e o movimento cineclubista do Brasil?
Só haverá cineclubismo se houver amantes do cinema. O meu trabalho é o de uma Cinemateca e não de um Cineclube. Depois de mais dez anos exibindo filmes, montando grupo de estudos, criando revista e a cidade possuindo novamente salas de cinema comercial, agora sim, estamos cada vez mais próximos de uma explosão de cineclubes. Eu sei que formei cinéfilos aqui no Cariri e que muitos deles, a maioria, não precisa mais de mim pra nada. Então essas pessoas devem se reunir e montar pequenos clubes para projetar os filmes que lhes interessem e discutir e pensar sobre eles.

Sobre o cinema "mais comercial", que voltou a existir no Cariri nos últimos dias, depois de anos: qual o comparativo entre os filmes que você exibe e os filmes que são exibidos nos cinemas "de shopping"? Haveria alguma relação entre os dois modos de exibição?
O cinema por estar num shopping vai considerar o filme que exibe um produto com etiqueta e prazo de validade. A pessoa entra no cinema como se entrasse na praça de alimentação e consome o filme com a mesma desimportância com que come um sanduíche, toma um sorvete, bebe um refrigerante e exige a mesma qualidade de satisfação que exige de lojas de roupa ou de comida. O problema, portanto, não é o tipo de filme exibido, mas a relação que o público necessariamente consumidor trava com a sala de exibição. Aquela sala é proibida de passar filmes que desagradem ao gosto das famílias, das crianças, dos adolescentes, dos casais de namorados heterossexuais, dos idosos. Ela não vai desagradar a clientela. O filme ruim será sempre o filme tido como “lento”, “difícil”, “chato”, “polêmico”, “sujo”. É maravilhoso que exista esse cinema porque as cadeiras são muito confortáveis, o som e a imagem são excelentes e porque existem filmes muito bons que merecem todo esse aparato para serem vistos. As salas que eu estou à frente não podem competir. Vou continuar mandando as pessoas desligarem o celular, vou servir de bedel, pedindo silêncio e vou continuar exibindo filmes independente que a maioria aprove ou não aquele filme. Precisamos de salas de cinema para que todas as imagens estejam disponíveis para o público. Eu adoro que a sala do shopping esteja funcionando porque aqueles filmes estavam sem espaço de exibição e considerava isso uma injustiça.

Para encerrar, fala um pouco sobre a Revista e o Grupo de Estudos (ambos chamados de Sétima), que você criou e coordena. Certamente são projetos que fazem parte de uma ideia mais ampla que você tem sobre a cultura cinematográfica. Explica a importância de tais trabalhos e de onde vem o impulso para tocar cada projeto desse.
Eu acredito que não podemos, mesmo, pôr o carro na frente dos bois. Primeiro eu precisava de tempo para perceber que já existia muita gente a fim de ver filmes diferentes, gostando cada vez mais intensamente de cinema para ousar pensar em criar um grupo de estudos. Em 16 de maio de 2012 este grupo podia ser criado. Em 11 de setembro de 2013 podíamos começar a publicar uma revista. Não tenho pressa. Acho que começamos lendo O Que é Cinema, da coleção Primeiros Passos e teve gente que frequentava o grupo naquele momento e sugeria que começássemos por Gilles Deleuze, A Imagem-Tempo. Nunca concordei em assustar as pessoas, tentando jogar na cara delas o que elas não conhecem. Eu não conheço nada, eu não li nada ainda. Vamos começar juntos, ler juntos do início, levantar juntos as primeiras e essenciais questões. A Revista Sétima tem crítica impressionista, tem texto que é apenas a descrição do enredo do filme, tem opinião pura e simples. E este exercício é importantíssimo, antes de exercitarmos uma crítica mais fundamentada em bases teóricas X ou Y. O que eu acredito é que estudar cinema, gostar de cinema e escrever sobre cinema está ao alcance de todos os mortais. Isso não é tarefa de poucos e especiais indivíduos: está aberto para pessoas que estejam ou não na universidade, homens, mulheres, adolescentes, não importa a raça, a orientação sexual, a condição socioeconômica. O Grupo de Estudos e a Revista são dois pontos altos do meu trabalho, mas eles são construções coletivas e que estão sempre se transformando naquilo que as pessoas envolvidas, cada uma dentro do seu tempo, de acordo com a sua dedicação particular está conseguindo fazer.
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Para conferir semanalmente a programação dos filmes exibidos por Elvis Pinheiro no Cariri, acesse o Guia Cultural O Berro deste blog. E para ler os textos da Sétima - Revista de Cinema, curta a fan page no Facebook, clicando aqui.

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quarta-feira, 31 de outubro de 2012

20 anos da banda Glory Fate: entrevista com o guitarrista Michel Macedo



por Luís André Bezerra

Neste ano de 2012 a banda Glory Fate, do Cariri cearense, completa 20 anos de estrada. Em 1992 surgiu como StormBringer e tem no currículo três discos lançados (todos já estampando o nome Glory Fate nas capas). Durante a trajetória foram inúmeras formações, e o time atual é composto por Makim (vocal e guitarra), Michel Macedo (guitarra), Eduardo Tavares (baixo) e Kassius Kley (bateria).

Na próxima sesta (feriado de 02-11-2012) a banda participará de mais um show em Juazeiro do Norte (para saber mais sobre o evento, clique aqui) e batemos um papo com Michel Macedo, o único membro da formação original da banda, o "dinossauro" que leva adiante o som da Glory Fate há duas décadas.


O BERRO - Reproduzimos no blog um texto que você havia publicado em 2002 na Revista Geral, contando um pouco da história do rock caririense desde os anos 80 (para ler o texto, clique aqui). E tua vivência pessoal? Como começou a se interessar por rock e resolveu aprender a tocar guitarra?
MICHEL MACEDO - Desde criança em casa eu ouvia Beatles, inclusive meu pai dizia que "tinha pago uns caras pra fazerem uma música pra mim". Aos 10, 11 anos eu já sabia que um primo (a ovelha negra da família) em Fortaleza tinha banda, e meu tio de Natal me apresentou ao Pink Floyd. Aí pronto...  Mas, na verdade, quase toda a minha família é muito musical, e para o lado do rock. Resolvi tocar guitarra quando ouvi Deep Purple. Agradeço ao [Ritchie] Blackmore pela inspiração.

Lembrando ainda a fase da sua adolescência, cita uns discos fundamentais para que o rock te fisgasse na época. E com o passar do tempo, continua achando esses discos tão bons quanto antigamente?
Eu tinha, na oitava série (aos 12 anos), uma fita k7 com RPM — Rádio Pirata Ao Vivo, uma Basf Cromo 60 minutos — e eu ouvia todos os dias. Depois ganhei um LP do Ultraje a Rigor (Sexo), que eu gostava muito das guitarras, aí comecei a gostar de Raul Seixas também, e meu tio Aldo (pai de Artur Menezes [guitarrista e bluesman]) que fazia muito tempo que não o via devido à distância, me deu, aos 13 anos um LP coletânea do Pink Floyd (Works). Esse LP caiu e quebrou, então fiquei puto e resolvi comprar todos do Pink Floyd. Graças a isso o estilo que mais me agradava na época era o rock progressivo, eu passava o ano passando fome no colégio, juntando dinheiro para nas férias viajar para Fortaleza ou Natal e comprar LPs. Clássicos dessa época pra mim eram Moving Waves (Focus), In the Court of the Crimson King (King Crimson), Trilogy (ELP), Fragile (Yes), Machine Head (Deep Purple), Aqualung (Jethro Tull), entre outros. Sim... RPM, Ultraje a Rigor e Raul Seixas nem escuto mais.

E voltando à história do Rock caririense, quais as principais mudanças do período do início da banda Glory Fate (surgida em 1992, com o nome de StormBringer) para os dias atuais? O que melhorou e o que piorou para o rock local?
Rapaz, foram inúmeras mudanças de formação — Adriano (ex-baterista) perdeu a paciência de refazer a história contando mais de 20, pelo menos. Acho que as mudanças em 99% deram uma melhorada na banda, um amadurecimento. Creio que no início a tribo era mais unida, tinha prazer em sair de casa para ouvir música e conversar. As novas gerações são meio "autistas", passam a maior parte da vida sozinhas no Facebook, achando que estão interagindo com o mundo, isso é muito esquisito.

