ilustração de Reginaldo Farias
Um pouco sobre os Irmãos Aniceto e a ancestralidade cariri/kariri (por Pablo Assumpção):
“[...] Hoje, reconhecidos como patrimônio cultural do Ceará, os Aniceto e as outras bandas do Cariri nem sempre foram bem vistos. Revendo a história, descobre-se que a trajetória das bandas cabaçais no Crato é historicamente marcada por altos e baixos. No começo desse século [à época, século XX], só nessa cidade foram juntas mais de trinta para receber o bispo do Ceará, D. Manuel. Era o período áureo da cabaçal. Com o passar dos anos, elas foram reduzindo-se e refugiando-se unicamente nos sítios. Uma verdadeira luta se travou contra as zabumbas, consideradas como verdadeiras inimigas do progresso.
Assim, em nome da civilização que penetrava no vale, contra as velharias que prendiam a cidade ao passado, a música de couro precisava desaparecer. O forasteiro litorâneo não podia surpreender-se a tocar em instrumentos tão bisonhos e primitivos, em pleno centro citadino. do Crato, a cidade que a essa altura já tinha eletricidade, jornais, cinemas e colégios. Foi então que o prefeito – na época, José Alves de Figueiredo – proibiu a execução das bandas cabaçais em dias comuns, nas feiras, e a desfilar pelas ruas. Essa foi a época de decadência da zabumba, quando a tradição apresentava-se como a grande inimiga do progresso.
Não se sabe as consequências dessa proibição para a tradição das cabaçais, embora seja provável que isso pôde muito bem ter significado a extinção de um bom número delas. Mas o fato é que não significou o desaparecimento desta arte, tendo ela perdurado até os dias de hoje, quando, às vésperas do século XXI, ainda se tem oportunidade de assistir a representações da mais pura dissipação estética e popular. Esse é bem o caso da música de couro e performance da Cabaçal dos Irmãos Aniceto, grupo musical que melhor representa a permanência de elementos ancestrais cariris na cultura cearense.
[...] É perguntar a qualquer Aniceto vivo, hoje, e ouvir a mesma resposta: ‘essa bandinha vem de longe, ela já vem dos índios cariris; que os índios daqui do Crato eram assim muito alegres’. Há uma célebre frase entre eles, dita por Mestre Chico, Aniceto já falecido, que diz ser a banda cabaçal uma manifestação mais velha do que a própria invenção do Brasil: ‘A banda cabaçal vem desde a criação do mundo. Você já viu o retrato do Descobrimento do Brasil? Pois bem, pode reparar direito que lá tem uma banda de música dos índios tocando’.
E há sempre alguma verdade escondida por trás dos ditos e do imaginário popular. A cabaçal, tal como a aplaudimos hoje nos centros culturais, não existia antes do colonizador, mas é mesmo entre os índios que encontramos as matrizes culturais que justificam essa manifestação cênica e musical e o capital simbólico arrastado com ela. Foram os tapuias de língua travada os primeiros a rasgar no céu do Cariri cearense o canto místico da acauã, ave devoradora de cobras peçonhentas, entidade cujo canto trazia a lembrança de que os malignos seriam destruídos. Hoje, é Antônio da Silva, pifeiro e agricultor, quem grita no palco.
A região do Cariri inteira era povoada, antes da chegada de portugueses, africanos etc., por inúmeras tribos que, com outras tantas espalhadas pelo sertão nordestino, formavam a grande nação cariri. Etnia de idioma próprio, os cariris foram, constantemente, incluídos sem denominação especial no confuso grupo tapuia, compreendido pelo colonizador como o grupo indígena de língua travada, inimigos do tupi, que habitavam o litoral e falavam a língua real. [...]”
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No livro Irmãos Aniceto, de Pablo Assumpção. Edições Demócrito Rocha (Coleção Terra Bárbara), 2000.
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sexta-feira, 29 de janeiro de 2021
Os Irmãos Aniceto e a ancestralidade Cariri em trecho de livro de Pablo Assumpção
quarta-feira, 13 de maio de 2020
‘Songs in the Key of Life’, álbum de Stevie Wonder (1976)

Songs in the Key of Life | Stevie Wonder (1976)
“Em 15 de agosto de 1975, Stevie Wonder assinou um contrato de U$$ 13 milhões com a Motown, que garantia a ele total liberdade artística. Wonder tinha estocado centenas de música e, nos meses seguintes, gravou outras 200, forçando a gravadora a organizar o primeiro de dois álbuns duplos que o transformaram de dissidente precoce a megaestrela internacional (foi um dos primeiros álbuns a entrar nas paradas americanas já no topo).
Há momentos em que o disco se aproxima do jazz: ‘Sir Duke’ é uma homenagem no estilo big-band a Duke Ellington; ‘Contusion’ traz um jazz-rock instrumental à la Mahavishnu Orchestra. Com elementos de samba, ‘As’ conta com Herbie Hancock; ‘Another Star’, com gosto de salsa, tem o flautista Bobbi Humphrey e o guitarrista George Benson; e a celestial ‘If It's Magic’ apresenta um dueto com a harpista Dorothy Ashby.
O álbum sofreu vários atrasos por conta das novas canções. ‘Houve vezes em que Stevie ficou no estúdio direto, durante 48 horas’, contou o baixista Nathan Watts. ‘Ninguém conseguia fazer o homem parar, nem para comer!’ De fato, as quatro faixas finais do CD eram, originalmente, um disco bônus de sete polegadas e 33 rpm.
Songs In The Key of Life foi muito elogiado, embora Robert Christgau, do Village Voice, tenha achado o disco repleto de bobagem New Age (‘Saturn’), sermões didáticos (‘Black Man’) e sentimentalismo barato (‘Ins't She Lovely’). Apesar disso, o disco deu o tom político da militância de Stevie Wonder no movimento negro – há agradecimentos a Jesse Jackson e Louis Farrakhan, ao lado de Frank Zappa e Andy Williams.”
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John Lewis, no livro 1001 discos para ouvir antes de morrer (Editora Sextante, 2007).
Selo | Tamla Motown
Produção | Stevie Wonder
Projeto gráfico | Motown Graphics Department
Nacionalidade | EUA
Duração | 86:53
Lista de músicas
Disco 1:
1. Love's in Need of Love Today (Stevie Wonder)
2. Have a Talk with God (Calvin Hardaway / Stevie Wonder)
3. Village Ghetto Land (Gary Byrd / Stevie Wonder)
4. Contusion (Stevie Wonder)
5. Sir Duke (Stevie Wonder)
6. I Wish (Stevie Wonder)
7. Knocks Me off My Feet (Stevie Wonder)
8. Partime Paradise (Stevie Wonder)
9. Summer Soft (Stevie Wonder)
10. Ordinary Pain (Stevie Wonder)
Disco 2:
1. Isn't She Lovely (Stevie Wonder)
2. Joy Inside My Tears (Stevie Wonder)
3. Black Man (Gary Byrd / Stevie Wonder)
4. Ngiculela - Es Una Historia - I Am Singing (Stevie Wonder)
5. If It's Magic (Stevie Wonder)
6. As (Stevie Wonder)
7. Another Star (Stevie Wonder)
8. Saturn (Michael Sembello / Stevie Wonder)
9. Ebony Eyes (Stevie Wonder)
10. All Day Sucker (Stevie Wonder)
11. Easy Goin' Evening (My Mamma's Call) (Stevie Wonder)
‘Sir Duke’:
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terça-feira, 31 de março de 2020
Dona Ciça do Barro Cru em texto do livro ‘Cultura Insubmissa’, de Rosemberg Cariry e Oswald Barroso

Apresentamos texto publicado no livro Cultura Insubmissa (estudos e reportagens), de Rosemberg Cariry e Oswald Barroso (Fortaleza, Secretaria de Cultura e Desporto, 1982), sobre a artista Dona Ciça do Barro Cru, um dos grandes nomes da história do artesanato de Juazeiro do Norte, no Cariri cearense. Obs.: optamos por reproduzir o texto ipsis litteris, repetindo a maneira como foi transcrita a fala da personagem em questão.
Dona Ciça - Mãe de Barro
A cerâmica lúdico-figurativa é uma das mais significativas expressões da arte popular do Nordeste. Se os brinquedos de barro eram comuns às tradições culturais dos povos europeus e nos foram legados pelos ibéricos, receberiam também a contribuição indígena que enriqueceria em muito a cerâmica nordestina em seus multiaspectos. No Ceará, principalmente no Cariri, a contribuição índia foi marcante, mas em outras regiões do Nordeste os povos negros transplantados deram também o seu importante legado cultural no desenvolvimento da cerâmica popular. Ofício de mulheres, as cunhãs, sensíveis e habilidosas no trato com o barro, modelavam, juntamente com os potes, panelas, etc., pequenas figuras antropomorfas e zoomorfas para as crianças brincarem. Os nossos artistas populares, na grande maioria caboclos, partindo de modelos herdados das tradições ibéricas e indígenas, desenvolveriam uma cerâmica tão rica e esteticamente cheia de significados culturais que se poderia compará-la à cerâmica asteca e andina, no seu estágio mais avançado.
