quinta-feira, 16 de julho de 2015

Agora aqui ninguém precisa de si



por Amador Ribeiro Neto

Arnaldo Antunes (São Paulo, 1960) dispensa apresentação. Cito apenas seus títulos em poesia: Ou e (1983), Psia (1986), Tudos (1991), As coisas (1992), Nome (1993), 2 ou + corpos no mesmo espaço (1997), Palavra desordem (2002), ET eu tu (2003), Frases de Tomé aos três anos (2006), N.D.A. (2010). Agora aqui ninguém precisa de si (São Paulo: Companhia das Letras, 2015) é seu mais recente livro.

Ao folhear Agora aqui ninguém precisa de si percebemos que a marca impressa por Arnaldo Antunes na poesia contemporânea continua sólida. Ele é um poeta que toma a palavra, antes de qualquer outra coisa, como matéria concreta de sua poética.

Vale-se de fotos, fotomontagens, grafismos, colagens, diagramações, diferentes fontes gráficas, é fato. Mas, no fundo, a palavra é o cerne de sua poética. Ele a elegeu como signo privilegiado, do qual outros signos provêm. Este é seu grande diferencial. Neste livro, vale-se do grafismo, da poesia visual, da poesia concreta e pós-concreta. E até faz uma inesperada concessão à prosa pela prosa.

Em Palavra desordem (2002), ele toma a prosa em várias modalidades. E sai-se muito bem ao trabalhá-la visualmente com grande limpeza gráfica. Ditados, máximas, citações, etc., são convertidos na linguagem concisa e sensivelmente ambígua da poesia. O livro é um imenso cartaz que se lê manuseando-o de vários modos. Em cada um, uma surpreendente informação.

Na série “prosinhas”, de seu novo livro, Arnaldo Antunes oferece-nos 16 microcontos de questionável qualidade. E que só atrapalham a unidade  do volume. Tais “prosinhas”, ou são uma tola investida na prosa mais simplória, ou adesão às bobagens da poesia neomarginal. Vejamos: “O argumento do desalento é que ele mata há mais tempo. Ora, é claro que o cigarro e o carro ficaram muito bravos!”. Com exclamação e tudo, parece ser página de diário de adolescente “que se acha”. Não dá nem pra creditar pretensa ironia a esta pasmaceira. É dispensável.

No entanto, não há malabarismos nem invencionices neste livro. Num dos poemas visuais o poeta anuncia: “todo mundo / mais simples / todo mundo / mais livre”. Eis uma das constantes: o simples, mas experienciado de um outro modo. Como no poema acima, que traz novidade na disposição gráfica. A linguagem de Augusto de Campos, Edgard Braga, José Lino Grünewald, Pedro Xisto e Décio Pignatari é revisitada. O resultado: vasto prazer ao leitor.

Estamos diante de uma poesia polifônica. É preciso calma para ouvir suas muitas vozes e seus muitos silêncios.

José Miguel Wisnik, nas orelhas, pontua: “No centro deste livro de poesia, que começa no nada e termina no silêncio, estão as coisas, mesmo as mais evanescentes”. De fato o livro abre-se com o poema “nada”, que diz: “nada / com um vidro na frente / já é alguma coisa // nada / com um vento batendo / já é alguma coisa // nada / com o tempo passando / já é alguma coisa // mas / não é nada”. E termina com o fotopoema “silêncio”,  em que a palavra silêncio afixada à porta desaparece à medida que vai sendo exposto seu negativo. Apenas parcialmente Wisnik acerta. O livro não começa no nada: começa no “mas / não é nada”, versos rigorosamente de asserção e negação ao mesmo tempo. Preciosidade da língua portuguesa. Que o poeta explora no poema final, grafado, no cartaz, sem o circunflexo, o que confere à porta o caráter de coisa-sujeito de primeira pessoa.

Enfim, a poesia de Agora ninguém precisa de si é um “design” em espiral. Abre e fecha com o tudo-nada. Ou nada-tudo. Espiral que se realimenta dos poemas do miolo do livro. Não é à toa que um dos poemas visuais seja a soma das palavras cielo e ciclo, que se fundem numa esfera de espirais. Sem dúvida, o livro possui respeitável projeto poético.

