quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Dossiê João Guimarães Rosa: ‘Sagarana’ – Toda crença tem seu santo



por Harlon Homem de Lacerda

Nosso santo é Guimarães Rosa. Nossa crença é no poder do verbo que se faz carne, que se faz reza, que se faz a si mesmo verbo. “São Marcos” é a amostra poderosa das possibilidades da palavra e de como essas possibilidades são realizadas através da escrita de Guimarães. Esse conto é uma boa maneira, também, de pensar no tom das coisas, no tom das pessoas, no tom do tempo e do espaço. É o tom, numa cadência que se manifesta através do ritmo intrínseco e extrínseco, que nos traz o turbilhão de emoções e volições, de sentimentos e escolhas, de sentimentos que definem e decidem: demarcam uma posição. Posição estabelecida através da palavra e de sua leitura, uma posição valorativa repleta de sentidos. A posição e o tom são como o ouro surgindo da água peneirada no conto do qual estamos tratando hoje.

O narrador de São Marcos é um homem que revela sua posição não apenas através de seu ceticismo, mas de sua etnia, de sua posição social, de suas palavras. José é um homem motivado pelos sentidos, por suas capacidades sensoriais e pelo conhecimento decorrente de suas leituras e vivências. Ele é totalmente diferente de Zé-Prequeté, homem movido pela tradição, pela crença, pelo medo do sagrado – que é cegueira e luz ao mesmo tempo. Numa enxurrada de palavras matizadas pela exuberância da língua e pelo reconhecimento da força expressiva dos nomes populares, José descreve os ambientes com uma riqueza de detalhes profundamente alicerçada por uma necessidade de nomear – necessidade adâmica e ao mesmo tempo parnasiana de adjetivar cada substantivo. Mas o que poderia ser a simples constatação de uma expertise do narrador e, talvez, do autor-pessoa, do próprio Dr. João Guimarães Rosa, ao detalhar cada coisa e planta e pedra e bicho do lugar, existe a pluralidade de línguas e de possibilidades de descrição ou de narração – como quando Aurísio Manquitola narra o causo de Gestal da Gaita ou Sá Nhá Rita Preta dá seu caso-exemplo de como é perigoso mexer com feitiçaria. Em cada variação de narrador, uma maneira de contar, uma língua para contar e uma entonação, um tom emotivo-volitivo que carrega e posiciona axiologicamente o narrador e a personagem diante do narrador inicial – uma miríade de configurações do eu-para-mim, eu-para-o-outro e do outro-para-mim que faz pecar o bakhtiniano mais fervoroso.

Conta também para riqueza sintático-semântica-lexical deste conto e pra velha constatação da construção torpe deste país, materializada no próprio traço de Guimarães, do rebaixamento do negro e do racismo escrachado. A vontade é de invocar os demônios todos para carregar narrador, autor e tudo mais pra profundezas, quando José expõe em alto e péssimo tom seu tratamento diante do negro (tanto quando ele passa em frente à casa de Mangolô quando recobra a visão e vai às vias de fato com o negro submetido à sua raiva e à sua posição de classe). Mas é documento a literatura, documento de um país de racismo covarde e implicitamente explícito na sua covardia e hipocrisia desmedida. São Marcos é dos documentos que servem para revelar o tom do racismo desse país.

Nossas considerações serão bem gerais e pairadas na superfície do conto, apontando aqui e ali pra o que nos chamou a atenção. Mais profunda análise, de fôlego mais robusto, merece esse conto (e essa frase saiu à Mestre Yoda! hahaha). Entretanto, encerramos com a beleza da ordenação da descrição de cada coisa quando José vai para dentro da mata pescar. O jogo dos poemas riscados na árvore é riquíssimo em possibilidade interpretativas, mas ficamos por hora com os sentidos do narrador. A descrição construída principalmente através da visão. Depois da cegueira repentina, a descrição construída através do tato e da audição. A variedade de palavras usadas para descrever, quase sem ponto final em frases separadas por vírgula, quando a descrição é visual e as frase curtas, truncadas, quando, sem enxergar, o narrador tropeça nos pontos finais, nas quebras sintáticas e o parágrafos ficam mais curtos, cabendo às vezes uma única palavra.

“São Marcos” é o conto da palavra. A palavra que é feitiço, que é defesa, que é ruindade, que é poder, que é sentido, que é carne, que é verbo. “São Marcos” é a celebração de um culto à língua portuguesa e o que ela carrega de mais torpe e de mais belo.
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Harlon Homem de Lacerda é Mestre em Letras pela UFPB e Professor de Literatura Brasileira da Universidade Estadual do Piauí (UESPI - Oeiras). E-mail: harlon.lacerda@gmail.com.


Outros textos da coluna “Perspectivas do alheio” no blog O Berro:
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