sexta-feira, 15 de junho de 2018

Show Caleidoscópio 70: Luiz Carlos Salatiel & Los Fractais, em Juazeiro



“Desde os anos 70, Luiz Carlos Salatiel e Geraldo Urano mantiveram uma amizade e parceria musical responsável por momentos que engrandeceram a cena cultural caririense. Os dois foram os responsáveis pela idealização dos inesquecíveis festivais da canção realizados no Crato entre os anos 1971/78 e que, inegavelmente, possibilitou o surgimento de compositores como Abidoral Jamacaru, Cleivan Paiva, Luiz Fidélis, José Nilton Figueiredo, Pachelly Jamacaru, e poetas como Rosemberg Cariry, José Flávio Vieira, dentre outros.

Este show Caleidoscópio 70 traz para o público um recorte da produção musical dos amigos Geraldo Urano, o poeta, e Luiz Carlos Salatiel, compositor e intérprete, com a suprema intenção de consagrar e perenizar a obra dos dois: a genialidade poética de todos os Geraldos (Ghandi, Efe, Urano, dentre outros) e a musicalidade performática de Luiz Carlos Salatiel que, no palco, sempre foi um dos grandes intérpretes do Cariri.” (sinopse da divulgação do evento)
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Caleidoscópio 70
Show com Luiz Carlos Salatiel & Los Fractais

Sábado, 16 de junho de 2018, às 19h30
No Centro Cultural Banco do Nordeste - CCBNB Cariri
Juazeiro do Norte-CE
Entrada gratuita.

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terça-feira, 12 de junho de 2018

Festival Varilux de Cinema Francês 2018 (Etapa Cariri) - Programação



Festival Varilux de Cinema Francês 2018
Etapa Cariri

De 12 a 20 de junho de 2018
Sessões em Juazeiro do Norte e Crato
Produção local: Sétima - Revista e grupo de estudos de cinema
Entrada gratuita.
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Programação:

12 de junho (terça-feira), 18h, no CCBNB Cariri:
Promessa ao amanhecer (La promesse de l’aube, Dir. Eric Barbier, França, 2017, 130min)

13 de junho (quarta-feira), 9h30, no Memorial Padre Cícero:
O poder de Diane (Diane a les épaules, Dir. Fabien Gorgeart, França, 2017, 87min)
(sessão com janela de libras e audiodescrição)

13 de junho (quarta-feira), 15h, no Sesc Juazeiro:
MOSTRA DE CURTAS-METRAGENS (ETAPA 1):
Belle à croquer (de Axel Courtière, Ficção-Animação, 15’05’’)
Garden party (de Florian Babikian Vincent Bayoux, Victor Caire Théopile Dufresne, Gabriel Grapperon e Lucas Navarro, Animação, 7’22’’)
La caresse (de Morgane Polanski, Ficção, 9’31’’)
Pepe le morse (de Lucrèce Andreae / Animação / 14’54’’)

13 de junho (quarta-feira), 18h, no Sesc Crato:
Marvin (Marvin, Dir. Anne Fontaine, França, 2017, 113min)

14 de junho (quinta-feira), 9h30, no Memorial Padre Cícero:
A raposa má (Le Grand méchant renard et autres contes, Dir. Benjamin Renner, Patrick Imbert, França, 2017, 80min)

14 de junho (quinta-feira), 14h30, no Evolução Cursos:
Gauguin – Viagem ao Taiti (Gauguin, voyage du Tahiti, Dir. Edouard Deluc, França, 2017, 101min)

14 de junho (quinta-feira), 18h30, no CCBNB Cariri:
Primavera em Casablanca (Razzia, Dir. Nabil Ayouch, França, 2018, 119min)

15 de junho (sexta-feira), 9h30, na UFCA:
O poder de Diane (Diane a les épaules, Dir. Fabien Gorgeart, França, 2017, 87min)

15 de junho (sexta-feira), 18h30, no CCBNB Cariri:
A busca do Chef Ducasse (La quête d’Alain Ducasse, Dir. Gilles de Maistre, França, 2017, 84min, Documentário)

16 de junho (sábado), 18h30, no CCBNB Cariri:
A aparição (L’apprition, Dir. Xavier Giannoli, França, 2018, 137min)

18 de junho (segunda-feira), 9h30, na UFCA:
Carnívoras (Carnivores, Dir. Jérémie Renier, França, 2018, 98min)

18 de junho (segunda-feira), 18h30, no Sesc Crato:
A excêntrica família de Gaspard (Gaspard va au mariage, Dir. Antony Cordier, França, 2018, 103min)

18 de junho (segunda-feira), 18h30, no Centro Cultural Marcus Jussier:
MOSTRA DE CURTAS FRANCESES
Belle à croquer (de Axel Courtière, Ficção-Animação, 15’05’’)
Garden party (de Florian Babikian Vincent Bayoux, Victor Caire Théopile Dufresne, Gabriel Grapperon e Lucas Navarro, Animação, 7’22’’)
La caresse (de Morgane Polanski, Ficção, 9’31’’)
Pepe le morse (de Lucrèce Andreae, Animação, 14’54’’)
Kapitalistis (de Pablo Muñoz Gomez, Ficção, 14’03’’)
Le bleu blanc rouge de mes cheveux (de Josza Anjembe, Ficção, 21’38’’)
Les bigorneaux (de Alice Vial, Ficção, 24’12’’)

19 de junho (terça-feira), 18h30, no CCBNB Cariri:
Gauguin – Viagem ao Taiti (Gauguin, voyage de Tahiti, Dir. Edouard Deluc, França, 2017, 101min)

20 de junho (quarta-feira), 15h, no Sesc Juazeiro:
MOSTRA DE CURTAS-METRAGENS (ETAPA 2)
Kapitalistis (de Pablo Muñoz Gomez, Ficção, 14’03’’)
Le bleu blanc rouge de mes cheveux (de Josza Anjembe, Ficção, 21’38’’)
Les bigorneaux (de Alice Vial, Ficção, 24’12’’)

20 de junho (quarta-feira), 16h30, no CCBNB Cariri:
Custódia (Jusqu’à la garde, Dir. Xavier Legrand, França, 2018, 93min)

20 de junho (quarta-feira), 18h30, no CCBNB Cariri:
Troca de rainhas (L’échange des princesses, Dir. Marc Dugain, França, 2017, 100min).

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segunda-feira, 11 de junho de 2018

Segunda-feira com exibição de curtas na Mostra Sesc de Cinema, em Crato



2 Mostra Sesc de Cinema
No Sesc Crato
Entrada gratuita

Sessão da segunda-feira, dia 11 de junho de 2018, às 19h:

Sob o olhar do poço (2016, 16min, Cor, Doc, Livre)
Direção: Mário Silva

Bem-vindo a Juazeiro do Norte (2015, 18min, Cor, Doc, Livre)
Direção: Ythallo Rodrigues.

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sábado, 9 de junho de 2018

‘A Hora do Lobo’, filme de Ingmar Bergman, em exibição no Cine Café



Cine Café do CCBNB Cariri (com mediação de Elvis Pinheiro)
Especial - 100 anos de Ingmar Bergman
Exibição do filme A Hora do Lobo
Ficha técnica:
Título original: Vargtimmen
Direção e roteiro: Ingmar Bergman
Elenco: Max von Sydow, Liv Ullmann, Gertrud Fridh, Georg Rydeberg, Erland Josephson, Ingrid Thulin
Duração: 87 minutos
Ano: 1968
País de origem: Suécia

“Pintor e sua esposa vão morar em uma ilha bastante afastada da sociedade. Lá, em meio a intensos conflitos psicológicos, o casal conhece um misterioso grupo de pessoas que passam a trazer angústias ainda maiores às suas vidas, levando-os a relembrar fatos passados e questionar a própria lucidez.” (sinopse da divulgação do evento)

Exibição no sábado, 09 de junho de 2018, às 17h30
No Centro Cultural Banco do Nordeste Cariri (Juazeiro do Norte). Entrada gratuita.

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sábado, 2 de junho de 2018

The Doors: tributo em Juazeiro do Norte com Dudé Casado e Banda



Tributo ao The Doors
Com Dudé Casado e Banda

Sábado, 02 de junho de 2018, a partir das 22h
No Raul Rock Bar & Café (Av. Virgílio Távora, 950, Aeroporto)
Juazeiro do Norte-CE
Mais informações: (88) 9.9234.1025.

