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sábado, 18 de julho de 2020

Isolamento social, ventilação e apneia



por Amador Ribeiro Neto

Quando o poeta Alberto Bresciani escreveu e publicou Fundamentos de ventilação e apneia (São Paulo, Editora Patuá, 2019), ainda não se falava em coronavírus. Porém não deixa de ser indicial que a literatura mais uma vez antecipe a realidade. Senão, consideremos o que uma das estrofes do poema “Metabolismo” pontua:

Pode ser que um vírus se espalhe,
Uma brand new de gripe
Todo acaso pode ser letal

Me lembro que o saudoso Bóris Schnaidernann, em uma de suas aulas, nos dizia que o cinema existe na literatura antes de ser inventado pelos irmãos Lumière, com os planos de câmera, iluminação, fade out e fade in, etc. Iúri Lótman, pai da Semiótica Russa, na mesma direção, não hesita em afirmar que as artes antecipam as tecnologias.

Bem, falávamos da poesia de Alberto Bresciani, e é o que importa aqui. Seu livro, desde o título é um feliz achado em qualquer época. Nesta nossa, de isolamento social e afins, ganha especial realce. Friso: sua poesia não é destinada apenas a este momento, a esta circunstância: ela transpõe o agora porque é: 1. linguagem poética transtemporal e 2. imersão na condição humana. Ou como diria Pound: linguagem carregada de significado.

O livro de Bresciani possui duas partes/dois pulmões: 1. Ventilação espontânea e 2. Apneia. Ambas são coloquiais mas têm, no entanto, distintas dicções poéticas. E tal procedimento oxigena o livro. Lembro-me que comentando Incompleto movimento, livro de estreia do poeta (2011), escrevi: “A poesia de Alberto Bresciani tem um dos pés na busca do coloquial e outro na tradição clássica. Ora acerta, ora não. Ele parece almejar uma descontração da linguagem, mas tolhe-a com construções que lembram a poesia canônica bem comportada. Aquela poesia que nos remete aos neoclássicos, aos parnasianos e até – parece paradoxo – aos simbolistas”.

No livro seguinte, Sem passagem para Barcelona (2015), ele faz uma transição entre o primeiro e o agora lançado. Pois Fundamento de ventilação e apneia vale-se da mais fina linguagem coloquial e poética sem nenhum cacoete literário. Lê-se o livro com desembaraço e leveza tais como se estivéssemos numa sessão de cinema assistindo a um bom filme. E, se faço a comparação com cinema, ela não é gratuita. Desde o livro de estreia, o mundo imagético é uma das dominantes da poesia brescianiana.



Na primeira parte, o tratamento literário, para valer-me aqui de uma expressão cara a Cortázar, tinge-se de tal naturalidade que lemos os poemas em um ritmo que chega a dispensar seus títulos. A poesia flui em música e imagens. A narratividade é de tal forma fluida em ritmo e melodia, que o tema se faz música e dança para o leitor.

Mas há o outro lado da moeda. O medo do inevitável, a crueldade da evolução dos acontecimentos e a inexorabilidade da sequência dos fatos apavorantes ganham igualmente os sentimentos e a cumplicidade de quem lê. A forma poética imanta.  Há desespero e regozijo, febre e gozo, temor e alívio. Pode o leitor vivenciar a catarse, ou o distanciamento brechtiano. Depende de seu grau de consciência/vivência poética. De toda forma – com ou sem trocadilho –, a arte pulsa e impulsiona-se enquanto provocação. Regozijo ou flagelo, cabe a cada um.

Versos como

E então um tombo da cama para a vala
de corpos passados nos desperta,
assusta e empurra e estamos de pé

são um cutucão no leitor apático, ou ao menos, desligado. O que ele fará com este desenredar-se, só a ele lhe cabe. À poesia, a sequência de vogais fechadas (poucas) e abertas nos versos acima, bem como as consoantes linguodentais e bilabiais entre surdas e sonoras, desenham o tombo e o abrir-se para o despertar do novo mo(vi)mento.

No poema a seguir, a urgência do aproveitamento de cada instante faz-se na brutalidade de atos desesperados de felicidade.  O poema que leva o nome de um multicolorido peixinho moçambicano de apenas 6cm, “Nothobranchius Rachovii”, traz a convocação sob forma concisa, leve e breve:

Façamos como killifishes africanos
:que explodem as cores mais violentas,
Cuspamos agora todo som, ódio, fúria

Sabemos que tudo se vai à brevidade
de um único ano e nossas vidas nunca
terão a chance de beber outra chuva

A segunda parte, igualmente narrativa, ao abdicar da terceira pessoa e da fluência rítmica, opta por abrir mão de alguma indagação e mistério. E por trabalhar certa cadeia de sons com mais cadência. 

Agora as emoções nascem de um eu que fala, via de regra, diretamente ao leitor. Mas como aquele é também alguém interessado, parte do problema, a empatia se estabelece com rapidez. Embora com menor taxa de adesão. A dicção da voz poética, ainda que em alta, tem menor amplitude que na primeira parte.

Esta parte, ao ser aberta com uma epígrafe dúbia – “Que a vida não tinha cura, / o tempo me ensinou, e mais tarde” – orienta-se com seguidos movimentos de oxigenação e sufoco, ventilação e apneia. A epígrafe desenha os movimentos que esta seção terá. Poemas como “Escape” e “Corvos” desenham o percurso da vida que se afirma e se nega, avança e retrai, pois a vida não é unidirecional. Antes: é complexa, bastante complexa – e os tempos, côncavos e convexos.

Escape

Tanto rumor nos ossos e ainda
Esperamos a válvula, alavanca
Que desarme, alavanca
Que desarme artefatos fatais,
Espalhados pelos companheiros
De causa, doces irmãos, pais

Erga-se o velame, abra-se o ar,
Venha outra voz, convencimento
De que vale ainda respirar
Neste mundo ou em outro plano
Imaterial, se mais houver além
De nervos vocacionados ao fim

Retorne o tempo gasto no nada
E reconheçamos nossos quartos,
Feridos e mortos, os fantasmas,
Por mais que relutem em abandonar
A cena de sangue que nos retrata
Acreditar pode ser o estopim da queda.


Corvos

Não via os corvos,
mas eram corvos,
prendendo o tempo
E eu criava pombos

Quando você saiu,
as sombras
tinham penas negras
e ficaram pela casa,
pela garganta,
as suas penas

Ontem entendi
e acendi a luz.

Eis uma das belezas de Fundamentos de ventilação e apneia, de Alberto Bresciani: colocar a palavra em primeiro plano, privilegiar o lugar da linguagem poética e, concomitantemente, anexar elementos essenciais da vida pessoal e social. De hoje? De hoje e de sempre. Pois sua poesia não é didática e sequer datada. A atemporalidade é sua marca histórica. Ela é aliada do leitor que busca ver beleza.

Ver beleza é afundar os dedos no peito até alcançar o coração com as mãos quentes e acolher-lhe os pulsares: os todos-inteiros e os quase-quereres.  As migalhas trituradas e as dores de imensos vermelhidões sangrando coágulos. A beleza da entrega e da recusa. Do amor e da indiferença. Do temor e da licenciosidade. Do mar e do semáforo fechado. Esta é a oferenda, o ofertório, o dom, a dádiva do mundo de poesia que Bresciani nos brinda com ventilação e brisa.

Beleza para todos os tempos, num livro maduro, elaborado, sólido – e, acima de tudo, muito bonito.
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Publicado pelo Correio das Artes, suplemento literário do jornal A União, de João Pessoa, maio, 2020. Ano LXXI – Nº3, p. 38-40. Encartado na edição do jornal de 31 de maio de 2020.

Amador Ribeiro Neto é poeta, crítico literário e professor titular aposentado do curso de Letras da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Publicou, entre outros livros, Lirismo com siso: notas sobre poesia brasileira contemporânea (crítica), Ahô-ô-ô-oxe (poesia), Muitos: outras leituras de Caetano Veloso (crítica), Barrocidade (poesia) e Poemail (poesia). Mora em João Pessoa (PB).

Textos mais recentes de Amador Ribeiro Neto no blog O Berro:
- Da novíssima poesia paraibana: Edypo, Expedito e Guilherme
- ‘Para quando’, de Kaio Carmona
- ‘Bambuzal’, de Rafael F. Carvalho
- ‘Identidade’, de Daniel Francoy

- A arquitetura das constelações
- for mar
- Poema das quatro palavras
- Hinos Matemáticos
- Dois olhos sobre a louça branca
- Alarido

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sexta-feira, 17 de abril de 2020

Da novíssima poesia paraibana: Edypo, Expedito e Guilherme



por Amador Ribeiro Neto

Não é novidade pra nenhum leitor que há uma efervescente produção de livros de poesia no país. De um lado, as facilidades da Internet e, de outro, a ousadia de novas editoras que vêm revolucionando o viciado mercado brasileiro ao apostar em novos nomes.