No livro As Artes Plásticas no Brasil, Cecília Meireles fala sobre a cerâmica utilitária da Bahia: “Diante de certas peças cerâmicas (...), tão elegantes de perfil e tão ricas de decoração, pensa-se nos suntuosos modelos mexicanos e peruanos e tem-se a impressão de que a alta cerâmica do pacífico estendeu até o atlântico os derradeiros filamentos das suas raízes”. No Ceará, na cidade de Cascavel, nas regiões da serra da Ibiapaba e do Cariri, encontramos núcleos de intensa produção de cerâmica utilitária e lúdica. Destes núcleos, o mais importante é o do Cariri, onde os artistas populares passaram, assim como os artistas de Caruaru - Pernambuco, de figuras isoladas para complexos conjuntos de peças representando cenas cotidianas e manifestações folclóricas regionais. Em Juazeiro do Norte existe uma cerâmica de rara beleza, com formas bem delineadas, muito equilíbrio e intenso colorido. Nomes como Cícera Fonseca, Luíza dos Cachimbos, Carminha e Dona Ciça do Barro Cru são as expressões maiores de cerâmica lúdico-figurativa do Cariri. De Dona Ciça nos ocuparemos neste pequeno estudo, por sua importância artística de características diferenciadas.
A arte de Dona Ciça reflete a realidade e a cosmovisão populares. As cenas encontradas no cotidiano do povo simples são por ela plastificadas em formas bem elaboradas e detalhadas, com um colorido supra-real. Sua produção inclui peças individuais: aves, animais domésticos e fantásticos, pessoas em seus afazeres, santos e demônios etc. Sua cerâmica, no entanto, encontra maior expressividade nas obras de conjunto, onde reelabora, segundo a sua visão e sensibilidade estética, cenas coletivas de imensa complexidade. Exemplos disto são os conjuntos de peças que compõem os os “reisados”, “farinhadas”, “bandas de pife”, “enterros de anjos”, “procissões” etc. Na reelaboração do real, Dona Ciça não usa apenas o barro e as tintas como matérias-primas. Utiliza-se também de palitos, arames, sementes, algodão, fitas, retalhos de fazenda e penas (o uso de penas ficou-lhe como legado índio, onde deita suas origens).
Para melhor compreender esta grande artista, necessário se faz que mergulhemos na sua história. Fala Ciça: “Nasci no Sítio São José, Juazeiro, em março de 1915 (ano de tirana seca). Meu pai era de Garanhuns e se chamava Pedro Araújo, minha mãe era de Quipapá e se chamava Quitéria Maria da Conceição. Fui pra Santana do Cariri novinha, quando vim de lá pro Juazeiro tava com sete anos. Em 32 foi seca, muito aflagelado aí no Buriti, eu tirei a temporada pedindo esmola no Crato, mode sustentar pai e mãe. Ninguém tinha nada pra comer em casa, eu ia com uma irmãzinha, montada num jumento, com um jogo de caçuá. Neste tempo morreu umas irmãs novas que eu tinha. A gente cumia muita comida braba, coisa venenosa, só pudia ser. Depois eu fui vivê de vendê capim. Comecei a trabaiá no barro com 25 anos de idade já tava casada pela primeira vez com Luís Ferreira, que morreu de congestão. Quando eu casei já tinha Ciço, esse que é casado. Ciço foi um erro que eu dei, eu sô uma pessoa que só fala a verdade, nem que morra. Ficando viúva eu me casei com Manuel Costinho de Sena que morreu de saluço, sofrendo dezoito dia de saluço, dez anos depois de nóis casado. O outro, Cornelho, não morreu comigo, morreu lá com a famia dele. O danado vivia dizendo que tinha um probrema, sei que esse probrema num tava certo pra gente casado, mandei ele lá pra famia dele, tava separada dele nesse tempo. Adepois me casei com Manuel num sei o que de Mato, esse também mandei embora, morreu cum a famia dele, pra lá. Agora casei cum Jenuaro”. Assim é Ciça, com toda a sua riqueza existencial e expansiva sinceridade.
Vivendo pobremente, numa casinha de taipa no subúrbio de Juazeiro, Ciça subvive da sua arte e dos restos de legumes que cata nos dias de feira. Ela afirma: “o dinheiro que apuro não dá nem pra cumê, eu vou pra feira do Crato e de Barbaia e fico varrendo na feira do feijão, chego em casa e vô separá os caroço de feijão. Eu só varro na feira do Crato e de Barbaia, no Juazeiro eu nunca faço lá, eu nunca me acustumei. Sou conhecida lá, moro lá desde os sete anos, aí tenho vergonha de pedir esmola e varrê na feira de Juazeiro. Só como disso, eu também peço nas budegas e nos cafés, peço a um e a outro. Tiro um conto, dois conto, assim vou vivendo. Só o trabaio no barro num dá e roubá eu num vou. As muié nova pede, quanto mais eu qui já tô véia e duente. Agora eu quero falar pra eu miorá mais a vida. O trabaio do barro quando vou pegá, fico com as mão drumente, aquele drumiço nas mãos. Fico bastante duente, só quiria que arrumassem um negoço pra mim. Minha casa é muito pobrezinha, quero ajeitar e num posso, é muito apertadinha, só tem um vão, ainda essa sumana levei uma queda dentro de casa, num reguinho que tem dentro de casa, o esgoto passa por dentro de casa e eu num posso fazer, num tem tijolo, num tem nada. Jenuaro trabaia butando umas rocinhas de meio, mas num dá pra nada, não. Minha vida é muito precária. A gente leva os buneco pra feira e o povo num compra, só quer baratinho e num posso vender. Outra é que tem muita gente ignorante, a gente pede um preço ele ignora, querem de graça e eu num posso dar, material caro, dá muito trabaio, eu já trabaio a força, vivo sem paciência pra arte, tô véia”.
O fenômeno da diminuição da venda de cerâmica lúdico-figurativa explica-se pela queda do poder aquisitivo do povo. A ceramista abandona a feira e passa a viver das raras encomendas dos turistas ou explorada por atravessadores. Esta prática passa também a intervir na originalidade das peças produzidas pelo artista popular, que deixa de acionar os mecanismos internos, dinâmicos, coletivos, vivos e integrados ao seu espaço (região) e às suas necessidades sociopolítico-econômicas, passando a produzir uma arte que é apenas um reflexo da cultura capitalista dominante. A partir desse processo de dominação deixa de ser feita para o povo, desintegram-se as suas funções sociais e ela passa a ser consumida pela classe dominante, ficando, consequentemente, de difícil alcance para a bolsa popular. A cerâmica lúdico-figurativa, que deixa de ser vendida nas feiras a preços populares, depois de passar por um processo de descaracterização, torna-se objeto caro nas butiques grã-finas e adornos nas casas luxuosas. A classe produtora desta arte tem que se conformar com os bonecos de plástico, bibelôs de louças ou estatuazinhas de gesso reproduzindo em série cenas do cotidiano burguês. O povo, mesmo produzindo, fica sem acesso à sua própria arte. Dona Ciça, mantendo-se fiel a sua arte popular, resiste como pode.O trabalho com cerâmica envolve uma série de dificuldades. Ciça explica: “O barro eu vou buscar nas Cobras, num boto de carrada não, eu vou buscar na cabeça. É muito longe de minha casa, perto da Serra do Horto, quase meia légua. Tenho que comprar tinta, tinta de casa, tinta d'água, misturada com cola de madeira. Os pinceus eu faço de palito e algodão, só uso as mão e os palito. Teve um tempo que eu viajava, com o meu primeiro marido, fazendo boneco de barro, pra trocar por comida cum os minino e pra vender na feira. Viajava pra Cedro, pra Iguatu, andei até pela Paraíba... tempo bom. Eu faço de tudo na minha arte, faço reisado, cobra, muié fazendo renda, muié catando piolho, muié dando de mamar, banda de pife, padre confessando, João Tingó, Maria Fumaça, casamento, batizado, violeiro, operação, anjo, diabo, cangaceiro, santo, gato, capote, tenho tudo na minha cabeça, é tudo na minha maginação”. Interrogada por que não cozinhava seus bonecos, fala com simplicidade: “Num dá pra cunzinhar, minha arte é deferente, leva pena, leva cordão, leva simente, leva muita coisa. Se eu for cunzinhar queima tudo. E eu também num sei cunzinhar não, aquilo precisa outra preparação. Eu só sei fazê, butá no sol, pintá e pronto. Cada pessoa tem sua arte”.
Por não cozinhar em forno suas peças (daí o nome Dona Ciça do Barro Cru), elas são fragilíssimas, quebram-se ao menor impacto ou com o tempo se desfazem, voltando novamente à massa amorfa do barro bruto. Pessoas interessadas na comercialização da sua arte, ou mesmo pensando em conservá-las, tentaram convencer Ciça de queimar as suas peças. Já houve mesmo quem quisesse doar-lhe um forno. Ciça resiste, continua não cozinhando seus bonecos, deixa-os belos e frágeis, enfeitados com fitas, cordões e penas, destinados à breve existência, ao desaparecimento.