Agora aqui ninguém precisa de si traz à luz o melhor da poesia experimental feita no país hoje. Inquieto, o poeta continua cutucando a palavra para desnudar novos aspectos de seu corpo sempre sedutor. Agora e sempre, precisamos de si, Arnaldo Antunes. 
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Publicado pelo jornal Contraponto, de João Pessoa-PB. Caderno B, coluna “Augusta Poesia”, dia 10 de julho de 2015, p. B-7.

Amador Ribeiro Neto é poeta, crítico literário e de música popular. Doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Professor do curso de Letras da UFPB.

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Especial Beatles - Radiola DJ Batata convida DJ Ythallo



Radiola DJ Batata convida DJ Ythallo
Especial Beatles
Sexta-feira, 17 de julho de 2015, 21h
No Canteiros - Bar & Comedoria
Esquina da Rua São Luiz com Santa Isabel (Juazeiro do Norte-CE)
Gratuito.

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‘Uma Secretária de Futuro’, filme de Mike Nichols, em Barbalha



Cine Café Volante em Barbalha (com mediação de Elvis Pinheiro)
Exibição do filme Uma Secretária de Futuro
Ficha técnica:
Título original: Working Girl
Direção: Rouben Mamoulian
Roteiro: Kevin Wade
Elenco: Harrison Ford, Sigourney Weaver, Melanie Griffith, Alec Baldwin, Joan Cusack, Philip Bosco, Nora Dunn, Oliver Platt, James Lally, Kevin Spacey
Duração: 113 minutos
Ano: 1988
País de origem: Estados Unidos

“Uma secretária ingênua, Tess McGill (Melanie Griffith) consegue trabalho em um escritório que lida com o mercado de ações. Sua chefe, Katharine Parker (Sigourney Weaver), sofre um acidente e fica de repouso em casa. Lealdade, carreira profissional e sentimentos amorosos dão contornos tragicômicos a essa história.” (sinopse da divulgação do evento)

Exibição na sexta-feira, 17 de julho de 2015, às 19h
No Parque da Cidade de Barbalha-CE. Entrada gratuita.

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Dom Rasta no Armazém do Som



Armazém do Som
Show com a banda Dom Rasta
Sexta-feira, 17 de julho de 2015, 19h
No Teatro Sesc Patativa do Assaré
Juazeiro do Norte-CE
Entrada gratuita.

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quarta-feira, 15 de julho de 2015

Programação Orient Cinemas Cariri Shopping - de 16/07 a 22/07/2015

Minions
(Minions, 2014)
Direção: Kyle Balda, Pierre Coffin
Elenco: Vozes de Michael Keaton, Sandra Bullock, Allison Janney, Katy Mixon, Jon Hamm, Steve Coogan, Hiroyuki Sanada, Jennifer Saunders, Pierre Coffin
Produção executiva: Chris Renaud, Dave Rosenbaum
Produção: Janet Healy, Christopher Meledandri
País: EUA
Gênero: Animação, Comédia, Família
Duração: 104 minutos
Distribuidor: Universal Pictures
Classificação indicativa: livre
Sinopse: Minions, história da Universal Pictures e da Illumination Entertainment, tem seu início na aurora do tempo. Surgindo como organismos unicelulares amarelos, os Minions evoluem ao longo do tempo, eternamente servindo o mais desprezível dos mestres. Depois de várias parcerias mal sucedidas – que vão desde T. Rex a Napoleão – os Minions se encontram em uma profunda depressão quando percebem que não têm mais a quem servir. Mas um Minion chamado Kevin tem um plano: ao lado do adolescente rebelde Stuart e do pequeno e adorável Bob, ele decide sair pelo mundo à procura de um novo chefe malvado para que seus irmãos tenham a quem servir novamente. O trio embarca, então, em uma emocionante jornada que os levará a conhecer seu novo mestre em potencial, Scarlet Overkill (a vencedora do Oscar Sandra Bullock), a primeira supervilã do mundo. Eles viajam da Antártida para Nova York, em 1960, e terminam em Londres, onde terão que enfrentar o maior desafio de suas vidas: salvar todos os Minions... da aniquilação. (para assistir ao trailer, clique aqui)