Aqui na Paraíba temos uma geração de poetas que começa a publicar nos anos 2000 e já prima pela excelência de qualidade. A esta produção estou nomeando- a “novíssima poesia paraibana”.

Há vários nomes de peso. E a antologia que estou organizando, com o recorte acima, deve retratar o que se produz em nosso estado hoje.

Na presente coluna vou ater-me a três nomes, motivado por seus recentes lançamentos. De cada poeta transcrevo três poemas.


1. Edypo Pereira

A poesia de Edypo Pereira tem a manha de ser leve e certeira. Não faz rodeios. Pega o leitor. Prende-o. E dá-lhe um banho de prazer. Não sem, antes, pregar-lhe um bom susto. Sim, este poeta não faz concessões às facilidades. Não ajuda o leitor a ser beócio. Antes: sacode-o pelos colarinhos, pela gola da camiseta. E lança-lhe, no peito, o corpo de uma poesia encorpada.

De uma poesia que pega o leitor e o conduz a caminhos inusitados. Ainda que usuais. Sim, Edypo toma o mais usual como matéria viva e cortante de sua poesia. E o converte, subverte, advertindo o leitor de que o bom é também prazeroso e pode divertir. Além de fazer pensar.

Sim, esta poesia é leve e aguda, faz rir e refletir. Seduz e escoiceia. Não há como fugir de seu domínio. O leitor vai perceber que um poema abre-se para outro e que há uma trama de linguagem e de sentidos que é muito atual. Que é dinâmica. Que não deixa a peteca da qualidade cair. Qualidade entendida como trabalho com a palavra. Trabalho tão bem feito que chegamos a pensar que esta poesia é feita por um espontâneo digitar na tela do computador. Como se Edypo escrevesse e dissesse: é isso aí, está pronto.

É tão fluente, tão apaixonantemente engendrada, que o possível peso de sua construção dilui-se. Rarefaz-se. E fica o sólido da imagem, do som, da ideia girando na cabeça e no coração da gente. Uma poesia que dá o recado e nos provoca. Por isso, o poeta não hesita em valer-se tanto de palavras de baixo calão como de palavras da alta tecnologia. Não importa o universo semântico. Importa o que ele faz com a palavra. O mundo é esta carnavalização entre o baixo e o alto, o sujo e o sublime, o remendado e o inconsútil. A poesia é a linguagem singular. Aquela que estremece a cabeça e o coração.

Por isso mesmo Edypo Pereira lança sua ágil poesia para leitores espertos. Antenados. Aqueles ligados no aqui e agora. Amor, humor, rancor, despavor. Enfim, uma poesia intensamente século XXI. Pra ler e vibrar. Bem-vindo Turbolento (Ed. Penalux).


contato

ói
ói o disco
fazendo

ziggyziggyziggyziggyziggy

hora parece star distante
(ou)tra posso escutar
um tom major

você pode ouvir?

oficina da ideia

primeiro vem martelada
no hipotálamo

crashcrashcrashcrashcrash

como se eu tivesse tatuado
na cabeça
cuthere
passa
o tempo inteiro
serrando o crânio

vrukumvrukumvrukumvrukum

picareta
de onde ela veio
&
pra onde ela vai
não sei dizer

juízo final

no telão de led do juízo final
a humanidade saberá
que você nunca fez
poemasgoodvibes

sal e espeto nas mãos de mefistófeles
aguardando a carne

vai rolar
canibalismopoemofágico
na casa de satanás


2. Expedito Ferraz Jr.

Expedito, desde sua estreia com Poheresia, já se firmara como poeta que tem o que dizer. E, mais que isso, sabe como dizer o que quer, o que deve, o que merece ser dito. Antenado com as coisas da literatura, e arguto observador do cotidiano, com este seu novo livro reafirma a pegada certeira e lírica de sua poesia.

Como poucos – como os grandes sabem fazê-lo –, ele imbrica o lirismo mais sublime a um lirismo social que denuncia as fragilidades e as fragmentações da vida – social ou entre quatro paredes. O eu-lírico, perspicaz quanto sagaz, tanto veste como despe-se, das manhas, manias, saliências e reentrâncias da vida e da representação dela, via palavra.

Nesta poesia a linguagem é o vetor que nos conduz ora por estreitos, ora por largos caminhos, em linha reta ou labirintos, divisando a ampla geografia aberta ou os claustrofóbicos emaranhados de sombras. Uma poesia limítrofe entre a afirmação e a negação, sem ater-se à amarra dos valores. Uma poesia que vence as mordaças, sociais ou pessoais, para avançar rumo a uma expressão que diz o não dito, que capta o pouco – ou nada visto –, que flagra a fragrância do volátil, dissolvendo-se do concreto. E nos devolve a ele em eterno retorno.

Uma poesia que engendra outra máquina dentro da máquina usual do mundo. Por isso mesmo, ler Expedito Ferraz Jr. é adentrar na densa floresta de signos que a vida, a linguagem e a poesia nos oferecem. E para a qual, estamos pouco – ou, quase sempre – nada atentos.

Por isso mesmo esta poesia é um chute na canela da mesmice, da pasmaceira, do rol beócio de estar e reagir segundo controles remotos autoprogramáveis. Ela cava um abismo face às seguranças e certezas do leitor. Deleta o conhecido. Detona o dèjá-vu. Abre abismos aos pés de cada um. E anuncia uma possível ponte, que somente ao leitor atento é dado perceber.

Por isso mesmo, cativa, apaixona e prende o não hipócrita, o gêmeo, o irmão que está farto do conhecido, surrado, repetido. Aquele que, por sentir fome e sede, não teme imiscuir-se no visgo da vida, no visgo das coisas. Lambuzar-se de poesia.

O livro está dividido em duas partes – uma com poemas inéditos e outra com poemas (alguns revistos) que compõem Poheresia. Reunir parte dos poemas de livro de estreia ganha relevância ao deixar claro que o poeta, ainda que com apenas dois trabalhos, já é o feliz proprietário de uma dicção própria, um modo de alinhar-se dentro da produção contemporânea – aquela composta pela mais expressiva poesia de nossos tempos. Em ambos os livros, a verve sublime e irônica, a contenção e contenção verbais ao lado dos poemas mais discursivos, a espacialização vocabular, os trocadilhos vívidos e, de fato, inusitados – quer seja, criativos – o verso intratexto, intertexto e extratextual. Resumo da ópera: um poeta que sabe o ofício do verso e não abre mão da emoção de exercê-lo com finesse e humour. Bem-vindo O visgo das coisas (Ed. Penalux).

Desconcerto

um quarteto
de cordas

um arranjo
de flores

um solo
infinito


Brinde

dois copos
ocultam
um
mesmo luar
no
espaço


O visgo das coisas

Tempo em que, pra ter ensejo,
o ser das coisas carecia
de se valer da alma dos bichos
ou de pessoa humana
(modo de sedizer).

Máquina-de-escrever, por exemplo:
pra quê? pra quem?
Mas, quando deu fé,
ela sorrindo tanto dente,
muito que brancos,
foi ficando ali que ficou sendo
máquina-de-sorrir-ainda-que-todavia.

Guarda-chuva também, resignado,
em surdo haver de ser ave noturna,
recolhido em si, mofino, desalado,
sem uso sem asa sem voo sem chuva sem chão,
dormindo pendente, no esquecido
de nunca ter sido morcego,
antes a flor enlutada,
o agourento corvo
e nunca bengala,
e não sequer seu guia

Dos bichos alados, porém,
o janelão era o demais vivente,
suas venezianas costelas azuis
assoviando sempre e sempre,
e o grande par de asas
que se rebelava alguma vez,
mas só quando o vento suscitava,
como um gesto da mão
responde em sestro
ao zoom da escuridão de um pensamento
e sofrendo e sofrendo a deslembrança
de um talvez antigo voo.

tempo em que, por ser espelho,
o visgo das coisas padecia
mísero de luz, que é sem o que
sequer as réstias das orquídeas crescem,
nem as mandalas das aranhas acontecem.


3. Guilherme Delgado

Estrear com um livro consistentemente estruturado, sob o ponto de vista formal, e com uma gama admirável de significados, é coisa pra poucos e raros. E Guilherme Delgado está entre eles.

Dividido em duas partes, simetricamente compostas num geometrismo espe(ta)cular, o livro é coisa de poeta que faz sabendo muito bem como se faz bem, como se faz bonito, como se faz gostoso. Sim, porque esta poesia, sendo cabeça, é também estômago e coração. Sensibiliza e emociona porque pega o leitor pelo cerebralismo, pelo sublime – e por ambos. Sorte de quem sabe (é capaz de) recebê-la.

