terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Malembe, nova revista paraibana de literatura



por Amador Ribeiro Neto

Recentemente chegou-me às mãos o primeiro número da revista Malembe, feita e publicada em João Pessoa. De imediato o título, musical e enigmático, chamou-me a atenção. E lá estava, na página inicial, seu significado: “Malembe: cântico rogatório que se dirige a certos orixás nos candomblés, quando se deseja aplacar-lhes a fúria, ou nas situações difíceis particulares ou coletivas. Malembe, na Angola, também vai de advérbio: devagar. E que cabe na expressão malembe-malembre: o nosso tradicional devagar se chega longe”.

A revista, que é impressa e terá publicação semestral, tem como editores Guilherme Delgado, Carlos Nascimento e Débora Gil Pantaleão. A diagramação e o projeto gráfico – ambos bastante despojados e, por isso mesmo, atraentes – são de Ícaro Medeiros de França. Quem assina a bela capa é Lívia Costa. E a revisão ficou a cargo de Fred Caju. Todos jovens, animados jovens. Cheios de projetos. E com a mão na massa.

A proposta da revista Malembe é divulgar a literatura contemporânea, mesmo interrogando “que bicho é esse?”. Ao partir deste questionamento, acerta em cheio. Afinal, o que se produz hoje é contemporâneo? E o que foi feito há tempos não é? Sabemos que há autores contemporâneos (na idade cronológica) que pensam e escrevem como se estivessem no século XIX. E há autores do século XIX que pensam e escrevem como se estivessem em pleno século XXI.

Machado de Assis está entre estes últimos. Nem vale citar quem esteja, hoje, escrevendo anacronicamente. São muitos. Por isso mesmo a revista, no editorial, pontua: “e o que há de novo? Quem são os jovens autores e provocadores da terrinha [Paraíba]?”. E diz a que veio: “com vontade de ser mais um ponto articulador das artes de João Pessoa. Com o desejo de dialogar dentro de mais um espaço possível com a fila de inquietos presente na terrinha. E com a teimosia de imprimir essa produção”.

A edição número 1 traz cinco poetas, em sua maioria publicados pela primeira vez. Além de uma contista, que também assina um artigo. Há uma seção de entrevistas que, neste número inicial, colhe depoimento de Miró, poeta recifense que anda à margem da margem da produção poética do país.

Carlos Araújo (Santa Luzia-PB, 1987) publica 3 poemas. Todos revelando a garra de alguém que conhece os meandros da linguagem da poesia. Cito “Meio-dia”: “Nesta hora / como um par de tardes / amarrado ao azul, // cada qual, lados do crânio, / tinem a alternância / viciada trágica no sol”. As inversões de expectativas, mais que sintáticas, reverberam o padecimento pelo zunido ao sol, que a rima interna e toante em [a] do último verso destaca: viciAda / trÁgica. Enfatizada pelo proparoxítono, sempre sonoramente esdrúxulo. E, aqui, semanticamente reforçado. Um bom poema.

Carlos Nascimento (Recife, 1995) precisa despoetizar-se para que sua poesia surja. Sua linguagem traz demasiadas intertextualidades, sufocando o trabalho com a palavra. E quando quer ser sucinto, ao apelar para o surreal, não resolve a situação. Vejamos “Como sabes”: “Vir seda, brochura, / conterrânea de cinzas de cigarro. / Aras... Raras... / Gel de pentear cabelo”. Mas acerta a mão em “À queima-roupa”, em especial no verso final, que introduz a dubiedade, marca de toda boa poesia: “O suspiro tateia a fala. / Milímetros se encaram. / No disparo, / se calam. / Foi-se o atirador”.

Débora Gil Pantaleão (João Pessoa, 1989) leva jeito para o trabalho com a palavra. Todavia, precisa desvencilhar-se dos cacoetes da linguagem da poesia, tais como a enumeração, a inversão, os cortes no clímax do poema. São recursos que só adquirem validade na interação isomórfica. Usá-los pura e simplesmente, acreditando que é assim  se faz, é dar crédito excessivo aos manuais de poesia. Cito “cabeça”: “ao avesso / escorre o / rio barrento // reverso / falho / defeito // a cabeça / morta // cabeças são / para explodir”.

