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sexta-feira, 31 de julho de 2020

9 (+1) obras de Luís Karimai, por Clara Karimai


Luís Karimai e Clara Karimai (foto - detalhe: Rafael Vilarouca)

por Clara Karimai

Quando me foi solicitada essa seleção, foram muitos os anseios e possibilidades na elaboração de um conteúdo sobre a produção imagética de Karimai. Bateu a insegurança. Apesar de ter crescido frente às inúmeras produções artísticas dele, alcançar as suas significações sempre me foi desafiador já que não se tratavam apenas de telas com paisagens de realidades objetivas, elas sempre me convidavam a olhares mais atentos.

Em nossos diálogos, sem nenhum argumento de autoritarismo, ele confortava a minha ignorância com a única orientação de deixar-me envolver pelos sentidos e percepções. O demais me viria por acréscimo.

Claro que por muitas vezes demorei o olhar e não apreendi o que hoje, mais madura e com mais vivências e sensibilidades, assimilo com as instigações que me resgatam sempre que preciso lutar contra essa insistente reificação da consciência, sobretudo neste momento em que o mundo vive essa pandemia e em que tudo pode/deve ser repensado, ser revisto.

Captar sentido do mundo à nossa volta é um percurso sugerido a quem aceita o convite a essa proposta artística de repensar as estruturas; de criar outras perspectivas humanas, sociais; de reflexão sobre o nosso alheamento diante da vida; de questionar sobre a razão de ser; das limitações impostas, mas também das infinitas possibilidades.

Eis algumas obras de Luís Karimai, meu pai querido. A decisão é individual, o caminho é único...


 
Homo lumen - luz da natureza – desenho - Nanquim em bico de pena - 48 X 33,5. Do álbum Destino Peregrinações e Mentes, 1982 – cópia em offset. Essa obra é de uma fase em que Karimai trabalhou muito com o nanquim. Há uma extrema valorização aos detalhes e ao jogo intencional de imagens, luz e sombra. O início da sua produção artística se manifesta convenientemente durante um período de descobertas pessoais, algumas angústias juvenis. O sofrer é representado com pedras, cipós, corpos transpassados por lâminas e pregos, elementos recorrentes nesse período.


 
Óleo sobre tela – Auto-peregrinação: compõe a série que Karimai produziu com a temática Horto. Retratou tudo que dá movimento a Juazeiro do Norte com narrativas férteis e múltiplas. As cores dão total sentido à obra. É quase possível sentir o calor característico do mês de setembro, durante a Romaria de Nossa Senhora das Dores. Gosto dessa tela porque é uma retratação nada simplista de como a cidade foi gerada. Dá uma nova realidade às coisas cotidianas. Tem sempre algo novo para ver. Além de revelar o impacto que essa cidade causou em Karimai, em meados de 1970, quando aqui chegou para pesquisas acadêmicas e daqui não quis mais sair.


 
Tela de 1995: alusão ao Juazeiro antigo, plantio de algodão e aos vários trabalhadores nos seus labores. Lembro dessa tela durante um bom tempo na parede da sala de casa e o quanto gostava de olhar para ela. A terra que se funde com o céu e a vastidão de espaço nos remete a perspectivas, esperanças, ao olhar adiante. Mais que a representação de um lugar preexistente, a cena não é irreal, mas toca o nosso imaginário.


 
Óleo sobre tela: a riqueza e harmonia dos detalhes prende o espectador. Eu gosto muito dessa perspectiva aérea. Ela possibilita a visão da paisagem como um todo para depois olhar por partes. A diminuição dos elementos é uma sugestão de distanciamento do observador para acomodar e revelar a profundidade da imagem. As obras de paisagem de Karimai possuem certa atmosfera meditativa. De beleza na simplicidade e silêncio que se alastra. Não muito habitual, nesta tela Karimai usou camadas grossas de tinta (impasto) nas árvores e em algumas vegetações para dar mais perceptibilidade à tinta.


 
O tempo espreita: nós - Óleo sobre tela: Uma experiência visual penetrante. Contrastantes nos planos dos tons frios (as figuras humanas) e quentes, as cores reforçam as contraposições das dualidades da temática: Desejo/castração, liberdade/amarras, contração/fluidez, tradicional/contemporâneo, razão/emoção, masculino/feminino, consciente/inconsciente. O semblante de olhos pequenos está compenetrado como quem perscruta. Karimai ainda brinca com os sentidos quando situa essas figuras em transbordo de êxtase, no espaço do cosmo.


 
Desenho – lápis grafite, aquarela, pastel e colagem: Esse desenho é composto por várias tiras de papel que vão aumentando o tamanho do desenho. Presente ao filho, Paulo. Começou com um papel pequeno e foi tomando forma na medida em que sentia necessidade de continuar e não queria perder o fluxo da criação. O menino descansa na pedra em um estado contemplativo, com serenidade. Essa obra me remete aos passeios de final de tarde que ele fazia conosco (filhos) e a meninada da rua, por cenários como esse, observando as inervações e colorações das folhas secas caídas pelo chão, as torções engenhosas das raízes, as pedras. “Pinta bem quem observa bem”, dizia. Para mim, essa tela tão fértil de detalhes emana a paciência, candura e mansuetude próprias de quem ensinava com a observância interna às orientações cedidas.


 
Óleo sobre tela: Karimai explora com clareza um pensamento complexo nesta tela. As disponibilidades das narrativas sugerem uma condução do olhar. As emoções envolvem as figuras humanas. Armaduras, caixas e prisões são suavizados por tecidos fluidos e transparentes, flores e seres diáfanos. Transiçõese transformações em que uma coisa vira outra. Caixas que são casas, mas também estradas, pontes, e os pontos de fuga que indicam continuidades... As cores entram como atenuantes às tensões. Onde existe aflição, também se aportam belezas.