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‘Vidas Amargas’, filme de Elia Kazan, em exibição no Cine Café



Cine Café do CCBNB Cariri (com mediação de Elvis Pinheiro)
Exibição do filme Vidas amargas
Ficha técnica:
Título original: East of Eden
Direção: Elia Kazan
Roteiro: Paul Osborn (baseado em livro de John Steinbeck)
Elenco: James Dean, Julie Harris, Raymond Massey, Burl Ives, Richard Davalos, Jo Van Fleet, Albert Dekker, Lois Smith, Harold Gordon, Nick Dennis
Duração: 115 minutos
Ano: 1955
País de origem: Estados Unidos

“No Vale das Salinas, região da Califórnia, por volta da I Guerra Mundial, Carl é o filho rebelde e mal compreendido de Adam. Desde a infância, ele luta obsessivamente pelo amor do pai. No entanto, Adam não esconde sua preferência para o outro filho, Aron, considerado o ‘menino de ouro’ da família e que está noivo de Abra.” (sinopse da divulgação do evento)

Exibição no sábado, 02 de junho de 2018, às 17h30
No Centro Cultural Banco do Nordeste Cariri (Juazeiro do Norte). Entrada gratuita.

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quarta-feira, 30 de maio de 2018

Aqui-e-agora cinematográfico



por Erick Linhares

A principal arma do cinema é o tempo. O tempo é o playground do cinema. O espaço é instantaneamente deformado em prol da temporalidade que o diretor intenciona em seu filme. O passado é terreno do cinema, não há nada na história pelo que o cinema não tenha se interessado ou que já não esteja resgatado nas telas, com reprodução de cenários, roupas, pessoas e costumes. O futuro é o espaço virtual desta arte. Assim como no passado, as possibilidades de reprodução são infinitas. Temos carros voadores, novas línguas, relacionamentos com robôs, escassez de água e tudo que nossa imaginação projeta para os próximos anos de existência humana.

Mas cada filme terá sua percepção temporal diferente. Em perspectiva, um filme dos anos 20 que tenha como tema a Idade Média seria muito diferente em perspectiva de um filme dos anos 50 que abordasse o mesmo tema, tanto quanto filmes dos anos 90, 2000 e assim por diante. Isso também vale quando a perspectiva é futurista. O que nos diz que o cinema é uma grande possibilidade de comprovação do tempo presente, do “aqui-e-agora”. O presente é o momento do agora onde o passado transita em direção ao futuro, e esta é a perspectiva temporal na qual o cinema está imerso.

Em Rashomon (Dir.: Akira Kurosawa, 1950), o enredo nos leva a conhecer várias versões sobre um assassinato. O momento do tempo presente seria o depoimento de cada personagem, falando sobre um passado que os atravessa. Todos eles viveram aquela história, mas ao descrevê-la, cada um olha para o que aconteceu e mistura com seus anseios e intenções, assim como pensamentos sobre as consequências do que vão dizer, na direção de um futuro que seria o julgamento baseado principalmente nos depoimentos uns dos outros.

Contudo, o autor brinca com o tempo de maneira fascinante. A hora dos depoimentos seria o flashback do flashback. Isso porque o começo do filme mostra a perspectiva de uma personagem que vai contar a história que ouviu, e essa história seria o depoimento das pessoas envolvidas no assassinato. O primeiro flashback é a cena desses personagens falando sobre o ocorrido, o segundo seria a história do ocorrido baseado nos depoimentos de cada um. Ou seja, o filme todo está carregado de passados e futuros, todos deturpados por cada perspectiva. Cada história seria um conto. Poderíamos dizer que essa é a história do cinema, em perspectivas mutáveis, flexíveis, voláteis, mas com uma dose bem generosa do mundo onírico, e isso nos extasia.

Em Abre los ojos (Dir.: Alejandro Amenábar, 1997), o diretor usa o sonho para brincar com o tempo no presente transiente: O protagonista assina o contrato com a empresa que vai congelá-lo em nitrogênio líquido, fazendo com que ele sonhe para sempre e viva assim seus maiores desejos e fantasias com os quais não conseguia lidar no presente. Ele está insatisfeito com seu passado e perdeu sua perspectiva de futuro, depois que um acidente  desfigura seu rosto, a mulher dos seus sonhos não quer mais estar com ele. O filme mostra no sonho vívido que todas as imagens que ele consegue ver e emoções que consegue sentir, ao se relacionar, têm a ver com coisas que ele aprendeu nos filmes, ou num encarte de CD da sua banda favorita, ou de histórias que ouvira de como ter um bom pai ou um grande amor. Todo esse passado se mistura no presente do sonho e vai em direção ao futuro, dos seus desejos, dos seus medos, onde ele passa a vida toda pra preencher a falta que o passado não conseguiu suprir.

O tempo talvez seja umas das maiores questões humanas. E para a montagem no cinema, tempo é tudo. A genialidade de um diretor que saiba brincar com a temporalidade nos faz viajar profundamente no transe que a história quer passar e automaticamente comprar a ideia do diretor/roteirista. O cinema tem várias facetas: cada “aqui-e-agora” é uma cena.

Referências:
BAZIN, A. O que é cinema?, Título original: Qu’est-ce que le cinéma?. Tradução: Eloisa Araújo Ribeiro, Prefácio e Apêndice: Ismail Xavier, São Paulo, Cosac Naify, 2014.
 

CARRIÈRE, JEAN-CLAUDE. A linguagem secreta do cinema. Tradução: Fernando Albagli, Benjamin Albagli, [Edição especial], Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2014, (Saraiva de bolso).
 

MERLEAU-PONTY, M. Fenomenologia da percepção. Tradução: Carlos Alberto Ribeiro do Moura, 4ª edição, São Paulo, Editora WMF Martins Fontes, 2011, (Biblioteca do pensamento moderno).
 

MULLER-GRANZOTTO, M. J. & MULLER-GRANZOTTO, R. L. Fenomenologia e gestalt-terapia. São Paulo: Summus, 2007.
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Erick Linhares é formado em Psicologia pelo Centro Universitário Doutor Leão Sampaio, onde foi coordenador geral do Centro Acadêmico do curso. Atualmente é especialista em Gestalt Terapia Clínica e atua na área.

Texto originalmente publicado na SÉTIMA: Revista de Cinema (edição 41, de dezembro de 2017), que é distribuída gratuitamente na Região do Cariri cearense. A Revista Sétima é uma publicação do Grupo de Estudos Sétima de Cinema, que se reúne semanalmente no SESC de Juazeiro do Norte-CE.

Textos recentes da Revista Sétima postados no Blog O Berro:
- Agora é que são elas
- Samira Makhmalbaf
- Conhecendo Carrière
- De repente soube, é cinema!
- Diante do meu amor pelo cinema
- O absurdo nosso de cada dia: as mulheres na Mostra 21 de 2017
- Meu romance com o cinema ou não era cilada, era amor
- Uma história: aniversário dos cinco anos do Grupo de Estudos Sétima de Cinema

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terça-feira, 29 de maio de 2018

‘Para quando’, de Kaio Carmona



por Amador Ribeiro Neto

Kaio Carmona (Belo Horizonte, 1976) fez graduação, mestrado e doutorado na UFMG. É professor de literatura. Autor de Um lírico dos tempos (ensaio, 2006) e Compêndios de amor (poesia, 2013). Para quando (Belo Horizonte: Scriptum, 2017) é sua mais recente publicação.

Para quando: o título encerra uma pergunta? Uma reticência? Uma exclamação?

Não há sinal algum de pontuação, mas o título sinaliza para uma das constantes do livro: aquilo que interessa não está nomeado. Vale a espera? Que tempo é esse? Vale o desespero? Vale o silêncio? A contenção? O derramamento?

Há algo que, dirão alguns, beira o místico nos poemas de Kaio Carmona. Para outros, parece que há algo que, simplesmente, escapa a definições. Algo que não se entrega. Que se embrenha na dissimulação e lá faz seu habitat.

Por isso mesmo esta poesia encanta. Ela não parte e nem busca o místico. Ela se instaura e permanece na concretude da realidade. Na materialidade dos corpos.

Há um eu-lírico que lança sua voz a partir de um lugar comum, reles, cotidiano. Mas lança-a com timbres inusitados. Timbres que seduzem nossa audição. Atiçam nossos corpos e desejos. E, por isso mesmo, nos levam a correr atrás. Do quê? Não sabemos. A sedução nos conduz. Seguimos.

O volume está dividido em duas partes: a primeira, homônima ao título do livro, e a segunda, “O eu intermitente”. Ambas com o mesmo denominador mínimo, múltiplo e comum: o amor e suas circunstâncias.

