sábado, 22 de agosto de 2015

Histórias de livros e destinos: ‘O Leitor’ e ‘Minhas Tardes com Margueritte’



por Alex Baoli

Os filmes aqui abordados, sob um viés comparativo, trazem um ponto em comum: a relação com a leitura. Além disso, eles são baseados em obras literárias: O Leitor, de Bernhard Schlink, e La Tête em Friche, de Marie-Sabine Roger.

No filme O Leitor, de Stephen Daldry, temos a dolorosa história de Hanna Schmitz (Kate Winslet – Oscar de melhor atriz em 2009) e o jovem estudante Michael Berg, em Neustadt, 1958, Alemanha Ocidental. Hanna conhece Michael Berg (quando adolescente, David Kross; na fase adulta, Ralph Fiennes) no pórtico do seu prédio. No momento em que Michael está indisposto, Hanna o ajuda, conduzindo-o à casa dela.

Depois de um tempo sem se verem, uma vez que ele esteve bastante adoentado, Michael, instigado pela mãe, procura-a para agradecer pela ajuda. Daí surge uma sequência de encontros (não só amorosos, como poderemos perceber ao longo do filme). Michael passa a frequentar a casa de Hanna, onde os dois compartilham diversas leituras, numa estranha relação de troca: “sexo” por leituras. Ele é “o leitor” evocado no título da obra. Somente após o terceiro encontro é que Michael pergunta o nome dela, que responde com uma certa resistência. Na cena seguinte, Michael está em aula, na qual o professor fala que na Literatura Ocidental as personagens detêm um segredo que, por algum motivo, decidem não revelar. Hanna tem os dois: o segredo e o motivo para não revelá-lo.

Hanna, que trabalha numa companhia de bonde, é promovida a ocupar um cargo no escritório. Como não sabe ler, e prevendo complicações ligadas ao seu passado, não só recusa o cargo, como desaparece misteriosamente. Michael vai à sua procura, mas não a encontra.

Durante o curso de Direito, Michael e sua turma vão assistir a um julgamento. Para o seu espanto, Hanna é uma das acusadas de matar 300 mulheres judias no campo de concentração de Auschwitz, durante o Nazismo. Hanna é apontada, pelas outras acusadas, de ter escrito o relatório no qual detalha o genocídio por que é acusada. Mas existe um detalhe que não veio a lume: Hanna é analfabeta. É somente aí que o estudante Michael relembra a resistência dela à leitura. Quando convidada por Michael a ler trechos de obras, o mesmo subterfúgio: “Prefiro que leiam para mim.” Assim, quando o juiz solicita uma mostra da sua letra, Hanna se recusa a dar-lhe e admite a autoria do relatório. Ainda é relatado que Hanna escolhia as prisioneiras em Auschwitz  para que lessem para ela.

Já em Minhas tardes com Margueritte, filme do francês Jean Becker, temos uma relação inversa, entre o cinquentão Germain Chazes (Gérard Depardieu), que é quase analfabeto, e a senhora Margueritte (Gisèle Casadesus), muitas décadas mais velha que ele, doce e apaixonada por livros. Casualmente, eles se conhecem numa praça e Margueritte chega com tanta doçura, que conquista Germain. Daí para frente, como num pacto, eles se encontram todas as tardes. Encontros para a leitura, caminho para uma linda e duradoura amizade.

Uma diferença patente entre as tramas de O Leitor e Minhas tardes com Margueritte é que, naquele, Hanna esconde um segredo: é analfabeta; neste, Germain, quase analfabeto, mantém um jogo aberto com Margueritte. Germain fala-lhe de suas angústias e incertezas, dificuldades com a leitura sentindo-se um nada – como ilustra o diálogo que ele mantém com Margueritte no primeiro encontro. Ela, ao contar sua história, diz que nasceu “de uma história de amor, como todo mundo.” Ao que Germain completa: “Nem todo mundo. Alguns nascem de um erro!”

German, que traz em seu histórico o aparente conformismo dos tolos, ocasionado, também, pelo tratamento que a sua mãe lhe dispensa desde a infância – além da relação com os amigos, que não perdem a chance de ridicularizá-lo –, encontra alento nas belas tardes em companhia de Margueritte. Em um desses encontros, ela revela a Germain que sofre de uma doença comprometedora da visão. Ele, instigado por sua namorada, Anette, aceita o desafio de “aperfeiçoar” a leitura, retribuindo, assim, as leituras que Margueritte lhe fez.

“É muito tarde para mim!”. Embora esta frase tenha sido dita por Germain, frente à dificuldade de “aprender” a ler, é Hanna, de O Leitor, quem a aplica à sua vida. Não no que tange a aprender a ler, pois ela aprende, guiada pelas fitas cassete que Michael lhe manda, narrando trechos de livros que liam juntos, mas em não acreditar que naquele mundo, depois de tantos anos encerrada na prisão, houvesse espaço para ela. Ferida em sua dignidade, Hanna perpetra o suicídio, considerando a sua “velhice um fardo”, como diria Margueritte.

Temos aí uma cena previsível: Hanna deixa uma latinha com o dinheiro que ela economizou para que Michael a entregue a uma sobrevivente dos horrores no campo de Auschwitz. Numa espécie de catarse póstuma, somente o suicídio parece expiar a culpa de Hanna. Esse momento é um dos diálogos mais fortes de todo o filme. Uma vítima do Nazismo, embora bem-sucedida, ainda não se “livrou” desse passado doloroso...

Também em Minhas tardes com Margueritte há um momento de acerto de contas afetivas: a mãe de Germain morre, deixando-lhe a casa, que ele julgara ter sido alugada por todo o tempo, além de deixar-lhe uma fotografia e, finalmente, a paternidade de Germain é revelada. Tudo isto traz um alento, a certeza de que, a mãe de Germain sempre o amara, embora com seu estranho modo de amar... Não fosse isso, talvez prevalecesse no espectador aquela imagem inicial do filme: Germain Chazes escrevendo seu nome no monumento erguido a crianças mortas – na guerra.

De algum modo, e de formas mais distintas, os protagonistas desses dois filmes mantêm uma relação intensa com a leitura. Hanna, na solidão de sua cela, dedica-se à leitura aplacando a sua solidão – ou aumentando-a? Michael Berg, através dos livros, mantém-se ligado a Hanna e ao passado. Margueritte aproxima-se de Germain e afasta a sua solidão tão certa. Germain passa a enxergar o mundo e a enxergar-se no mundo, salvo pelo amor (aos livros?) e pela amizade, não voltando para “a caverna”, como lhe sugerira sua mãe, mas saindo definitivamente dela...
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Alex Baoli: professor de Língua Portuguesa. Atuando na Rede Estadual do Ceará. Admirador confesso da Literatura e do Cinema. Integrante do Grupo de Cinema Sétima.

Texto originalmente publicado na SÉTIMA: Revista de Cinema (edição 20, de novembro de 2014), que é distribuída gratuitamente na Região do Cariri cearense. A Revista Sétima é uma publicação do Grupo de Estudos Sétima de Cinema, que se reúne semanalmente no SESC de Juazeiro do Norte-CE.

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