Dublado: 13h10, 15h10, 17h20, 19h30 (Sala 1)
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Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros
(Jurassic World, 2014)
Direção: Colin Trevorrow
Produção executiva: Jon Jashni, Steven Spielberg, Thomas Tull
Produção: Patrick Crowley, Frank Marshall
Elenco: Chris Pratt, Bryce Dallas Howard, Jake Johnson, Judy Greer, Vincent D´Onofrio, Katie McGrath, Nick Robinson, Lauren Lapkus
País: EUA
Gênero: Ação, Aventura
Duração: 124 minutos
Distribuidor: Universal Pictures
Classificação etária: 14 anos
Sinopse: Quarto filme da série Jurassic Park. O Jurassic Park, localizado na ilha Nublar, enfim está aberto ao público. Com isso, as pessoas podem conferir shows acrobáticos com dinossauros e até mesmo fazer passeios bem perto deles, já que agora estão domesticados. Entretanto, a equipe chefiada pela doutora Claire (Bryce Dallas Howard) passa a fazer experiências genéticas com estes seres, de forma a criar novas espécies. Uma delas logo adquire inteligência bem mais alta, logo se tornando uma grande ameaça para a existência humana. (para assistir ao trailer, clique aqui)

Dublado: 21h40* (Sala 1)
* Somente sexta, sábado e véspera de feriado
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Homem-Formiga
(Ant-Man, 2015)
Direção: Peyton Reed
Elenco: Hayley Atwell, Evangeline Lilly, Paul Rudd, Judy Greer, Corey Stoll, Vanessa Ross, Michael Douglas, John Slattery
Produção executiva: Victoria Alonso, Louis D´Esposito, Alan Fine, Michael Grillo, Stan Lee
Produção: Kevin Feige
País: Estados Unidos
Gênero: Ação, Aventura, Ficção-científica
Duração: 117 minutos
Distribuidor: Walt Disney Studios
Classificação etária: 10 anos
Sinopse: Dotado com a incrível capacidade de diminuir em escala mas crescer em força, o vigarista Scott Lang (Paul Rudd) precisa assumir o lado heroico e ajudar seu mentor, Dr. Hank Pym (Michael Douglas), a proteger os segredos por trás do espetacular traje do Homem-Formiga de uma nova geração de ameaças. Contra obstáculos aparentemente intransponíveis, Lang e Pym precisam planejar e realizar um assalto que salvará o planeta. (para assistir ao trailer, clique aqui)

Dublado: 13h, 15h40, 18h20, 21h (Sala 2)
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Cidades de Papel
(Paper Towns, 2014)
Direção: Jake Schreier
Elenco: Cara Delevingne, Nat Wolff, Halston Sage, Cara Buono, Caitlin Carver, Austin Abrams, Meg Crosbie, Griffin Freeman
Produção executiva: John Green, Nan Morales, Scott Neustadter, Michael H. Weber
Produção: Marty Bowen, Wyck Godfrey
País: EUA
Gênero: Aventura, Romance
Duração: 110 minutos
Distribuidor: 20th Century Fox
Classificação indicativa: 12 anos
Sinopse: Baseado no best-seller de John Green, Cidades de Papel é uma história sobre amadurecimento, centrada em Quentin e em sua enigmática vizinha, Margo, que gostava tanto de mistérios, que acabou se tornando um. Depois de levá-lo a uma noite de aventuras pela cidade, Margo desaparece, deixando para trás pistas para Quentin decifrar. A busca coloca Quentin e seus amigos em uma jornada eletrizante. Para encontrá-la, Quentin deve entender o verdadeiro significado de amizade – e de amor. (para assistir ao trailer, clique aqui)