 
Pintura mista: essa foi em parceria com o filho Lui, que na época tinha 6 anos e toda tarde ia desenhar com ele. Esse desenho foi feito despretensiosamente por Lui, deixado de lado após convite a outros afazeres. Karimai viu, gostou, aproveitou o desenho da telinha, reorganizou a forma e fez a pintura. Lui hoje está com 20 anos de idade e tem essa obra na mesa onde gosta de criar artes digitais.


 
Óleo sobre tela: “Abstrato é coisa de abstração. Capacidade de entendimento do real dever ser elevada e a síntese magistral. Não se faz abstração sem vivência calejada na vida, nem se consegue resultados sem equilíbrio na existência, na geometria dos similares-e-contrários.... Pinta bem quem observa bem” Luís Karimai.


 
(+1) Óleo sobre tela: me estimula a decifrar abstrações, alma/corpo, sonho/realidade, céu/sideral.
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Clara Karimai: jornalista formada pela UFCA. Assessora de Imprensa. Atualmente se dedica na catalogação e disponibilização da memória e da obra do artista plástico Luís Karimai.

Confira outras listas postadas recentemente no blog O Berro:
9 (+1) livros sobre Juazeiro do Norte - Parte 1
9 (+1) poemas de Fernando Pessoa e alguns de seus Outros Eu(s), por Flávio Queiróz
9 (+1) poemas de O Belo e a Fera, livro de Geraldo Urano (Lima Batista)
9 (+1) referências do Design Cariri, por Fernanda Loss
9 (+1) discos preferidos do rock internacional, por Michel Macedo
9 (+1) importantes obras de filosofia, por Camila Prado
9 (+1) artistas visuais contemporâneos, por Adriana Botelho
9 (+1) leituras para quem quer conhecer melhor a literatura brasileira, por Edson Martins
9 (+1) músicas para ouvir no Primeiro de Maio, por Antonio Lima Júnior
9 (+1) obras que me fizeram refletir durante o isolamento, por Cecilia Sobreira


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quarta-feira, 22 de julho de 2020

9 (+1) livros sobre Juazeiro do Norte - Parte 1



por Ythallo Rodrigues e Luís André Araújo

“Juazeiro é uma terra de pouca geografia e muita história”. Com essa frase, Monsenhor Murilo de Sá Barreto naturalmente se referia a toda a riqueza de fatos, histórias e culturas na vida de um município relativamente novo e com pouca extensão territorial.

E neste 22 de julho – dia da emancipação política do município – para ilustrar que o que não falta é história sobre o Juazeiro, resolvemos lançar a primeira de uma série de listas com livros que contam muitos dos fatos ligados à gênese e ao desenvolvimento de Juazeiro do Norte, em seus aspectos religiosos, políticos, econômicos e culturais.

Assim sendo, é importante pontuar algumas questões:

A produção editorial e acadêmica de trabalhos sobre Juazeiro é vastíssima, mas as listas são finitas, implicando no inevitável: muita coisa boa (e importante) naturalmente (e infelizmente) ficará de fora.

Como faremos mais de uma lista (aguardem as próximas!), possivelmente um livro não contemplado agora pode ser citado numa próxima postagem.

Para tentar diversificar as épocas, estilos, autores e autoras das obras, a lista não segue um critério de importância/relevância da publicação, então colocamos em ordem cronológica, considerando a data de lançamento da primeira edição.

Ressaltamos que a lista não é assinada por especialistas na história do Juazeiro e sua religiosidade, mas O Berro resolveu se lançar nessa missão por sempre demonstrar um eminente interesse e admiração pelo assunto, como quem se surpreende com a riqueza de cada história deste lugar. Então as listas surgem dessa curiosidade e admiração.

Por fim, enfatizamos que não estão sendo listados, necessariamente, livros com qualquer tipo de temática ligada ao Juazeiro ou pelo fato do escritor ou escritora ser juazeirense. A ideia é enumerar livros “sobre o Juazeiro”, com temáticas caras à sua origem e desenvolvimento enquanto município, no que se refere às questões religiosas, à história do Padre Cícero e/ou da Beata Maria de Araújo (e demais religiosos conhecidos), das romarias, etc., também pincelando aqui e acolá as questões econômicas, políticas e culturais.

Boa(s) leitura(s)!



O Padre Cícero que eu conheci (verdadeira história de Juazeiro) - Amália Xavier de Oliveira (Gráfica Olímpica, 1969): o livro da professora e memorialista Amália Xavier busca descrever a vida de Padre Cícero, tendo como recorte o período em que este viveu em Juazeiro, entre 1872 e 1934 (ano de sua morte). O texto que abre a edição de 2001 é uma carta da escritora Rachel de Queiroz, de 1968, com considerações que demonstram algumas características importantes do texto da professora juazeirense: “Estou acabando a leitura de seu livro O Padre Cícero que eu conheci. E quero agradecer a distinção que me fez, proporcionando-me a leitura em original, desse depoimento honesto, veraz e fiel. Sabe quanto venero a figura do nosso padrinho Padre Cícero; é uma dor de coração ver esses ‘depoimentos’ e ‘interpretações’ que saem por aí, assinados por aventureiros, por pessoas que se querem beneficiar da glória do nosso santo – ou por conhecidos inimigos dele. O seu livro vem pôr a verdade no seu lugar. É claro, sincero – e se é apaixonado, algumas vezes, – será desse paixão da justiça, que reclama quando vê a mentira entronizada.”


