por Amador Ribeiro Neto
Não sabemos se por falsa moral, moralismo sem motivo ou questões de foro íntimo. O fato é que a poesia erótica é pouco divulgada. E dentro da erótica, a fescenina, menos ainda. A erótica se compraz em sugerir mais do que em mostrar. A fescenina centra-se na genitália e fala dela com todas as letras.
A princípio, tomando o estético como enfoque, não há o que obstar a este tipo de poesia. Que já era prática comum na Roma Antiga. E se propagou na Idade Média, Renascimento, Barroco e chega aos nossos dias. Ovídio, Boccaccio, Petrônio, Safo e Gregório de Matos não passaram incólumes às lâminas da guilhotina moral. Nem Verlaine, Sade e tantos mais.
No Brasil, não fosse a pesquisa séria, e a determinação insolente do grande James Amado, certamente ainda conheceríamos Gregório amputado. Bernardo Guimarães, tão divulgado pelo tão desastroso
A escrava Isaura, nem chegou a ver publicados em vida seus poemas fesceninos. A bem da estética, o que de melhor ele produziu está em
O elixir do pajé.
Entre os contemporâneos, quem tem se dedicado com afinco e perseverança no tema, tanto em poesia como em prosa é Glauco Mattoso. Seus textos são colados ao reles do chão. Prenhes de termos chulos. Com a sexualidade explícita. Os comedidos devem ir a seu bacanal banquete com parcimônia. E terão o azar de perder o que de melhor se escreve hoje aqui agora.
Glauco, desde que ficou cego, tem escrito sonetos fesceninos, sadomasoquistas e bem humorados que fazem a delícia do leitor mais exigente. Não bastassem os sonetos, ele reuniu, no livro de contos,
Tripé do tripúdio e outros contos hediondos (São Paulo, editora Tordesilhas) o
“making of” dos poemas. Nos contos saborosos e picantes a história que habita o porão criativo de cada poema. Com seu estilo lítero-jornalístico, Glauco imprime ao livro um ritmo alucinante de leitura. Prazer à beça.

Outro poeta que segue nesta linha fescenina, usando e abusando do chulo associado ao cômico é Luiz Roberto Guedes. Seu livro
Minima immoralia; dirty limerix (São Paulo, editora Demônio Negro) enquadra-se na linha do Limerick, um gênero poético que nasceu sério e carrancudo na Irlanda e depois assumiu o escracho, o obsceno no século XIX.
É um tipo de poema condensado, formado por cinco versos, rimado numa forma fixa. Todavia, tal como o haicai, o limerick abrasileirou-se ao chegar aqui. Desconsidera a métrica. Mas mantém o número de versos e o laconismo irreverente e sexual.
Glauco Mattos chama a atenção para Bráulio Tavares, um dos nomes de maior destaque no limerick brasileiro. Bráulio não somente divulga este tipo de poesia como rebatizou-o de “limeirique”, numa homenagem-trocadilho com Zé Limeira, nosso grande poeta do absurdo.
Luiz Roberto Guedes mete a mão nos temas mais recônditos de nossa literatura e os expõe sem medos nem mesuras. O reles, o chulo, o chão. O que é caro à cultura popular. E a Bakhtin, constituem a matéria viva e pulsante de sua poesia.
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Amador Ribeiro Neto é poeta, crítico literário e de música popular. Doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Professor do curso de Letras da UFPB.
Publicado pelo jornal Contraponto, de João Pessoa-PB. Caderno B, coluna “Augusta Poesia”, dia 04 de abril de 2014, p. 9.
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