As bandas do Cariri estão aproveitando bem o que há de novidade para a divulgação de trabalhos através da internet? Dá pra perceber uma melhor organização e planejamento de trabalho?
Creio que estão, mas hoje em dia é uma avalanche tão grande de informações que muita coisa boa se perde. Às vezes fica difícil de separar o joio do trigo.

No que a existência de espaços como SESC (Unidades Crato e Juazeiro) e Centro Cultural Banco do Nordeste têm ajudado às bandas e à formação de público na região do Cariri?
É ótimo [ter esses espaços], e ao mesmo tempo é triste perceber que perdemos os espaços públicos. Antigamente tocávamos em todas as festas populares da região, havia espaço e público sempre houve. Mas hoje em dia, não só o rock como a boa música em geral, está meio confinada a espaços fechados, longe do povão. Mas é muito bom tocar em um espaço bonito, com som bom e profissionais preparados.

O fato de as letras da Glory Fate serem cantadas em inglês já fechou algumas portas? Caso a resposta seja positiva, isso chateia de alguma forma ou sempre estiveram preparados pra isso?
Às vezes ainda nos sentimos na época da inquisição por aqui. Dizem que, cantando em inglês, fazemos propaganda do imperialismo americano (sendo que o heavy metal é [originariamente] inglês), dizem que temos que (e parece que só) valorizar as coisas da terra — sendo que dois grandes escritores brasileiros que posso citar, Machado de Assis e Ariano Suassuna, tiveram forte influência de Shakespeare. Enfim, é muita "desnocionalização". Dizem também que o rock é do demônio, e o rock, na verdade, é a única música que já tentou melhorar o mundo. Mas é isso, um povo que não lê termina acreditando em tudo. Nós cantamos em inglês porque heavy metal é pra ser cantado em inglês, assim como bossa nova só fica bom em português. Bandas de heavy metal italianas, francesas, alemãs e até de outros planetas cantam em inglês. Patriotismo é outra coisa completamente diferente.


A Glory Fate teve diversas formações e os intervalos das gravações entre os discos Tears of Freedom (2000), Bad Moon Rising (2006) e Ride on the Roller Coaster (2011) foram sempre na faixa de 5 a 6 anos. O que explica mais as mudanças de sonoridade de um disco pra outro: a contribuição e o estilo de cada novo integrante ou uma ideia de que a banda não deve ter um único estilo?
Na verdade nós estamos chegando ao estilo que queríamos desde o início (falo por mim, mas acho que o restante da banda concorda). Nós começamos tocando punk rock porque não sabíamos tocar bem — eu não gosto de punk rock. No primeiro disco [Tears of Freedom] havia em todo o país uma forte influência do Angra, que era a banda do momento, por isso tantos teclados e tal, mas eu nem gosto tanto de heavy melódico, prefiro o “tradicional anos 80”, que é o nosso estilo atual. Depois que [o guitarrista e vocalista] Markim entrou na banda, juntou a panela e a tampa, a gente se diverte muito. A demora em gravar discos é porque, em primeiro lugar, é uma chatice gravar, bom é tocar ao vivo com o povo enlouquecendo. Junta isso com o fato de também ser caro e o tempo livre que dispomos não é grande, visto que todos temos empregos, fica difícil até ensaiar muitas vezes. Acho que a melhor definição atualmente para o som da Glory Fate é dizer que parece o Running Wild — já compramos até os chapéus de pirata.

O último CD que vocês gravaram, Ride on the Roller Coaster, tem essa sonoridade do metal tradicional, mais “oitentista”. O público mais jovem da banda se interessa por esse som ou ainda se identifica mais com as composições de quando a banda flertava com um estilo mais voltado pro "heavy metal melódico"?
Esse novo CD tem tido boas resenhas, muitos elogios, mas claro que ainda tem gente que diz que prefere o primeiro. O segundo [Bad Moon Rising] eu acho que já estava chegando onde a gente queria (que é o que há nesse novo), só não gostei do som das guitarras, no Ride On The Roller Coaster está bem melhor. Nos shows a empolgação tem sido ótima! Como as músicas têm refrões pegajosos, todo mundo já aprende a cantar na primeira audição e isso é muito bom.

Quais os próximos projetos da Glory Fate? Depois de 20 anos de "teimosia" em espaços alternativos ainda há muito o que sonhar ou a motivação é apenas ter a certeza de estar fazendo o que gosta?
Tocar, se divertir, gravar, viajar, fazer novas amizades, fazer raiva a quem merece também e depois tudo isso de novo. Eu sempre costumo dizer para bandas que estão começando para não se levarem tão a sério, até porque o mercado brasileiro morreu, não existem perspectivas. Fizeram tudo errado, como sempre: abriram espaço para apenas umas duas bandas grandes e fecharam a porta para as outras, quando essas bandas grandes ruíram, acabou-se tudo. Tem também o velho problema ainda dos tempos de colônia, em que brasileiro só valoriza o que vem de fora, além do problema da mídia fazer de tudo para que pensem que rock não existe no Brasil, que só existe música que não acrescenta nada (ou que, pior ainda, aliena). Então a fórmula é seguir sem destino, aproveitando a viagem, já que não se vai pra lugar nenhum mesmo.
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Para ler uma resenha e baixar o disco Ride On The Roller Coaster, clique aqui.

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quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Entrevista com o cantor e compositor Geraldo Junior

montagem com fotos de Júlia Guimarães

por Luís André Bezerra

O cantor e compositor Geraldo Junior, natural de Juazeiro do Norte, é uma figura conhecida há bastante tempo da cena artística caririense. Ainda nos anos 1990, quando era conhecido como Junior Boca, assumiu o vocal de algumas bandas de rock e durante mais ou menos uma década foi a voz da banda Dr. Raiz, da qual era também um dos principais compositores, ao lado do guitarrista Dudé Casado. Junior Boca partiu para carreira solo e passou a assinar os trabalhos como Geraldo Junior, e não para de realizar diversos trabalhos artísticos, dos quais ele nos fala um pouco nesta entrevista.

ilustração de Boni
O BERRO - Há alguns anos você fixou residência no Rio de Janeiro e periodicamente volta ao Cariri para fazer shows, como neste mês de setembro, com uma apresentação no Juazeiro e outra no Crato. O que há nestes shows da musicalidade do “velho Geraldo Junior”, que muitos conhecem desde os tempos de Dr. Raiz, e o que há de novidade para o público caririense?
GERALDO JUNIOR -
Há cinco anos estou passando mais tempo fora, no Sudeste, mais precisamente no Rio de Janeiro. Como todos sabem, sempre que posso venho por aqui [ao Cariri], para não perder as referências (risos). E também realizar trabalhos, sejam eles de música, produção cultural e arte-educação em instituições das quais faço parte, como a ONG Beatos (Crato-CE) e a Oficina Casa do Alto (Caririaçu-CE). No momento estou com um show novo e as novidades são os sintetizadores, com timbres mais alternativos. Além da analógica, agora brincamos um pouco com a música digital e eletrônica.  Infelizmente para esses dois shows [em setembro] ainda não apresentarei esse trabalho inédito. Talvez para outubro ou novembro na Mostra [SESC Cariri de Culturas], quem sabe?!... Nos shows do dia 22 [passado], no SESC Juazeiro, e dia 29 próximo, no Cruzeiro do Crato (pelo SESC Crato) serão apresentadas músicas dos álbuns Dr. Raiz, Calendário e Warakidzã. Estou curtindo muito o som da banda, formada por grandes músicos da região que têm seus trabalhos e também participam de vários outros projetos: Ranier Oliveira (sintetizador, teclado e vocal), Geraldo Junior (voz, flauta, trompete e percussão), Anderson Matos, o Jhoe (guitarras e vocal), Ricardo Miranda (baixo e vocal) e Remy Oliveira (bateria e percussão).