Dublado: 14h20, 16h40, 19h (Sala 3)
Legendado: 21h20 (Sala 3)
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O Exterminador do Futuro: Gênesis
(Terminator: Genisys, 2015)
Direção: Alan Taylor
Produção executiva: Bill Carraro, Megan Ellison, Laeta Kalogridis, Patrick Lussier, Paul Schwake
Produção: David Ellison, Dana Goldberg
Elenco: Emilia Clarke, Jai Courtney, Arnold Schwarzenegger, Aaron V. Williamson, Jason Clarke, Matt Smith, Byung-hun Lee, Teri Wyble, J.K. Simmons, Sandrine Holt, Douglas Smith, Courtney B. Vance, Miles Dyson
País: Estados Unidos
Gênero: Ação, Aventura, Ficção-científica
Duração: 119 minutos
Distribuidor: Paramount Pictures
Classificação etária: 12 anos
Sinopse: Em O Exterminador do Futuro: Gênesis, John Connor (Jason Clarke), líder da resistência humana, envia o Sargento Kyle Reese (Jai Courtney) de volta para 1984 para proteger Sarah Connor (Emilia Clarke) e salvaguardar o futuro, mas uma mudança inesperada nos acontecimentos cria uma linha do tempo fragmentada. Agora, o Sargento Reese se encontra em uma nova e desconhecida versão do passado, onde ele encontra aliados improváveis, incluindo o Guardião (Arnold Schwarzenegger), novos e perigosos inimigos e uma missão inesperada: redefinir o futuro. (para assistir ao trailer, clique aqui)

Dublado: 13h30, 16h10, 18h50 (Sala 4)
Legendado: 21h30 (Sala 4)
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Meu Passado Me Condena 2
(Meu Passado Me Condena 2, 2014)
Direção: Julia Rezende
Elenco: Fábio Porchat, Miá Mello, Marcelo Valle, Inez Viana, Antônio Pedro, Rafael Queiroga, Ricardo Pereira, Mafalda Rodilles
Produção executiva: Camila Medina
Produção: Mariza Leão, Erica Iootty
País: Brasil
Gênero: Comédia Romântica
Duração: 108 minutos
Distribuidor: Downtown/Paris
Classificação etária: 12 anos
Sinopse: O filme mostra o que aconteceu com Fábio (Fábio Porchat) e Miá (Miá Mello) três anos após o casamento realizado com apenas um mês de namoro e a lua de mel cheia de surpresas, em alto mar. Agora que caiu na rotina, o casal apaixonado está estressado e tem que lidar com suas diferenças, que não são poucas. Fábio, que trabalha com seu pai em um bufê infantil e pode acordar tarde todos os dias, não aguenta mais as reclamações de Miá, que é jornalista e dá o maior duro. Após uma discussão do casal e Miá pedir `um tempo´, Fábio recebe a ligação de seu avô Nuno (Antonio Pedro), que mora em Portugal, contando que acabou de ficar viúvo. Enxergando uma oportunidade de salvar seu casamento, ele apela para o emocional e a convence a ir com ele para o funeral na Terrinha. (para assistir ao trailer, clique aqui)

Filme nacional: 14h10, 16h50, 19h20, 21h50* (Sala 5)
* Somente sexta, sábado e véspera de feriado
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Carrossel, O Filme
(Carrossel, O Filme, 2014)
Direção: Alexandre Boury, Maurício Eça
Elenco: Ana Victória Zimmermann, Aysha Benelli, Esther Marcos, Fernanda Concon, Guilherme Seta, Gustavo Daneluz, Jean Paulo Campos, Konstantino Atan, Larissa Manoela, Léo Belmonte, Lucas Santos, Maisa Silva, Matheus Ueta, Nicholas Torres, Stefany Vaz, Thomaz Costa, Noemi Gerbelli, Orival Pessini, Márcia de Oliveira, Carlinhos Aguiar
Produção executiva: Diane Maia, Renata Rezende
Produção: Diane Maia, Marcio Fraccaroli, Sandi Adamiu
País: Brasil
Gênero: Infantil
Duração: 100 minutos
Distribuidor: Downtown/Paris
Classificação etária: livre
Sinopse: A turma do Carrossel está de férias da Escola Mundial e os amigos se reúnem no acampamento Panapaná, onde embarcam em novas aventuras. Juntos, eles viverão dias incríveis, participando de brincadeiras organizadas pelo senhor Campos, um velhinho muito simpático, que faz de tudo para que as crianças se divirtam ao máximo. Enquanto as crianças se divertem, Gonzáles, funcionário de uma incorporadora, aparece no acampamento com a missão de comprar o terreno para transformá-lo em uma fábrica poluidora. Enquanto o vilão procura sabotar e difamar o Panapaná para obrigar o senhor Campos a fechá-lo, a esperta turma da Escola Mundial se une para atrapalhar seus planos e manter o acampamento em funcionamento. (para assistir ao trailer, clique aqui)

Filme nacional: 13h40, 15h50, 18h, 20h10 (Sala 6)
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Ingresso:
Valores Inteiros (exceto Sala 3D Digital):
Segunda, terça e quarta (exceto feriado e véspera de feriado): R$11,00 (o dia todo)
De quinta a domingo (e feriado): R$ 15,00

Valores Inteiros para a Sala 3D Digital:
Segunda, terça e quarta (exceto feriado e véspera de feriado): R$15,00 (o dia todo)
De quinta a domingo (e feriado): R$20,00.