 
Milagre em Joaseiro - Ralph Della Cava (Paz e Terra, 1976): publicado originalmente em 1970 nos Estados Unidos – com a primeira edição brasileira lançada em 1976 – tornou-se importante referência pela apreciação e divulgação de documentação até então inédita sobre o “Milagre da hóstia do Juazeiro”, protagonizado pela Beata Maria de Araújo e pelo Padre Cícero. Ralph Della Cava, um historiador e antropólogo estadunidense, acabou apresentando, assim, um dos trabalhos de grande fôlego sobre a formação e desenvolvimento de Juazeiro do Norte, calcado no fenômeno religioso do fim do século XIX e impulsionado ainda com mais vigor durante o século XX. O livro – lançado originalmente pela Paz e Terra e reeditado em 2014 pela Companhia das Letras – estimulou tantos outros trabalhos acadêmicos e produções audiovisuais sobre a história do Padre Cícero e de Juazeiro.


 
Juazeiro do Padre Cícero: a terra da mãe de Deus - Luitgarde Oliveira Cavalcanti Barros (Francisco Alves, 1988): nesse estudo pioneiro, desenvolvido no decorrer da década de 1970 e apresentado como tese de doutorado em 1980 pela antropóloga Luitgarde Oliveira, acompanhamos o percurso de constituição histórico-social do sertanejo, em que seguimos até a vila de Juazeiro em seu nascedouro no final do século XIX e a partir de lá somos convidados a entender os meandros do catolicismo popular na formação de Padre Cícero como um dos ícones desta categoria. O livro segue pelo século XX, observando a relação estabelecida entre os romeiros de Padre Cícero e a cidade que é o espaço sagrado da devoção de toda a gente do Nordeste que compõe as romarias. Na edição mais recente, de 2014, há ainda o acréscimo de um quarto capítulo que delineia alguns aspectos da chegada do Juazeiro de Padre Cícero no século XXI.


 
Juazeiro do Padre Cícero - Raimundo Araújo (org.) (Gráfica Mascoto, 1994): em 1994 Juazeiro tinha algumas datas importantes para comemorar – no sentido de trazer à memória, recordar: 80 anos da morte da Beata Maria de Araújo; 80 anos da Sedição de Juazeiro (a famosa “Guerra de 14”); 80 anos da elevação da condição de vila a cidade; 60 anos da morte do Padre Cícero e 150 anos do seu nascimento; 25 anos da inauguração da estátua do Padim no Horto... ufa! (correndo o risco aqui de esquecer outras efemérides importantes daquele ano). Para homenagear tantos fatos relevantes, o escritor Raimundo Araújo, um dos grandes entusiastas da história de Juazeiro, organizou essa antologia com textos dos mais variados profissionais, moradores, admiradores e estudiosos da história da cidade. Nas páginas do livro são explorados diversos assuntos e temos uma seção com fotografias, que hoje provocam um certo saudosismo, pois já se vão 26 anos do lançamento dessa obra impressa pela tradicional Gráfica Mascote.


 
Maria do Juazeiro: a beata do milagre - Maria do Carmo Pagan Forti (Annablume, 1999): dentre os mais variados assuntos e personagens que fazem parte da história de Juazeiro do Norte e do Cariri, para a equipe d’O Berro a Beata Maria de Juazeiro merece um destaque especial. Sendo assim, naturalmente haveríamos de mencionar uma das primeiras obras com um certo fôlego que se debruçou especificamente na figura de Maria Magdalena do Espírito Santo de Araújo. Coube então à psicóloga e professora Maria do Carmo Pagan Forti levantar uma questão que sempre merece um debate mais profundo: após o caso do milagre da hóstia, ocorrido em 1889, o Padre Cícero tornou-se o líder e grande referência de um dos maiores fenômenos sócio-religiosos da história do Nordeste brasileiro: as romarias de Juazeiro; entretanto, a grande protagonista daqueles fatos, a Beata Maria de Araújo, foi sendo apagada da história, tendo seu nome e sua importância poucas vezes lembrados no fenômeno em que se transformou o Juazeiro. Maria do Carmo não hesita em tomar partido e defender a beata de todas as acusações sofridas durante o processo eclesiástico que condenou Maria de Araújo ao enclausuramento e esquecimento nos seus últimos anos de vida – e em boa parte da história.


 
Padre Cícero: poder, fé e guerra no sertão - Lira Neto (Companhia das Letras, 2009): com uma considerável lista de personagens da história brasileira no seu currículo como biógrafo, o jornalista e escritor cearense Lira Neto também se debruçou sobre a história do Padre Cícero. O resultado dessa pesquisa foi o livro Padre Cícero: poder, fé e guerra no sertão, que apresenta uma narrativa baseada em vasta documentação sobre a riquíssima e surpreendente história que envolve as questões políticas e religiosas da ascensão do Padim Ciço no sertão nordestino. Sem esnobar o mérito de sua pesquisa historiográfica, vale mencionar a recorrência de escutarmos leitores do livro falarem que se trata de uma narrativa instigante, envolvente, por ser uma história (de certa forma) “romanceada”, prendendo o leitor com um texto que flui facilmente, prendendo a atenção a cada página. Por fim, também vale citar o peso da editora Companhia das Letras e a sua capacidade de distribuição nacional, que fizeram desse livro um importante divulgador da história do Padre Cícero em todo o território brasileiro.



