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sexta-feira, 22 de julho de 2011

100 anos de Juazeiro do Norte

Centenário de Juazeiro do Norte # 100

Hoje, 22 de julho de 2011, é o dia do Centenário: parabéns, Juazeiro do Norte!

Não pretendemos ficar agora enchendo esta postagem com os clichês tão recorrentes em uma ocasião como esta, pois há 100 dias O Berro dedica um espaço no seu blog falando sobre as coisas da cidade fundada pelo Padre Cícero. Eis nossa homenagem e demonstração de que precisamos conhecer cada vez mais a História da cidade onde — dependendo do integrante da equipe do Berro — residimos desde sempre ou há algum tempo. É aqui onde estão nossos familiares, nossos amigos, inúmeros artistas e tantas outras "figuras" que merecem ser lembradas. Essas pessoas fazem parte da história do município criado na Lei 1.028, datada de 22 de julho de 1911, assinada por Antônio Pinto Nogueira Accioly, então Presidente do Ceará, que em seu Artigo Primeiro rezava que "a povoação do Juazeiro, da Comarca do Crato, é elevada à categoria de vila e sede de município, com a mesma denominação".

Mas conferimos nesses últimos 100 dias que a Lei foi apenas uma parte da história: Juazeiro tornou-se município através de um desejo popular — liderado, é verdade, por políticos, escritores, padres, fazendeiros e outros famosos habitantes do vilarejo — no anseio de ver o lugar escolhido pelo Padre Cícero trilhar sua história de oração e trabalho enquanto cidade com autonomia política.

Juazeiro e a saga d’O Berro pro Centenário

No último dia 13 de abril propagava-se pela cidade: "estamos a 100 dias do Centenário de Juazeiro do Norte". E foi exatamente naquele dia que O Berro deu a largada em mais um "projeto": fazer uma postagem sobre algo relacionado ao Juazeiro, diariamente, até o dia 22 de julho.

Excelente ideia, mas com um contexto dificultoso: todos os integrantes de O Berro trabalham ou estudam em áreas distintas, e ninguém da equipe vive de jornalismo, de História ou de algo "fácil" de conciliar com essa missão de pesquisar muitas coisas sobre o Juazeiro e disponibilizar no blog diariamente. Não seria fácil e não haveria tempo para isso. Mas a equipe estava empenhada na ideia, o compromisso estava firmado com os leitores e cumpriríamos a missão.

Vale o registro de que já havia uma ligação intrínseca entre o Centenário de Juazeiro e O Berro: a logomarca (que está no início desta postagem), que todos veem espalhada pela cidade, é obra do berrista Reginaldo Farias, vencedor de um concurso público para a escolha da marca que estamparia todos os festejos do Centenário. Portanto, O Berro (através da arte de Reginaldo) de alguma forma já estava ligado a cada evento que se relacionasse ao Centenário de Juazeiro do Norte.

Voltando ao assunto das postagens diárias: ainda na etapa de análises, colhendo ideias, imaginando o que poderia ser feito nos próximos 100 dias, o relógio corria e cada berrista tinha que virar um pouco Jack Bauer: 24 horas em busca de cumprir um objetivo, no caso, uma nova postagem sobre o Juazeiro. Aos trancos e barrancos, com uns dias sobrando assunto, noutros dias faltando ideias, prosseguimos na contagem regressiva. E agora podemos dizer: chegamos! 22 de julho de 2011 no calendário e 100 postagens no marcador "Centenário de Juazeiro do Norte". Tudo armazenado e à disposição no blog, só conferir!

Agora nos resta fazer um balanço e compartilhar com todos o que a equipe d’O Berro tirou dessa experiência. Primeiramente, registramos a satisfação de hoje sabermos um pouco mais sobre a rica (e curiosa) história de Juazeiro do Norte e termos a oportunidade de compartilhar isso com quem acompanhou nossas postagens ao longo dos 99 dias que antecederam essa data comemorativa. Através das pesquisas para cada novo assunto abordado, fizemos leituras, assistimos a vídeos e buscamos fotos, sempre aprendendo algo mais sobre o crescimento do município e da Região do Cariri.

Hoje percebemos, ainda mais, a fortuna simbólica que há nas manifestações no meio popular, na cultura, na religiosidade e na arte juazeirense. Não podemos ignorar a riqueza das histórias que revelam personagens míticos como Padre Cícero, Beata Maria de Araújo, Floro Bartolomeu, José Marrocos, etc. E cada um que faça seu julgamento, se esses e tantos outros personagens são heróis ou vilões, mas que o faça baseado no conhecimento de muitos episódios que ocorreram nas terras caririenses.

De épocas distintas, também devemos conhecer e admirar as histórias que surgem do povo e para o povo, gerando lendas, produzindo mitos: personagens como Príncipe Ribamar, Seu Lunga, Beato José Lourenço, Penitentes Aves de Jesus, e tantos outros. Adentrando no terreno artístico, a lista aqui não caberia: Mestre Noza, Mestre Nino, Assunção Gonçalves, Luis Karimai, Dr. Raiz, Carroça de Mamulengos, Mestre Bigode, Dona Maria do Horto, Ciço Gnomo, Reisados, Maneiro-pau, Stênio Diniz, José Lourenço, Pedro Bandeira, João Bandeira, Cego Oliveira (e demais rabequeiros), artesãos, bandas de rock (e outros estilos), Di Freitas, Zabumbeiros Cariris, Geraldo Júnior, Francorli, cordelistas (“mauditos” ou não), Petrônio Alencar e tantos outros que completariam muito mais do que uma lista centenária. Todos os que fazem atividades artístico-culturais em Juazeiro são os que realmente divulgam um município que cresceu graças à religiosidade popular, a arte e o trabalho de seu povo.

Mas durante a expectativa para a chegada do Centenário também falamos dos aspectos urbanos, sociais e políticos de Juazeiro. Assim como abordamos coisas positivas e curiosidades, também criticamos problemas antigos e atuais da cidade. Sempre com o pensamento de que, se quisermos valorizar algo e demonstrar que gostamos, não podemos fechar os olhos para os problemas existentes, observando que sempre algo melhor pode ser feito para acompanhar o curso do tempo.

Em momento algum O Berro tinha a intenção de elogiar ou criticar algo referente à corrente política A, B ou C. Como é sabido, muitas das vezes criticar uma ação da Prefeitura (seja da atual administração ou de antigos gestores do município) logo soa para muita gente como que "defendendo" ou "detonando" o trabalho por ser de determinado lado político. Cumprimos a missão do Centenário cientes do nosso compromisso com a nossa opinião, e nada mais: elogios quando merecidos, críticas quando necessárias! Até porque todos precisam abandonar a mesquinharia politiqueira de ficar aplaudindo os erros do correligionário e ficar caluniando as boas ações do "adversário" político. E o Berro tem a consciência tranquila de ter postado críticas e elogios sem mencionar políticos juazeirenses, por saber que qualquer gestor eleito é apenas um administrador do bem público, e não dono de Prefeitura, Câmara dos Vereadores, etc. Repetimos: tudo isso valendo para os antigos, os atuais e os que porventura um dia assumirem cargos públicos na cidade.

Depois desse blá-blá-blá todo, moral da história: hoje decretamos o “encerramento” das postagens no marcador “Centenário de Juazeiro” (que continuará à disposição dos leitores, que poderão ler todo o material postado durante os 100 dias).

O Juazeiro no blog O Berro daqui pra frente

Mas nosso trabalho de retratar o Juazeiro, sua cultura, sua arte e personagens não param por aqui neste blog. Lembremos que o dia do Centenário encerra a contagem regressiva, mas inicia um novo período: o verdadeiro ano do Centenário. Nos próximos 365 dias é que Juazeiro realmente estará ostentando 100 anos de emancipação política. Considerando tal fato, a partir de agora utilizaremos o marcador Arquivo Cariri para as postagens sobre o Juazeiro e sua história e o marcador Cariri para assuntos recentes da cidade — mas não seguiremos no ritmo de postagens diárias (ufa!), passando a publicar [sobre Juazeiro] esporadicamente.