São vinte e dois poemas. Onze em cada campo. Digo, em cada seção. Por isso mesmo a explicitação verbal do título torna-se desnecessária – porque redundante. Basta o sinal gráfico dos dois pontos. Eles explicam tudo. Não é isso ou aquilo. Nem isso e aquilo. Nem aquilo ou isso. Nem aquilo e isso. São dois pontos. Sem nada antes nem depois. Instigando o leitor a pensar, a sentir. Convidando-o a ser copartícipe. A tomar o livro nas mãos, na mente, na emoção, na elaboração. O livro em sua unidade.

Esta dinâmica reverbera clara na primeira seção, intitulada “caligrafias”, em que poetas, ficcionistas, ensaístas, e até um diretor de cinema, surgem reciclados em suas biografias pessoal e intelectual.

Guilherme Delgado recicla de dentro. Penetra o corpo da vidobra de cada artista – e, uma vez nele, solta a poesia (do Guilherme) pra dentro da vida de representação de cada um deles (dos artistas).

Então, o gozo do texto do próprio poeta soma-se, em parcelas matemático-simétricas, ao prazer do texto do artista eleito, presenteando o leitor a soma das frações fractais.

Tal processo, planejadamente in progress, conduz à fruição de sins, nãos, talvez. Entregas e dissimulações. Lances dos lados de dados que, per se, desenham a poesia que se fabrica – e que se concebe enquanto plurívoca: música, imagem e significado no mesmo quadrado.

A segunda seção, intitulada “aqui o eco”, reverbera as obras e seus artistas da seção um, não mais reciclando, mas como produto acabado e final da poesia deste novo poeta. Tempo de conhecimento da dicção poética de Guilherme Delgado e seu tônus poético de densa materialidade.

Se antes o poeta imiscuía-se na dança instigante da conversa entre homens inteligentes, agora coloca sua voz no alto-falante e proclama de si, per si, por si.

Eis a voz do poeta. Eis seu livro de estreia. Que nos chega grande. Parcimonioso, mas exato. Denso. Leve. Delicioso. Deixando aquele gostinho de quero mais. Aquela vontade de já ler o livro que ainda vai chegar. Assim se faz poesia. Assim nasce um poeta. Bem-vindo : (Ed. Patuá).

caligrafia para haroldo

leio um livro e livro-me viro o livro lido e lido comigo até me ver livre
que lendo-me no outro torno-me outro ou isto sou esse um ao outro que
por força do hábito a um outro habito um outro que não se sabe mas desconfia
que é sentido pois sinto que se isso não é tudo na vida ao menos é delícia pros meus
sentidos posto que livre também livro se ao espelho shhhh rosno àquele
acumulador cínico para que doe outro de seus tantos livros lidos e nesse seu doar
nesse ser-se seu sem mim doa a semente de si ou simplesmente o eu le livre
que mallarmé não leu livro-lenda livro-infinito livro que ele legou a quem lê livre
de livros e um livro relido por dois leitor amigo já são dois livres a ler livros


VI

A fala é falo
afiado
trespassa a fenda
do grito
ampara o silêncio
tesado
faz filtro de ruídos
rimados
tem raiva mas ri
se relaxa
desembaraça
o pelo-novelo
quebra o gelo
calado
e ainda hoje
tem o seu apelo
preservado
pois haja o que
houver
ver é ágil


XI
Julgado
pronto
acabado
definitivo
julgo

Aponto
o dedo
deduro
o próprio
punho

Ponto

* * * * *

Eis um café pequeno da poesia que se produz hoje na Paraíba. Não nos faltam motivos de satisfação e orgulho.

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Publicado pelo Correio das Artes, suplemento literário do jornal A União, de João Pessoa, em janeiro de 2018, ano 68, nº 11, p. 08-11, na coluna Festas Semióticas.

Amador Ribeiro Neto é poeta, crítico literário e professor titular aposentado do curso de Letras da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Publicou, entre outros livros, Lirismo com siso: notas sobre poesia brasileira contemporânea (crítica), Ahô-ô-ô-oxe (poesia), Muitos: outras leituras de Caetano Veloso (crítica), Barrocidade (poesia) e Poemail (poesia). Mora em João Pessoa (PB).

Textos mais recentes de Amador Ribeiro Neto no blog O Berro:
- ‘Para quando’, de Kaio Carmona
- ‘Bambuzal’, de Rafael F. Carvalho
- ‘Identidade’, de Daniel Francoy

- A arquitetura das constelações
- for mar
- Poema das quatro palavras
- Hinos Matemáticos
- Dois olhos sobre a louça branca
- Alarido
- Tudo (e mais um pouco)

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terça-feira, 29 de maio de 2018

‘Para quando’, de Kaio Carmona



por Amador Ribeiro Neto

Kaio Carmona (Belo Horizonte, 1976) fez graduação, mestrado e doutorado na UFMG. É professor de literatura. Autor de Um lírico dos tempos (ensaio, 2006) e Compêndios de amor (poesia, 2013). Para quando (Belo Horizonte: Scriptum, 2017) é sua mais recente publicação.

Para quando: o título encerra uma pergunta? Uma reticência? Uma exclamação?

Não há sinal algum de pontuação, mas o título sinaliza para uma das constantes do livro: aquilo que interessa não está nomeado. Vale a espera? Que tempo é esse? Vale o desespero? Vale o silêncio? A contenção? O derramamento?

Há algo que, dirão alguns, beira o místico nos poemas de Kaio Carmona. Para outros, parece que há algo que, simplesmente, escapa a definições. Algo que não se entrega. Que se embrenha na dissimulação e lá faz seu habitat.

Por isso mesmo esta poesia encanta. Ela não parte e nem busca o místico. Ela se instaura e permanece na concretude da realidade. Na materialidade dos corpos.

Há um eu-lírico que lança sua voz a partir de um lugar comum, reles, cotidiano. Mas lança-a com timbres inusitados. Timbres que seduzem nossa audição. Atiçam nossos corpos e desejos. E, por isso mesmo, nos levam a correr atrás. Do quê? Não sabemos. A sedução nos conduz. Seguimos.

O volume está dividido em duas partes: a primeira, homônima ao título do livro, e a segunda, “O eu intermitente”. Ambas com o mesmo denominador mínimo, múltiplo e comum: o amor e suas circunstâncias.

Melhor seria dizer: incomum. Já que o amor, tal como o eu-lírico nos apresenta, embora comum e delimitado historicamente, surge-nos através de formas e modos de uma linguagem que o recria enquanto algo inédito. Recém descoberto. Para ser mais exato é melhor dizer: recém entrevisto.

E aí reside o perigo: o que falar daquilo que já foi mais do que falado/cantado? Na busca pela resposta a essa questão mora uma das qualidades de Kaio Carmona: tocar o mesmo, mas com nova gestualidade.

Outros modos e jeitos. Redizendo: outros des-modos e des-jeitos. Afinal, o poeta opera na faixa da desconstrução do conhecimento alicerçado no senso comum, no déjà-vu, nos saberes canonizados.

O poeta, que é também professor de literatura, sabe que a epifania da poesia deslinda-se na forma do dizer o que busca dizer. E não na mera semeação semântica das ideias. Por isso mesmo seu livro ganha o leitor em vários momentos. Diria até: na quase totalidade.

Sem dúvida alguma, são poemas na linhagem adeliana, naquilo que Adélia foi buscar em Drummond: a naturalidade de uma dicção poética nascida de fonte popular. Daí emerge a poesia das grandes e miúdas delicadezas. Uma poesia que, bela per se, reverbera, despudoradamente, Adélia e a lição do seu mestre, Drummond.

Transcrevo “Banquete”:

E finalmente conheces o amor
e nele apostas teus medos.
Amas com fome:
Dia após dia macerando a carne
com cansaço.
Tenaz.
E amas com raiva.
Torna-te meticuloso de sua posse.
Assassino.
Persecutório.
Vigilante incansável.
Finalmente conheces o amor
Para, conforme a fome, matá-lo.

Kaio Carmona não se envergonha do vasto amor. Como nada tem a esconder na intertextualidade, pari passu, com a poesia dos dois poetas citados e de outros, dentre os quais, Bandeira, Vinícius, Neruda, Florbela.

O amor não tem fronteiras. Foge a dicionários e influências. Tal como a poesia. E Kaio Carmona sabe disso. Por isso sua poesia é bandeira desfraldada com a obra de grandes nomes de nossa literatura.

Em Adélia Prado ele encontra a reverberação do universo drummondiano. Porém, de ponta-cabeça. Com os malabarismos de outra poesia, cozida ao fogo dos sentimentos. Transcrevo “Esse tráfego doméstico”:

De silêncio em silêncio
– em pequenos sustos –
vai se construindo nosso amor
diário.
Os cômodos da casa ainda são grandes,
como eram grandes os cômodos das casas
antigamente.
E mesmo assim nos esbarramos
de cômodo em cômodo,
esse tráfego doméstico.
Passa por mim sem me olhar e deixa sua mão
aleatoriamente
em algum lugar de meu corpo,
propositadamente.
Sei mais de você por esses encontrões e silêncios
que o seu sorriso, talhado na lida
do mundo das relações.
Seu sorriso:
Pequenos silêncios, pequenos encontros.
E o amor se erguendo no ar.
E o amor se entornando no chão.