O teatro de Deus: as beatas do Padre Cícero e o espaço sagrado de Juazeiro - Edianne Nobre (Editora IMEPH, 2011): em seu primeiro livro, a professora e escritora Dia Nobre narra as histórias que estão em torno dos milagres de Juazeiro, a partir da perspectiva das nove beatas que acercavam o Padre Cícero em seu itinerário de fé. A partir da forma clássica de um texto dramatúrgico em três atos, a autora vai desenvolvendo em cada uma das cenas o desenrolar dessa história intrincada (iniciada nas últimas décadas do século XIX) e tramada por inúmeras vozes e contextos diversos. Fatos históricos (ou místicos) que reverberam até hoje na cidade em que Juazeiro do Norte se transformou. Ao final do percurso do livro a autora reafirma a potência “do fato extraordinário que é um pequeno povoado sombreado por juazeiros crescer no meio do nada e se transformar em um caloroso e famoso centro de religiosidade católica”. A obra faz parte da importante Coleção Centenário, lançada em 2011, quando foram comemorados os 100 anos de Juazeiro, e a autora posteriormente lançaria uma obra de grande impacto sobre a Beata Maria de Araújo – mas isso é assunto paras as próximas listas...


 
A Praça Padre Cícero - Daniel Walker (Expressão Gráfica e Editora, 2017): praticamente toda cidade possui uma praça que poderia ser chamada de “o coração da cidade”. E parece que não foi por acaso que um livro sobre a Praça Padre Cícero fosse capaz de representar toda dedicação de uma vida do professor, historiador e escritor Daniel Walker a Juazeiro do Norte – e, lógico, ao Padre Cícero. Lançada em 2017, a obra foi fruto de uma longa pesquisa (de mais de 5 anos) que esbarrava na falta de acervos públicos mais cuidadosos em registrar a história do nosso povo e das nossas cidades. Mas Daniel Walker abraçou a missão, consultando escritos e ouvindo “causos” de tantas pessoas que viveram muitas histórias na famosa praça, com destaque especial para as décadas de 1960 e 1970, quando, segundo o próprio autor “ela esbanjou todo o seu glamour e ficou cravada na memória de todos nós, como sendo nosso local de lazer e namoro”. O resultado é um livro com muitas histórias, informações e um rico acervo fotográfico.


 
Juazeiro sem Padre Cícero: expectativas e temores gerados pela morte do Padrinho (1934-1969) - Amanda Teixeira da Silva (Editora CRV, 2018): já a obra da professora e historiadora Amanda Teixeira segue o percurso temporal imediatamente posterior à morte de Padre Cícero, até o final na década de 1960. Na contracapa da primeira edição Amanda traça uma breve sinopse do seu trabalho. “Padre Cícero morreu em 1934. Havia, no período, diferentes expectativas sobre o que seria Juazeiro após o desaparecimento de seu fundador. Para muitos jornalistas, a morte de Padre Cícero representava um problema econômico, constituído pelo possível esvaziamento da cidade e pela fuga de mão de obra do Nordeste para o Sudeste e o Norte do país. Alguns temiam ainda possíveis acessos de fanatismo ou a consolidação de um problema social, já que os romeiros e retirantes ficariam então sem o apoio espiritual, moral e material do sacerdote. Para os devotos, por outro lado, o desaparecimento do Padrinho significava o fim da relação pessoal com um santo que falava a língua dos pobres e nunca se negava a ouvir e auxiliar os necessitados. De certo modo, a persistência de Padre Cícero nos corações de seus seguidores surpreendeu os intelectuais e as autoridades religiosas que planejavam dar fim à sua memória. A morte não foi capaz de eliminar o Padrinho. Juazeiro sem Padre Cícero passou a ser Juazeiro com mais Padre Cícero do que se imaginava.”


 
+1. A mulher sem túmulo - Nilza Costa e Silva (Armazém da Cultura, 2010): “Maria foi a segunda beata a receber a hóstia. Tomou um susto. Sentiu alguma coisa estranha em sua boca, um gosto de sangue... Teve vontade de expulsar aquilo de dentro de si, pois não sabia o que era. Terminou cuspindo tudo sobre a palma da mão. Só aí notou, visivelmente pálida, que a hóstia estava sangrando.” O livro de Nilza Costa e Silva através dos fatos romanceia a história de Maria de Araújo, a beata protagonista dos milagres da hóstia consagrada, a renegada santa de Juazeiro. Em 1930 o túmulo de Maria de Araújo foi violado e destruído por oficiais da igreja católica, um mistério que paira sobre a hoje populosa Juazeiro do Norte, e que faz ecoar a pergunta trazida ao final deste romance: “Onde está Maria de Araújo?”
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Confira outras listas postadas recentemente no blog O Berro:
9 (+1) poemas de Fernando Pessoa e alguns de seus Outros Eu(s), por Flávio Queiróz
9 (+1) poemas de O Belo e a Fera, livro de Geraldo Urano (Lima Batista)
9 (+1) referências do Design Cariri, por Fernanda Loss
9 (+1) discos preferidos do rock internacional, por Michel Macedo
9 (+1) importantes obras de filosofia, por Camila Prado
9 (+1) artistas visuais contemporâneos, por Adriana Botelho
9 (+1) leituras para quem quer conhecer melhor a literatura brasileira, por Edson Martins
9 (+1) músicas para ouvir no Primeiro de Maio, por Antonio Lima Júnior
9 (+1) obras que me fizeram refletir durante o isolamento, por Cecilia Sobreira
9 (+2) contos de Rubem Fonseca para ler, por Elvis Pinheiro


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sábado, 13 de junho de 2020

9 (+1) poemas de Fernando Pessoa e alguns de seus Outros Eu(s), por Flávio Queiróz



por Flávio Queiróz

Fernando Antônio Nogueira Pessoa (*13.06.1888 +30.11.1935): poeta, filósofo, dramaturgo, ensaísta, tradutor, publicitário, astrólogo, inventor, empresário, correspondente comercial, crítico literário e comentarista político português. Nele 1 é  um número múltiplo...