O conteúdo do Blog voltará a ter uma maior diversidade de assuntos, já que, durante os 100 dias, muito da nossa energia estava voltada para o compromisso diário de abordar os assuntos sobre a cidade "sonhada" pelo Padre Cícero Romão Batista.

Agradecemos o apoio de tantos amigos e leitores que acompanharam as postagens e que escreveram comentários no blog ou nas redes sociais. Continuaremos dispostos a disponibilizar textos, fotos e vídeos e receber o retorno, as críticas, as sugestões e colaborações de todos, que sempre foram tão importantes para o prosseguimento do trabalho d’O Berro.

Bem-vindo ao ano do Centenário de Juazeiro do Norte!

Equipe O Berro:
Hudson Jorge
Luís André Bezerra
Reginaldo Farias
Xico Fredson
Ythallo Rodrigues

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quinta-feira, 21 de julho de 2011

Aniversário de emancipação política e Juazeiro décadas atrás

Centenário de Juazeiro do Norte # 99

Falta 1 dia para o Centenário de Juazeiro...

...e hoje mais uma vez recorremos ao baú editorial com escritos sobre a cidade para reproduzir textos que analisaram, em momentos distintos (1961 e 1980, respectivamente), a comemoração do aniversário da emancipação política de Juazeiro do Norte.

Interessante verificar nos textos que muita coisa mudou, pois em 1961, por exemplo, a grande novidade era a chegada da energia elétrica no dia do cinquentenário de Juazeiro (confira relato de Carlos Alberto Almeida Marques sobre esse dia no blog Juazeiro anos 60, clicando aqui, fonte da foto acima, com a Praça do Cinquentenário, construída para as comemorações de 1961 e localizada onde hoje fica o Memorial Padre Cícero). Mas também é importante notar que, independente da época, Juazeiro do Norte sempre apresenta o retrato do trabalho, de um caso singular de crescimento vertiginoso no interior Nordeste e da gratidão ao fundador e primeiro prefeito do município: Padre Cícero Romão Batista.

Os textos são de autoria de Dr. José de Souza Menezes e Dr. Possidônio Bem, e foram publicados na antologia Juazeiro do Padre Cícero, organizada por Raimundo Araújo e publicada em 1994.
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O Cinquentenário de Juazeiro do Norte
Dr. Possidônio Bem (1961)

A marcha vitoriosa de Juazeiro do Norte em 50 anos de existência operosa e fecunda estonteia o observador imparcial que estuda os acontecimentos humanos, serena e meticulosamente.

De um aldeamento minúsculo surgido em 1824, nucleando meia dúzia de homens pobre mas devotados, tendo à frente um sacerdote impoluto, Juazeiro foi se agigantando a olhos vistos na paisagem moral do Nordeste brasileiro.

A convergência de gente dos estados circunvizinhos — homens, mulheres e crianças — emprestou ao povoado inicial um tom de ascensão e prestígio deveras surpreendente. Em que pese a algumas crises que o assaltaram em sua marcha para o progresso, passando às vezes por momentos árduos e cruciais, Juazeiro, a “Meca Sertaneja”, cresceu no conjunto de suas habitações e na operosidade dos seus moradores, indiferente ao impacto do despeito e da incompreensão que lhe rondavam o destino.

Seus habitantes, na sua maioria, são elementos vindos de fora, romeiros simples e ordeiros, seduzidos pelo gesto acolhedor e amigo do Padre Cícero Romão Batista. Criou-se uma mística que lhe serviu de bússola. Iniciativas foram surgindo, tomando corpo e vivacidade, feito eco de acontecimentos e fatos inéditos com ressonância paradisíaca, à semelhança do velocino de ouro da lenda grega. Essa mística sentimental foi a alavanca impulsionadora do seu progresso e do seu esplendor. Pequenas oficinas manuais de ourives, carpintarias, cutelarias, movelarias, fábricas de relógio de campanário foram pontilhando a cidade, no ímpeto de espraiamento. Funda-mse escolas primárias, colégios, ginásios, Escola Normal Rural Modelo e vários núcleos isolados de ensino particular, formando uma cadeia admirável de alfabetização intensiva.

Nesses últimos tempos, com a extensão dos fios de Paulo Afonso à região caririense, a cidade se vai beneficiar largamente, mecanizando as suas indústrias e instalando outras novas que lhe darão maior vigor na escala ascensional. Seu comércio é dos maiores do Nordeste, constituindo-se empório respeitável e irradiando-se alentadamente por quase todas as unidades da federação. Ressente-se ainda de algumas deficiências no seu conjunto de cidade grande em meio à paisagem agreste de em torno.

Faltam-lhe saneamento, água canalizada, esgoto e outros melhoramentos de menor vulto. Esses problemas, no entanto, já começam a ser atacados com decisão e coragem, e dentro de poucos anos mais, todos os requisitos de uma cidade moderna estarão conquistados, e a Terra do Padre Cícero se colocará em paridade com os maiores centros interioranos do país.

Temos que reconhecer um fenômeno sócio-psicológico dificilmente apontado em nosso meio. É que o seu venerando fundador — o Patriarca nordestino — apesar de desaparecido, vai para vinte e sete anos, continua atuando no desenvolvimento da terra. Queiram ou não queiram os seus detratores, com julgamentos apressados ou eivados de despeito e ódio, a memória do Padre Cícero cresce dia-a-dia no coração do seu povo. A ele, o respeito, o acatamento, o carinho.

Fato singular, o apreço de hoje ao grande Patriarca não tem as cores do baixo fanatismo nem o tom cabalístico de taumaturgos improvisados. Reverencia-se a memória do sacerdote pela obra social e humana que implantou aqui, com desassombro e galhardia. E não é lícito macular uma figura realizadora e piedosa pelos simples pretextos de terem aparecido algumas nugas que não chegaram a empanar a sua obra evangelizadora e cristã, fruto de um coração generoso e de um espírito empreendedor. Tanto mais quanto os senões apontados correram à revelia do seu programa e foram por ele condenados.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

O dia da morte do Padre Cícero

Centenário de Juazeiro do Norte # 98

Como não poderia deixar de ser, hoje, dia 20 de julho de 2011, a dois dias do Centenário de Juazeiro do Norte, nossa postagem faz referência ao dia da morte do Padre Cícero. Foi no dia 20 de julho de 1934 (portanto, há 77 anos) que Juazeiro amanheceu com a notícia que logo se espalhou por todo o Vale do Cariri: o "Padim Ciço" falecera.

Mas, segundo a tradição romeira e de todos aqueles que têm na sua fé uma admiração pelo Padre Cícero, a crença é de que ele "não morreu", mas fez uma viagem aos céus para interceder em nome do humilde povo nordestino.

Outra tradição é a de grande parte da população de Juazeiro do Norte se vestir de preto no dia 20 de todos os meses. Muitos começam esses dias, inclusive, na Missa celebrada em homenagem à memória do fundador de Juazeiro do Norte.

Na nossa jornada sobre o Centenário de Juazeiro do Norte, em pelo menos três postagens temos algum tipo de referência ao falecimento do Padre Cícero e ao luto pela data de sua morte: na postagem # 03 temos a canção "Beata Mocinha", cantada por Luiz Gonzaga, falando sobre "a viagem feita pelo Padre Cícero", que foi "pedir proteção aos romeiros do Norte"; na postagem # 16 há um vídeo de D. Assunção Gonçalves, testemunha ocular do 20 de julho de 1934 em Juazeiro, relatando para as lentes de Daniel Walker como foi o dia da morte do Padre Cícero; e na postagem # 37 mais uma canção de Luiz Gonzaga, "Viva meu padim", que entoa os versos "olha lá no alto do Horto / ele tá vivo, o Padim não tá morto".