Melhor seria dizer: incomum. Já que o amor, tal como o eu-lírico nos apresenta, embora comum e delimitado historicamente, surge-nos através de formas e modos de uma linguagem que o recria enquanto algo inédito. Recém descoberto. Para ser mais exato é melhor dizer: recém entrevisto.

E aí reside o perigo: o que falar daquilo que já foi mais do que falado/cantado? Na busca pela resposta a essa questão mora uma das qualidades de Kaio Carmona: tocar o mesmo, mas com nova gestualidade.

Outros modos e jeitos. Redizendo: outros des-modos e des-jeitos. Afinal, o poeta opera na faixa da desconstrução do conhecimento alicerçado no senso comum, no déjà-vu, nos saberes canonizados.

O poeta, que é também professor de literatura, sabe que a epifania da poesia deslinda-se na forma do dizer o que busca dizer. E não na mera semeação semântica das ideias. Por isso mesmo seu livro ganha o leitor em vários momentos. Diria até: na quase totalidade.

Sem dúvida alguma, são poemas na linhagem adeliana, naquilo que Adélia foi buscar em Drummond: a naturalidade de uma dicção poética nascida de fonte popular. Daí emerge a poesia das grandes e miúdas delicadezas. Uma poesia que, bela per se, reverbera, despudoradamente, Adélia e a lição do seu mestre, Drummond.

Transcrevo “Banquete”:

E finalmente conheces o amor
e nele apostas teus medos.
Amas com fome:
Dia após dia macerando a carne
com cansaço.
Tenaz.
E amas com raiva.
Torna-te meticuloso de sua posse.
Assassino.
Persecutório.
Vigilante incansável.
Finalmente conheces o amor
Para, conforme a fome, matá-lo.

Kaio Carmona não se envergonha do vasto amor. Como nada tem a esconder na intertextualidade, pari passu, com a poesia dos dois poetas citados e de outros, dentre os quais, Bandeira, Vinícius, Neruda, Florbela.

O amor não tem fronteiras. Foge a dicionários e influências. Tal como a poesia. E Kaio Carmona sabe disso. Por isso sua poesia é bandeira desfraldada com a obra de grandes nomes de nossa literatura.

Em Adélia Prado ele encontra a reverberação do universo drummondiano. Porém, de ponta-cabeça. Com os malabarismos de outra poesia, cozida ao fogo dos sentimentos. Transcrevo “Esse tráfego doméstico”:

De silêncio em silêncio
– em pequenos sustos –
vai se construindo nosso amor
diário.
Os cômodos da casa ainda são grandes,
como eram grandes os cômodos das casas
antigamente.
E mesmo assim nos esbarramos
de cômodo em cômodo,
esse tráfego doméstico.
Passa por mim sem me olhar e deixa sua mão
aleatoriamente
em algum lugar de meu corpo,
propositadamente.
Sei mais de você por esses encontrões e silêncios
que o seu sorriso, talhado na lida
do mundo das relações.
Seu sorriso:
Pequenos silêncios, pequenos encontros.
E o amor se erguendo no ar.
E o amor se entornando no chão.

Mas essa poesia feita da naturalidade da vida e das suas dicções bebe, antes de tudo, nas fontes de Camões e Dante. A grande lírica destes grandes líricos não poderia passar ilesa à poesia de um poeta sensível e ao seu coração. Que é também bombeado pelo sangue de suas leituras enquanto leitor e professor de literatura.

Para quando é um livro pra já. Porque o amor bate à porta. E sua insubmissão é uma lambada na dureza dos dias de hoje, de ontem, de sempre.  Nos dias de hoje, especialmente.

Lambada na dupla acepção: dança/música e paulada/cacetada.

Enfim, poesia de amor. Enfim, poesia de resistência.
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Amador Ribeiro Neto é poeta, crítico literário e professor titular do curso de Letras da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Publicou, entre outros livros, Lirismo com siso: notas sobre poesia brasileira contemporânea (crítica), Ahô-ô-ô-oxe (poesia), Muitos: outras leituras de Caetano Veloso (crítica) e Barrocidade (poesia). Mora em João Pessoa (PB).

Textos recentes de Amador Ribeiro Neto no blog O Berro:
- Bambuzal, de Rafael F. Carvalho
- Identidade, de Daniel Francoy
- A arquitetura das constelações
- for mar
- Poema das quatro palavras
- Hinos Matemáticos
- Dois olhos sobre a louça branca
- Alarido
- Tudo (e mais um pouco)
- Cadela prateada

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segunda-feira, 28 de maio de 2018

Kariri Iluminado: fotos de Augusto Pessoa na abertura da Festa de Santo Antônio de 2018, em Barbalha



Kariri Iluminado

É sempre assim. Ao raiar do sol, as primeiras bandas cabaçais começam a chegar à Igreja Matriz, caprichosamente ornamentada com bandeirolas e imagens dos três santos juninos. O destaque, no entanto, é mesmo do dono da festa, o casamenteiro sagrado do povo nordestino, Antônio!

Fotografar esse encontro da cultura popular é - para mim - exatamente o que ele É: um Ritual! Em nenhum outro recanto desse imenso Brasil é possível reunir tanta tradição em tão "pequeno" espaço. E não pensem vocês que cada grupo tem o seu tempo para se apresentar... é tudo junto e misturado, centímetro por centímetro, aqui e agora! Pífanos se misturam com o som agudo das espadas nos reisados e guerreiros, o seco som do maneiro pau faz dueto com as pernas de madeira e - aos gritos e apitos - Mateus com os rostos pintados de preto trazem luz e alegria à mais harmoniosa da confusões!

Mas isso, vejam só, é apenas o começo. Na zona rural, movidos à cachaça do vigário distribuída numa carroça e verdadeira devoção a Antônio, numa espécie de namoro Entre o profano e o sagrado, centenas de homens trazem - nos ombros - o tronco que servirá de mastro para a bandeira de "Toinho".

Esse ano o cortejo de abertura da festa teve ainda mais brilho com a participação dos grupos culturais de Juazeiro do Norte que se juntaram às belas e tradicionais manifestações de Barbalha num multicolorido abraço de autêntica tradição.

Na manhã desse domingo, 27 de maio, o Kariri estava especialmente iluminado!

Augusto Pessoa, Cariri, 2018.
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Augusto Pessoa é fotógrafo e jornalista.
Instagram: augustopessoa.mosaico
Site: augustopessoa1.wix.com/fotografia

Fotos da abertura da Festa de Santo Antônio, em Barbalha, no dia 27 de maio de 2018:

















sábado, 26 de maio de 2018

‘Três Homens em Conflito’, filme de Sergio Leone, em exibição no Cine Café



Cine Café do CCBNB Cariri (com mediação de Elvis Pinheiro)
Exibição do filme Três Homens em Conflito / O Bom, o Mau e o Feio
Ficha técnica:
Título original: Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo
Direção: Sergio Leone
Roteiro: Agenore Incrocci, Furio Scarpelli, Luciano Vincenzoni, Sergio Leone
Elenco: Clint Eastwood, Eli Wallach, Lee Van Cleef, Mario Brega, Aldo Giuffré, Luigi Pistilli, Rada Rassimov, Al Mulock, Frank Braña, Saturno Cerra, Antonio Casas
Duração: 161 minutos
Ano: 1966
Países de origem: Itália, Espanha, Estados Unidos

“Três homens - o ‘Bom’, o ‘Mau’ e o ‘Feio’ - estão atrás do tesouro de Bill Carson, escondido em um cemitério. Cada um deles conhece apenas uma parte da sua localização, o que faz com que eles tenham que se unir. O problema é que nenhum deles está disposto a dividir o que encontrarem.” (sinopse da divulgação do evento)

Exibição no sábado, 26 de maio de 2018, às 17h30
No Centro Cultural Banco do Nordeste Cariri (Juazeiro do Norte). Entrada gratuita.

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sábado, 19 de maio de 2018

‘Orlando - A Mulher Imortal’, filme de Sally Potter, no Cine Café



Cine Café do CCBNB Cariri (com mediação de Elvis Pinheiro)
Exibição do filme Orlando - A Mulher Imortal
Ficha técnica:
Título original: Orlando
Direção: Sally Potter
Roteiro: Sally Potter (roteiro baseado em romance de Virginia Woolf)
Elenco: Tilda Swinton, Quentin Crisp, Jimmy Somerville, John Wood, John Bott, Elaine Banham, Anna Farnworth, Sara Mair-Thomas, Anna Healy, Dudley Sutton
Duração: 93 minutos
Ano: 1992
Países de origem: Reino Unido, França, Itália, Holanda, Rússia

“Orlando, um rapaz da nobreza, é ordenado pela rainha Elizabeth para permanecer jovem eternamente.” (sinopse da divulgação do evento)

Exibição no sábado, 19 de maio de 2018, às 17h30
No Centro Cultural Banco do Nordeste Cariri (Juazeiro do Norte). Entrada gratuita.