Mas essa poesia feita da naturalidade da vida e das suas dicções bebe, antes de tudo, nas fontes de Camões e Dante. A grande lírica destes grandes líricos não poderia passar ilesa à poesia de um poeta sensível e ao seu coração. Que é também bombeado pelo sangue de suas leituras enquanto leitor e professor de literatura.

Para quando é um livro pra já. Porque o amor bate à porta. E sua insubmissão é uma lambada na dureza dos dias de hoje, de ontem, de sempre.  Nos dias de hoje, especialmente.

Lambada na dupla acepção: dança/música e paulada/cacetada.

Enfim, poesia de amor. Enfim, poesia de resistência.
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Amador Ribeiro Neto é poeta, crítico literário e professor titular do curso de Letras da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Publicou, entre outros livros, Lirismo com siso: notas sobre poesia brasileira contemporânea (crítica), Ahô-ô-ô-oxe (poesia), Muitos: outras leituras de Caetano Veloso (crítica) e Barrocidade (poesia). Mora em João Pessoa (PB).

Textos recentes de Amador Ribeiro Neto no blog O Berro:
- Bambuzal, de Rafael F. Carvalho
- Identidade, de Daniel Francoy
- A arquitetura das constelações
- for mar
- Poema das quatro palavras
- Hinos Matemáticos
- Dois olhos sobre a louça branca
- Alarido
- Tudo (e mais um pouco)
- Cadela prateada

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segunda-feira, 23 de abril de 2018

‘Bambuzal’, de Rafael F. Carvalho



por Amador Ribeiro Neto

Rafael F. Carvalho (São Paulo, 1978), bacharel em Letras pela USP, colunista da revista Samizdat, autor de A estante deslocada (2011), A cor do sol (2013), Terceiro livro (2015). O bico do pássaro (Coleção Leve um livro) e Bambuzal (Belo Horizonte: Moinhos), de 2017, são suas mais recentes publicações. Ambas exclusivamente de haicais. Os de O bico de pássaro (na verdade um microlivro) estão todos contidos em Bambuzal. Há apenas um, com formato divergente, em ambas as publicações. Cito-o: “Minha cama é feita / de palha de arroz. Plantar / tem outras intenções”, naquela e “Minha cama é feita / de palha de arroz. / Plantar tem outras intenções”, nesta.

O deslocamento do verbo plantar, no microlivro, semeia novo ritmo e realça a ação do plantio. A interrupção sintática do segundo verso enfatiza a ideia de movimento e, pela pausa, reforça a ambiguidade do verso seguinte: “plantar tem outras intenções”.

Rafael F. Carvalho, ao arquitetar as imagens do poema, revela apurado zelo, realçando-lhes a plasticidade. Todos sabemos que enfatizar a imagem é um dos princípios balizares do haicai. Ao lado do enfoque meditativo. Até aí, nada demais. No entanto, o diferencial de Carvalho está no zelo descritivo das imagens, entretecido por vieses de minúcias. E também na mirada reflexiva que vaza os versos. Esta dupla associação gratifica.

Gratifica pelo sublime em si. Gratifica por pensar o mundo por outros ângulos.

Ora o tempo percebido no ato de matar a sede nas águas do rio. Ora a chuva e o arroz sendo cozido, conjuntamente, pelos moradores da aldeia. Ora os brotos crescendo sob o quimono molhado no bambuzal. Ora a noite assobiando em forma de lua, no bico do pássaro. Etc.

Insisto: o poeta trabalha seus haicais com filigranas de requintada elaboração. E aqui, trabalho e requinte nada têm de erudição vazia. Ou empolada. Antes: o requinte deste trabalho está em verticalizar o coloquial numa dicção ainda mais fluente. Musical. Imagética. Quer seja: poética, de primeiro grau.

É quando a magia cria morada na fala do dia a dia.

Onde residem a beleza e a delicadeza destes haicais? Na semeadura das ideias em campos de imagens, na associação da beleza plástica à reflexão filosófica.

É a filosofia encantando-se pela pintura. Como em O casal Arnolfini, de van Eyk ou em As meninas, de Velázquez. Quer seja: quando filosofia e arte amalgamam-se. Quando pintura e poesia veem-se dentro de si: reverberações em espelhos, quadros, reflexos.

Os haicais de Rafael F. Carvalho operam esta síntese brilhantemente. Apontam para fora e veem-se internamente. Tal como a leveza das folhas do bambuzal, lindamente espalhadas/espelhadas na capa do livro. Movimento que alcança a quarta capa como suave sinfonia.

Em tempo: o projeto gráfico do volume, capa, título e fontes de impressão estão em harmonia zen com os haicais. Tudo é leve, tudo se move. Tudo é finesse. Brisa de encantamentos, o volume é sedução gráfica para os olhos, mente e coração do leitor.

O universo temático haicaísta faz-se presente pela cartada da palavra-curinga arroz – e suas derivações: palhas de arroz, cozer o arroz, comer o arroz. E está contido no uso de vocábulos como lua, noite, insetos, plantação, aldeia, quimono, bambu, mar, pássaros, etc.

O tempo de preparar a comida, as estações do ano, o ato de contar histórias, observar a noite, tocar um instrumento, cuidar da plantação, dar-se conta da velhice – tudo converge, em flashes rápidos e certeiros, para modos de vida familiares ao leitor.

O todo conflui para a beleza da poesia carvalhana. Lê-la é adentrar numa projeção da memória em que as imagens vêm carregadas de ideias. Ideias de quem não somente olha o mundo, mas olha-o pensando, refletindo, sentindo. Significando e ressignificando numa folha de bambu, num bico de pássaro.

A emoção de ler Rafael F. Carvalho é a de encontrar sutilezas na vastidão bruta da vida.

Hoje, poesia, teu nome é encanto, carinho e cuidado em Bambuzal.

Bebendo água em
um rio vi cabelos
grisalhos: inverno



 

Chove na aldeia:
todos cozinham
seu jantar de arroz


 

Meu quimono seca no
pé de bambu. Percebo
brotos crescendo debaixo


 

O bico do pássaro
tem a forma da lua:
A noite vai assobiar


 

O rochedo leva
o mar para o céu:
estrelas de sal


 

Só as crianças
fazem leite de arroz:
a velhice é bruta
____

Amador Ribeiro Neto é poeta, crítico literário e professor titular do curso de Letras da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Publicou, entre outros livros, Lirismo com siso: notas sobre poesia brasileira contemporânea (crítica), Ahô-ô-ô-oxe (poesia), Muitos: outras leituras de Caetano Veloso (crítica) e Barrocidade (poesia). Mora em João Pessoa (PB).

Textos recentes de Amador Ribeiro Neto no blog O Berro:
- Identidade, de Daniel Francoy
- A arquitetura das constelações
- for mar
- Poema das quatro palavras
- Hinos Matemáticos
- Dois olhos sobre a louça branca
- Alarido
- Tudo (e mais um pouco)
- Cadela prateada
- A nova antologia da Adriana Calcanhotto

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terça-feira, 27 de março de 2018

‘Identidade’, de Daniel Francoy



por Amador Ribeiro Neto

Daniel Francoy (Ribeirão Preto, 1979) é graduado em direito e trabalha no Poder Judiciário do Estado de S. Paulo. O terceiro lugar no Jabuti 2017 é seu com Identidade (Bragança Paulista: Urutau, 2016). Até então só fora publicado em Portugal. É autor de Calendário (Lisboa: Artefacto, 2015) e Em cidade estranha / Retratos de mulheres (Lisboa: Artefacto, 2010).

A poesia brasileira contemporânea, em parte, vai muito bem. Nomes (de poetas vivos) como Adélia Prado, Ademir Assunção, Adriano Espínola, Alberto Lins Caldas, Alexandre Guarnieri, Alice Ruiz, Antonio Vicente Seraphim Pietroforte, Arnaldo Antunes, Carlos Ávila, Cazé Lontra Marques, Delmo Montenegro, Flávio Castro, Frederico Barbosa, Glauco Mattoso, Lau Siqueira, Líria Porto, Márcia Maia, Marco Lucchesi, Marcos Siscar, Maria Lúcia dal Farra, Paulo Henriques Britto, Rodrigo Garcia Lopes, Ronald Polito, Rosana Piccolo, Ruy Proença, Sérgio de Castro Pinto, Simone Andrade Neves, Susanna Busato, Virna Teixeira, Zuca Sardan, dentre outros, comprovam sua aprumada materialidade. E, sem dúvida alguma, o maior de todos: Augusto de Campos.