Nesta postagem # 98 apresentamos três textos que fazem referência à "partida" do Padre Cícero no dia 20 de julho. Inicialmente, um relato de Lourival Marques, filho de um dos secretários do Padre Cícero, que narra o que ele presenciou no dia do falecimento do Padre. O texto está reproduzido no livro Milagre em Joaseiro, de Ralph Della Cava (Editora Paz e Terra, 1976). E, na sequência, dois poemas de Pedro Bandeira e um de Dr. Edvan Pires, publicados na antologia Juazeiro poético (organizada por Raimundo Araújo), que destacam a vida, a morte e a saudade do Padre Cícero Romão Batista.
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Morte do Padre Cícero
Lourival Marques (1934)

Acordei pelo tropel de gente que corria pela rua. Fiquei sem saber a que atribuir aquelas carreiras insólitas. Quando cheguei à janela tive a impressão de que alguma coisa monstruosa sucedia na cidade. Que espetáculo horroroso, esse de milhares de pessoas alucinadas, correndo pelas ruas afora, chorando, gritando, arrepelando-se... Foi então que se soube... O Padre Cícero falecera... Eu, sem ser fanático, senti uma vontade louca de chorar, de sair aos gritos, como toda aquela gente, em direção à casa desse homem, que não teve igual em bondade e nem teve igual em ser caluniado.

Um caudal de mais de 40 mil pessoas atropelava-se, esmagava-se na ânsia de chegar à casa do reverendo. O telégrafo transbordava de pessoas com telegramas para expedição, destinados a todas as cidades do Brasil. Para fazer ideia, é bastante dizer que só em telegramas, calcula-se ter gasto alguns contos de réis. Logo que os telegramas mais próximos chegaram ao destino, uma verdadeira romaria de dezenas de caminhões superlotados, milhares e milhares de pessoas a pé, marcharam para aqui. Joaseiro viveu e está vivendo horas que nem Londres, nem Nova Iorque viverão jamais... O povo, uma onda enorme, invadiu tudo, derrubando quem se interpôs de permeio, quebrando portas, passando por cima de tudo. Pediu-se reforço à polícia, mas o delegado recusou, alegando que o Padre era do povo e continuava a ser do povo.

Arranjaram, no entanto, um meio de colocar o cadáver exposto na janela, a uma altura que ninguém pudesse alcançar e, durante todo o dia, várias pessoas encarregaram-se de tocar com galhos de mato, rosários, medalhas e outros objetos religiosos, no corpo, a fim de serem guardados como relíquias. Milhares de pessoas continuavam a chegar de todos os pontos, a pé, a cavalo, de automóvel, caminhão, de todas as formas possíveis.

Quatro horas da tarde... Surge no céu o primeiro avião do exército. Depois outro. Lançam-se de ponta para baixo, em voos arriscadíssimos, passando a dois metros do telhado da casa do Padre Velho. Duram muito tempo os voos. É a homenagem sentida que os aviadores prestam ao grande vulto brasileiro que cai... Desceram depois no nosso campo, vindo pessoalmente trazer uma riquíssima coroa, em nome da aviação militar.

A cidade é uma colmeia imensa; colmeia de 60 mil almas, aumentada por mais de 20 mil, que chegaram de fora. Nenhuma casa de comércio, de gênero algum, barbearias, cafés, bares, nada abriu. A Prefeitura decretou luto oficial por três dias. O mesmo imitaram as cidades do Crato, Barbalha e outras. Todas as sociedades e sindicatos têm o pavilhão nacional hasteado a meio-pau com uma faixa negra, em funeral.
(20 de julho de 1934)
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Cinquenta anos de saudade
Pedro Bandeira (1984)

Escrito por ocasião dos 50 anos da morte do Padre Cícero, em 1984.

Decantei a Natureza
Que é a quem mais me dedico
Falei da vida do rico
Cantei saudade e tristeza
Senti agora a surpresa
De uma nova inspiração
Era a voz do coração
Dizendo — poeta forte
Faça uns versos sobre a Morte
Do Padre Cícero Romão.

Subi à Serra do Horto
Chorando pelo caminho
Sem saber se meu “Padrinho”
Se encontrava vivo ou morto
Voltei sentindo o conforto
Da santa luz da verdade
Porque toda humanidade
Diz que quem morre p’ra o mundo
Nasce em menos de um segundo
P’ra história da eternidade.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Capítulos da independência de Juazeiro e a realidade décadas depois

Centenário de Juazeiro do Norte # 97

Hoje, dia 19 de julho, quando teremos um dia com lançamentos de livros sobre Juazeiro, no Memorial Padre Cícero, que foi o assunto da postagem # 96 do Centenário, destacamos mais uma vez um texto publicado na vasta bibliografia sobre o município.

O texto reproduzido nesta postagem é de autoria de Boaventura de Souza, professor e historiador com pesquisas e constribuições para a educação e produção editorial da Região do Cariri. José Boaventura de Souza faleceu em 2005 e hoje dá o nome a uma Praça na II Etapa do Bairro Tiradentes.

O texto "Independência de Juazeiro", publicado na antologia Juazeiro do Padre Cícero (de 1994), organizada por Raimundo Araújo, foi escrito em julho de 1992, por ocasião do 81º aniversário de emencipação política de Juazeiro. No relato do professor, temos a sequência dos fatos que culminaram na independência de Juazeiro e na posse do primeiro prefeito: Padre Cícero. No segundo momento do texto, temos uma análise da situação e das dificuldades de Juazeiro em 1992, refletindo sobre as dificuldades locais e a grave crise econômica do Brasil naquela época. Vale a pena conferir e refletir sobre o que avançamos, sobre o que permaneceu inalterado ou o que acabou piorando 19 anos depois da redação do prof. Boaventura de Souza.
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Independência de Juazeiro
Prof. Boaventura de Souza (julho de 1992)

Transcorre na data de hoje, o 81º aniversário de Emencipação Política de Juazeiro do Norte. Cidade que cresce graças ao espírito empreendedor do seu povo. Juazeiro é uma cidade legendária pelo toque místico e empreendedor do Patriarca Padre Cícero Romão Batista e seus seguidores em memoráveis momentos heroicos.

Nesta data em que comemoramos a criação do nosso município, a satisfação nos invade e a esperança se renova em uma Juazeiro dinâmica e progressista. Não temos dúvidas de que somos uma comunidade ordeira e forte, graças ao binômio trabalho e oração.

Vivemos em um difícil momento sócio-econômico em nosso país e, consequentemente, em Juazeiro, síntese nordestina. Para superação das dificuldades, Juazeiro muito tem batalhado e ainda terá muito que lutar, como fez no passado. Conhecer a nossa história é fundamental para motivar o nosso dia-a-dia na busca de metas maiores.

Relebremos os fatos, os momentos decisivos da nossa comunidade por um Juazeiro independente. O pesquisador Daniel Walker de Almeida Marques (Coordenador da Área de Documentação e Referência do IPESC) elaborou interessante trabalho sobre a Crononologia da Independência de Juazeiro:

16 de agosto de 1907. Circula um boletim convocando o povo do então povoado de Juazeiro para uma reunião, no dia 18 do mesmo mês, na residência do Major Joaquim Bezerra de Menezes. Segundo o Boletim, hoje uma peça histórica importante, a referida reunião, de “caráter cívico, sem cor política”, era uma necessidade que se impunha, portanto, era chegado o momento de se pugnar com alta energia e valor pela causa da elevação social, elevando Juazeiro à categoria de município. Oficialmente é esta data histórica que assinala o marco inicial da luta em prol da autonomia municipal de Juazeiro.

Maio de 1908. Chega a Juazeiro o médico baiano Floro Bartolomeu da Costa, um baluarte na luta pela Independência de Juazeiro.

18 de julho de 1909. Fundação do jornal “O Rebate”, primeiro jornal da imprensa juazeirense, editado sob a responsabilidade do Padre Alencar Peixoto. Este jornal contava também com a redação do Dr. Floro Bartolomeu e do Professor José Joaquim Telles Marrocos. Foi o principal porta-voz dos anseios de Emancipação Política de Juazeiro.

Agosto de 1909. Em virtude das declarações de Mons. Antônio Tabosa, em Crato, chamando os moradores de Juazeiro de “povo imundo guiado pelo satanás”, a população do povoado declara greve geral à economia do Crato. Os romeiros que trabalhavam em Crato, como domésticos ou agricultores, retornam a Juazeiro; os feirantes boicotaram a feira semanal de Crato; os artesãos recusaram-se a vender seus produtos na cidade e os juazeirenses, de um modo geral, deixaram de fazer compras em Crato. A situação só voltou à normalidade depois de cerca de um mês, graças à ação conciliadora do Padre Cícero.