Assim como a sua arte, é a sua criadora, bela e frágil, na sua fascinante criatividade, que também desaparecerá, miseravelmente, catando legumes e pedindo esmolas nas feiras. Tanto é o amor que suas mãos maravilhosas transmitem aos seus “bichinhos de barro” que, ante a impossibilidade do sopro da vida, Ciça lhe cria, com toda liberdade de expressão existencial/estética, uma vida onírica, poética, fantasiosa, deitando raízes no seu cotidiano e no mundo que a cerca. Batiza suas criações com nomes engraçados, conversa com elas, canta canções de ninar... Cada boneco ou bichinho de barro criado por Ciça tem um passado, um presente e um futuro. Quebra-se a barreira da lógica formal, brilha o relacionamento mágico do homem com a natureza. Os bonequinhos parecem adquirir vibrações próprias, vibrações quase palpáveis para as pessoas sensíveis, vibrações que irradiam a beleza de Ciça – mãe de Barro, criança travessa com suas dezenas de anos escanchadas na cacunda. As suas “festas de casamento” ou, como ela gosta de dizer, “inauguração da minha arte” é um momento de rara beleza, onde o sonho e o real se irmanam. “Eu faço os bonecos, são quatro noivado, dois em pé pra se casá, dois sentado pra sair da mesa. Primeiro fica uma pessoa falando pelos boneco do mesmo jeito de uma pessoa que fala quando vai se casá, a pessoa diz as coisas com os noivados. Aparece um vinhozim e compro uma galinha. Depois do casamento sento os boneco na mesa e boto cumida pra eles, também pro padre, pro sacristão. Boto cumida e vinho pras visitas”.
Durante todo o ano Ciça se prepara, faz economias, mesmo tendo que passar fome mais do que já passa, para comprar uma galinha e um litro de vinho de jurubeba. No dia da festa, Ciça prepara a galinha, põe o vinho de jurubeba na mesinha de toalha branca feita de saco de açúcar e acende as velas. Um ritual sagrado/profano. Para a arte de Ciça e seu relacionamento com esta arte, vale a análise de Paul Ahyi, sobre a arte produzida pelos povos de tecnologias simples: “(...) dissocia e associa os elementos naturais segundo as suas próprias leis, é porque tenta eternizar e realçar, no ser vivo, o permanente e não o acidental, a essência e não a aparência, o constante e não o efêmero. Seu objetivo, de certo modo, é mostrar a realidade do ser vivo e não a sua imagem externa”.
A memória cultural nordestina guardará o nome desta artista do povo? Possivelmente sim, a sua arte não será de todo esquecida. Ficará a sua voz suave conversando com os seus “bonequinhos de barro”, ficarão os gestos das suas mãos calosas no duro ofício do barro, ficarão seus depoimentos de dor e esperança, ficará o seu sorriso forte, gravados na película do filme Dona Ciça do Barro Cru, realizado pelo cineasta cearense Jefferson de Albuquerque Jr., que denuncia a pobreza de Dona Ciça e resgata para o futuro a grandeza e a criatividade desta artista popular que faz da sua arte e da sua vida a expressão dos sonhos e das dores deste povo nordestinado.
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Texto originalmente publicado no Jornal O POVO - Fortaleza-CE – 16 de maio de 1982.
Fotos: Ricardo Tilkian.
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sábado, 6 de janeiro de 2018
As antigas Festas de Reis em Juazeiro do Norte, por Senhorzinho Ribeiro

Abaixo compartilhamos um texto do livro Juazeiro em corpo e alma, de Senhorzinho Ribeiro, publicado em 1992. O capítulo, intitulado “Festa de Reis em Juazeiro”, apresenta lembranças do autor relacionadas às antigas comemorações da Festa de Reis em Juazeiro do Norte, ainda no tempo do Padre Cícero Romão Batista.
Festa de Reis em Juazeiro
“A maior festa de Juazeiro, antigamente, acontecia no Dia de Reis. Na véspera, no local da hoje Praça Padre Cícero, colocavam bancas de jogo de toda espécie. Nessa época, era permitido se jogar durante as festas de fim de ano, como Dia de Reis, Natal, no Ano Novo, etc. Passada aquela fase de festa, não se jogava mais. Era proibido.
Durante a Festa de Reis, principalmente, comia-se muito arroz doce, canjica, bolo de milho, pé-de-moleque, bolo de batata, doce seco, etc. Eram comidas típicas. O povo amanhecia o dia nas ruas. O local das festas, que era um quadro muito grande, por isso chamavam de Quadro Grande, permanecia enfeitado de palha de palmeira, de pés de bananeira, formando uma espécie de ‘quinta’, rodeando o quadro.
No centro do quadro se fazia um trono, e nele se colocava uma menina loura de mais ou menos cinco anos de idade, ou seis mesmo, em traje de rainha, a fim de ser disputada pelos reis dos negros e dos caboclos. Eram dois reisados, os chamados ‘quilambos’, a dança antiga dos negros.
O juazeirense Cícero Boneca era o rei dos negros e Olímpio, seu irmão, era o rei dos caboclos. De espadas em punho, ambos disputavam a posse da rainha. Era uma contenda bonita. Geralmente durava o dia todo e entrava pela boquinha da noite. Quando acontecia da luta terminar cedo, eles tentavam vender a rainha às pessoas ricas e de destaque. Quem primeiro comprava a rainha era o Cel. Antônio Fernandes, um usineiro de Alagoas.
Antes de fixar residência aqui em Juazeiro, o Cel. Antônio Fernandes não era amigo do Padre Cícero. Não acreditava no Padre Cícero. Diziam que ele era contra o Padre Cícero. Mas depois que fixou residência definitiva no sobrado que foi de propriedade do Sr. José André, passou a ser um dos maiores devotos do Padre Cícero. Quando para aqui veio, já era casado. Com o falecimento da primeira mulher, casou-se pela segunda vez com uma moça de nome Sinhá. Do primeiro casamento teve mais de um filho, e do segundo somente um , de nome Antônio. O Cel. Antônio Fernandes construiu o próprio túmulo, em vida. Acha-se sepultado nos fundos da Igreja de Nossa Senhora do Socorro.
Depois da venda da rainha os reis saíam dançando pelas ruas, passavam pelas casas do povo que apreciava aquela brincadeira, e nisso, a brincadeira se estendia até a noite.
As lapinhas também eram muito animadas, principalmente as organizadas pelas Beatas Bichinha e Angélica, e também por Antônia Morena. As queimações destas lapinhas era uma verdadeira festa. Eram queimadas uma por uma até terminar.
Nesse tempo não tínhamos energia elétrica, mas os festejos eram comemorados à noite, à luz dos lampiões.
Como também não existiam ainda refrigerantes, as famílias se contentavam com o aluá de abacaxi fabricado por Pedro Coutinho e com o caldo de cana de seu Chaves, temperado com bicarbonato.
Uma família que morava na Rua Padre Cícero, juntava-se a um barbeiro de nome Manoel Passos, que morava na antiga Rua São João, hoje Alencar Peixoto, e durante as Festas de Reis, preparavam uma passeata composta de cidadãos vestidos de branco e formavam um ‘pé de dinheiro’, uma espécie de árvore de Natal, sem folha. No local das folhas eram colocadas notas bem novinhas de 10 mil-réis. Convidavam a Banda de Música e desciam em desfile, até a casa do Padre Cícero para fazer-lhe presente do ‘pé de dinheiro’, Quando lá chegavam, o Padre abençoava a todos e desejava-lhes um Ano-Novo de paz e de saúde.
Assim eram as Festas de Reis, Natal, etc., em Juazeiro do Norte. Eram bem diferentes de hoje. Quando das Festas de Reis de antigamente, não se trabalhava. Era dia santo. A roupa branca simbolizava a referida festa. Até pouco tempo atrás, existia uma festa de clube, que depois se tornou tradicional. Era a ‘Festa Branca’ do Treze, salvo engano, criação e organização do saudoso Mascote. Essa festa realizava-se aos dias seis de janeiro de cada ano, e só era permitido entrar no clube quem tivesse trajado de branco, tanto homem como mulher. Hoje só restam recordações de um passado que não volta mais.”
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Senhorzinho Ribeiro, no livro Juazeiro em Corpo e Alma (Gráfica Royal, 1992).
Outro texto do livro Juazeiro em Corpo e Alma, de Senhorzinho Ribeiro, no blog O Berro:
- Os primeiros cinemas de Juazeiro do Norte, por Senhorzinho Ribeiro
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domingo, 8 de janeiro de 2017
Sobre a música ‘Heroes’, composição de David Bowie e Brian Eno

“Aos 29 anos, David Bowie não foi certamente o primeiro — nem seria o último — astro pop a fugir de Los Angeles, exausto pelos excessos. ‘A vida em Los Angeles me deixou com uma sensação horrível de mau presságio’, disse ele recentemente. ‘Eu tinha, várias vezes, chegado à beira daquela tragédia causada pelas drogas, e era essencial fazer algo de positivo.’
Após lançar seu álbum Young Americans (que o próprio Bowie descreveu como soul de plástico, ele encontrou refúgio em Berlim. Bowie sentia uma afinidade com aquela cidade expressionista (com Max Reinhardt e Bertolt Brecht); além do mais, a vida era barata (ele estava duro); o anonimato garantido.
Naquela cidade tão dividida, Bowie criaria sua trilogia de Berlim (Low, Heroes e Lodger) e sua canção mais regravada, ‘Heroes’. Enquanto Low foi gravado no supostamente assombrado Château d’Hérouville, Heroes foi feito com Tony Visconti e Brian Eno, no Hansa Studio 2, que ficava ao lado do bem guardado muro de Berlim. Apesar de toda a desolação em torno, as gravações se deram num clima feliz, Bowie e Eno tendo ‘acessos frequentes de riso, como garotos de escola’, e fazendo imitações de ídolos cômicos, como Peter Cooke e Dudley Moore.