Como tem sido sua interação com os artistas do Rio de Janeiro e com os velhos conhecidos que ficaram no Cariri? Nos tempos de internet, até que ponto a distância impossibilita o intercâmbio artístico?
O Rio vem sendo muito positivo! Amigos, parceiros de trabalho... Tenho realizado shows importantíssimos, em projetos como a Cúpula dos Povos, Noites de Parangolés (Teatro de Anônimo - Fundição Progresso), UFRJ na Cidade, Festival Santa Música, Kombi Voadora, SESCs, SESI, Tendas Culturais, além dos shows fora do Rio. Lá tenho o prazer de contar com grandes músicos de vários lugares que conheci na cidade maravilhosa, entre eles principalmente Cláudio Lima e Eduardo Karranka (da Bahia), Filipe e Marcelo Müller (do Rio Grande do Sul), Gabriel Pontes (do Rio de Janeiro) e o Beto Lemos, que já é um velho conhecido de todos nós [do Cariri]. Quando venho pro Nordeste toco com os músicos do Cariri: Ranier e Remy Oliveira, Ricardo Miranda, Anderson Matos, Ramon Oliveira, Junior Casado, Pantera. E também quando há oportunidade, quando ele está por aqui, com Dudé Casado, que agora é internacional (risos). Enfim, tenho a sorte de poder contar com grandes parceiros de trabalho, que além de tudo são grandes profissionais, e amigos, claro.

Fazendo uma menção ao título de uma canção que você regravou de Abidoral Jamacaru, creio que seu último disco, Warakidzã - Senhor do Sonho (2011), veio “mais tarde e mais forte” em comparação ao primeiro álbum, Calendário - O Tempo e o Vento (2007). E essa sonoridade, digamos que mais “elétrica e eclética” do disco mais recente, foi algo planejado ou se deu em decorrência da nova forma(ta)cão da banda que o acompanhou na gravação do disco?
As duas coisas. Eu sempre fui aberto pra tudo e nunca tive preconceitos musicais, gosto de tudo e não tenho barreiras para compor. O disco Calendário surgiu de uma vivência mais direta com grupos de tradição, eu e Beto Lemos trabalhamos a direção e os arranjos a partir da realidade da época, sem querer colocar o carro na frente dos bois. Descartamos a possibilidade de outros instrumentos e sonoridades, mas também curtimos fazer o trabalho da forma que deu pra fazer, com participação de músicos da região: Lifanco, Darlan, Cícero Tertuliano, Flauberto, Antônio Queiroz, e também no Rio: Rebeca e Joana Queiroz, além da essencial contribuição de Ibbertson Nobre como técnico de gravação, mixagem e masterização. No novo álbum [Warakidzã] tivemos mais tempo e oportunidade de brincar mais, contar com diversas possibilidades e instrumentações. Aproveito e já adianto que estou na pré-produção do novo disco, juntamente com Beto Lemos, dividindo composições, arranjos e execução de vários instrumentos, e Ricardo Cotrim (percussão, programações, sintetizadores, kaoss pad, etc.). Nesse nosso trabalho vamos fazer algo bem diferente! (risos) Estou curtindo muito as novidades.

Mesmo morando a milhares de quilômetros do Ceará, suas músicas e letras continuam remetendo bastante à região do Cariri. É algo planejado, intencional? Ou, involuntariamente, cantar esses temas acaba servindo para matar um pouco a saudade, compensar a distância da terra natal?
Inevitavelmente minhas composições passam de uma forma ou de outra pela essência do Cariri. Mas claro que nunca vi isso como uma limitação, é apenas o meu norteio, meu porto seguro. Penso que a cada nova influência e experiência, com o passar do tempo, vou ampliando as possibilidades de trabalho e de expressão artística. Cada novidade é mais uma ferramenta pra caixinha de surpresas.

foto de Lili Rodrigues
Você já gravou três CDs (sendo um com a banda Dr. Raiz). Pensando nos próximos passos da carreira, enquanto artista independente, o melhor será investir mais em shows, viajando com os trabalhos já gravados, ou já ampliar essa discografia?
São três discos e ainda várias coletâneas de música independente e de festivais com tiragem nacional, e alguns internacionais. E quero ampliar sim [a discografia], sempre. Tenho muitas músicas minhas e de parcerias que não foram gravadas, porque ainda não encontraram o seu momento dentro de um álbum ou single. Como falei, agora estou na pré-produção de um novo disco e no Sudeste já venho apresentando um show com esse repertório. E sobre os shows, é o que nos dá um retorno para podermos viver da música. Os discos acabam sendo como um cartão de visita, mas também ajudam no orçamento quando os vendemos nos shows ou pela internet.

Atualmente a internet é o único meio para se divulgar discos independentes? Ou há, por exemplo, algumas rádios cariocas que acolhem esses trabalhos?
A internet hoje é o principal meio, mas já existem vários programas de TVs e rádios que dão espaço pra esse tipo de música. Já fiz vários programas de rádio no Rio, alguns em nível nacional. Já nesta minha temporada aqui dei uma entrevista por telefone para a Rádio FM 94 Roquette Pinto [do Rio de Janeiro].
 
Finalmente, fale um pouco sobre a Terreirada Cearense, evento que você comanda no boêmio bairro da Lapa, no Rio de Janeiro. O público dos shows é formado basicamente por nordestinos? E você acredita que o Cariri teria público para sustentar um projeto desse tipo, com shows periódicos, divulgando a música “nordestina alternativa”?
A Terreirada Cearense é um projeto paralelo que surgiu com um coletivo de amigos, outros artistas, os músicos que tocam comigo e a minha produtora na época, Beth Fernandes. Tivemos essa ideia como uma estratégia de divulgação do meu trabalho e também para receber os amigos e artistas afins que estavam pelo Sudeste. Já estamos há quatro anos fazendo essa brincadeira no coração da noite carioca. Uma embaixada da música cearense no Rio de Janeiro! E as pessoas ficam apaixonadas pelo trabalho e eu me sinto honrado em falar isso, trabalhamos com muito carinho. E o Cariri tem sim condições de manter um projeto desse tipo, inclusive essa é umas das formas de lutar contras as estruturas do mal que estão aí, dominando todo o mercado. Rádios, TVs, eventos públicos, internet, formar coletivos e apresentar uma outra referência musical e/ou de outras linguagens é uma iniciativa poderosíssima! E aí a possibilidade de dar certo é grande, porque trabalhamos com arte, algo feito com o coração (num extremo oposto do mercado). Mantendo o projeto a médio e longo prazo, ele dará um retorno.
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Acesse o site oficial de Geraldo Junior: http://www.geraldojunior.com.br
Faça o download ou escute online o disco Warakidzã, clicando aqui.

"Treme-terra (ou Grito de Guerra)", do álbum Warakidzã, ao vivo em 2010:

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quinta-feira, 21 de junho de 2012

Entrevista com Abidoral Jamacaru (edição 30 d'O Berro, ano 2000)

Arquivo Cariri # 18 | O Berro nas antas # 14


(Show no Dragão do Mar, Fortaleza. Foto de arquivo cedida por Abidoral Jamacaru)

Hoje, dia 21 de junho de 2012, quando o município do Crato completa 248 anos de emancipação política, resolvemos buscar no nosso arquivo uma entrevista com um ilustre filho cratense, o cantor e compositor Abidoral Jamacaru.

A entrevista aconteceu no ano 2000 e foi publicada na edição 30 da versão impressa d'O Berro (de novembro daquele ano). Àquela época, Abidoral Jamacaru havia lançado apenas o LP Avallon, em 1986 (em 2000 ainda não havia a versão em CD, lançada alguns anos depois), e o CD O Peixe, em 1998. E só viria a gravar outro trabalho em 2008, o CD Bárbara.