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sábado, 12 de maio de 2018

‘O Salário do Medo’, filme de Henri-Georges Clouzot, no Cine Café



Cine Café do CCBNB Cariri (com mediação de Elvis Pinheiro)
Exibição do filme O Salário do Medo
Ficha técnica:
Título original: Le Salaire de la Peur
Direção: Henri-Georges Clouzot
Roteiro: Georges Arnaud, Henri-Georges Clouzot, Jérôme Géronimi
Elenco: Yves Montand, Charles Vanel, Folco Lulli, Peter van Eyck, Véra Clouzot, William Tubbs, Darío Moreno, Jo Dest, Luis De Lima, Antonio Centa
Duração: 131 minutos
Ano: 1953
Países de origem: França, Itália

“Quatro homens desempregados e miseráveis, que vivem em condições quase desumanas em um pequeno vilarejo da Guatemala, aceitam uma perigosa e desafiadora missão: transportar uma carga altamente explosiva de nitroglicerina em caminhões sem nenhuma estrutura para tanto, ao longo de estradas em péssimas condições, até um incêndio que está acontecendo em um poço de petróleo de uma extratora estadunidense.” (sinopse da divulgação do evento)

Exibição no sábado, 12 de maio de 2018, às 17h30
No Centro Cultural Banco do Nordeste Cariri (Juazeiro do Norte). Entrada gratuita.

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quarta-feira, 9 de maio de 2018

Banda Lost Dog apresenta tributo ao Pearl Jam em Juazeiro do Norte



Banda Lost Dog - Pearl Jam Tribute
Após hiato de 1 ano, a banda Fuckin'Up retorna com o nome Lost Dog e novo vocalista
Formação: Dennes (vocal), Juliano (guitarra), Ramon (guitarra), Mauricelio (baixo) e Ricardo (bateria)
Abertura com Discotecagem Temática Grunge
Sábado, 12 de maio de 2018, a partir das 22h
No Raul Rock Bar & Café (Av. Virgílio Távora, 950, Aeroporto)
Juazeiro do Norte-CE
Mais informações: (88)2141.0258 / (88)9.9234.1025.

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Banda Rebobine apresenta Especial RBD em Crato



Banda Rebobine - Especial RBD
Sábado, 12 de maio de 2018, a partir das 22h
No Casarão Boteco (Crato-CE)
Ingressos: R$10,00 (primeiro lote)
Vendas: Up Fitness (Crato) e Rock Dog (Juazeiro).

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terça-feira, 8 de maio de 2018

CCBNB realiza Mostra de Música Instrumental nesse mês de maio


O Centro Cultural Banco do Nordeste Cariri realizará neste mês de maio a Mostra Banco do Nordeste Instrumental. O evento acontecerá entre os dias 17 e 20 de maio e vem trazendo atrações que transitam entre as várias vertentes da música instrumental brasileira, desde o clássico, passando pelo (do erudito ao) popular, até ao que está sendo produzido atualmente sob influências musicais contemporâneas.

Duo Finlândia / divulgação
A Mostra Instrumental será realizada em dois locais diferentes. Nnos dias 17 e 18, as com apresentações acontecerão no teatro do Centro Cultural Banco do Nordeste, em Juazeiro do Norte. Para e nos dias 19 e 20, com shows acontecendo as apresentações acontecerão no Largo da Rffsa, na cidade do Crato.

Para compor a programação do Teatro do Ccbnb, nos dias 17 e 18, foram pensadas atrações com um estilo musical mais calmo, cuja estrutura do espaço favorece a concentração e a oportunidade de apreciar os shows de forma mais tranquila. Já o espaço da Rffsa deve favorecer as atrações que possuem um ritmo mais dançante nos das 19 e 20.

As atrações da Mostra Banco do Nordeste Instrumental são oriundas de São Paulo, Recife, Salvador e da Região do Cariri.
Aeromoças e Tenistas Russas / divulgação
De acordo com a produtora do evento, Janiele Rocha, a ideia da organização da Mostra é dialogar com a pluraridade que existe na Música Instrumental Brasileira, desde o clássico e o popular, até do tradicional aos trabalhos que envolvem a música eletrônica.

Para a realização da Mostra Banco do Nordeste Instrumental, o Centro Cultural Banco do Nordeste Cariri conta com a parceria da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), que estará realizando montará, no largo da Rffesa, nos dias 17, 18 e 19 de maio, o II Festival Brasil Sabor da Abrasel, uma feira gastronômica que contará com a participação de diversos restaurantes e produtores de bebidas artesanais da região.

Mostra Instrumental será atrativo para diversos públicos

A programação da Mostra Instrumental foi pensada no intuito de contemplar os mais variados vários públicos, com atrações e estrutura para receber, inclusive, as famílias.

No Largo da Rffsa, o II Festival Brasil Sabor, da Abrasel, possuirá um cardápio variado com preços acessíveis. Além disso, a Feira Cariri Criativo, como acontece tradicionalmente, estará instalada em área próxima a realização dos shows expondo e comercializando produtos da economia criativa, promovendo também uma interação com o Festival Gastronômico.

Para a realização do evento entram também na parceria o Projeto Encontramous e o Programa de Educação Tutorial (PET) da Música da Universidade Federal do Cariri UFCA, Secretaria de Turismo e Secretaria de Cultura de Crato.

Confira programação da Mostra Banco do Nordeste Instrumental

Dia 17/05 (Teatro do CCBNB)
Fabricio Rocha - Show Euphonia (Cariri-CE)
Horário: 18h
Aeromoças e Tenistas Russas (São Carlos-SP)
Horário: 19h30

Dia 18/05 (Teatro do CCBNB)
Duo Flutuart - Toca Chiquinha Gonzaga (Cotia-SP)
Horário: 18h

Kalouv - Show Elã
Horário: 19h30

Dia 19/05 (Largo da Rffsa, Crato-CE)
Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto (Cariri-CE)
Horário: 19h

Luciano Brayner - Pife Torto (Cariri-CE)
Horário: 20h30

Dia 20/05 (Largo da Rffsa, Crato-CE)
Duo Finlandia (Brasil/Argentina)
Horário: 19h

Cariri Choramingando (Cariri-CE)
Horário: 20h30

*Com informações da Assessoria de Imprensa do evento

sábado, 5 de maio de 2018

‘O Franco-Atirador’, filme de Michael Cimino, em exibição no Cine Café



Cine Café do CCBNB Cariri (com mediação de Elvis Pinheiro)
Exibição do filme O Franco-Atirador
Ficha técnica:
Título original: The Deer Hunter
Direção: Michael Cimino
Roteiro: Deric Washburn, Michael Cimino, Louis Garfinkle, Quinn K. Redeker
Elenco: Robert de Niro, John Cazale, John Savage, Christopher Walken, Meryl Streep, George Dzundza, Chuck Aspegren, Shirley Stoler, Rutanya Alda, Pierre Segiu
Duração: 182 minutos
Ano: 1978
Países de origem: Itália, França

“Três amigos de uma pequena cidade vão para o Vietnã, onde logo as coisas ficam complicadas. Caindo nas mãos dos vietnamitas, são obrigados a jogarem roleta-russa. Eles conseguem fugir, mas suas vidas nunca mais serão as mesmas depois de terem experimentado os horrores da guerra.” (sinopse da divulgação do evento)

Exibição no sábado, 05 de maio de 2018, às 17h30
No Centro Cultural Banco do Nordeste Cariri (Juazeiro do Norte). Entrada gratuita.