Presentemente novo nome vem juntar-se a estes já grandes: Daniel Francoy. Sua poesia é potente: seduz o leitor ao primeiro contato. É arquitetada na mais elaborada linguagem. E, coisa rara, desenha rico universo de reflexão sobre o mundo e os sentimentos.

Esta poesia opera uma operação algébrica: sublime materialidade da palavra + densa argamassa das ideias + exata musicalidade.

Ao lê-la, o leitor sente o impacto que a grande arte provoca: o que é lido ergue-se em inusitadas configurações. Ainda que cotidianas. Ainda que vistas e entrevistas pelas janelas de todos os dias.

Eis onde reside um dos méritos de sua obra: no vértice da mais refinada poesia entretecida por um rol de ideias, preenchido de significados, significações e significantes. Quer seja: a palavra em sua dimensão absoluta: o vocábulo em si, seu uso figurado e imagético (no caso, imagem marcadamente musical).

Esta poesia segue na contramão da pauperização da linguagem. Insubordina-se contra a debilitação das reflexões. Tem gana, força e coragem de guiar-se contra a mesmice cristalizada (e aplaudida) por grande parte da produção poética brasileira contemporânea.

A poesia de Daniel Francoy é rigor associado à leveza. Encanta. Arrebata. Ela desconstrói imagens, pensamentos e ritmos descoloridos pela voracidade da comunicação rápida e barata. Insurge-se, com ousadia, contra as expectativas do mercado editorial e as dos leitores acomodados. E ainda mais: à afronta da ironia, da irrisão, do cinismo, no niilismo, da antipatia contrapõe a ternura. A ternura de uma visada ao mesmo tempo branda e dura.

Branda, na amorosidade com que revela o mundo e os sentimentos. Dura, na honestidade de tomar a vida sem os torneios dos enfeites. Sem os contornos das dissimulações. Tal procedimento instiga o leitor empenhadamente sério, o leitor-contra (ao gosto de Cabral e Augusto), o leitor-sensível (ao gosto de Adélia e Bandeira).

A poesia de Daniel Francoy sabe erguer-se na fronteira do necessário e do honesto. Cavouca fundo sem temer que tipo de verdade que possa encontrar. E, ao encontrá-la, não a revela com a fúria das bombas. Antes: inesperados maravilhamentos cotidianos desabrocham. Lição de poesia para todo aluno-leitor receptivo à outra alfabetização. Aquela que prioriza a sensibilidade do sujeito dentro (e ante) o mundo.

Sim, a força desta poesia impõe-se como novo e necessário aprendizado. Depois de lê-la, uma missão impossível se apresenta: esquecê-la. Como a descoberta de um novo amor, ou a morte súbita de outro, sua experiência perfura e perpassa o corpo, a memória, a cabeça, o coração. Aquilo que se sabe de arte e de poesia é posto em suspensão. E adentra-se a galáxia de epifanias: aclaramento cru do mundo e da história. Descoberta de si através das luzinhas da estrela-poesia (dentro da noite escura da vida).

Há na poesia de Daniel Francoy laivos de T. S. Eliot e de Fernando Pessoa. Naquilo que ambos têm de feliz associação entre filosofia e linguagem. Com o adendo: Daniel Francoy dialoga com estes dois grandes mestres, porém a voz que canta – poderosa e de timbre único – é a de novo poeta. Novo na idade. Novo na experiência das publicações. Novo no patamar que passa a ocupar na cena de nossa poesia. Novo na força de uma nova poesia que nasce no Brasil.

O leitor terá percebido que vivo o fascínio causado pela poesia de Daniel Francoy. Por isso compartilho esta descoberta de imensos prazeres e singular identidade.

Transcrevo poemas do livro Identidade.

ABRIL

De todos os meses, abril
é o que melhor me ludibria:
não há segunda vida — as pradarias
ainda são terra queimada
e o orvalho que virá, noite alta,
será mais cruel para as raízes
do que o gelo misturado ao barro.

Ainda cansado. Ainda com os olhos
batidos pelo calor mais antigo
e pelas sombras mais viscosas: espectral
voz marítima em cidade distante do mar.

A voz do luar — impuro delírio.
A voz do que naufragou e foi levado
pelos torvelinhos: cabelos com gosto de sal,
o coração tocando melodias alucinadas,
as frutas ácidas que perderam o sabor,
um preço muito alto ou muito ínfimo pelo amor.

Assim entro em abril. Assim o azul sem nuvens
se abre como uma terra sem máculas, uma terra
lavrada para o que nunca nasceu.
Assim os dias retornam à repetição:
as nuvens surgem à tarde, ora ventos exíguos,
ora redemoinhos de terra escarlate;
ora o que está distante parece próximo,
ora o que está presente mal se sente.
Assim as noites se desprendem
de um esbrasear fugidio: as estrelas são chama branca
e branca névoa sopra por entre as ruas quietas.
Todos sentem sono. Todos se enrodilham
a uma mágoa que parece suave,
a uma tristeza de voz débil,
a um doce tédio que mal volve os olhos
para as mortas raízes entre a terra revolvida.

CLARIDADE

Se ao menos não houvesse dúvidas:
é aquela hora de bruma e de medo
e a relva, amanhecendo úmida,
tem como raízes vísceras misturadas.
Se ao menos soubéssemos: sob o luar
Joana D’Arc é queimada e ascende
ainda mais translúcida do que a brisa
desfeita pela fuligem — é aquela hora
de árvores inertes e muros ensanguentados.
Se ao menos contemplássemos: arde
a cidade e somos nós os saqueadores,
nós os negros, nós os gregos, nós as troianas
deixadas ao estupro, aterrorizadas
por uma suspeita que jamais se confirma.
O que será esse rumor? Ratos
correndo no forro dos telhados ou torvelinhos
de vento uivando durante a madrugada?
Se ao menos uma palavra nomeasse
a pedra escura queimando o peito —
mas não: é meio-dia, faz sol
e a praça central se afoga em claridade.


DEZEMBRO

Tão baixo, possível, familiar,
o luar é apenas sujeira no céu.
Ainda mais abaixo, há grilos, mosquitos,
morcegos, a água barrenta
de um riacho, a doçura
dos frutos rachados pelos vermes
e também a aspereza
em rostos que o tempo tratou
como pedra que nunca foi movida.
Não fui uma ave migradora
e há rios que deixam de fluir
sem encontrar algo maior.


NA FRONTEIRA ÚLTIMA DA CIDADE

Acordo e o que existe de opaco, no sono,
perdura no primeiro instante:
o eco da chuva vinda na madrugada,
o bafio seco, o ar exaurido, a fria luz
do começo do sol. A fria luz e o alvorecer
semelhante à neve suja.

Acordo e o que existe de torpor
permanece nos primeiros movimentos:
levantar-me,apartar-me
do corpo que ao lado dorme, lavar-me,
promover o encontro da pele ferida
com o vento tornado áspero,
com o branco céu que recrudesce.

A cidade é um galpão de tetos baixos e luzes mortiças.
O fumo dos cigarros. O fumo dos motores.
Voltar a dormir durante a viagem de ônibus
e contemplar a paisagem entre lapsos
de consciência:
o rio é mais lama do que água
e no entanto o rio
é para onde fogem os animais mutilados

A cidade é um galpão de paredes de vidro
e o calor fere os olhos ao atravessá-la
e rebrilha quando o céu deixa de ser branco.
Nunca passei por esta estrada
e não vi ao menos uma árvore coroada de flores
em exaltado esplendor.
Como se um deus estivesse ferido
no coração pela ponta de uma lança
e não mais deixasse de sangrar.
Ainda quando o dia é estio, ainda
quando o céu é limite incendiado,
a perpétua agonia de um deus que não morre
é o que explica a coroação alcançar fevereiro,
quando o calor já calcinou todas as raízes.
Na fronteira última da cidade e mais além
estão os ipês e me pergunto
se o amor, com a sua natureza bravia,
terá a mesma permanência.


AUTORRETRATO

Diante de mim, na parede
em que aparecem os primeiros sinais
do tempo infiltrado, há uma prateleira
ainda por arrumar.
Virá alguém um dia e dirá
é uma casa com a beleza
das ruínas e então
serei como qualquer pessoa que morreu
quando eu ainda não era nascido.

Em tempo – Notícia boa: o poeta tem novo livro no prelo. Aguardemos.
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Amador Ribeiro Neto é poeta, crítico literário e professor titular do curso de Letras da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Publicou, entre outros livros, Lirismo com siso: notas sobre poesia brasileira contemporânea (crítica), Ahô-ô-ô-oxe (poesia), Muitos: outras leituras de Caetano Veloso (crítica) e Barrocidade (poesia). Mora em João Pessoa (PB).