O bate-papo com Abidoral foi descontraído e durou horas, rendendo um vasto e rico material. E de tão extensa que foi a conversa, tivemos que fazer uma seleção de apenas alguns momentos. Confira.

por Hudson Jorge, Luís André Bezerra e Ythallo Rodrigues
participação de Cícero Oliveira (in memoriam)


O BERRO: As músicas de seu primeiro LP, Avallon (1986), foram bem mais executadas e divulgadas do que as músicas do CD O Peixe (1998). Qual a comparação que você faz entre as duas épocas?
ABIDORAL JAMACARU: É que antigamente a região era muito carente de alguém que a representasse, então um artista sair do Cariri e gravar no Sul era um motivo de orgulho para a região. E gravei no Sul naquela época, o que era dificílimo. As pessoas também já tinham criado a expectativa de quando eu gravaria o primeiro disco, porque fiquei bastante conhecido no período dos Festivais, isso fez com que as rádios tivessem aquela receptividade. Outra coisa que facilitou é que nas rádios daqui não existia tão forte a disseminação do jabá. Aí quando cheguei com meu trabalho O Peixe, depois de 12 anos, já não foi mais a mesma coisa. Mas aos poucos eu fui brigando, fui insistindo. O disco terminou aparecendo depois, mas não foi como na outra vez. As rádios comunitárias tiveram um papel importante na divulgação de O Peixe porque, embora as ainda não tenham vindo como a gente esperava, ainda são uma alternativa. Por exemplo, foi em uma rádio comunitária que fiz uma das entrevistas mais bonitas, com o Ciço Gnomo na Rádio Santa Quitéria. Por esse período também Chico César passou por aqui [no Cariri], falou de mim, depois chegou Zeca Baleiro e falou alguma coisa, a Cássia Eller quando veio para o Chama falou de mim. Então, o disco devagarzinho foi aparecendo e hoje ainda está rodando.

Você chegou a participar daquele [evento] Chama?
Eu fui até usado pelo Chama. Garantiram-me uma participação e me escolheram pra ser o presidente do júri. Eu trabalhando para o Chama o tempo todinho e não cobrei nada por isso. Perdi um show que tinha marcado para a Paraíba e deixei de marcar um em Fortaleza, em função desse daqui. E quando foi no dia eles cortaram meu show. Eu tive prejuízo nessa história toda. Não é que eles não me pagaram, até porque não cheguei a tocar, o problema é que deixei de fazer dois shows, três com o que seria aqui.

Voltando à questão entre Avallon e O Peixe: no que se refere a espaços para shows aqui no Cariri, qual a diferença entre as duas épocas?
A questão é que aqui tem uma cultura de se fazer show em bar que termina não sendo um show, mas sim uma música de entretenimento, porque você vai tocar músicas de pessoas conhecidas. E existem até os chavões: é muito difícil em qualquer bar não estar tocando Djavan. Teve um tempo que era só João Bosco, outro que era só Caetano Veloso. Então eu não vou sentar lá e cantar esse pessoal porque tenho uma obra a mostrar, tenho propostas. Posso até tocar um cara desses, porque vale a pena quando [a canção] é bem feita, bonita, mas não vou fazer todo um show em cima deles.

E na época do Avallon você se apresentava muito aqui?
Sempre tive muita dificuldade de fazer apresentações aqui no Cariri. É uma luta de muito tempo. Teve um tempo até que fui perseguido, pela questão política, no tempo da repressão. Não explicitamente, porque não havia nenhuma prova contra mim. Mas nesse período, inclusive, cheguei a ser preso. Eu estava tocando numa barraca na Exposição onde ficava a oposição, que naquele tempo era o MDB, que deu origem ao PMDB.

Quando foi isso mais ou menos?
Década de 70, acho que 76. Era Médici [na realidade, Médici foi presidente até 1974, em 1976 a presidência estava com Geisel], que jogava duro mesmo. Aí nesse período estava tocando na barraca informalmente, dando força a um cara que estava fazendo um trabalho de pesquisa sobre o Caldeirão. Então a polícia foi lá, bateu e prendeu todo mundo. Tiveram que me soltar logo, não tinham nenhuma prova contra mim. Mas, resultado: quando saí da cadeia nesse período sofri uma marginalização muito grande aqui no Crato, até os pais de alguns amigos os proibiam de andar aqui em casa, com medo dessa história todinha. Surgiu um boato que me prejudicou muito tempo, de que eu era um cara perigoso, usava drogas e que pervertia os jovens (risos). Foi tudo bolado pra criar uma imagem negativa em cima da minha pessoa, porque, de qualquer maneira, eu aparecia muito e naquele tempo não queriam ninguém que aparecesse e pensasse alguma coisa.

Aqui na época tinha núcleo do MDB?
Tinha um pessoal de resistência aqui. O MDB na verdade não era um partido, e sim um saco de alternativas. O PCzão e o PC do B existiam na clandestinidade, não podiam legitimamente concorrer à eleição. E qualquer pessoa que se manifestasse contra aquele regime, ainda que não fosse filiado a um desses partidos, era taxado como uma pessoa subversiva, de princípios religiosos duvidosos, de uma moral comprometida, porque antes de tudo não era um nacionalista. Tinha até aquele slogan: “Brasil, ame-o ou deixe-o”.

E comiam criancinhas. (risos)
E mais coisas: que a bandeira vermelha era a bandeira da guerra... Era tanta besteira, bobagem. Mas todas aquelas pessoas que não podiam se candidatar com suas ideologias próprias, entravam no MDB. E digo que era um saco de gatos. É tanto que dizem que Dom Paulo Evaristo, depois que houve a Anistia, escreveu um livro em que citou que a esquerda do Brasil só se unia na cadeia (risos). Então é em cima dessa afirmação que ainda hoje ela briga entre si. Quando ela está se juntando aí surge um partido mais radical e já nega tudo aquilo que os outros estão dizendo e rompe, é uma cisão. Mas tudo bem, o importante é que existam pessoas lutando e todas elas têm a intenção de que o país melhore. A ditadura tinha uma eficiência nas ações dela. E uma das eficiências foi a de apagar a memória do brasileiro. Todos foram anestesiados com festa e não sei o que mais lá.

Pão e circo...
Pão e circo, que é uma tática antiga. O filme O Gladiador já mostra bem essa transação. Houve isso, e ainda hoje eles tentam com essas vaquejadas (risos gerais). A Brahma bombardeia e quando você sai de uma vaquejada já estão anunciando outra. Que coisa terrível, né? E os vaqueiros agora são tudo filhinho de papai (risos), atrás de um prêmio que é um carro ou as coisas mais absurdas do mundo.

As pessoas passam toda a semana de terno e gravata e quando chegam no fim de semana colocam a bota e o chapéu de vaqueiro.
O pior é que não é chapéu de vaqueiro, é aquele chapéu de massa, copiando o americano. É a moda country. A coisa mais aberrante do mundo, mas tudo bem, no meio disso tudo tem pessoas como vocês [d'O Berro], que estão aí querendo sabatinar, né? (risos). E sempre tem essa moçada que segura a onda, isso é legal. Isso é o que nos dá a esperança de continuar, de batalhar e de perseverar com esse trabalho, procurando fazer o melhor possível cada vez mais.

Voltando à questão do show. Não existem bons espaços aqui para mostrar seu show? Tem um espaço agora super interessante que é o Navegarte, do Salatiel, que sempre teve boas ideias e vem trabalhando há um bom tempo com a cultura. O que está faltando para a região [do Cariri] melhorar nessa questão? Pois temos excelentes músicos.
O que Salatiel fez pela cultura, pelo menos aqui no Crato, foi o que todos os Secretários de Cultura que já estiveram por aqui não fizeram. Porque ele sempre fez um trabalho incondicional, bem feito, bem pensado e com honestidade. E com o Navegarte ele está procurando ainda criar uma estrutura para agir nesse aspecto. Ele vem agindo de certo modo, mas não é ainda como ele pretende. Ele pretende fazer um polo cultural lá, para que seja um espaço alternativo para todas aquelas pessoas que honestamente pretendem fazer uma arte, respeitando a estética e o conceito de construtivo. Então, ele abre esse espaço nesse sentido e eu acho muito importante.