‘Heroes’ começa como se já estivesse na metade: com o piano a toda, os saxes nas alturas e a guitarra de Robert Fripp injetando gás. A canção quase explode quando David Bowie descreve dois amantes se encontrando junto ao Muro (‘As metralhadores disparavam sobre nossas cabeças / E nos beijávamos / Como se nada pudesse ruir’). Embora fosse segredo na época, os amantes eram na verdade Visconti (que ainda era casado) e a nova namorada. Bowie se recorda: ‘era emocionante, porque eu via que ele estava muito apaixonado por aquela garota’. Até hoje, ‘Heroes’ permanece a expressão musical perfeita da rebeldia romântica.”
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Sophie Harris, no livro 1001 músicas para ouvir antes de morrer (Editora Sextante, 2012).
Compositores | David Bowie, Brian Eno
Produtores | Tony Visconti, David Bowie
Selo | RCA
Álbum | Heroes (1977)
“São aqueles dois acordes especiais. Uma coisa tipo 'Waiting for the Man'” (John Cale, 2008)
‘Heroes’ completa 40 anos de lançamento no dia 23 de setembro de 2017 (música lançada no dia 23 de setembro de 1977).
“Heroes”:
terça-feira, 17 de maio de 2016
Os primeiros cinemas de Juazeiro do Norte, por Senhorzinho Ribeiro

Abaixo compartilhamos um texto do livro Juazeiro em corpo e alma, de Senhorzinho Ribeiro, publicado em 1992. O capítulo, intitulado “A Sétima Arte”, elenca algumas lembranças do autor relacionadas aos primeiros cinemas de Juazeiro do Norte, na primeira metade do século XX.
Grifo nosso #101
A Sétima Arte
“Apesar da chegada da Televisão, o Cinema, tido como a ‘Sétima Arte’, foi uma das maiores diversões que já tivemos, e uma das melhores que conhecemos.
No ano de 1916, chegavam à nossa cidade uns cidadãos para explorar o ramo cinematográfico. O cinema deles, que eu não me recordo mais o nome, funcionou, primeiramente, na antiga Rua Nova (hoje Av. Dr. Floro), e depois na Rua São Pedro.
Em seguida, o cidadão Pelúsio Correia de Macêdo instala o ‘Cine Iracema’, de sua propriedade, sendo ele próprio o operador. A bilheteira era uma moça de nome Martinha e o porteiro era um velho de nome Faustino.
Depois da fase de decadência, o Cine Iracema foi arrendado, primeiramente a um senhor de nome João Gomes e depois ao Sr. Manoel Lucas. Até o ano de 1934, as fitas eram preto e branco, e eram chamadas de ‘cinemas mudos’. Depois é que se denominou de ‘cinema falado’.
Quando da inauguração do ‘Iracema’, o filme apresentado foi Adoração, por John Bull [provavelmente se referindo a John Boles], uma opereta musical, na época, um sucesso em todo o país.
O Cine Iracema foi palco de grandes espetáculos. Companhias e artistas famosos como D. Cordeiro, considerado um dos maiores mágicos do mundo, Valdomiro Lôbo, consagrado artista do Sul, Conceição Ferreira, as Irmãs Tchecas e a nossa conterrânea Albertina Brasileiro, a ‘Marquise Branca’, e o famoso Aloísio Campelo, o ‘Pinguim’, estrearam no cinema de mestre Pelúsio. Outras Companhias tradicionais se exibiram no Iracema. Foram ao todo 30 espetáculos. Sabe o preço do ingresso, leitor? Apenas quatro mil-réis. Preço razoável para aquela época.
O terceiro cinema de Juazeiro foi o Cine Roulien, de propriedade do Sr. Olímpio de Almeida, o saudoso Pimpim Almeida. Na época, era o cinema mais moderno do interior cearense. Funcionava no local onde atualmente está instalada a Loja Daher. Foi inaugurado no ano de 1935, com a película Nana.
Após 12 anos de funcionamento de Roulien, Pimpim inaugurou outro cinema, o Cine Eldorado. Na reinauguração do Eldorado, foi exibido o filme intitulado Estrela Vermelha. O Eldorado era um cinema de classe. Tinha capacidade para comportar cerca de até 800 espectadores.
Com a morte de Pimpim, os irmãos Otacílio e Zé Almeida assumiram a responsabilidade de dirigir as empresas cinematográficas de Juazeiro do Norte.
Depois destes, surgiram os Cines Avenida, Guri, Capitólio, Plaza, Operário e outros, que infelizmente eu não me recordo.
Aqui termino este resumo histórico dos cinemas antigos da minha terra.”
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Senhorzinho Ribeiro, no livro Juazeiro em Corpo e Alma (Gráfica Royal, 1992).
Outros textos relacionados aos cinemas antigos de Juazeiro no blog O Berro:
- Cinemas de centro de Juazeiro do Norte
- A loja engoliu a rua: o cinema de centro sumiu
- Sai o cinema, entra o estacionamento
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segunda-feira, 16 de maio de 2016
‘Pet Sounds’, álbum dos Beach Boys
Grifo nosso # 101
“Se Rubber Soul definiu um momento capital dos Beatles, sinalizando para a viagem psicodélica na qual iriam embarcar, também serviu para atiçar Brian Wilson, o gênio errático que era o coração dos Beach Boys. ‘Cada faixa é artisticamente interessante e estimulante’, reconheceu, e partiu para criar Pet Sounds, um álbum que igualou — e até mesmo superou — o trabalho dos Fab Four.
Wilson passou dois meses, no início de 1966, escrevendo as músicas com Tom Asher, um executivo da área de publicidade especializado em jingles. O conteúdo do álbum é radicalmente diferente dos anteriores. Nada dos unidimensionais hinos ao sol e surfe; em seu lugar, uma música mais complexa, alegre mas tingida de emoções profundas e turbulentas.
Desde a abertura, com a surpreendente ‘Wouldn’t It Be Nice’ — um desabafo cheio de sentimento, escorado por camadas de metais, percussão e campainhas de bicicleta —, Pet Sounds transcende o pop. O talento de Wilson para compor tanto músicas como letras brilha em todas as canções, de ‘I Just Wasn’t Made For These Times’ até ‘Caroline No’, sua faixa favorita.
Depois de Pet Sounds (a foto da capa, tirada no Jardim Zoológico de San Diego, é um trocadilho com o título — a palavra pet também significa animal de estimação), Wilson começou a pender para a loucura. Confusos com esse novo tipo de música, muitos fãs evitaram o disco (o mesmo fez a Capitol, que não o promoveu). Dali em diante, Wilson se tornou obcecado pela busca do álbum pop perfeito. Enquanto isso, na Inglaterra, os Beatles desafiavam Pet Sounds com Sgt. Pepper’s...”
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Seth Jacobson, no livro 1001 discos para ouvir antes de morrer (Editora Sextante, 2011).
Selo | Capitol
Produção | Brian Wilson
Projeto gráfico | Capitol Photo Studio, George Jerman
Nacionalidade | EUA
Duração | 36:19
“Eu sonhei que tinha uma auréola” (Brian Wilson, 1990)
Lista de músicas - Pet Sounds (1966):
1. Wouldn't It Be Nice (Brian Wilson, Tony Asher)
2. You Still Believe in Me (Brian Wilson, Tony Asher)
3. That's Not Me (Brian Wilson, Tony Asher)
4. Don't Talk (Put Your Head on My Shoulder) (Brian Wilson, Tony Asher)
5. I'm Waiting for the Day (Brian Wilson, Mike Love)
6. Let's Go Away for Awhile (Brian Wilson)
7. Sloop John B (tradicional, com arranjo de Brian Wilson)
8. God Only Knows (Brian Wilson, Tony Asher)
9. I Know There's an Answer (Brian Wilson, Terry Sachen)
10. Here Today (Brian Wilson, Tony Asher)
11. I Just Wasn't Made for These Times (Brian Wilson, Tony Asher)
12. Pet Sounds (Brian Wilson)
13. Caroline, No (Brian Wilson, Tony Asher)
Pet Sounds completa 50 anos de lançamento neste 16 de maio de 2016 (álbum lançado no dia 16 de março de 1966).
