sábado, 18 de abril de 2015

Cordel 'O Caldeirão e o Beato José Lourenço', de Francisco Edésio Batista



Embalado pra viagem # 115

Cordel O Caldeirão e o Beato José Lourenço
Autor: Francisco Edésio Batista
1ª Edição: outubro de 2002
Reeditado pela Coleção Centenário - Cordéis Clássicos
Xilogravura da capa da reedição (Editora IMEPH, 2012): José Lourenço
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Vou fazer a narrativa
Dum episódio sangrento,
Marcado por injustiças,
Por luta e por sofrimento,
Por opressão, violência,
Por muita morte e tormento.

No início do século vinte
Há poucas léguas do Crato
Formou-se um grande arraial
De povo humilde e pacato
Vivendo em comunidade
Sob as ordens dum beato.

Dum beato analfabeto,
Porém muito inteligente.
Um líder nato, eficaz,
Moderado e consciente,
Corajoso e cauteloso,
Querido de sua gente.

Chamavam-no Zé Lourenço
Um paraibano ordeiro
Que chegara ao Cariri
Na condição de romeiro
Atraído pela fama
Do santo de Juazeiro.

O beato era afilhado
Do padim Ciço Romão
De quem recebeu conselhos
Ferramenta e instrução
Para cultivar as terras
Da fazenda Caldeirão.

Logo ele se viu cercado
De gente trabalhadora
Disciplinada e ativa
Piedosa e rezadora
Também muito dedicada
Nos trabalhos da lavoura.

A fazenda era do padre
Recebida em doação
De terras ricas e férteis
Com verde vegetação
E todos nelas viviam
Na mais completa união.

Havia muita fartura
Tudo aí se produzia.
Arroz, feijão, milho, fava,
Andu, melão, melancia,
E no tempo da moagem
Rapadura se fazia.

Muitos foram atraídos
Por sua prosperidade
E se sentindo tratados
Com toda dignidade
Deixavam velhos patrões
Pra gozar mais liberdade.

Ninguém lá passava fome
Tudo ali era comum
Um batalhava por todos
E todos eram por um
Durante a semana santa
Todos faziam jejum.

Todavia esse sistema
Foi visto com aversão
Pelos latifundiários
Que havia na região
Pois que moradores seus
Fugiam pra o Caldeirão.

Entre os muitos agregados
Destacou-se um peregrino
Forte, valente e leal,
Sertanejo genuíno
Conhecido pelo nome
De Beato Severino.

Grande amigo de Lourenço
Como ele um penitente
No comando do arraial
Era seu lugar-tenente,
Cargo que sempre ocupou
Muito merecidamente.

Mas cedo terminaria
Desse arraial o sossego
Toda a paz que então reinava
Se muda em desassossego
E o trabalho das pessoas
Se converte em desemprego.

É que morre o padre Cícero
Com mais de noventa anos
E as terras do Caldeirão
Deixa pra os salesianos
Que logo infligem aos posseiros
Os mais desagradáveis danos.

Depressa a congregação
Contrata um advogado,
Aliás, um simples rábula
Que era também deputado
Para devolver-lhe o sítio
Completo e desocupado.

Os sacerdotes queriam
receber o Caldeirão
Com suas benfeitorias
Sem despender um tostão
Nem conceder ao beato
Qualquer indenização.

Divulgou-se que Lourenço
Não passava dum farrista
Era um homem perigoso
Sedutor e terrorista
Que dirigia fanáticos
Com ideal comunista.

O senhor Norões Milfont
Nosso falso bacharel
Viaja pra Fortaleza
E fala com o coronel
Secretário de polícia
De Menezes Pimentel.

Cento e cinquenta soldados
São enviados de trem
Levam fuzis, baionetas,
Metralhadoras também
Com ordem pra não deixarem
No Caldeirão mais ninguém.

Estes homens truculentos
A golpes de coronhadas
Vão expulsando as famílias
Que correm apavoradas
E à medida que elas fogem
Suas casas são queimadas.

Há desespero e há choro
Em todos no Caldeirão
Pois esta gente pacata
De trabalho e oração
Não teve como esboçar
A mais leve reação.

Os que ousam reclamar
Morrem a furos de espadas
Sob a sanha dos soldados
Mocinhas são molestadas
Algumas se suicidam
Para não ser estupradas.

Contra essa selvageria
Uma voz se levantou
A de Zusa da Botica,
Bom poeta e escritor,
Que num artigo vibrante
Esses atos condenou.

Fogem para Pernambuco
Lourenço e alguns dos seus
Vão cantando, vão rezando,
A vida entregando a Deus
Como outrora no deserto
Vaguearam os hebreus.

Vai pra Mata dos Cavalos
Outra parte dessa gente
Enquanto que Severino
Algemado com corrente
Segue para Fortaleza
Guardado por um tenente.

Fica preso vários meses
E muito padece ali
Quando enfim é libertado
Sente um grande frenesi
E em vez de fugir pra longe
Ruma para o Cariri.

E concebe um plano ousado
Retomar o Caldeirão
No que Lourenço se opõe
Como homem de visão
Ao examinar os riscos
E o perigo desta ação.

O capitão Zé Bezerra
Com um grupo bem armado
Dá combate a Severino
Dentro do mato fechado
Mas numa emboscada cai
E é morto degolado.

Para operação de guerra
A cena foi estopim
O que se passava em Crato
Não era simples motim
Era guerrilha evidente
Que se devia dar fim.

O próprio Cordeiro Neto
O secretário matreiro
Com aviões de combate
Aterrissa em Juazeiro
E decreta o bombardeio
A cargo dum brigadeiro.

Depois das bombas lançadas
Marcha toda a tropa atrás
Trucidando quem encontra
Com crueldade voraz
Matando mulher e homem,
Menino, moça e rapaz.

Foi em pleno mês de maio
Depois dum chuvoso abril
Que se deu essa hecatombe
Com esse massacre vil
Em que camponeses mortos
Ultrapassaram de mil.

Excetuando Canudos
Foi esta a maior chacina
Um borrão para a igreja
Que mancha a sua doutrina
E pra o poder não foi glória,
Foi desonra, foi ruína.

FIM
Crato, outubro de 2002
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Algumas postagens relacionadas ao Beato José Lourenço no blog O Berro:
- 'Beato Zé Lourenço', poema de Patativa do Assaré
- Conto 'O Santo Boi Mansinho'
- Refrigerante de urina e injustiças com Beato José Lourenço.


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