Seria possível uma organização dos artistas do Cariri? Reunindo tanto a nova geração como os artistas que já batalham por espaço há algum tempo?
É muito difícil, mas é possível e seria uma boa saída, desde que ela tenha consciência, maturidade, porque tudo hoje funciona em grupo. Tem que funcionar dessa forma, porque o sistema imantado aí é muito forte, com tudo voltado para a questão do consumo daquelas pessoas que estão no ápice da pirâmide. E quem está concentrando essa renda domina todos os espaços e ela veicula o que quer, e a única saída seria essa união. Agora, até acontecer isso tem muita briga, pois é muito comum o jovem ainda não ter maturidade suficiente para entender a seriedade dessa reunião ou às vezes tem uns que se destacam com certo trabalho e o ego o desequilibra um pouco. Mas, por outro lado, o jovem tem aquela coisa do ímpeto, de acreditar mais, de lutar mais, entrar na ativa. E sempre no meio da turma tem um pessoal legal. É essa utopia saudável. Porque utopia é o lugar aonde não se chega, mas é lá que você objetiva e passando pelo caminho faz um monte de coisas.

Vemos a atuação de grupos isolados aqui na região e, muitas vezes, ao invés deles estarem unidos, ficam atacando uns aos outros. Como é que você vê essa separação?
Crítica ninguém evita, principalmente quando se está começando um trabalho e ele ainda não está amadurecido. Você pode ser até uma pessoa inteligente e ter ótimas idéias, mas você é vulnerável, porque você tem muito o que aprender, e muitas vezes o artista novo não aceita críticas. Eu mesmo não aceitava, reagia imediatamente, porque meu ego estava lá em cima. Quando comecei diziam que eu era inteligente, que eu era um artista, então meu ego subiu e, se alguém me criticasse, eu ficava aborrecido. Então, uma vez que nós artistas já somos carentes pela própria situação, terminamos na luta pela sobrevivência, um pisando em cima do ombro do outro para poder respirar. Isso acontece muito. A questão é com o tempo amadurecer e deixar isso de lado, porque na verdade está todo mundo no mesmo barco.

OLIVEIRA: Você acha que o som que fez no disco O Peixe é o mesmo que você fazia ou sempre fez?
Minha liberdade de criar eu prefiro não defini-la. Porque você acaba sendo um acúmulo de conhecimentos que vai adquirindo. Aí vai acrescentando no meio dessas coisas o estilo que você sempre sabia. E se você ficar se policiando por um estilo perde tudo isso. O meu trabalho talvez não tenha ficado envelhecido porque tive a liberdade de trabalhar como se fosse um trabalho atemporal. Com os pés no chão, mas não deixo de olhar pro céu, o espaço é infinito por aí.

OLIVEIRA: Estou perguntando isso para justamente fazer outra pergunta. Por exemplo, atualmente o que predomina são as fusões, fusão como as pessoas entendem hoje. Um exemplo: fazer um samba misturado com música eletrônica, misturado com rock, etc. Porque isso está “na crista da onda” e se não fizer “fica ultrapassado”.
Não existe essa cobrança de fazer isso, existe a questão de você se sentir bem sozinho. Quando parte do princípio da cobrança você passa a ser coagido e não é saudável.

OLIVEIRA: Já existiam aqueles cantos árabes, aí alguém vai e coloca uma batida eletrônica e explode no mundo todo...
Fundir ritmo com ritmo existe de duas formas. Existem os oportunistas e outros que pensam o seguinte: “eu tenho esse conhecimento dentro de mim, eu senti isso, e por que não vou me dar isso?”. Botar isso pra fora!. “Vomitar” no bom sentido. Por que estar me policiando? Eu não sou um purista. Não sou de fazer aquela música brasileira pura, eu gosto da irreverência do rock, da profundidade do jazz, da música erudita pelo seu manancial que hoje serve para todo mundo, que é você mexer com escala acromática...

Fala um pouco sobre o grupo Nessa Hora, que você tinha na década de 1970. Como era o som dele...
Nos anos 70 existiam uns festivais de música que revelaram muita gente boa do Cariri. Meu irmão, o Pachelly [Jamacaru], tem idade de ser meu filho (risos), mas ele só vivia no meu pé, aquela coisa de louco pelo trabalho. Peguei ele e mais dois amigos seus, na faixa de 13 ou 14 anos, e eu já com quase trinta, falei: “vamos formar um grupo diferente”. Mas Pachelly disse: “a gente não sabe nem tocar!”. Eu disse: “aprende!”. Aí eu ficava aqui dentro de casa na semana, com esses três meninos. E passamos quase um ano ensaiando. Nesse tempo eu estava com tanta raiva dessa história de todo mundo definir que “música boa era essa, música boa era aquela”, que combinei com os meninos de a gente não ouvir mais rádio, não ouvir mais disco de ninguém. E a gente descobriu som em tudo... A gente batia na porta e dizia: “A porta tem som”. Então, vamos aproveitar o som desta porta! Saímos fazendo experiência com tudo. A gente chamava o grupo Nessa Hora porque foi o grupo “nessa hora” que decidiu. Como terminamos esse trabalho, pintou um Festival, então entrei com esse grupo cheio de meninos e fomos cantar uma música chamada “Margem Virgem”. Pachelly com o pífano, que tinha aprendido com os Aniceto, mas também cheio de informação de Jethro Tull, era uma misturada danada. Vinha Aldízio e Paulinho misturando as percussões dos “reisados” com Djalma Correia, Naná Vasconcelos, etc. Tínhamos a liberdade trabalhar com o que era bom. Então entramos no festival com essa música “Margem Virgem”. Quando a gente tocou, a quadra ficou parada, todo mundo sem entender nada (risos). Uma letra hermética, avançadíssima, meio filosófica, com um som experimental, mas ao mesmo tempo gostoso, ritmado, porque tinha alguma coisa da música russa, foi uma salada danada, que causava um impacto, uma surpresa. E o resultado? Batemos o recorde do festival: ganhamos a melhor música, o melhor arranjo, o melhor intérprete, melhor letra. Até a gente se surpreendeu, porque a gente não esperava.

E os meninos aprenderam a tocar? (risos gerais)
Claro! Aldízio vive hoje tocando no Japão, não sei mais onde, ele é chamado de Aldízio Tapioca; Chico Carlo que, também chegou a tocar com a gente, está tocando com Almir Deodato nos Estados Unidos; Paulinho toca com um grupo de rock da pesada, em São Paulo; e Pachelly tem um trabalho do qual vocês já tomaram conhecimento. A não ser os cantores, um deles foi assassinado e o outro é sobrinho de um candidato a prefeito, e esse desandou mesmo (risos gerais).

Era bom ficarmos falando das coisas boas mas, de lá pra cá, e principalmente atualmente, o que é ruim incomoda bastante. Você não tem televisão em casa, é menos bombardeado com essas “más influências”, mas como é pra você saber que aquele espaço poderia ser seu? Pois lá o que tem é gente se passando por artista.
Não tenho mais a ilusão de que a boa música vá ocupar o cenário brasileiro, porque a minha opção foi de estar bem comigo. Então, num país em que o mercado fonográfico é considerado o sexto do mundo, se não me engano, e que todas as grandes gravadoras que estão aqui são multinacionais, nenhuma delas tem compromisso com a cultura, mas sim com o faturamento. Então não acredito, a não ser que a boa música venha a ser um modismo...

Que acaba tendo seu lado prejudicial...
Mas se vier deixa alguma coisa boa.

Já pensou Gugu ali na banheira apresentando Abidoral, Chico Buarque, Hermeto Pascoal, todos na banheira caçando sabonete? (risos gerais)
A gente ia imitar os índios, tem o nu puro (risos). Os índios fazem isso com a maior pureza. Eu iria lá cantar nu, sem maldade nenhuma (risos). Mas quanto à nudez, que coisa mais bonita era a nudez do índio, a pureza acima disso tudo, sem maldade.