Textos recentes de Amador Ribeiro Neto no blog O Berro:
- A arquitetura das constelações
- for mar
- Poema das quatro palavras
- Hinos Matemáticos
- Dois olhos sobre a louça branca
- Alarido
- Tudo (e mais um pouco)
- Cadela prateada
- A nova antologia da Adriana Calcanhotto
- Em pauta, Pedro Osmar

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terça-feira, 23 de maio de 2017

A arquitetura das constelações



por Amador Ribeiro Neto

Mauricio Duarte (São Paulo, 1981) é jornalista e poeta. Estreou em 2007 com Rumor nenhum. O segundo livro, Balde de água suja (2015), tivemos a oportunidade de comentar aqui no Augusta Poesia. Sua mais recente obra é A arquitetura das constelações (São Paulo: Editora Patuá, no prelo). E, coisa boa, mantém o vigor dos livros anteriores.

Para Maurício Duarte poesia não é manha nem frescura. É frescor da concreção de ideias. Pois: estamos diante de um livro que foi pensado estruturalmente. Da primeira à última parte. São quatro blocos sólidos, radiantes e radioativos, que se movimentam em torno do próprio eixo e dão origem à figura do círculo, unidade perfeita que enlaça o volume.

Unidade matemática.

Unidade poemática.

Unidade que evita a dimensão estratosférica, fundindo poema e asfalto das ruas. Ainda que mirando as constelações estelares.

Nada há de vácuo neste projeto solidamente edificado. O buraco negro da folha, do coração, da mente e do espaço sideral ata os vãos das palavras salteadas ora em prosa, ora em prosa porosa. Sempre: cristadas sob o amparo da grande poesia.

Logo na primeira página, a pretensa definição científica de “imaginação humana” rarefaz-se em desfecho multidimensional: A imaginação humana é uma arquitetura de constelações. Este será o mote. Esta, a estratégia desta poesia: focar no alvo, acertar nele e no seu brilho.

No início da primeira parte, o poeta dispara: imaginação humana: / arquitetura das constelações. E, ao final dela:
a expansão do cosmos
em direção ao infinito

o insondável assombro
diante dos gases estelares

o rastro luminoso
do último meteoro

a música incessante
das esferas celestes

o alarido da dúvida rolando
na aridez do universo

a imaginação humana como
arquitetura das constelações

Ao fazer uso de variações em torno do mesmo tema, esta poesia busca a música do cosmos – uma música anticonsoante. Uma música de rimas toantes. Despojada. Socada a palo seco. Por isso mesmo, o parentesco cabralino se dá na negação óbvia do texto de Cabral. E entrega-se na penetração do cerne do seu sol metálico, de suas mesmas vinte palavras. Aí a linguagem do poeta vai mais longe e recicla o férreo sentimento drummondiano. Entre estrelas e metais ela impera,  ácida e sublime, na cidade, nos sentidos.

A segunda parte inicia-se espelhada na primeira: a prosa porosa, prosa poética, poesia em linhas ao invés de versos. Já as partes três e quatro reverberam a poesia em estado bruto. Brutalmente talhada na crueza das palavras. Se há um sentimento neste livro é o de posse de um eu em fraturas. Um eu retalhado pelos acidentes da vida – aqui ou no exterior. Sempre: a fratura exposta de um enigma. Há algo nesta poesia que foge. O leitor se atém à sua beleza implícita – sedução pelo dito que não se diz.
A linda moça solitária do café. Ou a linda moça que almoça sozinha no restaurante tem um olhar melancólico. Uma luz mortiça incide sobre ela. Uma pintura de Hopper. Nós, figuras oprimidas pela beleza, sempre partimos do pressuposto de que essas mulheres lindas estão solitárias. Não há nenhuma evidência disso, a não ser nosso próprio desejo mais ou menos oculto de que elas sejam solitárias. Porque não suportamos o pouco que nos é lícito desvendar. A música das esferas é negada aos nossos sentidos. Resta-nos somente esse desejar o mal disfarçado de banalidade. E assim revidar sua insídia.

Todavia, não nos iludamos pensando que estamos diante de um texto hermético. Ao contrário: esta poesia deslinda, desenreda e propala a significação do sentir mais absoluto: aquele do ouvido apurado que ouve o próprio corpo:
a linguagem é sempre
insuficiente para represar
o caudaloso sangue
que vibra e infla
por debaixo da pele

a pata do desejo
desemboca inequívoca
no esgotamento

há qualquer coisa de
irreprimível na música
dos nervos aniquilados

apure o ouvido:
o corpo canta

O acaso é um pretexto para a intervenção da ironia. Fina ironia que se faz lírica mesmo quando cáustica. A insatisfação do eu lírico com seu repertório de conhecimentos acerca do mundo, de si e dos mundos – galáxias afora –, leva-o a notar que se hospeda onde se hospedaram grandes nomes da literatura. Quase por osmose, não fosse a (auto-, a intra- e a inter-) ironia, a vida teria o raio, o facho, o desfecho feliz das estrelas nunca cadentes. Mas todas as estrelas o são. Logo, o poeta percebe-se um hóspede estrangeiro: um estrangeiro de si em si. Daí a angústia, o desamparo. E a poética.

O que é matiz e volátil converte-se em definido  e concreto. Eis a linha dorsal, a estrutura fundante de um livro que é a favor do enfático silêncio / das pedras. Transcrevo esta parte do poema:
o mar
devia ser o mar ali
a assomar à porta
de nosso entendimento

a entupir de sal a
garganta de nosso tédio
a estourar o gargalo
de nosso recato

o mar
devia ser o mar ali
a espalhar a espuma
de nossas derrotas

a espatifar nossos corpos
contra o enfático silêncio
das pedras, contra o desespero
de nossos gestos atrasados

devia ser o mar ali
a roçar nossos pés
devia ser o mar
ou quem mais suportaria
assim a luz de maio?

Nada escapa incólume ao choque da beleza deste livro. Melhor seria dizer: tudo esvai e vem, numa antimúsica de partículas atômicas e, venturosamente, radioativas. Que centram-se na estrutura das ideias alfa, beta, gama. Que se autodesconstroem num tsunami de senti(pensa)mentos unissonantes.

Doa a quem doer: poesia não é fricote. E Mauricio Duarte é poeta das estrelas, das cidades, da dor, do atrito, das fissuras. Um poeta para o leitor fissurado em poesia, é claro.
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Amador Ribeiro Neto é poeta, crítico literário e de música popular. Doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Professor do curso de Letras da UFPB.

Textos recentes de Amador Ribeiro Neto no blog O Berro:
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- Em pauta, Pedro Osmar
- A arte e a máquina

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quinta-feira, 11 de maio de 2017

for mar



por Amador Ribeiro Neto

Flávio Castro (Porto Alegre, 1966) é poeta e há 25 anos está radicado no Rio. Estreia em 2009 com Audito, um livro radical, em que a sintaxe interrompida projeta jatos de imagens. Em 2013 lança Inaudito, igualmente perturbador. E ainda mais radical. Agora, todos os poemas ocupam todos os espaços da página numa exuberância de deleites.

Com o lançamento de for mar (Rio de Janeiro: Ed. 7Letras, 2016), temos, de pronto, a busca da cumplicidade do leitor. Este livro que não existe per se. Antes: seu projeto revela um primoroso cuidado em inserir o leitor como coautor. Aquele que vê, a cada leitura – muitas formam-se, configuram-se, consolidam-se após cada poema lido, relido, retomado – edificar-se uma arquitetura vernacular de fazeres – aquela, fundante da grande poiésis.

Se nos dois livros anteriores um programa poético já se anunciava, com o presente for mar funda-se uma trilogia da linguagem poética.

Flávio Castro é um exímio perscrutador dos labirínticos percursos de luz e sombra dos vocábulos. Nele, sempre o som articula-se num entranhado jogo de visualidade e significados. A palavra espaçada no branco da página, os exuberantes neologismos, a tessitura das imagens: tudo é massa de significações em alto grau.

Por isso sua poesia é um convite a voos – ora largos, ora curtos. Todavia, sempre dentro de um rigor riscado a ponta de faca. O rigor do sol com o pacto dos cactos. O rigor do sangue – vermelho ou seco – escorrido do corpo estirado no beco.

O corpo da poesia não é frágil nem fácil para este poeta que preza as filigranas de cada consoante, de cada vogal, de cada fonema. E de cada imagem: oferenda de um devoto a seus múltiplos deuses sígnicos.

Em consonância com a afiada prática da mais condensada poesia, Flávio Castro é poeta de ardis, armadilhas e artemísias. Sua poesia aguça, açula, isca, embeleza e é um antídoto à pasmaceira dominante na cena da nossa poesia hoje.