Promoção:
De segunda a quarta-feira, todos os ingressos por R$ 5,50, exceto sessões 3D (R$7,50 + R$4,00 óculos)

No Cinema do Cariri Garden Shopping (Juazeiro do Norte-CE)
Site Orient Cinemas: http://www.orientcinemas.com.br/
Número de telefone do cinema: (88) 3571.8275.

Programação sujeita a alterações.

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terça-feira, 14 de julho de 2015

Notas sobre a amizade em ‘Mary & Max: Uma Amizade Diferente’



por Cícero Émerson do Nascimento Cardoso

Alguém me disse, certa vez, que amizade não passa de uma utilidade prática – o que eu discordo. Eu prefiro apoiar-me, talvez romantizando o termo – o que é um problema a ser dirimido –, na assertiva de Clarice Lispector (1999, p. 78)*: “amizade é matéria de salvação.”

A propósito, uma das mais belas discussões sobre a amizade – amizade que se adéqua à linha do que Clarice Lispector compreende como matéria de salvação – podemos encontrar na obra cinematográfica Mary & Max: Uma Amizade Diferente, do australiano Adam Elliot.

Mary Dayse Dinkle, filha única de uma família visivelmente disfuncional, aos oito anos decidiu escrever para alguém da América apresentando, para seu interlocutor, alguns questionamentos que sua mente de criança ainda não conseguia compreender. Sua carta foi, por acaso, direcionada a um homem americano chamado Max Jerry Horowitz que, solitário, comedor compulsivo, portador da Síndrome de Asperger, viu seu cotidiano, por vezes sombrio, ser alterado completamente. 

A partir desta primeira carta, que Max responde após intenso conflito, uma amizade nasce entre os dois e os acompanha, salvificamente, por anos, resistindo à distância, às impossibilidades de encontro, às angústias que cada um, em seu universo particular, sofria ante uma existência nem sempre tão amigável.

O tom sombrio que perpassa a vida de Max é indicado pela fotografia em preto e branco; a fotografia que compõe as cenas em que Mary aparece tem um tom amarronzado com poucas variações de cores. 

Mundos, idades e experiências existenciais tão diferentes poderiam representar uma impossibilidade para o estabelecimento de uma amizade, no entanto a solidão, o vazio existencial, a ausência de afeto os reuniu. O mundo de Max, antes em preto e branco, passa a sofrer alterações também nas cores, através dos objetos que Mary envia junto das cartas.

Inúmeros temas são abordados nesta obra e podemos afirmar que todos eles convergem para o estreitamento da relação que se desenvolve entre Mary e Max. Para ilustrar, consideremos o fato de que a solidão da menina surge em decorrência da falta de atenção dos pais – seu avô comete suicídio no início do filme, seu pai trabalha numa fábrica de chá e, quando está em casa, procura ficar sozinho num quarto dos fundos, empalhando aves mortas, e sua mãe, além de cleptomaníaca, é alcoólatra e viciada em antidepressivos. Max, por sua vez, de família judia, não conheceu o pai e sofreu pela morte da mãe que cometera suicídio quando este ainda era um garoto. 

Na escola, Mary era maltratada por ser gorda e por ter uma mancha marrom no rosto; Max sofria algo parecido: era atormentado em seu bairro por ser, além de gordo, portador da Síndrome de Asperger que o tornava aparentemente estranho em relação às crianças de sua faixa etária.  

Por esta identificação mútua, Mary encontra em Max a atenção que não encontrava em casa. Max, por sua vez, sentia-se reconfortado por ter encontrado finalmente uma amiga – já que fazer amigos (além de ter um estoque de chocolate para a vida inteira e a coleção inteira dos “noblets”) era o seu principal objetivo.  