Nesse contexto, interessa-nos o POETA lírico, épico, dramático, saudosista, nacionalista, Português e Universal!

A Obra Poética de Fernando Pessoa pode ser estudada a partir de três aspectos:
1.Textos Ortonímicos: aqueles escritos com o próprio nome.
Mensagem é o único livro escrito e publicado por Ele/Si mesmo em português (1934).

2.Textos Heteronímicos: escritos com outros nomes, poetas com biografias, características e estilos diferentes do Fernando Pessoa. Destacamos três:
* Alberto Caeiro
* Ricardo Reis
* Álvaro de Campos.

3. Textos Semi-heteronimicos: neste caso o poeta, apesar de assumir Outros Nomes, mantém traços característicos de Fernando Pessoa quando escreve.
* Bernardo Soares, um dos autores de uma das obras pilares da Prosa Moderna em Língua Portuguesa, é o principal responsável por mais uma estratégia literária inimitável de Fernando Pessoa.

E, para aprofundar ou se conhecer mais sobre o que falamos até aqui, deixo uma bibliografia para iniciantes; um livro que aborda boa parte da Obra Poética; e um terceiro para quem deseja uma Leitura Crítica do Autor(es) e da sua produção literária.

1.Para Iniciantes:
Margens do Texto / Fernando Pessoa, de José de Nicola e Ulisses Infante. Editora Scipione (1995).

2.Literária:
Fernando Pessoa / Obra Poética, volume único. Companhia Aguilar Editora (1965). Organização, Introdução e Notas de Maria Aliete Galhos.

3.Crítica Literária:
Introdução ao Estudo de Fernando Pessoa, de Fernando Cabral Martins. Editora Assírio & Alvim (2014).




E sem colocar um ponto final (não sejamos tão dogmático, pedia o próprio Poeta, ao tratar de sua obra), deixamos 9 (+ 1) POEMAS de Fernando Pessoa e alguns dos seus Outros Eu(s):


1. “Ulisses” (Fernando Pessoa)O mito é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo —
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.

Este, que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos criou.

Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecundá-la decorre.
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre.

*


2. “O infante” (Fernando Pessoa)

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma.

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!

*


3. “Mar Português” (Fernando Pessoa)

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena?
Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

*


4. “Nevoeiro” (Fernando Pessoa)
 

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer —
Brilho sem luz e sem arder
Como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a hora!

                Valete, Fratres.

*


5. “Autopsicografia” (Fernando Pessoa)

O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

*


6. “Isto” (Fernando Pessoa)
 

Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!

*


7. “Poema em Linha Reta” (Álvaro de Campos)
 

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza. 

*


8. “Segue teu Destino” (Ricardo Reis)

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

*


9. “Há metafísica bastante em não pensar em nada” (Alberto Caeiro)

Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do Mundo?
Sei lá o que penso do Mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que ideia tenho eu das coisas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das coisas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o Sol
E a pensar muitas coisas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o Sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do Sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do Sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

«Constituição íntima das coisas»...
«Sentido íntimo do Universo»...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em coisas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das coisas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.

O único sentido íntimo das coisas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as coisas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?),
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.

*


+1. “Emissário de um Rei Desconhecido” (Fernando Pessoa)

Emissário de um rei desconhecido
Eu cumpro informes instruções de além,
E as bruscas frases que aos meus lábios vêm
Soam-me a um outro e anómalo sentido...

Inconscientemente me divido
Entre mim e a missão que o meu ser tem,
E a glória do meu Rei dá-me o desdém
Por este humano povo entre quem lido...

Não sei se existe o Rei que me mandou
Minha missão será eu a esquecer,
Meu orgulho o deserto em que em mim estou...

Mas há! Eu sinto-me altas tradições
De antes de tempo e espaço e vida e ser...
Já viram Deus as minhas sensações...
_


QUASE TODOS os poemas citados e outros não citados podem ser encontrados no YouTube, com  belas interpretações de atores, cantores, poetas e intelectuais do Brasil e de Portugal.

Apresentamos dois desses vídeos:

“Autopsicografia”, com Paulo Autran:


“Segue teu Destino”, com Maria Betânia (música de Sueli Costa):

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Flávio Queiróz: Professor das Disciplinas Literatura Portuguesa III e Introdução à Obra de Fernando Pessoa, no Curso de Letras da Universidade Regional do Cariri (URCA); Professor, Cronista e estudioso das influências ibéricas na leitura regional, assunto que o levará a uma viagem de estudos por terras lusitanas em 2021; publicou diversos trabalhos na área de Literatura e Cultura. Tem um livro publicado: Escrever de verdade: práticas de produção textual (2014).
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Confira outras listas postadas recentemente no blog O Berro:
9 (+1) poemas de O Belo e a Fera, livro de Geraldo Urano (Lima Batista)
9 (+1) referências do Design Cariri, por Fernanda Loss
9 (+1) discos preferidos do rock internacional, por Michel Macedo
9 (+1) importantes obras de filosofia, por Camila Prado
9 (+1) artistas visuais contemporâneos, por Adriana Botelho
9 (+1) leituras para quem quer conhecer melhor a literatura brasileira, por Edson Martins
9 (+1) músicas para ouvir no Primeiro de Maio, por Antonio Lima Júnior
9 (+1) obras que me fizeram refletir durante o isolamento, por Cecilia Sobreira
9 (+2) contos de Rubem Fonseca para ler, por Elvis Pinheiro
9 (+1) filmes para assistir na Netflix, por Wendell Borges



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quarta-feira, 10 de junho de 2020

9 (+1) poemas de ‘O Belo e a Fera’, livro de Geraldo Urano (Lima Batista)



Neste dia 10 de junho, data em que nasceu o poeta cratense Geraldo Urano (ou Efe, ou Lima Batista, ou Gandhi, ou Mérkur...), em 1953, nossa editoria inaugura uma perspectiva diferente das Listas O Berro 9 (+1), com a nossa própria equipe apresentando uma seleção de poemas do livro O Belo e a Fera (cantigas), lançado originalmente em 1989, com a assinatura de Lima Batista.