O nome de seu CD, O Peixe, é o título de um poema de Patativa do Assaré. Você tinha quatro nomes pra escolher e sua intenção foi a de simplesmente homenagear o grande Poeta do Sertão?
Olha, aqui na região ele "já existe" há décadas, e de uns anos pra cá é que o descobriram e ele estourou no mundo inteiro. Mas eu já tinha conhecimento de Patativa desde criança, porque ele era cliente do armarinho de meu pai. E tive a felicidade de que esse armarinho tivesse uns clientes importantes, com quem eu convivia. Um era Luiz Gonzaga, o outro Patativa do Assaré, e Cego Oliveira, os [Irmãos] Aniceto...

Quando foi isso mais ou menos?
Meu pai foi comerciante de 1927 até o final da década de 60 e início de 70. Há muito tempo, então, conheço Patativa. Quando ele estourou apareceu muita gente fazendo parceria e, quando ele percebeu que tinha muita gente em cima de seu trabalho, fez um poema chamado “Cante lá que eu canto cá", chamando bem a atenção: "poeta lá da cidade cante suas coisas lá que eu canto minhas coisas aqui do sertão”. Eu tinha vontade de fazer parceria com ele e recuei, voltei atrás. Quando foi outro dia, li "O Peixe", aí se você percebe direitinho, a letra é bem elaborada e de certo modo meio erudita. Os primeiros versos dizem assim: "tendo por berço o lago cristalino / folga o peixe a nadar todo inocente / medo ou receio do porvir não sente / pois vive incauto do fatal destino / se na ponta de um fio longo e fino / a isca avista ferra-a inconsciente / ficando o pobre peixe, de repente / preso ao anzol do pescador ladino". Uma linguagem que vinha até a cidade. Eu disse: "aí eu posso cantar" e aproveitei, já que me chamaram para cantar numa dessas homenagens e a homenagem que achei foi a de musicar esse poema. Não estava nem pensando em gravar o disco ainda. Então, quando o disco apareceu, eu gravei e veio a questão do nome. Por que o nome O Peixe? Comecei a notar que havia uma série de fatores. Nós estamos terminando a Era de Peixes e entrando na Era de Aquários, e Aquário é aquele que dá comida aos peixes.

E a capa, retrata o fóssil?
A capa é também sobre os fósseis, que são nossas riquezas do conhecimento histórico, que dão uma importância muito grande à região do Cariri.

E que por sinal estão sendo roubados...
Pois é, estão sendo roubados. E todas essas coisas se somaram e vieram dizer que o nome do disco seria O Peixe.

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terça-feira, 15 de maio de 2012

O Berro entrevista Dudé Casado, que se lança em carreira solo


por Ythallo Rodrigues | fotos Samuel Macêdo

Dudé Casado é figura carimbada no cenário musical da região do Cariri cearense. Desde os anos 1990 integrou algumas bandas de rock — com destaque para os mais de 10 anos em que foi guitarrista e um dos principais compositores da banda Dr. Raiz.

Agora Dudé está em uma nova etapa, em carreira solo, e divulga pela internet as canções do recém-gravado disco Antes que escureça. A nova fase também inclui uma mudança temporária (?) para o Rio de Janeiro, onde procura novos meios p
ara divulgar sua música. Batemos um papo com Dudé, que fala sobre este atual momento na sua carreira.

Para acessar o site oficial de Dudé Casado, clique aqui. E para baixar gratuitamente o disco Antes que escureça — disponibilizado pelo próprio artista — clique aqui.

O BERRO - Como foi o processo de transição entre o final da banda Dr. Raiz, em 2009, para esse seu primeiro trabalho solo? Inclusive, no disco Antes que escureça tem uma música dedicada aos antigos componentes da Dr. Raiz, é isso?
DUDÉ CASADO - Em 2008, quando Geraldo Junior resolveu sair do Dr. Raiz, ficamos meio que sem chão, afinal ele estava à frente da banda. Saímos procurando vocalistas, mas não deu muito certo. Os outros integrantes pediram para que eu assumisse os vocais e mesmo sem querer foi o que fiz. Eu não curtia muito isso, afinal, as músicas que fiz, fiz para [Geraldo] Junior cantar e não para eu cantar! Foi justamente quando passei a compor coisas que dessem mais certo com minha voz, mas mesmo assim não queria ficar à frente do Dr.Raiz, queria montar outro projeto, uma nova banda, mas sabia que os caras não aceitariam isso pois o Dr.Raiz já tinha uma longa história. Então, juntando umas histórias e outras saiu a música "Antes que escureça", uma espécie de despedida. Realmente dediquei essa música a todos os ex-integrantes do grupo, principalmente aos mais ativos no trabalho, e isso só foi revelado de um tempo pra cá, mas antes disso sei que todos eles sentiram isso.

Como foi o processo de produção do seu disco aqui no Cariri? Em lugares distantes dos grandes centros, como é o caso do Cariri cearense, é difícil para músicos com trabalhos autorais esse tipo de produção independente?
Quando comecei a compor esse trabalho, primeiramente gravei tudo em casa, fiz alguns experimentos, foi quando em seguida parti pro estúdio. Fiz a produção e contei com a ajuda da galera que estava tocando comigo. E te falo uma coisa: um trabalho como esse já começa com a dificuldade de encontrar músicos que se dediquem ao esquema, pois não é todo mundo que acredita nisso, principalmente vendo pela questão do estilo musical que não proporciona muita grana e também não se encaixa no perfil dos produtores de nossa região. Tive a sorte de encontrar essa galera que vem me acompanhando no Cariri, que além de serem grandes músicos acreditam no trabalho e são meus amigos de longa data. Infelizmente em lugares como o Cariri a pessoa ainda tem que se autoproduzir, pois os produtores não visam trabalhos como este e tantos outros que existem por aí [no Cariri]. Realmente é muito difícil.

Quais as grandes influências literárias e musicais das canções do seu disco? Percebemos uma sonoridade muito forte que provém do rock’n’roll. E o que mais você destacaria na sua musicalidade?
Nesse trabalho fiz questão de colocar tudo o que eu gosto de escutar ou ler, então meti minhas influências: The Doors, Beatles, Alceu Valença, Pink Floyd, Loreena Mckennitt, Pinto do Monteiro, Black Sabbath, Led Zeppelin, Geraldo Amâncio, Sepultura, Ivanildo Vila Nova, Bob Dylan, Dr. Raiz, Johnny Cash, Moacir Laurentino, Blind Guardian... muita coisa mesmo! É uma pegada bem rock’n’roll, mas se você parar e prestar atenção, notará que tem tudo isso aí que falei.

Há cerca de um mês você arrumou suas malas e “arribou do sertão”, com destino ao Rio de Janeiro. O que você acha dessa migração ainda ser a saída para artistas que pensam no desenvolvimento de seus trabalhos? Como você acha que essa mudança geográfica irá ajudar no seu trabalho?
Viajar é a realidade de qualquer artista, infelizmente ainda tem que ser assim. Mesmo com todos esses meios de comunicação onde você pode divulgar seu trabalho, isso acaba não bastando, pois você precisa tocar. Sei que existem vários espaços e festivais no Nordeste, mas a maioria são eventos que priorizam "bandas de fora", deixando as bandas locais sempre em quinto ou sexto plano, com cachês que não valem a pena. No Sudeste é difícil você entrar no movimento, mas quando entra serve de vitrine para o restante do país. E como os espaços, contratantes, produtores, etc., estão aqui [no Sudeste], fica mais difícil eles contratarem bandas do Nordeste, por sair muito caro todo o custeio, então procuram o que já tem por aqui.

No disco Antes que escureça percebemos um traço particular nas letras, mesmo com a diversidade dos temas, que variam entre a obscuridade de canções como “Tristes Sinais” e “Pedrinhas do Rio”; a canção de amor cafajeste “Onde você vai”; a melancolia de “Sobrevestes”; o saudosismo de “Antes que escureça”. No entanto, creio existir um tema que perpassa tudo isso, que é uma profunda tristeza, que une as letras à pegada do rock, que vem da música. Fale um pouco sobre isso. E aquele música ao contrário no final [“O fim das horas”], referências roqueiras? Sinistro...
Tem tudo isso mesmo que você citou. Algumas coisas senti e vivi, mas muitas delas me inspirei em coisas que li, vi ou ouvi: histórias tristes, de saudades, maus presságios, de perda, de dor, de fim, etc. Sempre viajei em temas mórbidos, coisa que se vê muito no repente e no blues, por isso fiz esse disco todo assim. O próximo será bem diferente! (risos) Existem letras aí que um dia terei que explicar para o público. E que música no final? (risos) Vim ouvir depois que você me perguntou.