Guilherme Delgado (João Pessoa, 1986) vale-se da palavra caligrafia nos títulos de todos os seus  poemas, aqui publicados. A esse procedimento segue-se o nome de um poeta. Ele dialoga ora com a vida, ora com a linguagem, ora com ambos, de cada um deles. Assim, temos “Caligrafia para Adília”, um poema perfeitamente acabado, de onde destacamos o verso “assim como não se chama de neto um bolor”. “Caligrafia para Murilo” abre e encerra-se com imagens murilianas revisitadas por Guilherme com apurado rigor. E “Caligrafia para Borges” prefiro transcrevê-lo integralmente: “Conter a noção de sonho / pra dar sentido de tato; / a maçã da palavra não existe, / mas seu peso, sua cor, seu / formato”. Estamos diante de um poeta que conhece os meandros das interações entre som e sentido da linguagem poética. Um poeta que sabe lidar com a novidade da palavra, e da poesia, sem maculá-las com as marcas dos andaimes que a constroem. Sem dúvida, Malembe anuncia novo poeta de peso na praça.

Pedro Araújo (João Pessoa, 1987) ainda está marcado pela poesia cabralina. O referente é excelente, mas Pedro precisa superar esta influência direta e tirar dela o crème de la crème. E partir para fazer sua própria poesia. Cito a primeira estrofe do longo “Da baía, formas”: “o dinossauro imóvel fornece / os termos da pedra e seus alardes / uma cobiça de vontades atina / o mar o barco a lança / da prancha cristalina”.

Isabor Quintere (João Pessoa, 1994), em um artigo, conta sua experiência numa oficina ministrada por Marcelino Freire e, a seguir, publica um conto, que me pareceu derivado desta experiência. No texto do artigo já se vislumbra seu bom domínio da narrativa: fluência, coesão, detalhes colhidos com rigor e apreendidos numa linguagem cheia de ritmo e tensões. No conto percebe-se a influência do realismo maravilhoso de Cortázar e Gabriel Garcia Marquez, autores que ela mesma identifica em sua minibiografia. Isabor tem bom domínio da prosa. Seus dois textos apontam para uma próspera escritora.

Miró, nome artístico de João Flávio Cordeiro da Silva, é poeta na contramão da linguagem e do mercado editorial. A bem da verdade, Miró andou na contramão da vida. Por pouco não se deu mal. A seu tempo recuperou-se, e hoje dedica-se plenamente à literatura. Nesta entrevista ele dá seu recado despojado, bem distante do repertório acadêmico e/ou intelectual estabelecidos. Sua voz é importante porque fala de um lugar marginal na literatura – mas dotado de dicção singular. Nova. Provocativa. Instigante. Lê-lo é deparar-se com a novidade de temas, cenas e sequências captadas com vivaz coloquialidade. Miró consegue ver poesia no mais improvável. E, mais improvável ainda: ele produz poesia com o improvável que vê. Aí reside sua marca. Sua grandeza. Seu humor. Ele é poeta antes de tudo, embora afirme: “Hoje eu me considero mais um cronista que um poeta”. Coisas de quem gosta de Drummond e de Ignácio de Loyola Brandão, “no mesmo patamar”. Não há como não admitir: Miró é somatória de delícias surpreendentes. Da vida. Na linguagem da poesia.

Malembe chega pra ficar. Tem uma ótima galera em seu corpo editorial. Chega dizendo a que veio. O que busca. O que quer. E abre o peito pra expor suas dúvidas. Sem medo. Mostra o que sabe fazer. E, pelo número de estreia, revela que tem muito a dizer ao nosso (e do nosso) quintal da literatura contemporânea. Axé! Malembe-malembre! Bem-vindos, novos nomes da nossa literatura!
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Publicado pelo Correio das Artes, suplemento literário do jornal A União, de João Pessoa, em dezembro/2015, ano 66, nº 10, p. 15-16, na coluna Festas Semióticas.

Amador Ribeiro Neto é poeta, crítico literário e de música popular. Doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Professor do curso de Letras da UFPB.

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Um comentário:

  1. E eu que virei tua fã na oficina com Marcelino Freire, tive a oportunidade de ta do teu lado na Malembe #1. :)

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