Um impasse ocorre entre eles, e simula um rompimento da amizade, quando Mary decide realizar um trabalho acadêmico com a intenção de conhecer a Síndrome de Asperger e, posteriormente, curar seu amigo. Ele, que não se sente com necessidade de cura, rompe a amizade que construíram causando nela uma sensação de culpa que a encoraja a destruir sua carreira acadêmica.

Embora casada, Mary sentia-se cada vez mais solitária, infeliz e dependente de antidepressivos – tal qual sua mãe. A angústia se acentua quando seu marido escreve uma carta dizendo-lhe que a abandonaria para viver com outro homem. Nesta ocasião, grávida, Mary decide suicidar-se e, no auge de sua dor existencial, ocorre sua redenção: Max envia-lhe uma nova correspondência e ela reencontra o ânimo para viver.

Comovente, intensa, dotada de uma ironia que margeia o macabro do humor, esta obra cinematográfica, excedente em singeleza, dá-nos uma dimensão profícua sobre o que a amizade deve representar para um indivíduo: conforto, auxílio, cumplicidade, compreensão e, sobretudo, aceitação.

Por aceitar Max em sua diferença, Mary reencontra a si mesma e ressignifica sua vida: estar com o outro não significa, necessariamente, tentar curá-lo. Ela passa a compreender, portanto, o que nós muitas vezes não compreendemos com facilidade: ninguém se cura de ser um ser humano – eis a mais indevassável das verdades.

E como escreve Rachel de Queiroz (1989, p. 93)** numa crônica sobre o tema: “respeite os seus amigos. Isso é essencial. Não procure influir neles, governá-los ou corrigi-los. Aceite-os como são. O lindo da amizade é a gente saber que é querida a despeito de todos os nossos defeitos.” E tenho dito!


Referências:
 * LISPECTOR, Clarice. «Uma amizade sincera». In: A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999. p. 78.
** QUEIROZ, Rachel de. «Amigos». In: Mapinguari: crônicas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1989. p. 93.
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Cícero Émerson do Nascimento Cardoso: Professor de Língua Portuguesa da Rede Pública de Ensino do Estado do Ceará; graduado em Letras pela Universidade Regional do Cariri; especialista em Língua Portuguesa, Literaturas Brasileira e Africanas de Língua Portuguesa; mestrando em Literatura Comparada pela Universidade Federal da Paraíba; membro do Núcleo de Pesquisa em Estudos Linguísticos e Literários da Universidade Regional do Cariri – NETLLI do Grupo de Estudos e Pesquisa em Literatura e Sociedade Contemporânea - GELISC. Autor do livro de contos Breve estudo sobre corações endurecidos (2011) e Romanceiro do Norte Juazeiro (2014) e dos folhetos A Beata Luzia vai à guerra e A artesã do chapéu (ou pequena biografia de Maria Raquel). Teve poema selecionado para o evento literário realizado pelo CCBNB “Abril para Leitura” em 2012, 2013, 2014 e 2015. Tem texto publicado pela Revista de Literatura e Arte Boca Escancarada, e desenvolve trabalhos acadêmicos vinculados à Literatura e Filosofia.

Texto originalmente publicado na SÉTIMA: Revista de Cinema (edição 20, de novembro de 2014), que é distribuída gratuitamente na Região do Cariri cearense. A Revista Sétima é uma publicação do Grupo de Estudos Sétima de Cinema, que se reúne semanalmente no SESC de Juazeiro do Norte-CE.

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segunda-feira, 13 de julho de 2015

Curta Cachaça Cinemex exibe o primeiro curta de Quentin Tarantino



Sinopse do curta My best friend’s birthday:
“Filme do diretor gravado em 16mm, quando ainda trabalhava em uma videolocadora. Em My best friend's birthday, Mickey, seu melhor amigo, está fazendo aniversário e Clarence Pool resolve ‘presenteá-lo’ com uma garota de programa. Entre acontecimentos baratos, cocaína e cenas aspirando a Kung Fu, vários imprevistos acontecem.” (sinopse da produção do evento)
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Curta Cachaça Cinemex
Curador: Ythallo Rodrigues
Exibição do curta-metragem My best friend’s birthday (Quentin Tarantino, 1987)
Quarta-feira, 15 de julho de 2015, 19h
No Canteiros Bar e Comedoria
Rua São Luiz com Santa Isabel - Juazeiro do Norte
Gratuito.