14 de agosto de 1910. Em plena evolução do movimento pró-independência de Juazeiro, falece, repentinamente, para tristeza geral, o prof. José Marrocos. Até hoje as circunstâncias em que sua morte aconteceu não foram suficientemente conclusivas.

30 de agosto de 1910. No mesmo dia em que chegaram a Juazeiro as notícias da decisão negativa por parte da Câmara Estadual, no tocante à criação do município de Juazeiro, cerca de 15 mil pessoas reuniram-se na Praça da Liberdade (atual Praça Padre Cícero), para um movimentadíssimo ato público. Marcharam para a capela de Nossa Senhora das Dores, onde rezaram pela vitória do movimento; em seguida, saíram em ruidosa passeata até a redação do jornal “O Rebate”, onde ouviram a inflamada declaração de independência proferida pelo Padre Alencar Peixoto e Dr. Floro Bartolomeu, e daí percorreram diversas ruas, passando nas residências de José André, Cincinato da Silva e Padre Cícero, cantando e gritando palavras de provocação a Crato.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Lançamento de livros na Semana do Centenário

Centenário de Juazeiro do Norte # 96

Durante a semana de comemoração da chegada do Centenário de Juazeiro, vários eventos e solenidades estão agendados. E na noite da terça-feira, 19 de julho, o destaque será o lançamento de um pacote editorial com reedições de livros e também com trabalhos inéditos. O evento acontecerá no Memorial Padre Cícero, a partir das 19h.

Será uma oportunidade para muitos terem contato com os textos e autores que fazem um retrato histórico e literário da cidade de Juazeiro do Norte: suas tradições, sua religiosidade, seu povo e, claro, a figura do fundador do município, Padre Cícero Romão Batista.

Para conferir a lista de títulos que serão lançados no Memorial, veja a postagem do Blog do JuaOnline (clicando aqui), que destaca o evento e os livros que farão parte dessa festa editorial.

Ainda na postagem do JuaOnline, há um comentário enviado por Iderval Reginaldo Tenório, destacando a necessidade de divulgação da história de Juazeiro junto às novas gerações. Segundo Iderval, seria importante que os jovens estudantes juazeirenses tivessem contato com a história do município para, a partir de então, em alguns despertasse o interesse pela pesquisa sobre a história de Juazeiro e seu povo. Confira no Blog do JuaOnline.

Lançamento de livros - Coleção Centenário
Terça-feira, dia 19 de julho, às 19h
No Memorial Padre Cícero - Juazeiro do Norte-CE

domingo, 17 de julho de 2011

Versos de Patativa do Assaré saudando Juazeiro do Norte

Centenário de Juazeiro do Norte # 95
Embalado pra viagem # 32

Saudação ao Juazeiro do Norte

Patativa do Assaré

Mesmo sem eu ter estudo,
Sem ter do colégio o bafejo,
Juazeiro, eu te saúdo,
Com o meu verso sertanejo.
Cidade de grande sorte,
De Juazeiro do Norte
Tens a denominação,
Mas teu nome verdadeiro
Será sempre Juazeiro
Do Padre Cícero Romão.

O Padre Cícero Romão,
Que, por vocação celeste,
Foi, com direito e razão,
O apóstolo do Nordeste.
Foi ele o teu protetor,
Trabalhou com grande amor,
Lutando sempre de pé,
Quando vigário daqui,
Ele semeou em ti
A Simenteira da fé.

E com milagre estupendo
A Simenteira nasceu,
Foi crescendo, foi crescendo,
Muito ao longe se estendeu.
Com a virtude regada,
Foi mais tarde transformada
Em árvore frondosa e rica.
E com a luz medianeira
Inda hoje a simenteira
Cresce, flora e frutifica.

Juazeiro, Juazeiro,
Jamais a adversidade
Extinguirá o luzeiro
Da tua comunidade.
Morreu o teu protetor,
Porém a crença e o amor
Vive em cada coração.
E é com razão que me expresso:
Tu deves o teu progresso
Ao Padre Cícero Romão.

Aquele ministro amado,
Que tanto favor nos fez,
Conselheiro consagrado
E o doutor do camponês.
Contradizer não podemos
E jamais descobriremos
O prodígio que ele tinha:
Segundo a popular crença,
Curava qualquer doença,
Com malva branca e jarrinha.

Juazeiro, Juazeiro,
Tua vida e tua história
Para o teu povo romeiro
Merece um padrão de glória.
De alegria tu palpitas,
Ao receber as visitas
De longe, de muito além.
Grande glória tu viveste!
Do nosso caro Nordeste
Tu és a Jerusalém.

Sempre me lembro e relembro,
Não hei de me deslembrar:
O dia 2 de novembro,
Tua festa espetacular,
Pois vem de muitos Estados
Os carros superlotados
Conduzindo os passageiros
E jamais será feliz
Aquele que contradiz
A devoção dos romeiros.

No lugar onde se achar
Um fervoroso romeiro,
Ai daquele que falar,
Contra ou mal, do Juazeiro.
Pois entre os devotos crentes,
Velhos, moços, inocentes,
A piedade é comum,
Porque o santo reverendo
Se encontra ainda vivendo
No peito de cada um.

Tu, Juazeiro, és o abrigo
Da devoção e da piedade.
Eu te louvo e te bendigo
Por tua felicidade,
Me sinto bem, quando vejo
Que tu és do sertanejo
A cidade predileta.
Por tudo quanto tu tens
Recebe estes parabéns
Do coração de um poeta.
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Patativa do Assaré, no livro Inspiração nordestina: cantos de Patativa (Editora Hedra, 2003).

sábado, 16 de julho de 2011

Clássico Icasa X Guarani disputado em versos

Centenário de Juazeiro Norte # 94

Todos sabemos que a grande rivalidade do futebol juazeirense é entre o Icasa (Verdão do Cariri) e o Guarani (Leão do Mercado). Atualmente os dois times costumam marcar presença no campeonato cearense da primeira divisão e estão disputando o Campeonato Brasileiro.

O Icasa está no Brasileirão da Série B, pela segunda vez na história. A campanha não tem sido boa, figurando entre os quatro times da zona de rebaixamento. Mas ainda tem muito campeonato pela frente e se espera que o Icasa pelo menos faça valer a força de jogar em casa e vencer as partidas no Romeirão para, pelo menos, prosseguir na Série B. Daqui apouco o Icasa enfrentará o Grêmio Barueri, em São Paulo.

O Guarani, em decorrência da excelente campanha no Campeonato Cearense 2011 (que foi assunto na nossa postagem # 26), ganhou pela primeira vez uma vaga para a disputa do Campeonato Brasileiro Série D. Amanhã o time fará a estreia no Estádio do Romeirão, contra o Santa Cruz-RN.

Alguns juazeirenses que acompanham futebol, independente de sua torcida ser para uma equipe ou para a outra, esperam o sucesso das duas equipes nas competições nacionais. A justificativa lógica é a torcida para melhores dias no futebol juazeirense. Que as equipes rivalizem de forma saudável por melhores campanhas, mas que elevem o nome de Juazeiro do Norte na esfera futebolística.

Mas hoje entramos no túnel do tempo para conferir uma "disputa em versos" de torcedores do Guarani e do Icasa. Os poemas foram escritos no início dos anos 1970, quando a rivalidade restringia-se apenas ao campeonato juazeirense de futebol. O Guarani havia vencido a última disputa em 1964, e de 1965 até 1972 todos os títulos ficaram com o Icasa. Dr. Mozart de Alencar exaltou o Guarani e recebeu de volta os versos irônicos de Leofredo Pereira, que motivaram uma tréplica. Os poemas foram publicados na antologia Juazeiro poético, de 1988, organizado por Raimundo Araújo. Confira os versos e veja que essa rivalidade vem de longe.


Ode ao "Leão do Mercado"
(Dr. Mozart de Alencar)

Disfarçando a força enorme,
Calmo, tranquilo ele dorme
Nas selvas do seu prestígio;
Mas, quando solto, o "Leão",
Na arena do Romeirão
A fera é aquele prodígio!