Em 2015 a obra de Geraldo Urano foi reunida e editada no volume O Ferrolho do Abismo, com design gráfico do Estúdio Caravelas e prefácio da poeta e professora Cláudia Rejanne. No dia 5 de fevereiro de 2017, Geraldo fez sua viagem para outros planetas, deixando como legado tantas histórias e poesias.

A imagem em destaque nesta postagem é uma ilustração de Reginaldo Farias, a partir de fotografia e desenhos do poeta (estes últimos incorporados ao design de O Ferrolho do Abismo) e a capa original do livro O Belo e a Fera.


Livro O Belo e a Fera (cantigas), de Lima Batista

Prefácio

O Poeta chega ao dia em que desperta e tem a certeza de que nunca adormecera. Olha o Sol e inicia um caminho de alguns poucos passos para beber na fonte cuja água lhe molha os pés, enquanto no peito dói a ânsia de sobrevoar o Universo, sem pátria e muito menos pouso certo.

Uma manhã de junho. Na Serra, esperança afoita, donde trinam pássaros coloridos, nas flanelas das bananeiras. O gado pasta indiferente ao triturar das moendas dos engenhos em começo de moagem. E as águas descem gorgolejantes as lajes da Cascata.

Frio bom, brisa gostosa e a música do estio. Uma solidão cúmplice a falar de planos maiores em elaboração na mente de Deus. O homem e a espera, qual centauro que abrisse os olhos pela primeira vez. Vê o Vale que desce das encostas, indo repousar lá embaixo, nas cidades esdrúxulas; minutos que voam em farejo do novo que nasceu.

O Cariri traz, em Geraldo Lima Batista, a escrita da renovação, mais do que poesia, vigília e certeza, aviso de preparação do Futuro.

José Emerson Monteiro Lacerda
_


meu amigo geraldo,

acabei de brincar lendo teu livro. e que brincadeira gostosa e tranquila é sentir o encaixe perfeito das tuas palavras. essas palavras são nossas. são palavras de um mundo mágico que você sabe muito bem encontrar no meio de tantos truques baixos.

a vida tem disso. às vezes você recebe um soco por sobre o estômago. é um golpe seco e cruel. às vezes nós encaramos o algoz e partimos para um próximo e infinito round. às vezes nós vamos a nocaute técnico ou violento, humilhante e injusto, mas nunca definitivo.

imagine muhammad ali numa esquina de new york ou de mauriti distribuindo sorrisos em vez de socos, nocauteando a espera, pois quem sorri não tem o que esperar.

é, brother, só nos resta sorrir diante da baixaria. isto é uma arma. e como diz o poeta: uma arma muito quente.
do seu amigo,

carlos rafael dias
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9 (+1) poemas de O Belo e a Fera (cantigas)

os ladrões estão satisfeitos
com a terra nua
todos os poderes
tiram partido dela
políticos artistas e religiosos
fazem loteria de suas vestes
mas não tarda
o dia da verdade
não tarda a hora da justiça


*


o sino está tocando
nada de novo no manicômio
ela tem lábios encarnados
pergunta quando vou fugir
escrevo seu nome na parede
meu anjo
qualquer dia nós vamos sair


*


antes que eu te chame escandalosa
vê se achas uma rosa
deixa o sol entrar
adeus cidade de detroit
vou embora pra chicago
apenas outro lugar
a outra é não me toque
te abaixes nova iorque para o luar passar


*


és como um tigre minha flor de roma
lirismo meu
ou quem dirá que sonhas?
a semana passou
como um cavalo veloz
como uma flexa passou por nós
se eu fosse um bicho
eu não teria sábado
amo israel
saí do mar procurando o céu
meu anjo
essas coisas de menestrel


*


escuta o vento
tu que és inspirado
elas não vão mal?
se aborrecem com a claridade
não és tu que és desajeitado
que só sabes passar mal
é a noite que invadiu o dia
melhora!
lava o teu rosto na pia


*


não sei de nada
não digo nada
nem nadar eu sei
mas sai do meu caminho
tu que és violento
ladrão de ninhos


*


o destino cruel de um país
confusão na praia
hotéis vazios
a juventude castigada
do noticiário sai fumaça
a paz de cachimbo
some por entre dedos nervosos


*


as condições históricas
a distribuição geográfica das raças
os sobradões coloniais
o amarelo da ásia central
tudo é caleidoscópio
eu consulto o relógio
quando se quebrará o espelho?
nada a contar
a não ser cacos prá todo lado


*


lorena sabe o que é
ser nesse tempo mulher.
atirei o meu anzol
para pescar um sonho
pesquei o abandono.
quando o futuro vier
não quero estar tão nua
as multidões carentes
no modernismo das ruas.
o grito do tucano
no domingo pernambucano
lorena sabe o que é
ser nesse tempo mulher
é bolero prá um deus
por telefone um adeus.
sempre ouvindo o vento
guardado o velho senso
no céu o sol e a lua
na terra a vida crua.