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‘A Igualdade é Branca’, filme de Kieślowski, no Cinematógrapho



Cinematógrapho (com curadoria e mediação de Elvis Pinheiro)
Exibição do filme A Igualdade é Branca
Ficha técnica:
Título original: Trois couleurs: Blanc
Direção: Krzysztof Kieślowski
Roteiro: Krzysztof Piesiewicz, Krzysztof Kieślowski
Elenco: Zbigniew Zamachowski, Julie Delpy, Janusz Gajos, Jerzy Stuhr, Aleksander Bardini, Jerzy Trela, Jerzy Nowak, Michel Lisowski, Cezary Harasimowicz
Duração: 88 minutos
Ano: 1994
Países de origem: França, Polônia, Suíça

“A esposa de Karol (Zbigniew Zamachowski) pede o divórcio e o trata com crueldade, pois ele está impotente. Sem dinheiro e sem ninguém, Karol, que é imigrante na França, retorna à Polônia. Aos poucos ele vai ganhando dinheiro e planeja uma doce vingança.” (sinopse da divulgação do evento)

Exibição na quarta-feira, 15 de julho de 2015, às 19h
No SESC Juazeiro do Norte-CE. Entrada gratuita.

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‘O Rock das Aves’ (Pachelly Jamacaru / Geraldo Urano) na voz de João do Crato



O Rock das Aves
(Pachelly Jamacaru/Geraldo Urano)

As aves voam e pousam
E voam e comem
E voam e dormem
E voam e trepam
E voam e pousam
E têm filhotes
E voam e cantam
E voam e encantam
E morriam
E hoje são mortas



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Voz: João do Crato, no disco Balaios da Vida (1995), de Pachelly Jamacaru.

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Pizza com Livros - 11ª Fornada Cariri



Pizza com Livros - 11ª Fornada Cariri
Leve seus livros novos ou usados para sorteio ou troca!
Produção: Paula Izabela
Quinta-feira, 16 de julho de 2015, a partir das 18h30
Na Atraente Pizzaria - Av. Carlos Cruz, 1431
Juazeiro do Norte-CE.

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Concertos Sesc Partituras em Crato



Concertos Sesc Partituras
Com Fabrício da Rocha, Davi Oliveira, Paulo Sérgio Pereira Rocha, Werbto Sales e Willames Nunes Rodrigues
Terça-feira, 14 de julho de 2015, 19h30
No Teatro Adalberto Vamozi - Sesc Crato-CE
Entrada gratuita.

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sexta-feira, 10 de julho de 2015

‘Hoje’, filme de Tata Amaral, em exibição no Cinemarana



Cinemarana (com curadoria e mediação de Elvis Pinheiro)
De 1964 a 1985: A Ditadura Militar Brasileira vista pelo cinema
Exibição do filme Hoje
Ficha técnica:
Título original: Hoje
Direção: Tata Amaral
Roteiro: Jean-Claude Bernardet, Rubens Rewald, Felipe Sholl
Elenco: Denise Fraga, César Troncoso, João Baldasserini, Pedro Abhull, Lorena Lobato, Cláudia Assunção
Duração: 90 minutos
Ano: 2011
País de origem: Brasil

“Ex-militante política recebe indenização do governo brasileiro pelo desaparecimento do marido, vítima da repressão desencadeada pela ditadura militar brasileira (1964-1985).” (sinopse da divulgação do evento)

Exibição na segunda-feira, 13 de julho de 2015, às 19h
No Sesc Crato-CE. Entrada gratuita.

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‘leminskiagem’, poema de Lau Siqueira



leminskiagem

passo pelo mundo
ancorado numa coragem
que desconheço

sei lá de que lado está
meu avesso
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Lau Siqueira, no livro Texto Sentido (2007).

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‘memória íntima’, poema de Lau Siqueira



memória íntima

tua boca
universo de versos
que desenho sobre
o nada

é como um
pássaro no vôo

beleza distante
tatuada em mim
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Lau Siqueira, no livro Texto Sentido (2007).