Rosna! Ruge! Estruge! Esturra!
É o sinal de morte ou surra
Dado ao frágil inimigo.
Afia as garras potentes,
Mostra as fileiras dos dentes
Para à presa dar castigo.

Quanto um time, aqui, de casa,
"Ceará, Treze, Infante ou Icasa",
Dos túneis do campo, assoma,
Dê por visto, ante o "Leão",
Um condenado cristão
No cir'lo da antiga Roma.

Hoje, outros Neros, aos vivas,
— Os das cadeiras cativas
E os lá das arquibancadas —
Vibram palmas ao "Leão"
Quando abate o Campeão,
"Icasa", por goleadas!

Salve! "Leão do Mercado"!
Rubro-negro idolatrado
Que da "Liga" é o "Guarani"!
No futebol — o primeiro,
Na terra de Juazeiro,
Na zona do Cariri!
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Triste partida
(Leofredo Pereira)

Resposta aos versos que lhe enviou o poeta Mozart de Alencar

Ai, ai, ai
Passamos sei anos
Sem ser campeão,
Chegamos ao sétimo
— Que decepção!
Meu cachorro hippie
Cresceu o cabelo
E resolvi tê-lo
Como meu Leão.

Ai, ai, ai,
O meu "Papagaio"
De estimação
Fugiu de repente
Da minha mansão.
Um dia encontrei-o
Cheio de "estrelas"
E muitas centelhas
Lá no "Romeirão".

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Em Juazeiro Collor fez o famoso discurso: "nasci com aquilo roxo!"

Centenário de Juazeiro do Norte # 93

A consolidação de Juazeiro como a "capital da fé do Nordeste" traz inúmeros benefícios à cidade, como o crescente turismo religioso e, consequentemente, o aquecimento da economia local por conta das romarias. E o fato de atrair tantos romeiros traz na esteira outras visitas inevitáveis: as de políticos querendo o contato direto com milhares e milhares de romeiros nas ruas e igrejas de Juazeiro do Norte.

No histórico de candidatos à presidência da república que visitaram Juazeiro do Norte, Fernando Collor de Melo foi um dos que mais esteve na terra do Padre Cícero, desde o tempo em que era Governador do Estado de Alagoas (já que muitos romeiros vêm daquele estado). Na campanha presidencial de 1989, Collor fez passeatas e comícios em Juazeiro, ao lado do "trunfo religioso" Frei Damião. Jogada certeira de marketing político, atraindo a simpatia de devotos católicos nordestinos. E sabemos o desfecho daquela eleição: Collor foi eleito presidente, vencendo no segundo turno Luiz Inácio Lula da Silva.

Mas o episódio que queremos destacar aqui ocorreu em Juazeiro quando Collor já (ou ainda) era o Presidente da República. Na manhã do dia 3 de abril de 1991, uma quarta-feira, cerca de 30 mil pessoas se espremiam na Praça do Memorial Padre Cícero para assistir ao discurso do Presidente Collor, que estava destinando, naquela época, milhões de cruzeiros (moeda da época) para o crédito no Nordeste, outros milhões para frentes de trabalho no Ceará, outros tantos para drenagem de rios em Fortaleza e mais uma verba de mais de 6 bilhões para saneamento em Juazeiro do Norte.

Acontece que nem tudo foi festa. Nem só de juazeirenses agitando bandeiras em verde e amarelo estava formado o público. Manifestantes de partidos de esquerda e de centrais sindicais marcaram presença, esperando o Presidente aparecer para hastear faixas com dizeres como "pela derrubada do Governo Collor" (o que na época a Revista Veja chamou de "slogan imbecil") e gritar coisas como "queremos Collor fora do Brasil". Logo começou a confusão: secretários do Governo e os seguranças da presidência partiram para o ataque, começando uma guerra de socos e pontapés, com vários feridos (incluindo ruptura do baço de um manifestamte, quebra de dente de outro, etc.).

No palanque, mesmo com a presença de Frei Damião, o clima também não era dos mais amistosos. Além da presença do então prefeito de Juazeiro, Carlos Cruz, estavam outras autoridades, como o Governador do Ceará, Ciro Gomes. A história conta que Ciro Gomes e Fernando Collor subiram no palanque após uma discussão entre eles: na versão de Ciro, Collor queria uma parceria com o Ceará com indícios de irregularidade, o que teria sido negado pelo governador; já Collor conta que Ciro Gomes estava com medo dos manifestantes do PT e da CUT.

O fato é que todo esse clima tenso foi parar no discurso do Presidente Collor, que acabou improvisando, não só no conteúdo do discurso como na linguagem utilizada, o que propiciou um discurso inflamado (sem trocadilhos). O trecho mais conhecido da fala foi o que diz que ele nasceu "com aquilo roxo" (maquiando um pouco a expressão popular "saco roxo"), que ganhou repercussão em todo o Brasil, anos depois virou até joguinho pra computador e entrou para a história como uma fala raivosa (ou hilária?) do mandato de Fernando Collor: "nem tenho medo de assombração, nem tenho medo de cara feia, isso o meu pai já me dizia, desde que eu era pequeno, que eu havia nascido com aquilo roxo, e tenho mesmo, para enfrentar todos aqueles que querem conspirar contra o processo democrático".

Juazeiro, então, acabou ganhando repercussão nacional com mais esse episódio. E pode-se dizer também que foi um dos primeiros protestos explícitos de grande divulgação contra o Governo Collor, que somente um ano mais tarde ganharia "forma organizada" com os "caras-pintadas", que marcharam por vários cantos do país. Resta saber se depois do impeachment a Revista Veja continuou chamando de "slogan imbecil" o pedido de afastamento de Collor da Presidência.
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Leia abaixo o discurso de Fernando Collor em Juazeiro do Norte, no dia 3 de abril de 1991, publicado na edição do dia seguinte do jornal Folha de São Paulo:

"Minha gente amiga do Juazeiro, minha gente amiga do Ceará, há mais ou menos um ano atrás, eu aqui estive, em Juazeiro, caminhei do campo de pouso até o Franciscano, junto com milhares de vocês, para trazer a mensagem de paz, a mensagem de futuro, a mensagem de esperança para todos vós nordestinos.

Naquela data, em que aqui estive, o nosso frei Damião comemorava seus 91 anos, e eu me lembro bem que, quando entramos no Franciscano, havia um bolo muito bonito, preparado para frei Damião, em cima do bolo, uma imagem de São Francisco; depois que cantamos os parabéns para frei Damião, e depois que ele cortou uma fatia do bolo, ele retirou a imagem de São Francisco, entregou-a a mim dizendo: ‘Presidente, eu quero que esta imagem lhe acompanhe até o palácio do governo’, e lá está São Francisco, ainda hoje na minha sala.

Dizia também a Frei Damião que, se eleito presidente, pela vontade soberana da imensa maioria do povo brasileiro, eu voltaria aqui a Juazeiro, para agradecer a cada um de vocês a extraordinária vitória que concederam ao jovem candidato a presidente, do Nordeste, Fernando Collor.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Cultura - Tradição Resistente

Centenário de Juazeiro do Norte # 92

Paralelo ao turismo religioso, a cultura popular traz ao Juazeiro e ao Cariri muitos interessados nos nossos mestres da tradição oral. São reisados, lapinhas, maneiros paus, bacamarteiros e tantas outras manifestações de nossa cultura. A maioria desses mestres vive na periferia de nossa cidade, talvez por isso, oculto da vista de nossos governantes que, esporadicamente, aproveitam o brilho desses "brincantes" para se mostrarem.

Para esses verdadeiros "guerreiros" prestamos homenagens. Agradecendo-lhes o esforço por manterem acesa a alma de nossa gente através de sua arte e tradição.

Abaixo, uma mostra com o Grupo de Reisado Feminino de Mestre Aldenir que, embora sendo do Crato, representa bem esses grupos de Juazeiro e da região.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Juazeiro também tem rock!