“Caroline, No”:
terça-feira, 26 de abril de 2016
‘Imprensa’ - por Millôr Fernandes

Grifo nosso #100
“Imprensa. Destinada a publicar todos os fatos, muitas vezes omite os principais. Toda a verdade é o lema apregoado, uma mentira como tantas que orgulhosamente veicula. Pretende esclarecer — e algumas vezes por pura incompetência — quase sempre complica. Dizendo-se isenta é totalmente partidária, não raro em proveito próprio. Dá aos amigos (quase) tudo, e aos inimigos a injustiça. Na pretensão de nos permitir uma melhor visão dos acontecimentos, todas as manhãs nos apresenta praticamente apenas as angústias do mundo para acrescermos às poucas que são inevitáveis vermos e ouvirmos com nossos próprios olhos e ouvidos. Na simples exposição e arrumação, que vai das grandes manchetes aos anúncios e ao corpo 6 das mortuárias, eis toda uma escolha — e fabricação — de valores que o público leitor não percebe mas da qual participa como inocente útil. Voz de hoje, herdeira e guarda das informações de ontem, prenunciadora e formadora dos acontecimentos de amanhã, antecipa a História, pois é aí que a História vai buscar a maior parte de seus dados — e eis porque a História é cada vez mais confusa, mentirosa e/ou tola. Deveria ser sempre vigilante e destemida, mas adora os poderosos. E, não raro, cala e consente. Influente na paz, pode facilmente destruí-la com um noticiário negativamente interessado, com a cobertura de um crime político maldosamente deturpado, com informações corrompidas e participações equívocas. E, depois, não tem a menor influência para acabar com o malfeito, que se desenvolve fora de seu alcance, como nas guerras, que só terminam quando se esgotam recursos, fés, interesses e ideologismos que a (des)orientam e sobre as quais a imprensa pretende ter uma influência que quase nunca tem. Promove heróis falsos, esquece os verdadeiros, cansa rápido de qualquer causa nobre, é perspicaz por conveniência, caolha por temor, maledicente quando se pretende irônica. Hoje fala todas as línguas — são poucos, porém, os que a entendem. É lucrativa quando deveria ser apenas autossuficiente, apressada e leviana nos momentos em que mais deveria ser medida e ponderada, prepotente no exato momento em que ataca a prepotência — como é prepotente! Enfim, a mais perversa, falha e desonesta forma de comunicação e poder inventada pelo homem — excetuando, naturalmente, todas as outras.”
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Millôr Fernandes em Millôr definitivo: a bíblia do caos (16 ed., Porto Alegre: L&PM, 2014).
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sexta-feira, 25 de março de 2016
‘Aqualung’, disco do Jethro Tull
Grifo nosso # 99
“Dois filmes clássicos de Christopher Guest vêm à mente quando se ouve o Aqualung, do Jethro Tull: This Is Spinal Tap e A Mighty Wind. O primeiro é um falso documentário heavy metal; o segundo retrata um grupo de folk fictício. De Aqualung em diante, o Tull passou a ser enquadrado no gênero do primeiro filme, mas sua inspiração vem do estilo musical do segundo.
A faixa-título abre o álbum com o ecletismo típico da banda. Num primeiro momento, surge o dedilhar de um violão tranquilo e um piano civilizado; no seguinte, é a vez do baixo frenético e de passagem de bateria — tudo isso coroado por um solo firme de guitarra. ‘Cross-Eyed Mary’ segue um padrão mais tradicional. A flauta característica do vocalista Ian Anderson paira sobre a pulsante linha de baixo de Jeffrey Hammond e os floreados arranjos orquestrais de David Palmer. A música, então, se submete ao reinado da guitarra, embora o piano, os sininhos e a volta da flauta de Anderson desafiem o rock potente do núcleo formado por guitarra, baixo e bateria.
As letras de Aqualung se encaixam numa fantástica narrativa que se desenrola ao longo do álbum e se baseia, em parte, nas experiências de um sem-teto. Essa história faz com que a música singular do disco esteja vinculada a uma mensagem de conscientização, própria da época. O conceito é estabelecido pelo texto da contracapa do álbum — uma leitura distorcida do primeiro capítulo do Gênesis. Na versão do Tull da narrativa bíblica, o homem criou Deus, e depois, o Aqualung.
O disco tornou-se um marco instigante do prog-rock-folk. Sua temática não impediu que as faixas cheias de riff fizessem sucesso nas rádios — nem que o álbum vendesse milhões de cópias.”
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Yoshi Kato, no livro 1001 discos para ouvir antes de morrer (Editora Sextante, 2011).
Selo | Island
Produção | Ian Anderson, Terry Ellis
Projeto gráfico | Burton Silverman
Nacionalidade | Inglaterra
Duração | 44:51
“A gente estava meio que na periferia do rock.” (Ian Anderson, 2003)
Lista de músicas - Aqualung (1971):
1. Aqualung (Freddie Mercury)
2. Cross-Eyed Mary (Ian Anderson, Jennie Anderson)
3. Cheap Day Return (Ian Anderson)
4. Mother Goose (Ian Anderson)
5. Wond'ring Aloud (Ian Anderson)
6. Up to Me (Ian Anderson)
7. My God (Ian Anderson)
8. Hymn (Ian Anderson)
9. Slipstream (Ian Anderson)
10. Locomotive Breath (Ian Anderson)
11. Wind-Up (Ian Anderson)
Aqualung completou 45 anos de lançamento em março de 2016 (álbum lançado no dia 19 de março de 1971).
“My God” (Ao vivo no Festival da Ilha de Wight, 1970):
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016
‘O Carnaval no Crato’, por Irineu Pinheiro (séc. XIX e início do séc. XX)

Grifo nosso # 98
Hoje lançamos mão de um texto de Irineu Pinheiro, publicado no livro O Cariri, de 1950. O texto relata algumas características e episódios de carnavais da cidade de Crato, na segunda metade do século XIX e primeira metade do século XX:
O Carnaval no Crato
Extremamente grosseiro, às vezes brutal, mas sempre divertido o carnaval dos nossos avós.
Eram os entrudos, antigamente, o triunfo mais completo da água.
Percorriam as ruas grupos armados de bisnagas de flandre, de cerca de 50 centímetro de comprimento e de 5 de diâmetro, cheias de água, cujos jactos não respeitavam sexos nem posições sociais.
Fabricavam-se de flandre, como se disse, ou então de taboca, os êmbolos de pau enrolados em tiras de pano.
Assaltavam-se casas amigas, que se defendiam do melhor modo possível, com bisnagas também, com baldes e canecos d’água, etc.
Depois dessas refregas, tudo ficava alagado, desde a sala da frente até a cozinha.
Ocasiões houve em que se empregaram outros líquidos.
Li, não me lembro onde, que, uma vez, numa casa assaltada por um grupo de rapazes, saíram do interior, a afrontá-los, as moças da família, que por sinal eram bem bonitas, às mãos urinóis que puseram em rápida fuga os invasores.
Não raro se viam nas ruas tinas com água, em que se mergulhavam implacavelmente todos os que por ali passassem, fossem quem fossem.
Uma feita, no Crato, aí pela era de [18]70, o coronel José Antônio de Figueiredo, que depois fundou a Farmácia Central do Cariri, rebelou-se contra os que queriam metê-lo num grande tonel d’água posto numa das ruas da cidade.
Trancou-se na sua loja, engatilhou um bacamarte, mas os terríveis foliões não desanimaram, tentando arrebentar as portas do prédio, penetrá-lo por meio de escadas através das janelas de um sótão, as quais olhavam para a atravessa da Califórnia, uma das mais movimentadas artérias cratenses.
Fez-se mister a intervenção de pessoas respeitáveis que conseguiram dominar os exaltados.
Com os tempos, foi-se amenizando o carnaval.
Não mais tinas no meio das ruas, nem balde d’água, mas apenas as bisnagas, as laranjinhas de cera colorida de vermelho, de amarelo, de verde, repletas d’água perfumada, que chamavam água de cheiro.
Nos dias de entrudo encontravam-se na cidade, a cada passo, moleques, à cabeça bacias de flandre com água em que boiavam laranjinhas, a apregoá-las e vendê-las a vintém cada qual.
Uma das mais afreguesadas fabricantes era Maria Porforça, muito popular, moradora à rua Grande.
Sei que no Icó, além das laranjinhas de cera, outras se faziam com lâminas muito finas de borracha, vinda do Pará em forma de pães, as quais lâminas eram dobradas à maneira de um saco, cheias d’água por intermédio de seringas.
Amarrava-se, depois, com linha grossa a boca franzida do saquinho improvisado.
Passeavam as ruas do Crato mascarados, vestidos extravagantemente de roupas velhas, alguns encourados à semelhança de vaqueiros, todos a falarem em falsete.
Em menino, aterravam-se esses caretas, como os apelidavam.
Espiava-os de longe, pronto a correr e a esconder-me, ao menor gesto de aproximação dos mesmos.
Eu temia, sobretudo, certos deles que seguravam pelo cabo longos bacalhaus de relho cru, a meneá-los de vez em quando, ameaçadoramente.
Usavam-se máscaras de arame, compradas nas lojas, ou de papel, feitas em casa.
Moldavam-se em barro caras humanas, nas quais, após as cobrirem com um pano molhado, se superpunham camadas de papéis, ligados uns aos outros com grude de goma de mandioca, ajustados de tal sorte que neles se reproduzissem os relevos do modelo.
Pregado o derradeiro papel, que era branco e bem limpo, retirada do molde a máscara, abriam-lhe a pequenos golpes de canivete os olhos e rasgavam-lhe a boca, costuravam-lhe, em seguida, com cabelos de cauda de cavalo, ou de boi, as sobrancelhas, o bigode, a pera, o cavanhaque.
No começo deste século [XX] o carnaval evolveu no Cariri.
No Crato criaram-se clubes, cujos associados dançavam nas casas de família, previamente avisadas dos assaltos que lhes pretendiam dar os clubistas.
Recebiam-nos muito bem, oferecendo-lhes copos de cerveja, cálices de vinho, doces e bolos.
Muita gente se recorda, ainda, do clube “Água e Cera”, do “Clube dos Democratas” e do “Clube dos Esfolados”.