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sexta-feira, 27 de abril de 2018

‘Morte em Veneza’, filme de Luchino Visconti, em exibição no Cine Café



Cine Café do CCBNB Cariri (com mediação de Elvis Pinheiro)
Exibição do filme Morte em Veneza
Ficha técnica:
Título original: Morte a Venezia
Direção: Luchino Visconti
Roteiro: Luchino Visconti, Nicola Badalucco
Elenco: Dirk Bogarde, Romolo Valli, Mark Burns, Nora Ricci, Marisa Berenson, Carole André, Björn Andrésen, Silvana Mangano, Leslie French
Duração: 130 minutos
Ano: 1971
Países de origem: Itália, França

“Baseado na obra de Thomas Mann, conheça a história de Gustav Aschenbach (Dirk Bogarde), um compositor que está passando férias no exterior quando vive uma grande e secreta paixão, que iniciaria sua verdadeira destruição.” (sinopse da divulgação do evento)

Exibição no sábado, 28 de abril de 2018, às 17h30
No Centro Cultural Banco do Nordeste Cariri (Juazeiro do Norte). Entrada gratuita.

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quinta-feira, 26 de abril de 2018

Show Caleidoscópio 70: Luiz Carlos Salatiel & Los Fractais, em Crato



Show Caleidoscópio 70
Luiz Carlos Salatiel & Los Fractais
Lançamento da Revista Pequiá
Sexta-feira, 27 de abril de 2018, a partir das 18h30
No Teatro Sesc Adalberto Vamozi
Crato-CE
Entrada gratuita.

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terça-feira, 24 de abril de 2018

‘Na Presença de um Palhaço’, filme de Ingmar Bergman, no Cine Sesc Juazeiro



Cine Sesc Juazeiro
Exibição do filme Na Presença de um Palhaço
Ficha técnica:
Título original: Larmar och gör sig till
Direção e roteiro: Ingmar Bergman
Elenco: Börje Ahlstedt, Marie Richardson, Erland Josephson, Pernilla August, Anita Björk, Agneta Ekmanner, Lena Endre, Gunnel Fred, Gerthi Kulle, Johan Lindell, Peter Stormare
Duração: 119 minutos
Ano: 1997
País de origem: Suécia

“Outubro de 1925. O engenheiro Carl Åkerblom, fervoroso admirador de Schubert, é internado em um hospital psiquiátrico em Uppsala. De seu quarto, ele alimenta o revolucionário projeto de inventar o cinema falado.” (sinopse da divulgação do evento)

Exibição na quarta-feira, 25 de abril de 2018, às 19h
No Sesc Juazeiro do Norte-CE. Entrada gratuita.

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segunda-feira, 23 de abril de 2018

‘Bambuzal’, de Rafael F. Carvalho



por Amador Ribeiro Neto

Rafael F. Carvalho (São Paulo, 1978), bacharel em Letras pela USP, colunista da revista Samizdat, autor de A estante deslocada (2011), A cor do sol (2013), Terceiro livro (2015). O bico do pássaro (Coleção Leve um livro) e Bambuzal (Belo Horizonte: Moinhos), de 2017, são suas mais recentes publicações. Ambas exclusivamente de haicais. Os de O bico de pássaro (na verdade um microlivro) estão todos contidos em Bambuzal. Há apenas um, com formato divergente, em ambas as publicações. Cito-o: “Minha cama é feita / de palha de arroz. Plantar / tem outras intenções”, naquela e “Minha cama é feita / de palha de arroz. / Plantar tem outras intenções”, nesta.

O deslocamento do verbo plantar, no microlivro, semeia novo ritmo e realça a ação do plantio. A interrupção sintática do segundo verso enfatiza a ideia de movimento e, pela pausa, reforça a ambiguidade do verso seguinte: “plantar tem outras intenções”.

Rafael F. Carvalho, ao arquitetar as imagens do poema, revela apurado zelo, realçando-lhes a plasticidade. Todos sabemos que enfatizar a imagem é um dos princípios balizares do haicai. Ao lado do enfoque meditativo. Até aí, nada demais. No entanto, o diferencial de Carvalho está no zelo descritivo das imagens, entretecido por vieses de minúcias. E também na mirada reflexiva que vaza os versos. Esta dupla associação gratifica.

Gratifica pelo sublime em si. Gratifica por pensar o mundo por outros ângulos.

Ora o tempo percebido no ato de matar a sede nas águas do rio. Ora a chuva e o arroz sendo cozido, conjuntamente, pelos moradores da aldeia. Ora os brotos crescendo sob o quimono molhado no bambuzal. Ora a noite assobiando em forma de lua, no bico do pássaro. Etc.

Insisto: o poeta trabalha seus haicais com filigranas de requintada elaboração. E aqui, trabalho e requinte nada têm de erudição vazia. Ou empolada. Antes: o requinte deste trabalho está em verticalizar o coloquial numa dicção ainda mais fluente. Musical. Imagética. Quer seja: poética, de primeiro grau.

É quando a magia cria morada na fala do dia a dia.

Onde residem a beleza e a delicadeza destes haicais? Na semeadura das ideias em campos de imagens, na associação da beleza plástica à reflexão filosófica.

É a filosofia encantando-se pela pintura. Como em O casal Arnolfini, de van Eyk ou em As meninas, de Velázquez. Quer seja: quando filosofia e arte amalgamam-se. Quando pintura e poesia veem-se dentro de si: reverberações em espelhos, quadros, reflexos.

Os haicais de Rafael F. Carvalho operam esta síntese brilhantemente. Apontam para fora e veem-se internamente. Tal como a leveza das folhas do bambuzal, lindamente espalhadas/espelhadas na capa do livro. Movimento que alcança a quarta capa como suave sinfonia.

Em tempo: o projeto gráfico do volume, capa, título e fontes de impressão estão em harmonia zen com os haicais. Tudo é leve, tudo se move. Tudo é finesse. Brisa de encantamentos, o volume é sedução gráfica para os olhos, mente e coração do leitor.

O universo temático haicaísta faz-se presente pela cartada da palavra-curinga arroz – e suas derivações: palhas de arroz, cozer o arroz, comer o arroz. E está contido no uso de vocábulos como lua, noite, insetos, plantação, aldeia, quimono, bambu, mar, pássaros, etc.

O tempo de preparar a comida, as estações do ano, o ato de contar histórias, observar a noite, tocar um instrumento, cuidar da plantação, dar-se conta da velhice – tudo converge, em flashes rápidos e certeiros, para modos de vida familiares ao leitor.

O todo conflui para a beleza da poesia carvalhana. Lê-la é adentrar numa projeção da memória em que as imagens vêm carregadas de ideias. Ideias de quem não somente olha o mundo, mas olha-o pensando, refletindo, sentindo. Significando e ressignificando numa folha de bambu, num bico de pássaro.

A emoção de ler Rafael F. Carvalho é a de encontrar sutilezas na vastidão bruta da vida.

Hoje, poesia, teu nome é encanto, carinho e cuidado em Bambuzal.

Bebendo água em
um rio vi cabelos
grisalhos: inverno



 

Chove na aldeia:
todos cozinham
seu jantar de arroz


 

Meu quimono seca no
pé de bambu. Percebo
brotos crescendo debaixo


 

O bico do pássaro
tem a forma da lua:
A noite vai assobiar


 

O rochedo leva
o mar para o céu:
estrelas de sal


 

Só as crianças
fazem leite de arroz:
a velhice é bruta
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Amador Ribeiro Neto é poeta, crítico literário e professor titular do curso de Letras da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Publicou, entre outros livros, Lirismo com siso: notas sobre poesia brasileira contemporânea (crítica), Ahô-ô-ô-oxe (poesia), Muitos: outras leituras de Caetano Veloso (crítica) e Barrocidade (poesia). Mora em João Pessoa (PB).

Textos recentes de Amador Ribeiro Neto no blog O Berro:
- Identidade, de Daniel Francoy
- A arquitetura das constelações
- for mar
- Poema das quatro palavras
- Hinos Matemáticos
- Dois olhos sobre a louça branca
- Alarido
- Tudo (e mais um pouco)
- Cadela prateada
- A nova antologia da Adriana Calcanhotto

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‘Desejos Proibidos’, filme de Max Ophüls, no Cine Sesc Crato



Cine Sesc Crato
Exibição do filme Desejos Proibidos
Ficha técnica:
Título original: Madame de...
Direção: Max Ophüls
Roteiro: Marcel Achard, Annette Wademant, Max Ophüls
Elenco: Charles Boyer, Danielle Darrieux, Vittorio De Sica, Jean Debucourt, Jean Galland, Mireille Perrey
Duração: 105 minutos
Ano: 1953
Países de origem: França, Itália

“Na França do final do século XIX, a condessa Louise, esposa de um rico general, vende os brincos que seu marido lhe presenteara no dia do casamento, para pagar dividas de jogos. Assim tem início uma ciranda de trágicos mal entendidos envolvendo os brincos, o general, a condessa e seu novo amante...” (sinopse da divulgação do evento)

Exibição na segunda-feira, 23 de abril de 2018, às 19h
No Sesc Crato-CE. Entrada gratuita.