Centenário de Juazeiro do Norte # 91

No dia mundial do rock (13 de julho), nossa postagem do Centenário de Juazeiro faz uma homenagem a toda turma que anda de preto, mas não apenas no dia 20 de cada mês (como fazem os devotos do Padre Cícero em sinal de luto). Mesmo com o calor infernal nas terras juazeirenses, a turma segura a onda e veste preto em nome do rock'n'roll. Mas claro que ficar apenas na "camisa preta" é cair no estereótipo, e estamos longe de querer isso...

Em Juazeiro, um dos pontos tradicionais para encontrar a turma que aprecia várias vertentes do rock é a loja Porão Rock, com 20 anos de história sob a antenada gerência de Welson. Quem percorria a Galeria Zé Viana nos anos 90 estava acostumado a passar em frente à Porão com um alto e bom som e uma turma falando sobre música. De lá para cá a Porão passou por alguns endereços e hoje conta com duas lojas: uma em frente à Prefeitura (na Rua Carlos Gomes) e outra na Rua da Conceição, provando que há um público consumidor de discos, camisas e outros acessórios relacionados ao rock e ao skate.

Welson também realiza, esporadicamente, eventos de rock na região do Cariri. Alguns eventos já trouxeram bandas de fora do Ceará, como o caso do Almah, em 2008, e do Sepultura, em 2009, e muitos outros dão destaque às bandas caririrenses.

E por falar em banda local, nossa citação vai para a banda de heavy metal mais antiga do Cariri cearense. Formada em Juazeiro, em 1992, com o nome de StormBringer, a atual Glory Fate trilha um caminho que garante aos integrantes da banda a alcunha de "dissonauros do rock caririense". A banda já lançou dois cds de estúdio, com composições próprias: Tears of Freedom, de 2001, e Bad Moon Rising, de 2006.

A Glory Fate já teve incontáveis formações, mas sempre tendo à frente o guitarrista Michel Macedo, incansável com a sua banda mais antiga e também na arte de formar novas bandas, diversificando as opções para shows no Cariri (blues, hard rock, Beatles Cover, etc.)

E para fechar esse falatório sobre rock, nada melhor do que curtir o som de bandas caririenses. Primeiramente a Glory Fate e, na sequência, a Dr. Divine.

Glory Fate


Dr. Divine

terça-feira, 12 de julho de 2011

Programação musical para a festa do Centenário

Centenário de Juazeiro do Norte # 90

Panem et circenses

Agora, saiba
Ivete Sangalo tem o 2º cachê mais caro do País: R$ 350 mil (isso em 2007. Imagine hoje em dia);

César Menotti e Fabiano. Cachê R$ 220 mil reais por show no Distrito Federal.

Somando-se somente os cachês de Ivete Sangalo e da dupla Cesar Menotti e Fabiano, mais custos de produção (estrutura de luz e som, transporte, hospedagem em hotel de luxo e alimentação), uma extravagância dessas não deve sair por menos de R$ 800 mil.

Agora, pense:
Quantos mutirões de saúde podem ser feitos com essa grana toda?

A quantidade de remédios que podem ser comprados?

Quantas ambulâncias equipadas?

Agora, preste atenção:
Paralisação dos servidores da Saúde e Educação de Juazeiro do Norte (CE) completa um mês

Agora, reflita:
Qual ação que a prefeitura de Juazeiro do Norte vai realizar com os verdadeiros artistas desta terra (músicos, atores, artesãos, escritores e artistas plásticos)? Dessa dinheirama toda vai rolar alguma esmolinha para eles?

Agora, poeira... levantou poeira...
Aí, meu caro juazeirense, a receita é simples. Você que vem há pelo menos um mês tentando vacinar um filho seu, ou que tenta, em vão, ser recebido por um médico e/ou que não encontra o remédio receitado em um posto de distribuição, sequer numa farmácia popular, deleite-se com a programação musical do centenário...

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Juazeiro em fotos: antes e depois 05

Centenário de Juazeiro do Norte # 89

Seguindo o conteúdo das postagens # 33, # 36, # 54 e # 59 do Centenário, hoje disponibilizamos outras montagens que mostram espaços de Juazeiro em fotos antigas e os mesmos espaços fotografados atualmente, em 2011. Clique nas imagens para ampliá-las.





domingo, 10 de julho de 2011

O poder político no Cariri após a emancipação de Juazeiro

Centenário de Juazeiro do Norte # 88

Hoje lançamos mão de um tópico do livro Milagre em Joaseiro (Miracle at Joaseiro - tradução de Maria Yedda Linhares), escrito por Ralph Della Cava, historiador norteamericano.

O livro é um dos principais estudos sobre o mito religioso do Padre Cícero, e foi publicado originalmente em 1976 (pela editora Paz e Terra). O texto é a tese de doutoramento de Ralph Della Cava e uma das grandes referências em pesquisa sobre a atuação religiosa e política do fundador de Juazeiro do Norte.

O tópico escolhido para ser aqui reproduzido é o "Balanço do poder: Joaseiro e o Cariri", que integra o capítulo 9 ("Joaseiro no Plano Nacional"). No fragmento selecionado, o autor faz considerações sobre a importância política do Juazeiro e do Cariri no cenário político cearense entre os anos de 1914 e 1934, destacando a influência política de Floro Bartolomeu e Padre Cícero. Mostra também como o Crato e o Juazeiro dividiram uma liderança política e econômica no Cariri, fazendo com que a região virasse um ponto importante para as negociações políticas estaduais e até mesmo nacionais.
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Balanço do poder: Joaseiro e o Cariri
Ralph Della Cava

É inegável que Joaseiro lucrou, a curto prazo, com a “revolução” [a Sedição de Juazeiro]. No final de 1914, a Assembleia do Ceará deu ao município o estatuto de distrito judicial autônomo (comarca). Concedeu a Joaseiro, também, o seu próprio Juiz de Paz e um tabelião público (ou cartório de notas), talvez a instituição jurídica mais importante da República Velha. Em síntese, a revolução de 1914 completara, no mínimo, o processo de libertação de Joaseiro com relação ao Crato: a autonomia notarial e judiciária conquistada em 1914 confirmou a vitória política de 1911. Agora, em pé de igualdade, Joaseiro e Crato, apesar das repetidas tensões, assumiram a liderança conjunta do Vale. Barbalha, que tinha aspirado a essa participação com o Crato, entrou numa fase de longa decadência, da qual só começou a sair em 1960. No Crato, o cel. Antônio Luís também retomou o poder, na qualidade de prefeito e deputado estadual. A partir daí, sua amizade pessoal e aliança política tácita com o Patriarca e Floro foram muito importantes para evitar que se extravasasse o ressentimento do Crato, especialmente quando Joaseiro assumiu, gradativamente, a posição dominante que hoje ocupa na história contínua dessas duas cidades.

Entre 1916 e 1926, o eixo Joaseiro-Crato dominou o Vale do Cariri. Suas unidades do Partido Conservador deviam menos aos Accioly (como havia sido nos primeiros anos do século) do que ao prestígio político do Padre Cícero. Como vice-governador do Ceará (nas eleições de 1914, passou de terceiro a primeiro vice-governador), como líder real ou fictício da revolução, como distribuidor de favores políticos e de mão-de-obra barata em todo sertão, o Patriarca era coberto de deferência pelos coronéis do Cariri. Somente com seu conselho, eles nomeavam as autoridades locais, apoiavam os candidatos a deputado estadual e federal; e somente com o seu endosso eles solicitavam subsídios governamentais para obras públicas e desenvolvimento econômico. De fato, até 1926, foi concedido ao Patriarca, pelas instáveis coligações governamentais do Ceará, considerável mandonismo local em troca de seu apoio e patrocínio eleitoral. Em contrapartida, o Patriarca — ladeado por Antônio Luís e Floro Bartolomeu — usou sua influência em prol do Joaseiro e do Vale do Cariri.