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quinta-feira, 9 de julho de 2015

O nome do mundo



por Amador Ribeiro Neto

Adriane Garcia (Belo Horizonte, 1973) cursou História na UFMG e Especialização em Arte-Educação na Universidade Estadual de Minas Gerais. Além de poeta, dramaturga e contista, é arte-educadora e atriz. Estreou na poesia com Fábulas para adulto perder o sono (2013), ganhador do Prêmio Helena Kolody do Concurso de Literatura do Paraná. O nome do mundo (Fortaleza: Armazém da Cultura, 2014) é seu segundo livro.

No prefácio José Castello, depois de afirmar que “o livro de Adriane é um magnífico retrato do ser tomado pelo horror de existir”, pontua: “o poema é um chamado para que o leitor ouse se mirar e se perder, como se Adriane lhe oferecesse um espelho e um par de algemas”.

José Castello diz bem. Mas não diz o outro lado.

A poesia de Adriane Garcia é feita por tomadas cinematográficas que captam o horror vacui do homem no mundo. A solidão é uma de suas mais fortes marcas.  Assim como a incompreensão de si, do outro e da geografia que demarca o homem. Por isso mesmo a matéria de sua poesia é a denúncia deste status quo com o grito desesperado por sua superação.

Ao valorizar, prioritariamente, a reflexão sobre a vida, esta poesia atinge momentos bons como em “Científica”: “Os vivos dormem / Não eu / Estou sobre a lápide, sentada / Silêncio absoluto / Os mortos nada sabem / Não partilham  mais / Nem dormem / Agora são pó, reações químicas / Inconscientes de fagulhas, / Eu as observo, sem inocência / Ou temor: / Já não sou mais criança”. A voz que fala guarda a ingenuidade da crença na ciência que tudo explica. É admirável o brilho da dicção de Augusto dos Anjos neste modo transverso de ver o homem, a vida e a morte.

O peso da existência adensa-se nos três versos mínimos de “Sísifo”: “Pintura triste: / Homem forte carrega / Palavra quase”. Percebemos que falta algo neste poema. Relendo-o constatamos que falta a palavra “tudo”. Subentendida pelo avesso de “quase”. O “tudo”, ausente, realça a tristeza lançada pictoricamente. Por outro lado, a poeta sabe que o haicai é originariamente um terceto com 5-7-5 sílabas. Ela quase chega a este haicai: 4-6-4 sílabas. Quase. Eis sua grande sacada isomórfica.

Novo acerto em “Sem luto”: “Por que ontem era uma / E hoje outra, sofro / Porque amanhã serei aquela / Que não conheço, / Essa ansiedade. / Porque nunca o conhecido / Mundo, uma vez que seja, / Repetida essa insegurança. / Morro todo milésimo de segundo / Renasço noutros, os mesmos / Compadeço-me dos que enlouquecem / Nessa embriaguez frenética / De tantas mortes sem velório”. O movimento de “ser a si” desconhecendo-se. E desconhecendo outros que virão. Outros que integram o mesmo si. Tudo num vaivém de imagens que acumulam ansiedade e angústia. Numa linguagem de admirável força rítmico-imagético-persuasiva.

Todavia, Adriane Garcia erra ao contentar-se com imagens, definições e  antíteses previsíveis: “O inferno é um lugar barulhento / Onde  / O que precisa ser ouvido / Faz silêncio”. Novo deslize encontramos no protesto juvenil que, até na organização estrutural dos versos, revela debilidade. Cito “Efeitos sonoros”: “Mijamos / Cagamos / Fedemos / Sujamos o ar / De gazes // A Terra bebe o  nosso vômito // Salivamos / Suamos / Para inventar talheres / Perfumes / E livros / E cantos / Gozamos / Choramos // Sangramos excrementos”. O leitor se pergunta: vale tudo em nome do elogio da ecologia? E do politicamente correto? Em poesia, seguramente, não.

Adriane Garcia, desde Fábulas para adulto... vem mostrando que tem algo a nos dizer. Precisa aplicar-se ao “como dizer”. Procedimento que ela, em vários poemas, desenvolve com maestria.
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Publicado pelo jornal Contraponto, de João Pessoa-PB. Caderno B, coluna “Augusta Poesia”, dia 03 de julho de 2015, p. B-7.

Amador Ribeiro Neto é poeta, crítico literário e de música popular. Doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Professor do curso de Letras da UFPB.

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