O “livrorrio” de Flávio Castro dialoga com as conquistas da linguagem de Mallarmé a Haroldo de Campos, passando por Cummings e Joyce, entre outros. Este leque dimensiona o fino paideuma deste poeta desassossegado e inquieto que sabe, com Octavio Paz: “a atividade poética é revolucionária por natureza; a poesia revela este mundo, cria outro”. Cônscio de que aquilo que ela inventa é a forma de usar a forma para além das fôrmas cristalizadas pelos manuais poéticos – e pelo desempenho editorial do mercado.

for mar possui 4 partes. Na primeira, que dá título ao volume, subintitulada “épico da linguagem”, não há exposição de ideias, ações, narração, contexto histórico determinado, personagens. O épico dá-se na transmutação da linguagem que processa um elo-de-elos quase ao léu, não fosse a argamassa da visualidade e da reverberação sonora. Formar sequências. Formar sentidos. Formar forma. Formar ar. Formar mar. Reverberar ondas de significações. Desta forma, as estrofes (às quais o poeta prefere chamar “blocos-estéticos”), duas em cada página, evoluem paulatinamente para, ao fim do poema, fundirem-se numa só mancha gráfica. Ou num só “espaço-tempo diagramado”.

Eis um fragmento do poema que abre o livro:



A segunda parte,“ideogramas”, processa neologismos de uma só palavra num mix de maiúsculas e minúsculas que criam uma ligação pictórica entre letras, sílabas, sufixos, prefixos, radicais, etc., – e o significado que se abre de um link para outros links: labiríntico jogo mallarmaico-cortázar-borgeano.

Em cada página do livro há um “poema ideogramático”:



A terceira parte, “braille”, radicaliza um procedimento que Edgard Allan Poe, Décio Pignatari e Luiz Ângelo Pinto constataram através da observação do código Morse. Mas, todavia, não desenvolveram: a desvocalização das palavras. Flávio Castro dá o pulo do gato e leva a percepção teórica à prática poética. O resultado são poemas que se oferecem com brincante prazer de interagir com a língua(gem) subtraída. Com isto o poeta vale-se da decantada mais valia da linguagem: less is more – na feliz expressão de Mies van der Rohe. Flávio Castro filtra a forma até seu grau minimalista. O leitor segue nesta via de mão única, inicialmente, colhendo vocábulos dicionarizados mas, depois, percebe-se recolhendo o inusitado dos neologismos. O gozo do make it new, das formas feitas, e do in progress, das formas por-fazer, toma conta da leitura. Melhor dizer: da coleitura. Cito a parte inicial deste poema:


Em ‘côdea’ a parte final do livro, o poema “ravinas”, constituído por sete partes, desenha o final de uma via, de uma viagem, de uma linguagem – linguaviagem, para citar uma obra de Augusto de Campos – que se fecha e se abre. Isto porque a poesia de Flávio Castro é um presentar no sentido heideggeriano do termo: um continuum entre velado e desvelado. Iluminação pós-velamento. Oroboro comendo Fênix.

Cito dois fragmentos:


O percurso épico de for mar soma-se aos de Audito e de Inaudito encerrando a trilogia com o “fátuofogorgíaco” de Nékuia. Elançando passos, braços, laços – da linguagem – a Ulisses-Homero.

Na odisseia da poesia que se sabe, que se faz, que se forma, for mar é irretocável.
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Amador Ribeiro Neto é poeta, crítico literário e de música popular. Doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Professor do curso de Letras da UFPB.

Textos recentes de Amador Ribeiro Neto no blog O Berro:
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- Cadela prateada
- A nova antologia da Adriana Calcanhotto
- Em pauta, Pedro Osmar
- A arte e a máquina
- O computador e a arte

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quinta-feira, 4 de maio de 2017

Poema das quatro palavras



por Amador Ribeiro Neto

Airton Cattani (Garibaldi-RS, 1955) é poeta, contista, professor da UFRGS, artista gráfico e arquiteto. É Mestre em Educação e Doutor em Informática na Educação, ambos pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Tem livros publicados em sua área profissional. Em ficção é autor de 40 microcontos experimentais (Prêmio Açorianos de Literatura 2011 e segundo lugar no Jabuti 2012, ambos na categoria projeto gráfico). Poema das quatro palavras (Porto Alegre: Marcavisual, 2015) é sua publicação mais recente e obteve o primeiro lugar no Prêmio Açorianos de Literatura, categoria Projeto gráfico.

A escrita poética em labirinto, prática barroca, rendeu novas dimensões para a palavra poética. Desde então um poema passa a ser lido em várias direções espaciais, captando diferentes momentos do texto, tanto rítmica quanto semântica, visual e sintaticamente. Ana Hatherly, em seu livro A experiência do prodígio; bases teóricas e antologia de textos-visuais portugueses dos séculos XVII e XVIII (Lisboa: Imprensa Nacional, 1983), nos traz a teoria e sua aplicabilidade a poemas barrocos, sugerindo sua pertinência aos estudos da poesia experimental contemporânea.

Muito se fala das inúmeras visadas de leitura que Un coupe de dés (traduzido como Um lance de dados), do Mallarmé, trouxe para a poesia. Em especial, o espaçamento da palavra na folha de papel, o arranjo tipográfico variado, o uso predominante da frase nominal, entre outros.

Os poetas dadaístas, ao apregoarem a liberdade total das palavras, indo da desordem semântica à sintática, com o elogio gratuito do som e do ruído, trouxeram uma ética radicalmente anárquica. Da notícia de jornal retalhada, embaralhada e sorteada, ao poema daí resultante, que “é a cara de seu dono”, à desconstrução de valores burgueses e capitalistas, esta poesia atingiu, como um míssil, a arte tradicional.

A Poesia Concreta, ao decretar o fim do verso tradicional e incorporar as experiências de Mallarmé a Mondrian, passando por João Cabral e Le Corbusieu, libertou o poema das normas estabelecidas e o lançou no turbilhão de signos. Significados e significantes, tomados na sua materialidade, alcançaram, em cheio, a tradicional poesia brasileira. Aquela que adorava “averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo”. Assim, ainda que na marra, oxigenou a poesia, exportou-a e abriu vias para o advento da poesia digital.

Poema das quatro palavras, de Airton Cattani, é uma retomada de todo este processo histórico de conquistas da poesia. Seu livro é impresso sobre papel vegetal e possui capa em papel cartão. A primeira edição, de 123 exemplares, todos numerados e assinados pelo poeta, é um primor gráfico e poético. Quanto ao diferencial gráfico, de fato, um cuidado extremado, mas nada de surpreendente. Temos visto muita coisa boa nesta área.

A novidade está no fato de que a montagem do miolo é feita aleatoriamente. Ou seja, não há um exemplar igual a outro. Aí, sim, mora um diferencial provocativo. O leitor, que inicialmente lê segundo a encadernação que lhe coube, a seguir pode desencaderná-lo e montar seu livro-objeto, como bem queira. E ele passará a ter “a cara de seu dono”.

“À sua maneira, este livro é muitos livros”, anota Cortázar sobre seu Rayuela (publicado no Brasil como O jogo da amarelinha). Pois bem, a mesma advertência presta-se ao livro de Cattani. Com uma especificidade: como as páginas são em papel manteiga, o leitor lê e antelê a(s) página(s) seguinte(s), o tempo todo. Mesmo não querendo, sua leitura inicial já é, multidirecional: o que lê e o que antevê/lê.

Por isso mesmo, o leitor rola os dados, com o poeta, na roleta da poesia. Esse ludismo configura um painel caleidoscópico de centenas de leituras. Consequência: prazer desdobrado em cada dobra desta obra de inúmeras possibilidades.

Atentemos para o título da obra. Ele é composto por quatro palavras. E o conteúdo compõe-se, de outras quatro palavras. Estas quatro palavras (as do miolo do livro) entregam-se como anagramas e/ou palíndromos em jogos especulares. O tabuleiro avança em direções indiferenciadas. As imagens não têm limite.

Poema das quatro palavras remete-nos, por exemplo, a Gregório de Matos, cujo soneto, “Achando-se um braço perdido do menino deus”, inicia-se assim:
O todo sem a parte, não é todo;
a parte sem o todo não é parte;
mas se a parte o faz todo, sendo parte,
não se diga que é parte, sendo todo.

O jogo que o poeta barroco estabelece, com os termos “todo” e “parte”, assume a desestruturação física da imagem do menino deus para, em seguida, recompô-la via linguagem. Perda e reparação são pares antitéticos caros ao barroco, dos quais o poeta se apropria para arquitetar o ludismo de seu poema.

Há uma observação de Antonio Candido segundo a qual a fase inicial da análise (o comentário) não deixa de lado a manifestação do gosto, a que ele denomina “a penetração simpática do poema”.

A seguir, observa que qualquer poema é passível de ser comentado. No entanto, só se interpretam os poemas que nos dizem algo. Aqueles que nos mobilizam. E é isso que o livro de Cattani nos oferece: de imediato, forte empatia. Ou nas palavras de Borges: “Tenho plena convicção de que sentimos a beleza de um poema antes mesmo de começarmos a pensar num sentido”. É o que sentimos ao manipularmos o livro de Cattani. Uma beleza que se entrega no ato. E que ganha intensidade de significado a cada novo momento de leitura, de atribuição de sentido.