Não resta dúvida de que o Cariri tinha, finalmente, alcançado um considerável poder de barganha dentro da política cearense. Durante as quase quatro décadas anteriores recebeu poucos benefícios de Fortaleza. Seus impostos, entretanto, destinavam-se a asfaltar e a iluminar as ruas da capital, assim como fornecer à classe média de comerciantes do litoral esgoto, água potável, bondes, teatros, novas igrejas, luxuosos clubes particulares, hospitais, clínicas e cinemas. O Cariri, durante muito tempo, clamou contra essa desigualdade, o que explica, em parte, por que os comerciantes do Vale sempre preferiram negociar com a praça de Recife. O porto de Recife, por estar mais perto da Europa e do Sul industrial do que Fortaleza, oferecia mercadorias a preço mais baixo; maiores facilidades de transporte dentro de Pernambuco reduziam os custo do comércio de varejo no interior. Apesar do comércio natural que existia entre o Vale e o litoral pernambucano, era o poder político e fiscal da eqüidistante Fortaleza que muito tirava do Vale e pouco retribuía.

sábado, 9 de julho de 2011

"Os romeiros de Padre Cícero" no Sem Fronteiras da Band

Centenário de Juazeiro do Norte # 87

Na década de 90, o programa Sem Fronteiras (da Band) exibiu o documentário "Os romeiros de Padre Cícero", de 1994, dirigido por Eduardo Coutinho.

Disponibilizamos um grande trecho do documentário dividido em duas partes. Em destaque os depoimentos de d. Assunção Gonçalves, Padre Murilo, Penitentes Aves de Jesus, além de moradores de Juazeiro e romeiros que visitam a cidade do Padre Cícero.

Parte 1:


Parte 2:

sexta-feira, 8 de julho de 2011

A tradição do Cordel em destaque na TV Brasil

Centenário de Juazeiro do Norte # 86

Na postagem # 65 e na postagem # 76 do Centenário disponibilizamos dois textos de Gilmar de Carvalho contando um pouco da história da Tipografia Lira Nordestina (a antiga Tipografia São Francisco) e dos xilógrafos de Juazeiro do Norte.

Destacamos a tradição da Literatura de Cordel e da xilogravura, como expressões das mais representativas da arte produzida em Juazeiro do Norte.

Hoje disponibilizamos um trecho do programa "Cultura ponto a ponto", da TV Brasil, em edição sobre tipografias brasileiras, que destacou a Lira Nordestina, com participação do xilógrafo José Lourenço e da cordelista Maria do Rosário Lustosa.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

122 anos de romarias em Juazeiro do Norte

Centenário de Juazeiro do Norte # 85

Segundo relato do livro Padre Cícero: poder, fé e guerra no sertão, de Lira Neto (Cia. das Letras, 2009), foi no dia 7 de julho de 1889 que, pela primeira vez, chegou a Juazeiro uma grande quantidade de fiéis atraídos pelos relatos da hóstia transformada em sangue na boca da Beata Maria de Araújo.

O fato, portanto, antecede a emancipação política de Juazeiro, mas não pode passar despercebido em todo o processo de crescimento do município, pois daqueles dias até a atualidade, o Padre Cícero e as romarias são responsáveis diretos pelo crescimento da cidade de Juazeiro do Norte. Para entender o processo que motivou o início das migrações à terra do Padre Cícero, confira outra postagem do nosso blog clicando aqui.
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Abaixo segue trecho do relato de Lira Neto sobre a "primeira romaria" com destino a Juazeiro:

"(...) Moradores das cidades e localidades mais próximas chegavam de forma espontânea ao minúsculo povoado, atraídos pelas narrativas que davam conta do sangue de Jesus Cristo derramado em pleno agreste. Mas foi em 7 de julho, um domingo que marcava o ápice da tradicional festa cristã do Precioso Sangue, que Juazeiro assistiu pela primeira vez à chegada maciça e ordenada de milhares de peregrinos. Foi a primeira de todas as romarias. Naquela manhã, cerca de 3 mil pessoas — quase dez vezes a população do lugarejo — apinharam-se nas estreitas e diminutas ruelas do local. A maioria era proveniente do Crato e vinha sob as bênçãos expressas do novo reitor do seminário, monsenhor Francisco Rodrigues Monteiro. Conhecido pela oratória inflamada, monsenhor Monteiro conduziu uma procissão até a capela Nossa Senhora das Dores, naquele dia adornada com velas, flores e fitas coloridas. AO término da missa, com sua autoridade clerical e o estilo ardoroso de sempre, Monteiro fez um sermão histórico, durante o qual exibiu, com gestos arrebatados, uma toalha manchada de sangue. Segundo ele, não havia dúvidas de que aquele era o verdadeiro sangue de Jesus Cristo. (...)"
(Lira Neto, em Padre Cícero: poder, fé e guerra no sertão)

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Dois sonetos em homenagem ao Príncipe Ribamar

Centenário de Juazeiro do Norte # 84Embalado pra viagem # 30

Na postagem # 83 do Centenário, divulgamos um texto de José Wilker falando sobre o Príncipe Ribamar.

Hoje recorremos à antologia Juazeiro poético, organizada por Raimundo Araújo e lançada em 1988, e reproduzimos dois poemas que homenageiam o Príncipe.








Príncipe Ribamar
(Ivan Fernandes Magalhães)

Os filtros narcotizantes do amor
Que lhe injetaram na alma rudemente,
Minaram de tal forma a sua mente,
Que o fizeram um vulgar mercador

De sonhos! Viveu com tanto ardor
O seu papel de Príncipe Demente,
Que até uma Gioconda irreverente
Encheu o seu palácio de esplendor!

Seus éditos, chulos e sem graça,
Eram lidos em voz alta, na praça,
E riam todos de suas loucas visões...

Somente eu, Príncipe, não ria de ti,
— Porque como tu, eu também vivi,
Qual mercador de sonhos e ilusões!...
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Sua Majestade
(Eduardo José P. de Matos)

Com títulos de reinos incabíveis
Guardados em finíssimo escrínio,
Ribamar sonha com tronos e domínio.
— Coisas humanamente impossíveis —

Seus tesouros são tão inconcebíveis...!
Próprios das mentes em legal declínio.
Traz dragonas na roupa irreconhecíveis
E medalhões com brilho em extermínio.

Fala em realizações impraticáveis,
Tem ideias obscuras, inviáveis...
E as defende com têmpera sincera.

Por Príncipe, conhece-o a cidade.
E o povo que lhe deu a majestade,
Deu-lhe as chaves argênteas da quimera.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Príncipe Ribamar, o sonhador de Juazeiro

Centenário de Juazeiro do Norte # 83

Juazeiro do Norte possui na sua história figuras populares que ficaram conhecidas por sua arte, por atuações religiosas e algumas por serem consideradas sonhadoras, fazerem da imaginação uma ponte para uma vida mais mágica, menos burocrática, menos tediosa. Quem viveu na cidade até umas duas décadas atrás relata várias histórias de pessoas que circulavam pelas ruas e viviam nesse universo mágico do sonhar, sendo incompreendidas pelo mundo restritivamente "lógico", recebendo apelidos, sendo alvo de chacotas e outras invencionices em prol da "brincadeira".

Um dos personagens que entrou para a história de Juazeiro sob este prisma foi o Joaquim Gomes Menezes, que ficou conhecido na cidade pela alcunha de Príncipe Ribamar da Beira Fresca. Em texto (clique aqui para lê-lo), o escritor Daniel Walker afirma que o Príncipe Ribamar "era apenas um sonhador, um visionário, uma figura popular da cidade de Juazeiro do Norte e pessoa muito querida por todos que o conheceram". Por sua vez, o professor, historiador e sociólogo Titus Riedl classifica-o como "o personagem mais rico da história de Juazeiro".

Em vários relatos sobre o Príncipe Ribamar temos o depoimento de que se tratava de um exímio carpinteiro, que abandonou a profissão para perambular pelas ruas de Juazeiro e mostrar as condecorações recebidas, simbolizadas em medalhas penduradas na sua incrementada vestimenta. O Príncipe Ribamar faleceu em 1978 e hoje nomeia uma rua no bairro Carité, em Juazeiro.

Logo abaixo, reproduzimos um belo texto do ator juazeirense José Wilker, relatando histórias do Príncipe Ribamar e defendendo que o Aeroporto Regional do Cariri deveria se chamar "Príncipe Ribamar". Entenda o motivo no texto.
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O Príncipe Ribamar
José Wilker

(extraído da Revista Globo Rural, 1995, e republicado na edição 85 do JuaOnline, de 7 de janeiro de 2007)

Imagine uma pequena cidade do interior do Ceará aí pelos primeiros anos da década de cinquenta. Imagine Juazeiro do Norte nessa época. Aconteceu lá isso que vou contar. Pode ser que não tenha sido assim, mas é assim que eu me lembro e é assim que eu conto.