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sexta-feira, 20 de abril de 2018

Sábado com Festa Terreirada Cearense no Cariri, com Junu e convidados



Festa Terreirada Cearense no Cariri
Show com Junu e convidados especiais
Sábado, 21 de abril de 2018, a partir das 22h
Local: O Cangaço Bar
Juazeiro do Norte-CE
Entrada: R$10,00.

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quarta-feira, 18 de abril de 2018

‘Demon’, filme de Marcin Wrona, em exibição no Cine Sesc Juazeiro



Cine Sesc Juazeiro
Exibição do filme Demon
Ficha técnica:
Título original: Demon
Direção: Marcin Wrona
Roteiro: Marcin Wrona, Pawel Maslona
Elenco: Itay Tiran, Agnieszka Zulewska, Tomasz Schuchardt, Andrzej Grabowski, Adam Woronowicz, Wlodzimierz Press, Tomasz Zietek, Katarzyna Gniewkowska
Duração: 94 minutos
Ano: 2015
Países de origem: Israel, Polônia

“Um noivo está possuído por um espírito inquieto no meio de sua própria festa de casamento, nesta tomada inteligente da lenda judaica do dybbuk.” (sinopse da divulgação do evento)

Exibição na quarta-feira, 18 de abril de 2018, às 19h
No Sesc Juazeiro do Norte-CE. Entrada gratuita.

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segunda-feira, 16 de abril de 2018

‘Na Teia do Destino’, filme de Max Ophüls, no Cine Sesc Crato



Cine Sesc Crato
Exibição do filme Na Teia do Destino
Ficha técnica:
Título original: The Reckless Moment
Direção: Max Ophüls
Roteiro: Mel Dinelli, Henry Garson, Elisabeth Sanxay Holding, Robert E. Kent, Robert Soderberg
Elenco: James Mason, Joan Bennett, Geraldine Brooks, Henry O'Neill, Shepperd Strudwick, David Bair, Roy Roberts
Duração: 82 minutos
Ano: 1949
País de origem: Estados Unidos

“Após encontrar o corpo do amante da filha, Lucia o esconde, por pensar que isto irá prejudicar sua família. Mas o amigo e parceiro do morto, Martin, logo se aproxima dela para chantageá-la e a segurança que Lucia sentia logo começa a desmoronar.” (sinopse da divulgação do evento)

Exibição na segunda-feira, 16 de abril de 2018, às 19h
No Sesc Crato-CE. Entrada gratuita.

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sexta-feira, 13 de abril de 2018

‘Uma Aventura na África’, filme de John Huston, em exibição no Cine Café



Cine Café do CCBNB Cariri (com mediação de Elvis Pinheiro)
Exibição do filme Uma Aventura na África
Ficha técnica:
Título original: The African Queen
Direção: John Huston
Roteiro: John Huston, James Agee, Peter Viertel, John Collier (roteiro baseado em romance de C. S. Forester)
Elenco: Humphrey Bogart, Katharine Hepburn, Robert Morley, Peter Bull, Theodore Bikel, Walter Gotell, Peter Swanwick, Richard Marner
Duração: 105 minutos
Ano: 1951
Países de origem: Estados Unidos, Reino Unido

“O African Queen é o pequeno, mas estimado, barco de Charlie. Durante a Primeira Guerra, na selvagem África, ele assume a responsabilidade de levar a irmã do recém-falecido reverendo Samuel, Rose, para a civilização, através do rio, utilizando o barco. Mas existem dois problemas: Rose e Charlie não combinam em nada e as margens do rio estão cheias de alemães.” (sinopse da divulgação do evento)

Exibição no sábado, 14 de abril de 2018, às 17h30
No Centro Cultural Banco do Nordeste Cariri (Juazeiro do Norte). Entrada gratuita.

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Agora é que são elas



por Virgínia Macedo

Eu não poderia começar o meu texto sem pelo menos lembrar que foi o Carrière que me mostrou como a mais recente das invenções alterou o espaço e criou uma linguagem própria. O cinema se inventa e se reinventa, torna o invisível visível e segundo Carrière: jamais caminhou sozinho.

Certa vez, conversando com amigos sobre coisas de cinema, falei de uma oficina de roteiro da qual eu tinha participado e surgiu a pergunta “Conheço a menina que ministrou, não é aquela bem bonita?”. A partir de uma rápida reflexão que o diálogo nos levou, percebemos quão invisibilizado é o trabalho de mulheres no cinema e na mídia e começamos todo um diálogo em cima disso: a mulher sempre vai ser lembrada pela beleza, pela roupa, por ser mulher de alguém - quase nunca pelo seu trabalho - e, dentro de um universo predominantemente masculino, muito menos. Vivemos em uma sociedade tão machista, que só é possível mostrar o que se é depois de muito subjugada pela ótica masculina e, embora essa imagem estereotipada seja hoje debatida e criticada, ela ainda não é vencida.

Depois de muito pensar sobre como seria o meu texto, lembrei de um caso que aconteceu com Anna Muylaert e que remete muito à ideia de que o cinema é feito principalmente por homens e para homens. Anna é uma premiada roteirista e diretora de cinema e televisão. Dirigiu alguns episódios de séries, criou vários roteiros e recentemente lançou o filme Mãe Só Há Uma que foi exibido no Festival de Berlim. Em 2015, dirigiu Que Horas Ela Volta?, longa premiado no Festival de Sundance, nos Estados Unidos e no Festival de Berlim, na Alemanha. O filme traz uma discussão sobre as relações de poder e as interações familiares. A história é protagonizada por três mulheres e não só nos mostra como vivemos nesse país como também traz as desigualdades hierárquicas da sociedade.

Em um debate promovido pela Fundação Joaquim Nabuco, em Recife, Anna foi desrespeitada por dois renomados cineastas pernambucanos. Eles entraram no debate, desrespeitaram a diretora, interrompendo suas falas e a dos organizadores. Anna descreveu várias situações parecidas que aconteceram no decorrer das suas viagens e exibições do filme.

A sociedade e, principalmente os homens, precisam aceitar o protagonismo feminino no cinema, na literatura, no teatro, não mais como personagens feitas por eles e para eles, mas como produtoras de conteúdo intelectual de qualidade e que reflete e mostra com mais representatividade e verdade o que somos. 
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Virgínia Macedo é estudante de cinema do Centro de Audiovisual de São Bernardo (CAV), em SP.

Texto originalmente publicado na SÉTIMA: Revista de Cinema (edição 41, de dezembro de 2017), que é distribuída gratuitamente na Região do Cariri cearense. A Revista Sétima é uma publicação do Grupo de Estudos Sétima de Cinema, que se reúne semanalmente no SESC de Juazeiro do Norte-CE.

Textos recentes da Revista Sétima postados no Blog O Berro:
- Samira Makhmalbaf
- Conhecendo Carrière
- De repente soube, é cinema!
- Diante do meu amor pelo cinema
- O absurdo nosso de cada dia: as mulheres na Mostra 21 de 2017
- Meu romance com o cinema ou não era cilada, era amor
- Uma história: aniversário dos cinco anos do Grupo de Estudos Sétima de Cinema
- Longe deste insensato mundo

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quinta-feira, 12 de abril de 2018

Feira Cariri Criativo de abril de 2018



Feira Cariri Criativo
De 12 a 14 de abril de 2018, das 18h às 22h
No Largo da RFFSA (Crato-CE)
Gratuito.

Programação:

12/04 (quinta-feira):
18h às 22h: Discotecagem Vinil - André Alcman
20h: Lançamento - Estampa Cariri Criativo convida: Ana Batista
*Poema na Feira - Coletivo Camaradas

13/04 (sexta-feira):
18h: Roda Sociológica: A criminalização dos Direitos Humanos
18h às 20h: Azul Menine e Gabi Ramos
20h: Pocket Show - Vai Ter Forró
21h: Show - Por Elas
*Poema na Feira - Cordéis GEA Terra Mãe

14/04 (sábado):
18h: Discotecagem
18h30h: Cine Arte Clube - Mundo, barcos e moinhos / Flor Púrpura de Iúrio Ferreira
19h: Lançamento se série de ilustrações - Coletivo Estação 9
19h15: Lançamento de novo rótulo - KarirIpa da Cerveja Kurato
19h30: Lançamento do cordel - Quero mesmo é escrever cordel em Marte, de Pablo Soares
20h: Show - Madalena Vinil
*Poema na Feira - Coletivo Enecos Cariri: Eles estão presentes.