E para finalizar, gostaria que você falasse um pouco dessa sua opção por disponibilizar o seu primeiro disco na internet, para download gratuito. Por que você escolheu a internet como principal veículo de divulgação do seu trabalho? Acha que é possível que um artista independente, como é o seu caso, consiga obter o retorno desejado através desse tipo de iniciativa?
Aqui no Brasil a realidade é diferente, o músico não ganha dinheiro com venda de CDs. E a internet é o melhor meio de divulgação para qualquer artista, assim o público passa a conhecer mais as suas músicas e daí vêm as contratações, propostas, etc.
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quinta-feira, 19 de abril de 2012

Entrevista com Zeca Baleiro (publicada na edição 29 d'O Berro, no ano 2000)

O Berro nas antas # 13

Reproduzimos aqui uma entrevista que a equipe d'O Berro fez com Zeca Baleiro, no ano 2000, e que foi publicada na edição 29 da versão impressa do fanzine, em maio daquele ano.

Observação: por ter sido uma entrevista feita quase 12 anos atrás, naturalmente há algumas opiniões e situações que refletem apenas aquele contexto específico. Na parte que Zeca Baleiro menciona a banda Los Hermanos, por exemplo, lembremos que a conversa foi na época em que a banda carioca havia estourado nas rádios, exclusivamente pela execução maciça (e impregnante) da canção "Anna Júlia". Vamos à entrevista:
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Fim de show no Crato Tênis Clube, o relógio já marca quase 3 horas da manhã e Zeca Baleiro avisa que irá receber todas as pessoas que desejam falar com ele. Bastante atencioso com os fãs (isso já por volta das 4 horas da manhã), ele manda avisar à equipe d’O Berro: "trato é trato, a entrevista [previamente marcada] ainda está de pé". Depois de mais uma espera, finalmente acontece o bate-papo, não mais no Clube, e sim no Hotel Verde Vale (em Juazeiro do Norte), à beira de piscina, “tentando descansar”. O papo rolou até o nascer do sol.

O BERRO: Você já está se preparando para entrar em estúdio ?
ZECA BALEIRO: É, vou dar uma parada agora. Farei alguns shows no interior de São Paulo e no fim de junho mais alguns na Europa. Então, em junho estarei entrando em estúdio para fazer um novo disco.

No último disco [Vô imbolá, de 1999] a grande característica foi a influência eletrônica, fazendo até um contrapeso com a “música de raiz” nordestina, e você certa vez comentou que o próximo seria mais “violonístico”. Qual será a característica do próximo disco?
Este disco [que viria a ser o Líricas, lançado ainda no ano 2000] vai ser muito simples, semi-acústico, com uma sonoridade bem suave, contrastando com esse Vô imbolá, em que eu queria fazer uma coisa grandiosa e até ruidosa. Em um certo sentido acho que ele cumpriu seu papel. Agora ele já está meio esgotado: um ano fazendo cerca de 110 shows nesta turnê, que geralmente foram feitos com a banda, com uma alma, barulhenta, bem rock’n’roll. Então acho que é uma coisa natural eu querer fazer uma coisa mais introspectiva, mais baseado em canções, em baladas.

Qual é a preocupação de se valorizar o novo (a tecnologia, efeitos eletrônicos na música) sem esquecer as raízes?
Acho que essa é a grande ponte que a gente tem que fazer: entre tradição e modernidade. Você não pode abraçar a tecnologia como meio de expressão contemporânea e esquecer a tradição. De certa maneira, meu trabalho é muito calcado nas raízes da música brasileira, da cultura popular, mas usa eletrônica. A tecnologia pela tecnologia é vazia. Se usar, “olha como eu sou moderno”, mil recursos e tal, e daí?! É nada! Na verdade, a tecnologia é um meio e não um fim. A tecnologia deve estar a serviço de uma expressão, de um sentimento, de uma coisa maior.

Comente sobre sua amizade com Lobão, que está novamente na mídia, e sua participação no último CD dele.
Na verdade eu me considero um cara de muita sorte, pois desde que eu surgi no cenário nacional participei do Acústico da Gal Costa e depois disso já participei do disco do Lobão, do Martinho da Vila, do Songbook do Chico Buarque e mais recentemente do CD do Trio Nordestino, que é um trio histórico. Então, estas coisas para mim são um prêmio, uma recompensa. Fico muito feliz e me considero um cara privilegiado por poder me relacionar com estas pessoas que são referência para mim.

Você enviou uma letra para o Lenine. E aí, ele já musicou?
Como você sabe disso?
Andamos investigando... (risos)
Mandei a letra para ele, mas que eu saiba até agora ele não musicou. Fizemos um trabalho juntos: eu, Lenine, Chico César, Paulinho Moska e o Marcos Suzano, uns dois anos atrás, que foi o espetáculo “5 no palco”. O show andou por umas doze cidades do interior de São Paulo e foi fantástico. Tentamos fazer um disco depois, mas houve um problema com a gravadora do Lenine. Emperrou lá o processo, então não deu, mas virou um especial de fim de ano da TV Cultura.

Já que você citou a gravadora, há pouco tempo estava em evidência uma grande campanha contra a pirataria, que Lobão criticou bastante. Você participou de um bate-papo na revista Caros Amigos, onde isso foi discutido, o domínio das gravadoras, etc. Mas olhando seu CD, tem o selinho para denunciar a pirataria... Pergunto: quando a gravadora impõe, não tem muita negociação? O artista acaba limitado mesmo?
Esta é uma questão bem complexa. Aquela matéria da revista foi boa, mas nada elucida tanto, no Brasil principalmente, por não existir uma legislação atualizada. Quanto à pirataria, não dá para fingir que ela não é um problema. O Lobão tem um discurso diferente do meu. Faço parte de um selo que é filiado a uma gravadora, a Universal (a maior gravadora do país), e o Lobão está em um esquema totalmente independente. E o que ele está propondo é uma coisa rara, de vender disco [o álbum A vida é doce, de 1999] em bancas de revista a um preço acessível. A gente tem uma afinidade mas eu não assino em baixo de tudo que ele pensa e fala, e vice-versa. A relação com a gravadora tem que ser estratégica. Por que hoje eu, por exemplo, posso vir ao Crato tocar para um público? Porque tenho o suporte de uma gravadora. Então, não se pode só achincalhar a gravadora. É sempre uma relação difícil, porque a gravadora quer vender e o artista quer criar, mas acho que você deve se adaptar de uma certa maneira sem fugir dos seus princípios.

Mas há um prejuízo muito grande para o artista por causa da pirataria, ou apenas para a gravadora?
O artista sai prejudicado também, porque grande parte da renda de um artista são os royalties [recebimentos de direitos autorais], e quando alguém compra um disco pirata isso não é computado. Agora, nesse esquema de arrecadação de direitos autorais há muita corrupção. Mas eu acho que há outros problemas, o buraco é mais embaixo. Por exemplo, eu acho o preço do CD no Brasil caro. As gravadoras têm mil argumentos para dizerem que não, que o preço cobrado deve ser esse mesmo, mas eu acho vinte reais um valor muito alto. Mas o mercado tem uma lógica, uma lógica às vezes cruel e perversa, e eu sou apenas um artista.