Havia lá um príncipe que se chamava Ribamar. Sempre vestido em seu traje de gala, todas as condecorações derramadas no peito, a solenidade atrapalhada pelas sandálias de dedo e um chapéu-coco. Com chuva ou com sol, ele descia a Rua Grande de Juazeiro todas as tardes, vindo de lugar nenhum e indo para nenhum lugar. Debaixo de um guarda-chuva branco, ele passeava sua solidão. É que o príncipe era noivo. A noiva morava num lugar distante, do outro lado do Oceano Atlântico. A viagem era uma aventura e ela demorava a chegar. O navio em que ela vinha, ele contava, enfrentando piratas, dragões, sereias e a inveja de outros príncipes preteridos, tardava, mas o amor era imenso e o mar pequeno. Ela, estava escrito, um dia chegaria.

Conheci o príncipe já perto dos anos 70 e, diziam, desde jovem ele esperava. A quem lhe perguntasse ou duvidasse, ele exibia as apaixonadas cartas de amor que ela escrevia e, para os mais incrédulos, o seu retrato. Com dedicatória: ao príncipe do meu coração, todo o amor da sua Gioconda da Vinci. O príncipe Ribamar era noivo da Gioconda, de Leonardo da Vinci.

Para muitos, o príncipe era maluco, um pobre coitado com o cérebro derretido pelo sol do sertão. Riam dele, roubavam e escondiam o retrato da Gioconda. Nestes momentos, o príncipe se imobilizava, uma explosão de dor o congelava. Eu me lembro dele, assim privado da sua amada, feito uma estátua no meio da praça. Parecia tão triste e ausente de si que, eu juro, flutuava a meio metro do chão, pendurado no guarda-chuva branco. Quando uma alma boa lhe devolvia seu bem mais precioso, a felicidade saltava dos seus olhos como um raio na tempestade. Talvez ele fosse realmente louco. Mas uma loucura que fazia nascer uma tal felicidade e uma felicidade que vinha de um amor tão grande me deixavam na dúvida.

E, um dia, a dúvida se dissipou. Cansado do descrédito e do deboche em relação ao seu noivado, ele decidiu apressar seu encontro com a noiva. Chega de navios, ela viajará por via aérea. Para uma plateia de invejosos, ele leu o telegrama: “embarco hoje Roma-Juazeiro vg via Panair do Brasil pt amor pt Gioconda da Vinci”. Depois de um silêncio cheio de ironias, alguém perguntou: e o avião desce onde? Foi quando o príncipe resolveu construir um aeroporto. Depois de um tempo lutando para conseguir adesões, argumentando com uns e com outros para que lhe ajudassem a preparar o terreno, montou uma pequena tropa de trabalhadores e começou a construção. Havia quem trabalhasse apenas por farra, mas o príncipe não tentou enganar ninguém. Todos seriam pagos. Afinal, trazia na sua bagagem o tesouro do seu dote. Ribamar, sem nenhuma ambição material, todo amor, prometia dividir aqueles bens entre o que o ajudaram.

Um belo dia, o aeroporto ficou pronto. Ou melhor, uma longa clareira aberta no Vale do Cariri, delimitada de um lado por um jardim plantado com capricho e, de outro, por um pomar onde faziam sombra juazeiros e mangueiras. E Ribamar esperou com seus companheiros. Os dias se passaram, os companheiros se foram e ele continuou esperando, só. Não sei quanto tempo ele esperou. Na cidade, ninguém mais falava ou lembrava dele. De repente, num domingo de sol nordestino, Ribamar reapareceu. Todo de branco, com aquele ar de quem viu Deus, dirigiu-se para a Matriz de Nossa Senhora das Dores, ajoelhou-se diante do altar e esperou. Aparentemente ia se casar. Ninguém se preocupou com ele. Foi esquecido e lá dormiu. Na manhã seguinte segurando um buquê, caminhava de volta para sua casa, que ninguém sabia onde era. Depois desse dia, não o vi mais. Minha família mudou-se para Recife e, durante muito tempo, Juazeiro era uma lembrança, nada mais. Nunca mais soube do Ribamar. Entretanto, o atual aeroporto de Juazeiro do Norte, trazido pelo progresso, foi construído sobre o terreno aberto por Ribamar para a chegada da sua Gioconda. Eu acho que, por justiça, deveria ser chamado de Aeroporto Príncipe Ribamar.
José Wilker, 1995

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Apresentação da Dr. Raiz no Horto, em 2009

Centenário de Juazeiro do Norte # 82

Em 2009, a banda Dr. Raiz subiu a Serra do Horto, em Juazeiro do Norte, para fazer uma apresentação especial para o programa Som na Rural, da TV Brasil.

Disponibilizamos os vídeos da banda juazeirense tocando — com a escadaria e a estátua do Padre Cícero servindo de cenário — as canções "Presságio", "Borboletas azuis" e "Bendito seja".

"Presságio":


"Borboletas azuis":


"Bendito seja":

domingo, 3 de julho de 2011

Versos de João Bandeira em homenagem ao Mestre Nino

Centenário de Juazeiro do Norte # 81

Já abordamos nas postagens sobre o Centenário de Juazeiro, a tradição da cidade na produção de literatura de cordel, xilogravura, artesanato, etc. E nesta postagem recorremos à junção de literatura e escultura: trata-se da publicação de versos de João Bandeira de Caldas em homenagem ao escultor Mestre Nino (foto), por ocasião de seu falecimento, em 2002.

O poema está na edição comemorativa O estro de um cantador, que celebra os 45 anos (1961-2006) de cantoria de João Bandeira de Caldas.

Para saber mais sobre a vida de Seu Nino, clique aqui e leia texto de Dodora Guimarães falando (quando Nino ainda estava vivo) sobre a produção de suas esculturas em madeira.
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A morte de seu Nino
João Bandeira de Caldas

Tudo nessa vida passa
Pra quem no mundo nasceu
Para este, para aquele
Para você, para eu,
Tudo cai nas mãos da morte
Em Juazeiro do Norte
Mestre Nino faleceu.

Mas, quem era Mestre Nino?
- Um escultor de verdade
Artesão de preferência
Que não sabia da idade
Também não sabia ler
Porém sabia fazer
Arte com toda vontade.

Antes de ser escultor
Trabalhou na agricultura
Cortou cana para engenho
Para fazer rapadura
Depois tomou a carreira
E faz em lata e madeira
Sua primeira escultura.

Brinquedos para crianças
Fez de latas, de cavacos
Agradando a todo mundo
Aos fortes também aos fracos
E na sua construção
Chegou a confecção
Dos dezessete macacos.

Vendia de porta em porta
Os macacos que fazia
No Juazeiro e no Crato
Nas feiras ele vendia
E às vezes esses inventos
Trocava por mantimentos
Assim seu Nino vivia.

Fazia imagem de peixe
De pássaros, de Mateus
De caçador, de elefante
Nesses pensamentos seus
Esculpia gente e fera
Eu acho que Nino era
Um inspirado de Deus.

Na sua imaginação:
Um tronco de pau pedia
Parece que ele escutava
O que a madeira dizia
Um dizendo, o outro ouvindo
E terminava saindo
Como a madeira exigia.

O que mais lhe interessava
Era as caras das figuras
E os rabos dos macacos
Eram puras esculturas
Tinha de serem bem feitos
E não ficarem defeitos
Nessas suas criaturas.

Ele de tudo fazia
Mas, com especialidade
Fazia melhor macaco
E dizia sem raridade
Que seu macaco esquisito
Ele achava mais bonito
Que o macaco de verdade.

Hoje a fama de seu Nino
Está onde procurar:
No Cariri, Fortaleza,
No Centro Dragão do Mar.
No exterior, seu renome
Morre o homem e fica o nome
Para assumir o lugar.
João Bandeira, 28 de agosto de 2002