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Especial Sandy e Junior com a Banda Rebobine em Crato



Especial Sandy & Junior
Banda Rebobine
Sábado, 14 de abril de 2018, a partir das 22h
No Casarão Boteco (Crato-CE)
Ingressos à venda: Up Fitness (Crato), Rock Dog (Juazeiro do Norte)
Primeiro lote: R$10,00.

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quarta-feira, 11 de abril de 2018

‘Cemitério do Esplendor’, filme de Apichatpong Weerasethakul, em exibição no Cine Sesc Juazeiro



Cine Sesc Juazeiro
Exibição do filme Cemitério do Esplendor
Ficha técnica:
Título original: Rak Ti Khon Kaen
Direção e roteiro: Apichatpong Weerasethakul
Elenco: Jenjira Pongpas, Banlop Lomnoi, Jarinpattra Rueangram, Petcharat Chaiburi, Tawatchai Buawat, Sujittraporn Wongsrikeaw, Bhattaratorn Senkgraigul, Pongsadhorn Lertsukon, Sasipim Piwansenee, Apinya Unphanlam, Richard Abramson
Duração: 122 minutos
Ano: 2015
Países de origem: Tailândia, Reino Unido, França, Alemanha, Malásia, Coreia do Sul, México, EUA, Noruega

“Soldados com uma misteriosa doença do sono são transferidos para um hospital provisório instalado em uma antiga escola abandonada.” (sinopse da divulgação do evento)

Exibição na quarta-feira, 11 de abril de 2018, às 19h
No Sesc Juazeiro do Norte-CE. Entrada gratuita.

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segunda-feira, 9 de abril de 2018

‘Carta de Uma Desconhecida’, filme de Max Ophüls, no Cine Sesc Crato



Cine Sesc Crato
Exibição do filme Carta de uma desconhecida
Ficha técnica:
Título original: Letter from an Unknown Woman
Direção e roteiro: Max Ophüls
Roteiro: Stefan Zweig (novela), Howard Koch, Max Ophüls
Elenco: Joan Fontaine, Louis Jourdan, Mady Christians, Art Smith, Howard Freeman, Erskine Sanford, Betty Blythe, John T. Bambury
Duração: 86 minutos
Ano: 1948
País de origem: Estados Unidos

“Um dos mais belos romances da história do cinema. Viena, início do século XX. O famoso pianista Stephan Brand se hospeda num hotel, onde recebe uma carta de uma mulher desconhecida. Ao lê-la, relembra de Lisa (Joan Fontaine, em grande momento), uma mulher com quem viveu uma linda e tumultuada história de amor. Ao som de Liszt, Wagner e Mozart, Max Ophüls realizou, com sua sofisticação característica, um melodrama inesquecível. Baseado na novela de Stefan Zweig.” (sinopse da divulgação do evento)

Exibição na segunda-feira, 09 de abril de 2018, às 19h
No Sesc Crato-CE. Entrada gratuita.

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sábado, 7 de abril de 2018

Ariel Coletivo Literário apresenta Sarau Dama da Noite em Juazeiro do Norte



“O Ariel Coletivo Literário tem o prazer de apresentar o Sarau ‘Dama da noite’, cuja proposta centra-se na figura da mulher e nos seus múltiplos desdobramentos. Costurando poemas de diversas autorias, propomos um olhar crítico sobre a mulher, que nos inquiete a sair de um lugar comum. O sarau nos permite percorrer alguns momentos importantes na construção da  mulher emancipada: partimos da constatação da mulher escritora para apresentação da literatura que será ‘encenada’; depois, trabalhamos com a desconstrução dos estereótipos impostos à figura da mulher e  da  opressão cotidiana a que estão submetidas na sociedade patriarcal em que vivemos. Em seguida, encontramos uma mulher que se reconhece na dor, não por uma perspectiva de fragilidade, mas de força, convertendo essa dor em impulso na busca por seus espaços de luta e voz, chegando, finalmente, ao seu empoderamento. Além  da literatura em si, é com a utilização da musicalidade e dos jogos dramáticos que o grupo busca despertar a emoção e envolver o público com o sarau Dama da Noite.” (sinopse da divulgação do evento)
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Sarau Dama da Noite
Ariel Coletivo Literário
Sábado, 07 de abril de 2018, às 18h
No Centro Cultural Banco do Nordeste - CCBNB Cariri
Entrada gratuita.

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‘Os Outros’, filme de Alejandro Amenábar, em exibição no Cine Café



Cine Café do CCBNB Cariri (com mediação de Elvis Pinheiro)
Exibição do filme Os Outros
Ficha técnica:
Título original: The Others
Direção e roteiro: Alejandro Amenábar
Elenco: Nicole Kidman, Christopher Eccleston, Fionnula Flanagan, Elaine Cassidy, Eric Sykes, Alakina Mann, James Bentley, Michelle Fairley, Alexander Vince, Renée Asherson
Duração: 104 minutos
Ano: 2001
Países de origem: Espanha, Estados Unidos, França, Itália

“Grace mora numa mansão com seus dois filhos, que possuem uma doença e não podem ser expostos à luz solar. Seu marido está desaparecido por causa da guerra, e ela vive uma vida infeliz por causa da espera pelo seu retorno. E para piorar, surgem outros visitantes na casa.” (sinopse da divulgação do evento)

Exibição no sábado, 07 de abril de 2018, às 17h30
No Centro Cultural Banco do Nordeste Cariri (Juazeiro do Norte). Entrada gratuita.

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quarta-feira, 4 de abril de 2018

‘Sonata de Outono’, filme de Ingmar Bergman, no Cine Sesc Juazeiro



Cine Sesc Juazeiro
Exibição do filme Sonata de Outono
Ficha técnica:
Título original: Höstsonaten
Direção e roteiro: Ingmar Bergman
Elenco: Ingrid Bergman, Liv Ullmann, Lena Nyman, Halvar Björk, Marianne Aminoff, Arne Bang-Hansen, Gunnar Björnstrand, Erland Josephson
Duração: 99 minutos
Ano: 1978
Países de origem: Suécia, Alemanha Ocidental, França

“Após ter sido uma mãe ausente por anos, Charlotte (Ingrid Bergman), uma renomada pianista, vai até a casa de sua filha Eva (Liv Ullmann) para lhe fazer uma visita. Ela se surpreende ao encontrar sua outra filha, Helena (Lena Nyman), que tem problemas mentais.” (sinopse da divulgação do evento)

Exibição na quarta-feira, 04 de abril de 2018, às 19h
No Sesc Juazeiro do Norte-CE. Entrada gratuita.

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terça-feira, 27 de março de 2018

‘Identidade’, de Daniel Francoy



por Amador Ribeiro Neto

Daniel Francoy (Ribeirão Preto, 1979) é graduado em direito e trabalha no Poder Judiciário do Estado de S. Paulo. O terceiro lugar no Jabuti 2017 é seu com Identidade (Bragança Paulista: Urutau, 2016). Até então só fora publicado em Portugal. É autor de Calendário (Lisboa: Artefacto, 2015) e Em cidade estranha / Retratos de mulheres (Lisboa: Artefacto, 2010).

A poesia brasileira contemporânea, em parte, vai muito bem. Nomes (de poetas vivos) como Adélia Prado, Ademir Assunção, Adriano Espínola, Alberto Lins Caldas, Alexandre Guarnieri, Alice Ruiz, Antonio Vicente Seraphim Pietroforte, Arnaldo Antunes, Carlos Ávila, Cazé Lontra Marques, Delmo Montenegro, Flávio Castro, Frederico Barbosa, Glauco Mattoso, Lau Siqueira, Líria Porto, Márcia Maia, Marco Lucchesi, Marcos Siscar, Maria Lúcia dal Farra, Paulo Henriques Britto, Rodrigo Garcia Lopes, Ronald Polito, Rosana Piccolo, Ruy Proença, Sérgio de Castro Pinto, Simone Andrade Neves, Susanna Busato, Virna Teixeira, Zuca Sardan, dentre outros, comprovam sua aprumada materialidade. E, sem dúvida alguma, o maior de todos: Augusto de Campos.

Presentemente novo nome vem juntar-se a estes já grandes: Daniel Francoy. Sua poesia é potente: seduz o leitor ao primeiro contato. É arquitetada na mais elaborada linguagem. E, coisa rara, desenha rico universo de reflexão sobre o mundo e os sentimentos.