Sempre há alguém tentando começar a carreira, no Cariri ou em qualquer lugar. Alguns têm que sair de sua terra para conquistar espaço, e você quando foi para São Paulo detestava tocar na noite, por quê? E quais são realmente as “temidas dificuldades do começo”?
Eu detestava porque sempre me considerei um autor e nunca gostei de reproduzir música dos outros, fazia isso por sobrevivência, e fiz pouco tempo porque não suportei. Foi interessante, “a noite é uma escola”, todo mundo fala isso. É uma escola para o músico, onde se aprende muita coisa, mas é um trabalho muito vicioso também: você fica naquela de tocar os sucessos de outros artistas. Quando você não tem um trabalho próprio isso é maravilhoso, mas quando você tem a intenção de ser um criador fica uma coisa meio chata.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Entrevista com Luis Karimai e Petrônio Alencar

O Berro nas antas # 05

Entrevista com Luis Karimai e Petrônio Alencar

Por Reginaldo Farias e Luís André Bezerra

Inauguramos o "Arquivo Cariri" com um momento de "O Berro nas antas". Trata-se de uma entrevista que fizemos com dois grandes artistas plásticos caririenses: o saudoso e inesquecível Luis Karimai e seu “discípulo”, parceiro e amigo, Petrônio Alencar.

Importante ressaltar que muitas das perguntas feitas estavam permeadas por um “jovem impulso” de querer uma arte transformadora da sociedade, no sentido “mais raso” da coisa. Hoje podemos ponderar muitas dessas questões. A nossa felicidade é que contamos com a sabedoria de Karimai e Petrônio, que deram uma aula de postura artística, de conhecimento estético e de consciência de linguagem, que é o mais importante nesse tipo de abordagem.

Reproduzimos abaixo o bate-papo publicado na edição 28 d’O Berro, em abril de 2000.(LAB)
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O Berro, edição 28, abril de 2000:

Batemos um papo com os artistas plásticos Luís Karimai e Petrônio Alencar. Falamos sobre a arte e os problemas por ela enfrentados na região do Cariri cearense.

Massaki (Luis) Karimai, 53, artista plástico há cerca de 23 anos, quando veio morar em Juazeiro do Norte. No momento está trabalhando em seu álbum; também está ilustrando o livro O Eco da Pedra, do poeta Clairton Oliveira, de Icó-CE; com Luís Carlos Salatiel colabora no NaveGarte, incluindo a abertura da galeria de arte José Normando Rodrigues.


Petrônio Sampaio de Alencar
, 33, nasceu e reside em Juazeiro. Há 13 anos trabalha profissionalmente com artes plásticas. Atualmente dá prioridade aos desenhos antigos que está retrabalhando. Também é o Diretor Financeiro da recém inaugurada Casa da Gravura.


O BERRO: Qual a necessidade que o povo tem de se alimentar de arte e qual a função desta? E qual o papel das artes plásticas nesse ramo? Por aparentar ser mais afastada do popular...
LUIS KARIMAI: A arte tem função de reflexão, de fazer com que elementos que não são claramente definidos pelo discurso formal possam ser entendidos pelo sentimento, e por intuições que são sentidas. Faz com que eclodam nas pessoas as sensações de harmonia, de reflexão, de meditação e, sobretudo, de provocar o que seja o belo, no sentido de fazer com que as pessoas se elevem no comportamento e no sentimento. Evidente que existem muitas artes que levam as pessoas ao prazer ou à alienação, ao discurso panfletário, doutrinário, como por exemplo nas artes plásticas na Rússia no período da Revolução e na instalação do regime Comunista. Quanto à arte plástica em geral, ela não é somente um apelo visual, pois leva ao entendimento de coisas que ficam dentro da jazida da alma dos indivíduos, suscita meditações no sentido de poder fazer com que o espectador vislumbre possibilidades que não tinha pensado ainda, então ela é uma abertura de posições, de entendimentos e de raciocínios.

PETRÔNIO ALENCAR:
O homem sente necessidade de arte desde a pré-história, quando pintava e desenhava nas cavernas a sombra de animais que eram abatidos em caças, e estes desenhos participavam de um ofício religioso. Durante muito tempo a arte teve seu papel religioso, papel político também, mas com os romanos ela passou a ter um caráter mais estético, apreciar a arte por si mesma, apreciar o belo.

KARIMAI: Tem uma declaração de Salvador Dalí muito interessante, ele diz que pintaria uns moluscos que, apesar de serem conhecidos pela ciência, mostraria um lado desconhecido que a ciência ainda não teria condições de perceber e este conhecimento novo de algo já conhecido seria através das relações de cores e de formas. A arte é uma forma de conhecimento de vanguarda.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

O Berro nas antas # 03

Entrevista com a banda Cabruêra
Publicada originalmente na edição 29 d'O Berro (maio de 2000)

Por Hudson Jorge e Ythallo Rodrigues
Fotos de Nivia Uchoa

Com duas passagens pela região do Cariri — a primeira delas em fevereiro deste ano e a segunda na Calourada Unificada da URCA —, a banda paraibana Cabruêra desenvolve um trabalho dando ênfase à “música regional”. Tendo como base o forró raiz e sua mistura com diversos ritmos, a banda vai aos poucos se destacando no cenário nacional.

Apesar das dificuldades de se trabalhar com arte, os resultados têm aparecido: foram considerados pela crítica a revelação do Festival Abril Pró-Rock (Recife, abril/2000), fato que rendeu uma matéria na revista Showbizz. Também estão com shows marcados no estado de São Paulo e foram convidados para um festival na Suíça, além de estarem com 80% do primeiro disco pronto.

Os cabras da Cabruêra (no ano 2000)*: Arthur Pessoa, Fred Guimarães, Orlando Freitas, Zé Guilherme e Alexandre Mota.

Curta um pouco da conversa que tivemos com a banda:

O Berro: Falem sobre a utilização e transformação da música nordestina...
Cabruêra: Essa ideia é antiga, surgiu na Semana de Arte Moderna de 22, quando Oswald de Andrade lançou o seu manifesto antropofágico, no qual ele enfatiza a antropofagia cultural do povo brasileiro, que pega as coisas vindas de fora e passa numa espécie de “liquidificador”, daí saindo uma “coisa nova”, apesar de não ser realmente nova. Atualmente um marco nessa nova musicalidade foi o Chico Science.

O Berro: A questão da manipulação cultural imposta pela mídia... Como vocês trabalham esse lado e tentam reverter o quadro?
Cabruêra: O que falta é democracia. O Brasil tem uma diversidade cultural imensa, mas há a falta de democracia. Muita coisa acaba ficando esquecida enquanto há privilégios para poucos. E as coisas são impostas mesmo. A luta é desigual, mas vamos fazendo nossa parte.

O Berro: Quais são basicamente as influências no “liquidificador” da Cabruêra?
Cabruêra: Mais importante que nossos gostos musicais são as nossas histórias como paraibanos. Coisas que estão na veia, pois crescemos numa cultura própria e singular. Somos de uma geração que escutou muito forró, desde Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro e Trio Nordestino, até o que toca hoje em dia nas rádios, o que já é outra discussão. Também a nossa vivência no maior São João do mundo, em Campina Grande. Esse ambiente somado a outras influências trazidas por cada um acabam afunilando-se no que hoje é o grupo Cabruêra.

O Berro: E no que diz respeito à questão social do povo brasileiro, a musicalidade, a cultura...
Cabruêra: Esse problema é antigo. No início do século XX Adorno escreveu o texto “A regressão do ouvido”, no qual, ele preocupado com o destino da música, “senta o pau” na música popular, na época o jazz. Logicamente se ele ouvisse o que tocam hoje em dia, talvez estivesse correndo louco na rua. Para Adorno, música era Stravinsky e outros.

O Berro: E sobre a representatividade do trabalho de vocês...
Cabruêra: Hoje viver de música em nosso país é muito difícil, principalmente qua
ndo se faz algo diferente dos padrões. Mas a identidade mais forte com o nosso público, e que nele refletiu, é a releitura de nossa própria identidade como nordestinos. Acho que transmitimos um pouco da sensação de olhar para si próprio e refletir o que verdadeiramente está dentro de você. Essa identidade traz o resgate cultural, o fato de você se sentir bem com sua própria cultura e, no caso, com sua musicalidade, hoje em dia tão marginalizada.
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Cabruêra se apresentando no programa O+ da Band, no São João de Campina Grande, em junho de 2000:




*Atualmente a formação da Cabruêra é Arthur Pessoa (voz, violão e escaleta), Pablo Ramires (bateria), Edy Gonzaga (baixo) e Leo Marinho (guitarra)

Site da banda: www.cabruera.com.br