Retomando Antonio Candido, à luz do poema de Gregório, podemos pensar que o comentário corresponde ao “momento parte”, e a interpretação, ao “momento todo”.

Para o autor de Formação da literatura brasileira, “todo poema é basicamente uma estrutura sonora”. Vem a dúvida: o poema de Cattani, não é antes de tudo imagem visual? À primeira vista, sim. Mas depois, ao lê-lo ouvindo-lhe sua dicção e atentando para a musicalidade das palavras em movimento no espaço da página em branco e transparente (vimos que o papel é manteiga), damo-nos conta de que estamos diante de imensa massa de imagem sonora.

Na dança das palavras dentro da página, e no interregno entre uma página e outra(s), a música se presenta e coreografa os passos da poesia. Ao se presentar, ela não apenas apresenta, mas, concomitantemente, torna-se presente. Presente = o tempo e a dádiva.

O livro Poema das quatro palavras, pela própria feitura, não permite que se reproduza aqui nenhuma parte sem ferir sua unidade. Fica o convite ao leitor para que se aventure no alumbramento de um livro que é, de fato, a cada leitura, a cada montagem, uma nova sequência de revelações. Um livro para ver, ler, ouvir. E tudo de novo, outras vezes. Sem fim. 
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Amador Ribeiro Neto é poeta, crítico literário e de música popular. Doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Professor do curso de Letras da UFPB.

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quarta-feira, 26 de abril de 2017

Hinos Matemáticos



por Amador Ribeiro Neto

Marco Lucchesi (Rio de Janeiro, 1963) é professor da UFRJ, poeta, romancista, ensaísta, tradutor, crítico literário, memorialista, missivista, roteirista, organizador de antologias, organizador de obras, editor de revistas literárias, membro da ABL. Foi contemplado com vários prêmios nacionais e internacionais. Tem livros traduzidos para o árabe, romeno, persa, russo, turco, polonês, híndi, sueco, húngaro, urdu, bangla e, claro, inglês, francês, alemão, espanhol e italiano. Publicou, os seguintes livros de poesia: Bizâncio (1997), De passione (2000), Alma Vênus (2000), Poemas reunidos (2001), Sphera (2003), Meridiano celeste & bestiário (2006), Clio (2014). Hinos matemáticos (Rio de Janeiro: Dragão, 2015) é sua mais recente publicação.

A poesia de Marco Lucchesi é de um lirismo arrebatador. Poucos conseguem, como ele, aliar erudição e leveza, ciência e sentimento, matemática e amor. Assim é, e não poderia ser diferente, em se tratando do poeta que é, Hinos Matemáticos, um livro que desafia o leitor com fórmulas matemáticas poucamente esclarecedoras. Mas com formas poéticas abundantemente tocantes.

Uma poesia que nos rememora a velha lição valéryana: poesia e matemática são duas abas do mesmo chapéu. Mas Lucchesi vai além da simples equação aritmética. Interessa-lhe a musicalidade contida na matemática. Aquela mesma música a que toda poesia aspira ser. O “espólio inabordável entre 0 e 1”, como enuncia o poema “Busca do ouro”.

As imagens sucedem-se numa espiral que toca os mesmos pontos. E neste apoio conhecido, impulsionam-se pra novos volteios.
E as formas que não cessam
de crescer

Delírios fugazes
Líquidos lampejos

dizem os versos finais de “Solilóquio fractal”. O espaço em aberto. Expandindo-se. E isomórfico a ele, a poesia. Formas, delírios, lampejos: o leitor percorre galáxias em movimentos e banha-se num erotismo riscado a arpejos de luz e gozo.

O poema que abre o livro incandesce caminhos do devir. Cito “Canteiros”, na íntegra:
Um fósforo desata momentâneo
os fios de uma noite sem estrelas

No céu azul de Samos
voam ímpares.
E os pares sobrenadam
nas águas do Ilissos

O jardim
o conjunto de canteiros
E a floresta sombria e ilimitada

Como domar a astúcia do infinito?

O fósforo não acende, não ilumina: desata os fios de uma noite escura. Os raios do fósforo são os fios que, ao invés de clarear, ampliam a dimensão do escuro. Entre estes versos e os finais há a ilha grega de Samos, seu rio Ilissos, os canteiros do jardim, a floresta “sombria e ilimitada”. A ilha: locus de suspensão da vida. O rio antigo, hoje canalizado e subterrâneo: a dimensão espacial do lado de lá. Para além dos olhos. No entanto, tão próxima aos pés.

Depois do poeta construir a imagem sideral na progressão de “jardim”, “conjunto de canteiros” e, por fim, “a floresta”. Como se não bastasse a vastidão em si, é uma floresta “sombria e ilimitada”. Quer seja: o desconhecido dentro do desconhecido dentro do desconhecido.

Por fim, o verso que encerra o poema projeta este espaço como indomável em seus ardis, argúcia e sagacidade.

Estamos diante de um poeta que soma a matemática à vastidão do espaço – e configura-a na mais delicada poesia. Em filigranas do sublime.

Esse é o movimento presente em todos os poemas. Próximos e distantes. Perto e desconhecidos. A matemática e a palavra. Duas fontes de força bruta. O homem busca entendê-las para cantá-las. O poeta mergulha na estética da matemática para, nela, situar e localizar sua poesia. Daí o título do livro: Hinos matemáticos.

O poema “Primeira prova” orquestra a busca desta música precisa:

Orquídeas
          resplandecem
             no quintal
A geometria
de fogo
          de suas pétalas
e a forma
   do silêncio
          em que se apoiam
Trago
         o coração perdido
e os olhos tersos
         da breve epifania
Toda flor
         desponta
         no seio do silêncio
e ao seio
         do silêncio
         acorre e se dissolve
Lembro
                 de Hardy
indo ao
                                   fundo
silêncio
         dos gregos
Teoremas
         cheios
   do frescor da beleza
        de quando foram descobertos

Dois mil anos
        e sequer
uma ruga
        em seu puro semblante
(Euclides
    e a infinidade
    dos números primos
Pitágoras
   e a raiz quadrada
irracional de dois)
Os desenhos
                do matemático
      e do poeta devem
                                    ser belos
                              Flores
                              teoremas
desmaiam
                                    em súbitos
jardins
sob                              crepúsculos
fugazes
A beleza é a primeira prova
                 da matemática


Como consta das Notas que acompanham o volume, os versos em itálico são extraídos de Em defesa de um matemático, de G. Hardy. No Posfácio intitulado “A espiral e o sonho dos meninos”, o poeta explica que “a ideia de beleza na matemática, que se encontra em diversos autores, como Hardy ou Poincaré, causou em mim grande impacto. Como se me deparasse com uma verdade perdida, um substrato arqueológico que me parecia estranhamente familiar e decisivo”.

Um vetor de leitura possível para este livro é seguir as orientações do poeta nas imprescindíveis Notas e no esclarecedor Posfácio. Todavia, isto não impede que uma outra leitura se faça na contramão destas orientações. É aquela leitura em que o eu lírico desenreda-se do estrato matemático dos poemas e mergulha nas epifanias das imagens em alumbramentos de sons e sentidos. Outros sons. Outras imagens. Outros sentidos. Para além da matemática. Para dentro da poesia em si.

Esta navegação, que se norteia pelo hino, pelo canto, pela enunciação dos significados por vir, é a do encantamento que a música produz nos ouvidos e nas sensibilidades. A entrega da beleza em estado de graça. Sem preço algum. Sem merecimento algum. Entrega da poesia em revelações inusuais. Revelações de pura entrega e vasto gozo.

Então, mergulhado nestas galáxias de imagens (sonoras, visuais e semânticas), o leitor chega ao cerne da matemática sem a necessidade dos teoremas e das teorias. É quando o poema “Lendo Hadamard” ganha as ganas do leitor tomado pela beleza lírica dos poemas de Marco Lucchesi. Cito-o na íntegra:
Perdem-se os primos {venerandos números}
quando num bosque em plena madrugada
sob a lira cintilante de Orfeu
põem-se a bailar mais bravos e dispersos

O imaginário
{nuvem bosque pensamento}
é o atalho cristalino da matemática

A poesia vence. Entendemos o poeta quando diz: “o vínculo entre a beleza e a matemática há de trazer novos ventos para as matemáticas no Brasil, rompendo uma cláusula de barreira cultural. O direito dos meninos e das meninas de sonharem nos campos do pensamento matemático”.

Somos todos meninos e meninas. O sonho da poesia é nosso mundo. Obrigados ao poeta pela sua imensa poesia. Galáxia entre galáxias que nos leva a imensuráveis espaços – de caos, de exatidão, do fractal, do geométrico infinito. Espaço sideral de enternecedor lirismo. 
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Amador Ribeiro Neto é poeta, crítico literário e de música popular. Doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Professor do curso de Letras da UFPB.

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