De uma casa para outra, os do “Água e Cera”, aos pares, de braços dados, cantavam a plenos pulmões, ao som da música do Zé Pereira, tocado por uma orquestra composta de uma rabeca, uma flauta, um bombardino, um trombone e um clarinete, as seguintes quadras:
Viva o “Água e Cera”,
Este clube sem rival!
Vivam os companheiros
Deste nosso carnavaaal!
Vamos, vamos, companheiros,
Andar como aristocratas
Para ver se conseguimos
Derribar os “Democratas”.
Companheiros, companheiros,
Tudo aqui é divinal!
Marchai, marchai, companheiros,
Nesta marcha triunfaaal!
Exibiu esse clube, que foi o mais notável de todos, carros simbólicos e de crítica que, em préstito, atravessaram as ruas da cidade despertando entusiasmo na multidão.
Em 1909, disse o “Correio do Cariri” ter ele exibido “um belo carro alegórico em que se via a figura da República empunhando o estandarte brasileiro tremulante ao vento”.
Sacudiam-se confetes multicores e cruzavam os ares as serpentinas.
Naquele ano de 1909, desfilaram, a cavalo, pelas ruas do Crato os membros do clube, dois a dois.
Não participavam as mulheres dos folguedos carnavalescos.
Nas danças em casas particulares, alguns dos sócios dos clubes representavam os cavalheiros, fingiam damas outros que envergavam saias e corpetes, traziam cabeleiras supostas, brincos e pulseiras, calçavam sapatos de salto alto, carminavam as faces das suas máscaras, arredondavam os seios.
Em seu número 288 escreveu o “Correio do Cariri”: “Depois do passeio o ‘Clube Água e Cera’ dançou em diversas casas de família, deixando boa impressão pela elegância dos seus vestuários e ordem com que sempre se sabe portar”.
Às vezes os do “Água e Cera” iam aos sítios da vizinhança, cujos donos os recebiam festivamente.
Ano houve em que os meninos, no Crato, realizavam cortejos carnavalescos.
Em 13 de fevereiro de 1910 alguém comentou no “Correio do Cariri”: “Não fora um préstito carnavalesco de meninos que pelas ruas transitou, outra cousa não haveria despertado o sono contínuo da alma cratense ou quebrado esse marasmo, essa pasmaceira insuportável que domina moços e velhos. Os meninos, não há dúvida, deram letra e eu os felicito e lhes agradeço de coração por mim e por todos, a quem a carapuça couber, a lição preciosa e inestimável que nos deram”.
Foi José Gonçalves de Sousa Rolim, farmacêutico, quem, em 1912, vendeu pela primeira vez no Crato, tubos de lança-perfumes.
Em 1935 e 1936 foi animadíssimo o carnaval no Crato.
De pontos determinados da cidade, às sete horas da noite, partiam cordões, o “Eu só vou se você for”, os “Batutas da Folia”, outros de nomes parecidos, os quais, cantando e pulando, iam até a sede do “Crato-Clube”.
Acabado o baile, ali pelas três horas da manhã, saíam eles sempre a pular e a cantar, davam algumas voltas pelas ruas, dispersando-se em seguida.
Em 1936 prepararam carros que representavam navios de guerra, aviões, mui apreciados pelo povo.
No ano de 1942 as festas de carnaval entre os esguichos dos lança-perfumes, se reduziram, quase, aos salões dos dois clubes locais: o “Crato-Clube” e o de Associação dos Empregados no Comércio do Crato”.
Ao som do velhíssimo Zé Pereira, do lero-lero, de quejandas outras músicas, dançou-se em 42, ruidosamente, até o alvorecer da quarta-feira de cinzas.
Elegeram-se rainhas, coroaram-nas entre discursos e palmas.
Mais de uma vez, nas sedes sociais desses clubes montaram alto-falantes, os quais enchiam de barulho os recintos e, também, o resto da cidade, que dormia ou queria dormir.
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Irineu Pinheiro, no livro O Cariri (Fortaleza: Edições UFC, 2010. Coleção Nossa Cultura). Fac-símile da edição de 1950.
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domingo, 17 de janeiro de 2016
Beata Maria de Araújo no livro ‘Efemérides do Cariri’ (Irineu Pinheiro)

Há 102 anos, no dia 17 de janeiro de 1914, falecia a Beata Maria de Araújo, uma das grandes protagonistas da história de Juazeiro do Norte. E apresentamos, logo abaixo, transcrição de nota sobre a Maria de Araújo publicada no livro Efemérides do Cariri, de autoria de Irineu Pinheiro.
Na nota, temos informações sobre o nascimento da beata, o fenômeno do sangramento da hóstia, da morte e da violação dos restos mortais no túmulo de Maria de Araújo (fato até hoje envolto em mistério, sem esclarecimentos).
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Nota LXXIX
“No segundo cartório de Juazeiro, no livro nº sete, às folhas 85 v a 87, lê-se um documento relativo a Maria de Araújo, do qual são transcritos, abaixo, alguns trechos.
‘Do humilde casal Antônio de Araújo e Ana de Araújo, diz, o documento, naturais deste lugar onde viveram e morreram como bons católicos, nasceram Maria de Araújo e mais três irmãos, perdendo todos ainda na infância os seus genitores. Maria de Araújo com desvelo e cuidado tratou da criação de seus irmãos, em cujo penoso trabalho não enfraqueceu a tendência religiosa manifestada desde os oito anos de idade quando começou a confessar-se e comungar frequentemente com profunda e sincera devoção. Humilde por natureza e pobre por condição, seu nome não tinha o menor relevo, até que por causas que lhe eram estranhas começaram a aparecer alguns fenômenos na ocasião em que recebia na mesa da comunhão a hóstia sacramental das mãos de seu confessor. É que a então sagrada partícula ao ser posta em sua boca se transformava em sangue, o que ela debalde procurou sempre ocultar das pessoas presentes. Sucedeu, porém, que na primeira sexta-feira de março do ano de mil e oitocentos e oitenta e nove [1º de março de 1889], estando Maria de Araújo com outras mulheres na mesa da comunhão, ao receber a hóstia, esta se transformou em tanto sangue que extravasou da boca e se alastrou por cima da murça, derramando-se sobre a roupa que trajava, chegando a gotejar no chão em grande quantidade. Daí então não pôde mais ocultar o fenômeno que se tornava tão patente e principalmente porque ela ficava em êxtase por muito tempo.’
‘Em 17 de janeiro de 1914, em plena revolução política, a mística Maria de Araújo deu a alma ao Criador, a quem dias antes se oferecera dando sua vida para a salvação do povo de Juazeiro que se achava debaixo do cerco das forças do governo estadual representado pelo Coronel Franco Rabelo. O corpo da beata Maria de Araújo foi trajado no hábito da Ordem Terceira de São Francisco, e foi depositado e trancado a chave em um ataúde de cedro devidamente envernizado a óleo por dentro e por fora e sepultado na capela de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, conjunta ao cemitério público, no dia 18 do mesmo mês e do mesmo ano, sendo acompanhado de grande multidão de pessoas, entre as quais se destacavam o padre Cícero e importantes vultos políticos do Estado, que se achavam refugiados no Juazeiro.’
Em 22 de outubro de 1930, continua o autor do documento, abriram ‘o túmulo de alvenaria onde estava sepultada Maria de Araújo, e os encarregados do serviço asseveraram que não existiam dentro do túmulo os restos mortais da mesma beata. A violão do túmulo foi de surpresa, sem preceder autorização legal, sem conhecimento, sequer, do respectivo zelador do cemitério, o senhor Ildebrando Oliveira. Sabendo o padre Cícero que se estava arrasando o referido túmulo, chamou, rapidamente, ao atual governador da cidade, o farmacêutico José Geraldo da Cruz, para conjuntamente com o fotógrafo João Cândido e Fontes assistirem ao ato exumatório e mandarem recolher os restos mortais em outro túmulo no cemitério. Esses senhores, sem perda de tempo, foram ao local, encontrando já aberta a sepultura, de momentos.’
Informou-os o pedreiro de que ‘só existiam ali restos de panos e a madeira do caixão’.
Examinaram eles o caixão, a sepultura e, também, ‘os escombros atirados para fora onde colheram, apenas, uns escapulários das irmandades de Nossa Senhora das Dores, de Nossa Senhora do Carmo, da Paixão e de outras irmandades e o cordão de S. Francisco, e um pedaço de crânio com cabelos, o qual está guardado neste vaso de vidro. A beata Maria de Araújo, que em sua vida foi caluniada de toda a sorte, teve ainda depois de morta violado seu túmulo. Para perpetuar a ocorrência foram escritas estas notas informativas que serão transcritas no cartório do segundo tabelião público desta cidade, e o original devidamente assinado pelas testemunhas José Geraldo da Cruz, interventor municipal, fotógrafo João Cândido e Fontes, Ildebrando Oliveira, pessoas que presenciaram o ocorrido, cujas firmas são reconhecidas com mais duas testemunhas, Pelúsio Correia de Macedo e José Ferreira de Meneses, que sabem do fato e de suas minudências. Juazeiro, 3 de dezembro de 1930. José Geraldo da Cruz — João Cândido e Fontes — José Ferreira de Meneses — Pelúsio Correia de Macedo — Ildebrando Oliveira.’
Todas as firmas, acima nomeadas foram reconhecidas pelo segundo tabelião público de Juazeiro, Luís Teófilo Machado, no dia 4 de dezembro de 1930.”