*


o planeta amarelo está em brasa
são os vulcões que se espalham
se eu dissesse
as moças de saigon
caminham pela noite azul da ásia
estaria mentindo
a primavera agora é só verdade
quem deterá os oceanos?
ou impedirá os rigores do inverno?
e essas cidades
para onde querem ir?
que crescimento besta é esse? 
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segunda-feira, 8 de junho de 2020

9 (+1) referências do Design Cariri, por Fernanda Loss



por Fernanda Loss

Traçar os limites do que é ou não design é uma tarefa complexa. Por isso, adaptei o pedido de “falar sobre Design Cariri”, e selecionei 10 referências daqui que compõem meu repertório visual. A escolha foi feita a partir do que me provoca, e tangencia o design em suas diversas vertentes.


 
1. Ladrilho hidráulico: a Fábrica de Mosaicos de Seu Jaime em Barbalha, fabricou padrões que estampam o piso de muita casa e prédio público no Cariri. O que me chama a atenção além das cores e formas é a possibilidade de diferentes composições com módulos que o ladrilho hidráulico possibilita.


 
2. Tipografia vernacular do Juazeiro: o centro do Juazeiro possui um arsenal enorme de letreiros populares estampados nos seus comércios. É um material rico para pesquisa e desenvolvimento de tipografia.


 
3. Cores da Chapada: a natureza no Cariri é a dinâmica, a mesma trilha da chapada vai apresentar paisagens diferentes em cada época do ano.


 
4. A Joia do Leo: o trabalho de Leo é incrível! Ele desenvolve peças primorosas utilizando metal e pedra kariri. É um joalheiro contemporâneo que se destaca por suas peças artesanais com acabamento delicado.


 
5. Indumentária do Reisado: o movimento das fitas coloridas e o reflexo dos espelhos da roupa dos brincantes de reisado produzem um impacto visual fortíssimo.


 
6. Fotopintura de Telma Saraiva: as imagens fantasiosas das fotopinturas de Telma são resultados de um trabalho minucioso. Para obter as imagens que vemos em sua obra, a artista se debruçava por um processo cheio de etapas, em que ela dominava cada técnica sem perder a liberdade criativa.


 
7. Ex-voto: os ex-votos que encontramos no Horto são uma representação visual da fé. Eles simbolizam uma graça alcançada ou um desejo de cura. É o símbolo de como um artefato ganha valor pelo significado que damos a ele, ou seja, trata da nossa capacidade subjetiva de dar sentido às coisas.


 
8. Espedito Seleiro: Espedito pega um saber tradicional, que aprendeu com o pai, e consegue inovar. Ele cria novos modelos de sandália e também aplica a técnica que ele domina tão bem em outros produtos, como almofadas, cadeiras, etc.



9. Stênio: o artista Stênio Diniz, além de ter feito parte do movimento da contracultura na década de setenta no Cariri, tem um papel muito importante na história editorial e gráfica brasileira ao estampar capas de cordéis com suas xilogravuras.


 
10. Zine o Berro: o fanzine do Berro foi meu primeiro contato com uma publicação independente. Eu tinha alguns exemplares quando estava entrando na adolescência, e achava incrível ver um impresso produzido por pessoas do Cariri, e que mostrava a cena artística local.
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Fernanda Loss é designer caririense. Formada pela UFPE, foi no Pernambuco que se apaixonou pelo carnaval. Há oito anos trabalha no Estúdio Caravelas.

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quarta-feira, 27 de maio de 2020

9 (+1) discos preferidos do rock internacional, por Michel Macedo



por Michel Macedo

Fui “intimado” pelos meus amigos do Berro a fazer uma lista de 9 + 1 discos que gosto* e fiquei sem dormir pensando e chegando à conclusão de que uma lista de 100 já seria difícil (risos, mas é mesmo), logo eu que mudo de opinião e faço mil coisas ao mesmo tempo.

Mas vamos lá... pensei nuns 100 e, na minha cabeça de metamorfose ambulante, ela ia variar a cada semana, então vou fazer uma lista de 10 discos que se a ditadura voltasse com gosto de gás eu fugiria para o bunker com eles, uma das guitarras, minha coleção de Sandman e uma garrafa de whisky.

Muitas vezes eu já acordo com, tipo água na boca, sendo no ouvido, para ouvir determinado disco (Led Zeppelin, Janis Joplin, The Doors e Jimi Hendrix não é muito frequente, mas no dia q acontece chega dá comichão...) mas há alguns discos que dá para ouvir em qualquer momento, qualquer clima, vamos a 10 deles, na minha opinião... vai ficar faltando uns 90.



1. Revolver - The Beatles (1966): esse foi o disco da mudança, quando eles deixaram de fazer shows e resolveram só gravar. Foi aí que eles começaram a inventar coisas no estúdio (com cola, papel e tesoura) que se tornaram inovações que modernizaram em muito as técnicas de gravação. Esse disco também tem minhas duas músicas preferidas dos Beatles: “Eleanor Rigby” e “For No One”.



2. Aqualung - Jethro Tull (1971): nossa... quando ouvi esse disco a primeira vez já achei fantástico, mas fiquei procurando no meu HD uma pasta para colocá-lo, era difícil classificar se era rock'n'roll, progressivo, fusion... um amigo meu na época deu uma ótima definição: rock medieval. Essa banda é fantástica, e acho esse o que melhor define.



3. In Rock - Deep Purple (1970): uma das minhas bandas preferidas, talvez a que eu mais escute, foi por causa do Ritchie Blackmore que decidi tocar guitarra. Esse disco moldou meu ouvido para um dos estilos que mais gosto, que é esse hard rock progressivo, estilo de bandas como Wishbone Ash, Atomic Rooster, Irish Coffee, entre outras.