Esta poesia opera uma operação algébrica: sublime materialidade da palavra + densa argamassa das ideias + exata musicalidade.

Ao lê-la, o leitor sente o impacto que a grande arte provoca: o que é lido ergue-se em inusitadas configurações. Ainda que cotidianas. Ainda que vistas e entrevistas pelas janelas de todos os dias.

Eis onde reside um dos méritos de sua obra: no vértice da mais refinada poesia entretecida por um rol de ideias, preenchido de significados, significações e significantes. Quer seja: a palavra em sua dimensão absoluta: o vocábulo em si, seu uso figurado e imagético (no caso, imagem marcadamente musical).

Esta poesia segue na contramão da pauperização da linguagem. Insubordina-se contra a debilitação das reflexões. Tem gana, força e coragem de guiar-se contra a mesmice cristalizada (e aplaudida) por grande parte da produção poética brasileira contemporânea.

A poesia de Daniel Francoy é rigor associado à leveza. Encanta. Arrebata. Ela desconstrói imagens, pensamentos e ritmos descoloridos pela voracidade da comunicação rápida e barata. Insurge-se, com ousadia, contra as expectativas do mercado editorial e as dos leitores acomodados. E ainda mais: à afronta da ironia, da irrisão, do cinismo, no niilismo, da antipatia contrapõe a ternura. A ternura de uma visada ao mesmo tempo branda e dura.

Branda, na amorosidade com que revela o mundo e os sentimentos. Dura, na honestidade de tomar a vida sem os torneios dos enfeites. Sem os contornos das dissimulações. Tal procedimento instiga o leitor empenhadamente sério, o leitor-contra (ao gosto de Cabral e Augusto), o leitor-sensível (ao gosto de Adélia e Bandeira).

A poesia de Daniel Francoy sabe erguer-se na fronteira do necessário e do honesto. Cavouca fundo sem temer que tipo de verdade que possa encontrar. E, ao encontrá-la, não a revela com a fúria das bombas. Antes: inesperados maravilhamentos cotidianos desabrocham. Lição de poesia para todo aluno-leitor receptivo à outra alfabetização. Aquela que prioriza a sensibilidade do sujeito dentro (e ante) o mundo.

Sim, a força desta poesia impõe-se como novo e necessário aprendizado. Depois de lê-la, uma missão impossível se apresenta: esquecê-la. Como a descoberta de um novo amor, ou a morte súbita de outro, sua experiência perfura e perpassa o corpo, a memória, a cabeça, o coração. Aquilo que se sabe de arte e de poesia é posto em suspensão. E adentra-se a galáxia de epifanias: aclaramento cru do mundo e da história. Descoberta de si através das luzinhas da estrela-poesia (dentro da noite escura da vida).

Há na poesia de Daniel Francoy laivos de T. S. Eliot e de Fernando Pessoa. Naquilo que ambos têm de feliz associação entre filosofia e linguagem. Com o adendo: Daniel Francoy dialoga com estes dois grandes mestres, porém a voz que canta – poderosa e de timbre único – é a de novo poeta. Novo na idade. Novo na experiência das publicações. Novo no patamar que passa a ocupar na cena de nossa poesia. Novo na força de uma nova poesia que nasce no Brasil.

O leitor terá percebido que vivo o fascínio causado pela poesia de Daniel Francoy. Por isso compartilho esta descoberta de imensos prazeres e singular identidade.

Transcrevo poemas do livro Identidade.

ABRIL

De todos os meses, abril
é o que melhor me ludibria:
não há segunda vida — as pradarias
ainda são terra queimada
e o orvalho que virá, noite alta,
será mais cruel para as raízes
do que o gelo misturado ao barro.

Ainda cansado. Ainda com os olhos
batidos pelo calor mais antigo
e pelas sombras mais viscosas: espectral
voz marítima em cidade distante do mar.

A voz do luar — impuro delírio.
A voz do que naufragou e foi levado
pelos torvelinhos: cabelos com gosto de sal,
o coração tocando melodias alucinadas,
as frutas ácidas que perderam o sabor,
um preço muito alto ou muito ínfimo pelo amor.

Assim entro em abril. Assim o azul sem nuvens
se abre como uma terra sem máculas, uma terra
lavrada para o que nunca nasceu.
Assim os dias retornam à repetição:
as nuvens surgem à tarde, ora ventos exíguos,
ora redemoinhos de terra escarlate;
ora o que está distante parece próximo,
ora o que está presente mal se sente.
Assim as noites se desprendem
de um esbrasear fugidio: as estrelas são chama branca
e branca névoa sopra por entre as ruas quietas.
Todos sentem sono. Todos se enrodilham
a uma mágoa que parece suave,
a uma tristeza de voz débil,
a um doce tédio que mal volve os olhos
para as mortas raízes entre a terra revolvida.

CLARIDADE

Se ao menos não houvesse dúvidas:
é aquela hora de bruma e de medo
e a relva, amanhecendo úmida,
tem como raízes vísceras misturadas.
Se ao menos soubéssemos: sob o luar
Joana D’Arc é queimada e ascende
ainda mais translúcida do que a brisa
desfeita pela fuligem — é aquela hora
de árvores inertes e muros ensanguentados.
Se ao menos contemplássemos: arde
a cidade e somos nós os saqueadores,
nós os negros, nós os gregos, nós as troianas
deixadas ao estupro, aterrorizadas
por uma suspeita que jamais se confirma.
O que será esse rumor? Ratos
correndo no forro dos telhados ou torvelinhos
de vento uivando durante a madrugada?
Se ao menos uma palavra nomeasse
a pedra escura queimando o peito —
mas não: é meio-dia, faz sol
e a praça central se afoga em claridade.


DEZEMBRO

Tão baixo, possível, familiar,
o luar é apenas sujeira no céu.
Ainda mais abaixo, há grilos, mosquitos,
morcegos, a água barrenta
de um riacho, a doçura
dos frutos rachados pelos vermes
e também a aspereza
em rostos que o tempo tratou
como pedra que nunca foi movida.
Não fui uma ave migradora
e há rios que deixam de fluir
sem encontrar algo maior.


NA FRONTEIRA ÚLTIMA DA CIDADE

Acordo e o que existe de opaco, no sono,
perdura no primeiro instante:
o eco da chuva vinda na madrugada,
o bafio seco, o ar exaurido, a fria luz
do começo do sol. A fria luz e o alvorecer
semelhante à neve suja.

Acordo e o que existe de torpor
permanece nos primeiros movimentos:
levantar-me,apartar-me
do corpo que ao lado dorme, lavar-me,
promover o encontro da pele ferida
com o vento tornado áspero,
com o branco céu que recrudesce.

A cidade é um galpão de tetos baixos e luzes mortiças.
O fumo dos cigarros. O fumo dos motores.
Voltar a dormir durante a viagem de ônibus
e contemplar a paisagem entre lapsos
de consciência:
o rio é mais lama do que água
e no entanto o rio
é para onde fogem os animais mutilados

A cidade é um galpão de paredes de vidro
e o calor fere os olhos ao atravessá-la
e rebrilha quando o céu deixa de ser branco.
Nunca passei por esta estrada
e não vi ao menos uma árvore coroada de flores
em exaltado esplendor.
Como se um deus estivesse ferido
no coração pela ponta de uma lança
e não mais deixasse de sangrar.
Ainda quando o dia é estio, ainda
quando o céu é limite incendiado,
a perpétua agonia de um deus que não morre
é o que explica a coroação alcançar fevereiro,
quando o calor já calcinou todas as raízes.
Na fronteira última da cidade e mais além
estão os ipês e me pergunto
se o amor, com a sua natureza bravia,
terá a mesma permanência.


AUTORRETRATO

Diante de mim, na parede
em que aparecem os primeiros sinais
do tempo infiltrado, há uma prateleira
ainda por arrumar.
Virá alguém um dia e dirá
é uma casa com a beleza
das ruínas e então
serei como qualquer pessoa que morreu
quando eu ainda não era nascido.

Em tempo – Notícia boa: o poeta tem novo livro no prelo. Aguardemos.
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Amador Ribeiro Neto é poeta, crítico literário e professor titular do curso de Letras da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Publicou, entre outros livros, Lirismo com siso: notas sobre poesia brasileira contemporânea (crítica), Ahô-ô-ô-oxe (poesia), Muitos: outras leituras de Caetano Veloso (crítica) e Barrocidade (poesia). Mora em João Pessoa (PB).

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