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Irineu Pinheiro, no livro Efemérides do Cariri (Coedição Secult/Edições URCA - Fortaleza: Edições UFC, 2010. Fac-símile da edição de 1963 publicada pela Imprensa Universitária do Ceará)
Outras postagens do blog O Berro relacionadas à Beata Maria de Araújo:
- 'Milagre do Padre Cícero e Maria de Araújo', cordel de Severino do Horto
- Centenário de morte da Beata Maria de Araújo: 17 de janeiro de 1914-2014
- Beata Maria de Araújo e Padre Cícero em matéria do Fantástico (1997)
- "Procura-se" Beata Maria de Araújo
- Ilustração e poema sobre a Beata Maria de Araújo
- 122 anos de romarias em Juazeiro do Norte
- Beata Maria de Araújo por Raimundo Araújo, no livro 'Mulheres de Juazeiro'
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quarta-feira, 23 de dezembro de 2015
‘A Night At The Opera’, álbum do Queen de 1975
Grifo nosso # 96
“Desde o primeiro álbum, em 1973, a proposta ambiciosa do Queen incluía referências clássicas bombásticas, falsetes estridentes e misticismo pagão. Mas foi no quarto disco que o grupo fundiu tudo isso na épica ‘Bohemian Rhapsody’. O single de seis minutos ficou em primeiro lugar nas paradas britânicas durante nove semanas e entrou para a lista dos 10 Mais nos Estados Unidos.
O baterista Roger Taylor se lembra do líder Freddie Mercury tocando ‘Bohemian Rhapsody’ para a banda no piano. ‘E aqui, queridos, é onde começa a parte de ópera’, disse ele, então. ‘Freddie tinha o esqueleto da música e até a harmonia escritos em tiras de papel’, contou Taylor. ‘Era muito difícil acompanhar o que estava acontecendo.’
De qualquer forma, com seus 180 overdubs e uma sessão de vocais que demorou 70 horas para ser gravada, ‘Bohemian Rhapsody’ definiu o Queen. As harmonias em múltiplas camadas (a distorção obtida com regravações infindáveis contribuiu para o efeito de saturação), a balada com alto nível de qualidade de composição (no mesmo piano em que McCartney tocou ‘Hey Jude’) e a guitarra metal afiada são costuradas pelo conceito delineado por Mercury, com uma pitada de Nietzsche e outra de paródia.
O resto do álbum é composto por faixas menos resplandecentes. ‘You’re My Best Friend’, do baixista John Deacon, levada no piano, é, talvez, a canção de amor mais tocante da banda. Há a mística ‘39’, ‘The Prophet’s Song’, com tintas árabes, o music hall inglês de ‘Lazing On a Sunday Afternoon’ e a balada ‘Love Of My Life’, uma das preferidas do público em shows, que mistura os vocais esfuziantes de Mercury com os floreios acústicos da guitarra de Brian May. ‘A Night At The Opera tinha todos os sons, da tuba a um pente’, afirmou Mercury. ‘Não havia limites.’”
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John Lewis, no livro 1001 discos para ouvir antes de morrer (Editora Sextante, 2007).
Selo | EMI
Produção | Roy Thomas Baker, Queen
Projeto gráfico | David Costa
Nacionalidade | Inglaterra
Duração | 42:52
“Ninguém jamais ouviu falar em se juntar ópera com um tema de rock” (Freddie Mercury, 1977)
Lista de músicas - A Night At The Opera (1975):
1. Death on Two Legs (Dedicated To...) (Freddie Mercury)
2. Lazing on a Sunday Afternoon (Freddie Mercury)
3. I'm in Love with My Car (Roger Taylor)
4. You're My Best Friend (John Deacon)
5. '39 (Brian May)
6. Sweet Lady (Brian May)
7. Seaside Rendezvous (Freddie Mercury)
8. The Prophet's Song (Brian May)
9. Love of My Life (Freddie Mercury)
10. Good Company (Brian May)
11. Bohemian Rhapsody (Freddie Mercury)
12. God Save the Queen (Trad., arr. Brian May)
A Night At The Opera completou 40 anos de lançamento em novembro de 2015 (álbum lançado no dia 21 de novembro de 1975 na Europa e no dia 02 de dezembro de 1975 nas Américas).
“Love Of My Life” (Rock In Rio, 1985):
quarta-feira, 16 de dezembro de 2015
‘Star Wars Episódio IV: Uma Nova Esperança’ (George Lucas, 1977)
Grifo nosso # 95
Star Wars Episódio IV: Uma Nova Esperança
(Star Wars Episode IV: A New Hope, George Lucas, 1977)
“Ninguém esperava que o filme do roteirista e diretor George Lucas fosse um sucesso. Em se tratando de um ‘faroeste de ficção científica’ cujo elenco principal era essencialmente desconhecido (Harrison Ford, Mark Hamill e Carrie Fisher), os chefões do estúdio estavam tão convencidos de que o filme iria fracassar que gentilmente cederam a Lucas, de graça, os direitos de merchandising de qualquer produto relacionado a Guerra nas estrelas. Obviamente, não perceberam o enorme potencial do filme e jamais esperaram que fosse gerar duas continuações, três capítulos “anteriores”, um derivativo baseado nos Ewoks, desenhos animados, jogos de computador, brinquedos, trilhas sonoras, livros, enormes vendas de vídeos e DVDs, doces, roupas, roupa de cama e até mesmo comida.
O filme, que custou 11 milhões de dólares e rendeu mais de 460 milhões de dólares, não parecia ter o potencial para ser tornar um enorme sucesso. Depois da morte dos tios que o educaram, o jovem obstinado Luke Skywalker (Hamill) se junta com um velho cavaleiro Jedi, Ben ‘Obi-Wan’ Kenobi (Alec Guinness), dois robôs, um piloto espacial arrogante chamado Han Solo (uma atuação estelar de Ford) e seu peludo amigo wookie, Chewbacca (Peter Mayhew), para resgatar uma princesa (Carrie Fisher) de um vilão que usava uma túnica preta e um capacete de plástico. Guerra nas estrelas poderia ter sido incrivelmente tolo, considerando-se que, em meados dos anos 70, as pessoas esperavam que ‘ficção científica’ fosse algo similar aos cenários de plástico de Jornada nas estrelas ou com efeitos como a ‘calota pendurada em um fio’ de Ed Wood em seu Plano 9 do espaço sideral (1959).
Mas Lucas tinha ideias mais grandiosas. Duas décadas antes que imagens de computador fossem usadas para criar mundos fantásticos, Lucas, usando modelos ultradetalhados, truques inteligentes e locações bem escolhidas — as cenas que mostram o planeta desértico de Tatooine, onde Luke morava, foram filmadas em cenários construídos na Tunísia (reutilizados em 1999, em Guerra nas estrelas: Episódio I - A ameaça fantasma —, conta a história de outro universo, no qual o maligno Império dominado por Darth Vader (David Prowse, com a voz de James Earl Jones) está no controle. Mas as forças rebeldes estão se reunindo para tentar derrubar os tiranos.
Lucas criou uma mitologia que foi abraçada com entusiasmo por pessoas de todas as idades. Além de dar origem a várias criaturas de uma galáxia muito, muito distante, sua linha de narrativa do bem contra o mal nos apresentou a pessoas e objetos que, desde então, tornaram-se parte de diversos idiomas de nosso planeta: o Millenium Falcon (a nave espacial de Han Solo, que Lucas originalmente imaginou com o aspecto de um hambúrguer voador), os sabres de luz (a arma similar a uma espada, com seu som característico), os Stormtrooppers imperiais e, naturalmente, os cavaleiros Jedi (hoje uma parte tão integral de nosso inconsciente coletivo que uma campanha via internet sugerindo que as pessoas respondessem ‘Jedi’ a um item sobre religião num formulário de recenseamento do Reino Unido teve enorme sucesso).
Ao dar vida a Guerra nas estrelas, Lucas conseguiu criar muito mais do que apenas um filme: criou um mundo, um novo estilo de cinema e uma ópera espacial inesquecível que jamais foi superada.”
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EUA (Lucasfilm) 121 minutos. Technicolor; idioma: inglês; direção: George Lucas; produção: Gary Kurtz, George Lucas; roteiro: George Lucas; fotografia: Gilbert Taylor; música: John Williams; elenco: Mark Hamill, Harrison Ford, Carrie Fisher, Peter Cushing Alec Guinness, Anthony Daniels, Kenny Baker, Peter Mayhew, David Prowse, James Earl Jones, Phil Brown, Shelagh Fraser, Jack Purvis, Alex McCrindle, Eddie Byrne; Oscar: John Barry, Norman Reynolds, Leslie Dilley, Roger Christian (direção de arte), John Molo (figurinos), John Stears, John Dykstra, Richard Edlund, Grant McCune, Robert Balack (efeitos especiais visuais), Paul Hirsch, Marcia Lucas, Richard Chew (edição), John Williams (música), Dom MacDougall, Ray West, Bob Minkler, Derek Ball (som), Be Burtt (efeitos especiais sonoros); Indicação ao Oscar: Gary Kurtz (melhor filme), George Lucas (diretor), George Lucas (roteiro), Alec Guinness (ator coadjuvante).
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Joanna Berry, no livro 1001 filmes para ver antes de morrer (Editora Sextante, 2008).