4. Jailbreak - Thin Lizzy (1976): banda irlandesa não tão conhecida aqui, mas que é super endeusada por lá, tem até estátua do vocalista em Dublin. Influenciaram bandas como Iron Maiden e Metallica (entre outras) e GloryFate também. Depois que você conhece Thin Lizzy nunca mais vai ouvir duetos de guitarra com os mesmos ouvidos.



5. Powerslave - Iron Maiden (1984): se não o melhor, pelo menos o disco mais maduro do Iron Maiden. Fizeram a turnê desse disco no primeiro Rock in Rio, era uma época mágica. Muita nostalgia para mim escutar esse disco, além de conter uma de minhas músicas preferidas deles: “The Rime of the Ancient Mariner”, um poema de Samuel Taylor Coleridge. O Iron Maiden também me aguçou o gosto pela Literatura, eles têm pelo menos umas 20 músicas temáticas de livros.



6. Phenomenon - UFO (1974): outro disco que quando ouvi a guitarra fiquei procurando na memória que tipo de som era aquele. Os solos do Michael Schenker são uma música dentro da música. Esse disco é quase uma unanimidade em ser o melhor da banda. Difícil de encontrar, esse eu ainda não tenho em LP.


7. In the Court of the Crimson King - King Crimson (1969): esse disco é simplesmente um ícone do Rock Progressivo, uma banda que beira a perfeição (junto com Rush e Yes). É meu disco de meditação.



8. Fragile - Yes (1971): uma banda perfeita, um disco perfeito, até a sonoridade da gravação parece estar bem à frente de seu tempo. Esse disco também tem um sentimento de nostalgia imenso para mim porque todas as viagens que faço de carro a gente costumava botar ele, com o bordão de “colocar Yes para que a viagem seja positiva”.



9. Foxtrot - Genesis (1972): eu acho o melhor deles, principalmente por conta da grande suíte, “Supper's Ready”, a parte da flor. É um disco super viagem, narrada pela voz inconfundível do Peter Gabriel. Depois que você vê ao vivo fica ainda melhor porque você fica visualizando a performance dele.



+1. Animals - Pink Floyd (1977): Pink Floyd foi a segunda banda de rock que me afeiçoei, e a primeira que me fez iniciar a maratona de colecionar. Esse disco, de praticamente 3 músicas, tem os melhores solos de guitarra (lembrando que o mais lindo está em “Comfortably Numb”, no The Wall), refrões emocionantes, além de uma atmosfera única. A história por trás das letras também é fascinante – mais uma obra literária musicada, o livro Revolução dos Bichos, de George Orwell. O Pink Floyd se consolida como uma banda antifascista, pena que muitos brasileiros não souberam entender isso na banda e ouviram errado, assim como ouvem muita coisa errada, afinal, o rock é, em sua essência, rebelde e transgressor.


A princípio seriam 10 discos no geral e, valha, pensei que tinha botado pelo menos um disco nacional, mas no final vi que errei a contagem (eu fiz Letras). Tem muita coisa nacional que amo também: Secos & Molhados, Mutantes, Ronnie Von, Jorge Ben, Tim Maia, O Terço, Novos Baianos, Casa das Máquinas, Som Nosso de Cada Dia, Quinteto Violado, e muitos outros...
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Michel Macedo é professor de Literatura Inglesa no curso de Letras (URCA) e guitarrista da banda de heavy metal GloryFate.

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quarta-feira, 20 de maio de 2020

9 (+1) importantes obras de filosofia, por Camila Prado



por Camila Prado

Fazer uma lista das dez obras de filosofia mais importantes para mim: este foi o desafio que O Berro me propôs. Daquelas propostas que já aceitamos sabendo que é cilada. Como não ser injusta, parcial, aleatória ou clichê? Como conciliar o “mais importantes” com o “para mim”? Mas ontem mesmo eu pensava que nessa quarentena, que me pegou fora do país, para um pós-doutorado, uma das coisas de que mais sinto falta, por não estar na minha casa, é da minha estante, em que tenho alguns livros que vêm me acompanhando há tempos.

A saudade é de poder mexer aleatoriamente na estante, achar algum que me chame, abrir ao acaso ou já para reencontrar algum trecho específico. É verdade que não são só, e talvez não principalmente, os livros reconhecidos como obras de filosofia que me fazem falta. Mas eles são, sem dúvida, parte fundamental deste acervo espiritual que provoca sempre de novo, não bem consolações, como diz o outro, mas renovação da experiência de aporias e/ou deslumbramentos por uma reviravolta do pensamento.

Esses são os que me acompanham mais de perto. São os que tive mais oportunidade de reabrir. Não são os mais importantes, são mesmo em sua maioria clichês do cânone ocidental: machista, racista, colonial, etc, etc. Mas são textos vivos para mim. A ordem tem a ver com um certo diálogo entre os textos que estão próximos.


 
A República, de Platão (séc. IV a.C., Grécia)


 
A Essência do Fundamento, de Heidegger (1929, Alemanha)


 
A Gaia Ciência, de Nietzsche (1882, Alemanha)


 
Ética, de Spinoza (1677, Holanda)


 
Meditações Metafísicas, de Descartes (1641, França)


 
A Hermenêutica do Sujeito, de Foucault (1982, França)


 
O Mito de Sísifo, de Camus (1942, França)


 
O Segundo Sexo, de Beauvoir (1949, França)


 
Relatar a si Mesmo: Crítica da Violência Ética, de Butler (2003, EUA)


 
A Condição Humana, de Arendt (1958, EUA)
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Nascida em Petrópolis, Rio de Janeiro, Camila Prado vive há dez anos no Cariri, onde atua como professora de filosofia na Universidade Federal do Cariri (UFCA). Doutora em Filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Estuda Filosofia Antiga, Filosofia Política e Estudos Comparados. Gosta de janelas.

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