terça-feira, 22 de abril de 2014

De quando o corpo se torna prisão



“Ando cheio de nós de angústia, de tormentos,
por pertencer a um corpo que não entendo,
nem entendo o mínimo, nem as unhas, nem o dedo mindinho,
sinistro como odre cheio de visgo negro,
ali há anos esquecido de todos...” (Hilda Hilst)

por Elandia Duarte

Perder um amor é mesmo como perder parte de si mesmo. É ver-se inevitavelmente incompleto de forma dolorosa e triste. É sentir um vazio insuportável e desesperador, é ainda perceber que este mesmo vazio te consome e te suga, te prende, te sufoca. Mas, e quando o vazio é você? Seu corpo, seu espaço sagrado de habitar-se? Quando a falta de SER não foi provocada por um afeto desfeito, um amor perdido, por outro externo a ti? Quando a solidão sentida é provocada pelo seu próprio corpo, que estranho a você habitante primeiro e singular não te deixa caber?

É bem com este sentido e esse turbilhão de perguntas confusas e desconexas que saí das seções dos filmes XXY e A pele que habito,dirigidos por Lucia Puenzo e Almodóvar, respectivamente. Visto em tempos e formas diferentes, mas provocadores de sentimentos idênticos. Ambas as personagens principais percebem-se em determinado momento da trama, sufocadas, diria mesmo, roubadas de si pelo corpo que é (?) seu. Um corpo que lhes nega o direito de auto reconhecer-se, de se perceberem externamente, que lhes singularizam de tal forma dos outros que lhes impõe a solidão.

E aí cabe outro ponto de reflexão profunda no qual me vejo agora no momento dessa escrita, novamente submersa: quantos de nós assim como os personagens da mãe em XXY e do médico-cirurgião em A pele que habito, por não sabermos sentir amor e vivê-lo, roubamos dos que amamos as suas possibilidades de através do seu corpo, expressarem sua alma? Através do seu corpo amarem, viverem?

Como diria a Clarice Lispector em Água Viva, aqui parafraseada, quantos de nós somos e ao amarmos deixamos o Outro, recebedor do nosso amor, SER? Quantos de nós limitamos ou permitimos (em nome do amor ao companheiro) a liberdade de com o corpo - que mais que habitação, precisa ser lar e espaço singular e único de cada um – expressarem-se em toda sua plenitude, sua essência, seu SER? Quantos de nós permitimos a explosão de si em todas as suas formas e possibilidades?

E mais uma vez recorro a Clarice: «E ‘eu te amo’ era uma farpa que não se podia tirar com uma pinça». E nós? Sentimos algum espinho no nosso corpo? Somos espinho no corpo de alguém? Fazemos do corpo dos que amamos espinhos para eles? Negando-lhes a possibilidade de viver e olharem-se no espelho reconhecendo-se verdadeiramente? Deixamos os outros tornarem o nosso corpo e os nossos amores espinhos estranhos a nós? 
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Elandia Duarte possui graduação em pedagogia pela Universidade Regional do Cariri (2008) e Especialização em Arte/Educação pela mesma Instituição. Atualmente professora colaboradora no projeto de pesquisa intitulado: O papel da iniciação científica na formação dos estudantes de pedagogia da URCA. Atuando principalmente nos seguintes temas: Leitura/Educação, Arte/Educação e Formação de Professores e pseudopoeta.

Texto originalmente publicado na SÉTIMA: Revista de Cinema (edição 09, de 06 de novembro de 2013), que é distribuída gratuitamente na Região do Cariri cearense. A Revista Sétima é uma publicação do Grupo de Estudos Sétima de Cinema, que se reúne semanalmente no SESC de Juazeiro do Norte-CE.

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