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segunda-feira, 30 de novembro de 2015
‘Ace Of Spades’, álbum do Motörhead de 1980

Grifo nosso # 94
“Este álbum entrou em quarto lugar nas paradas em novembro de 1980. Era resultado de seis semanas de gravação, combinando o trabalho de Vic Maile, famoso produtor da banda Dr. Feelgood, e a formação clássica do Motörhead: o baixista/vocalista Ian ‘Lemmy’ Kilmister, ‘Fast’ Eddie Clarke (guitarra) e Phyl ‘Philthy Animal’ Taylor (baterista).
Os 33 shows feitos na Inglaterra entre outubro e novembro de 1980 para promover Ace Of Spades preparam a banda para a gravação ao vivo do LP que liderou as paradas de 1981, No Sleep ‘Til Hammersmith. ‘As pessoas estava esperando um disco ao vivo da banda há três anos’, disse Lemmy, ‘mas fiquei ainda mais feliz por Ace Of Spades ter entrado em 4º lugar, porque No Sleep... era um disco único’.
A faixa-título do álbum, que alcançou o 15º lugar na parada de singles da Inglaterra, certamente está no mesmo patamar do célebre ‘Hope I die before I get old’ de Pete Townshend como desejo de morte definitivo de um roqueiro. ‘Dizem que eu nasci para perder / Porque jogar é para os tolos / Mas esse é meu jeito, baby / Não quero viver para sempre’. (Em 2000, aos 55 anos, Lemmy acrescentou: ‘Queria morrer um ano antes da eternidade, para evitar a hora do rush...’)
O primeiro e glorioso período da história do Motörhead, que termina com este álbum, sem dúvida alguma estabeleceu os fundamentos (bateria metralhada, riffs alucinantemente rápidos, baixo pesado, vozes de rasgar a garganta) que os seguidores do speed metal, como Anthrax e Metallica, iriam desenvolver na segunda metade dos anos 80. Garry Bushell, da revista Sounds, deu nota máxima para este álbum: ‘Motörhead é heavy metal no único sentido significativo do termo. Todo o resto é apenas faz-de-conta’.”
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Michael Heatley, no livro 1001 discos para ouvir antes de morrer (Editora Sextante, 2007).
Selo | Bronze
Produção | Vic Maile
Projeto gráfico | Martin Poole
Nacionalidade | Inglaterra
Duração | 36:34
Lista de músicas - Ace Of Spades (1980):
1. Ace of Spades ("Fast" Eddie Clarke / Lemmy Kilmister / Lemmy / Phil "Philthy Animal" Taylor - Motörhead)
2. Love Me Like a Reptile (Motörhead)
3. Shoot You in the Back (Motörhead)
4. Live to Win (Motörhead)
5. Fast and Loose (Motörhead)
6. (We Are) The Road Crew (Motörhead)
7. Fire, Fire (Motörhead)
8. Jailbait (Motörhead)
9. Dance (Motörhead)
10. Bite the Bullet (Motörhead)
11. The Chase Is Better Than the Catch (Motörhead)
12. The Hammer (Motörhead)
Ace Of Spades completou 35 anos de lançamento neste mês de novembro de 2015 (álbum lançado no dia 8 de novembro de 1980).
“Ace Of Spades”:
domingo, 25 de outubro de 2015
‘Led Zeppelin III’, álbum de 1970
Grifo nosso # 93
“O terceiro álbum do Led Zeppelin foi diretamente para o primeiro lugar das paradas britânicas. Uma semana depois, chegaria ao topo das paradas dos Estados Unidos, onde ficou durante quatro semanas, ganhando o disco de platina triplo. O criativo design da capa incluía um disco coberto de desenhos que, ao ser girado, mostrava imagens diferentes através de janelas recortadas na parte externa.
A tonitruante ‘Immigrant Song’ foi o segundo single da banda a ficar entre os Top 20 nos Estados Unidos, mas não foi lançado nesse formato na Inglaterra — o grupo só começou a lançar singles no mercado britânico a partir de 1997.
O lado A do LP apresenta o esperado hard rock de alta octanagem, mas o outro lado, arrasador, é acústico. Page e Plant foram particularmente inspirados pela música de artistas folk como Bert Jansch, John Fahey e Davy Graham. ‘Gallows Pole’ inclui um belo banjo acompanhando a bateria de John Bonham, enquanto ‘Bron-Y-Aur Stomp’ é marcada pelos voos delicados do violão (o nome da música é uma homenagem a um chalé no norte do País de Gales que pertencia a amigos dos pais de Plant e onde ele e Page compuseram parte do material do álbum).
Seis faixas foram gravadas num estúdio móvel no terreno de uma casa de campo em Hampshire, inclusive ‘Tangerine’, com uma eloquente guitarra de 12 cordas antecipando ‘Stairway To Heaven’, embora as harmonias no estilo da Costa Oeste e os matizes country fossem poucos típicos da banda. ‘Hats Off To (Roy) Harper’, com a forte presença da slide guitar, é um tributo de Page ao veterano cantor inglês de folk. Led Zeppelin III mostrou que a banda era capaz tanto de ser mais sutil como de tocar puro heavy metal.”
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John Tobler, no livro 1001 discos para ouvir antes de morrer (Editora Sextante, 2007).
Selo | Atlantic
Produção | Jimmy Page
Projeto gráfico | Zacron
Nacionalidade | Inglaterra
Duração | 43:01
Lista de músicas - Led Zeppelin III (1970):
1. Immigrant Song (Jimmy Page, Robert Plant)
2. Friends (Jimmy Page, Robert Plant)
3. Celebration Day (John Paul Jones, Jimmy Page, Robert Plant)
4. Since I've Been Loving You (John Paul Jones, Jimmy Page, Robert Plant)
5. Out On the Tiles (John Bonham, Jimmy Page, Robert Plant)
6. Gallows Pole (Jimmy Page, Robert Plant, Traditional)
7. Tangerine (Jimmy Page)
8. That's the Way (Jimmy Page, Robert Plant)
9. Bron-Y-Aur Stomp (John Paul Jones, Jimmy Page, Robert Plant)
10. Hats off to (Roy) Harper (Charles Obscure, Traditional)
Led Zeppelin III completou 45 anos de lançamento neste mês de outubro de 2015 (álbum lançado no dia 5 de outubro de 1970).
“Immigrant Song” (ao vivo):
terça-feira, 20 de outubro de 2015
‘De Volta para o Futuro’, filme de Robert Zemeckis (1985)

Grifo nosso # 92
De Volta para o Futuro (Back to the Future, Robert Zemeckis, 1985)
“O adolescente Marty McFly (Fox) volta 30 anos no tempo inadvertidamente e interrompe o primeiro encontro de seus pais. Esse encontro põe em risco sua existência e, para evitar desaparecer gradualmente, ele deve convencer seus futuros pais de que foram feitos um para o outro e devem viver juntos.
Fundamental para qualquer um que cresceu na década de 1980, De Volta para o Futuro — um misto de ficção científica, comédia e ação — provou ser um enorme sucesso e transformou seu personagem principal em um astro.
Dirigido e coescrito por Robert Zemeckis (Forrest Gump) e produzido por Steven Spielberg, o filme é o ponto alto de um ciclo de filmes juvenis de conceito e alta qualidade que proliferaram na metade da década de 80 — Ghost Busters, Viagem Insólita, Gremlins, Os Goonies etc. Como a maioria destes, o apelo em De Volta para o Futuro está em não depreciar o público jovem, algo que explica sua longevidade e popularidade entre os adultos. O imenso encanto que Fox imprime ao personagem principal, Marty, é outro sucesso. A maneira como ele anda de skate e toca guitarra é afinada com seu modo desajeitado de ser e sua pouca estatura, fazendo dele o adolescente não ameaçador padrão pelo resto da década.
Evitando o pai bobo e a mãe alcoólatra, Marty passa a maior parte do tempo com a namorada Jennifer (Wells) e o excêntrico Doutor Brown (o excelente Lloyd), que nos oferece exatamente o tipo de inventor louco e quixotesco que as crianças adoram, mesmo tendo sido ele o responsável pela falha do catalisador na desastrosa retirada de Marty do passado.”
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EUA, 1985. Direção: Robert Zemeckis; Elenco: Michael J. Fox, Christopher Lloyd, Lea Thompson, Crispin Glover, Thomas F. Wilson, Claudia Wells; Roteiro: Robert Zemeckis, Bob Gale; Fotografia: Dean Cundey; Produtores/Companhias Produtoras: Neil Canton, Bob Gale, Kathleen Kennedy, Frank Marshall, Steven Spielberg/Amblin Entertainment, Universal Pictures; Premiação da Academia (1986): Melhor Edição de Efeitos Especiais Sonoros: Charles L. Campbell, Robert R. Rutledge; Outras indicações da Academia: Melhor Música, Canção Original: Chris Hayes (música), Johnny Colla (música), Huey Lewis (letra), pela canção “The Power of Love”; Melhor Som: Bill Varney, B. Tennyson Sebastian II, Robert Thirlwell, William B. Kaplan; Melhor Argumento, Roteiro Escrito Diretamente para a Tela: Robert Zemeckis, Bob Gale.
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Rob Hill, no livro 501 filmes que merecem ser vistos (Larousse do Brasil, 2011).
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