sexta-feira, 10 de maio de 2013

'Cantigas do sofrer', parceria poético-visual entre artistas do Cariri

Ilustração: Ricardo Campos
CINCO CANTIGAS DO SOFRER

primeira: tristeza

essa tristeza que invade minhas canções
me faz poeta antigo em 78 rotações
sem muita profundidade um homem torpe.

no sereno vagueio pro próximo porre
tropeço num cão vagabundo que corre
sem muita profundidade um homem torpe.

procuro por outro bar que ainda me atenda
não imagino qualquer ideia que penda
e fuja dos descompassos de meus desejos.

pode ser daqueles sem cadeiras ou mesas
preciso da dose que solte a palavra presa
e fuja dos descompassos de meus desejos.


mas esta noite é uma daquelas de tristeza
em que sofro passo a passo rumo à incerteza
no pensamento a volúpia de teus beijos.

nada de última dose rimas palavras bares
um sentimento que vá volte e crave
no pensamento a volúpia de teus beijos.

quem sabe não serei eu aquele cão de outrora?


segunda: dor de cotovelo ou uma pedra no caminho do poeta ricardo campos
        
sofro sofro sofro sofro e sofro

um desespero nas veias circula
você foi embora e nem ao menos calcula
o que é um poeta sem seu bem-querer.

bebo bebo bebo bebo e bebo

sofrer faz parte de meu setlist
espero que a ingratidão mútua que existe
me mostre o caminho ao amanhecer.

dor dor dor dor e dor

cada pausa daquela música me atravessa
arrebenta meus pulsos e me arremessa
a desejos de morte que não quero entender.

só só só só e só
deixe-me aqui em pebinha do bar
olhe em meus olhos sequer sei andar
poesia é isso tudo o que há entre mim e você.


terceira: cantiga fajuta sobre a traição

traído cabisbaixo e contente
caminhava lentamente pro bar
com a desculpa óbvia dos valentes
sofrer é uma das melhores profissões que há.

o primeiro gole parecia amargo
mas apenas precedeu o segundo
'coloque aí meu senhor o zezé de camargo
que hoje eu estou muito profundo'.

exagerado no sofrimento como sempre
cantava alto num inglês quase barroco
não havia limites e seguia em frente
já ao som do nelson e seus tons roucos

lá pras tantas com a cabeça sobre o balcão
não suportava mais sequer quimera
relembrava teus sorrisos de profissão
deleitando-se nos braços de odiosas feras

ao caminhar sobre pernas que não respondiam
seguia firme e forte com lágrimas enxutas
mas ao abrir o portão lembrei-me o que todos sabiam
àquelas horas tu já te ocupavas de tua labuta.


quarta: flores de papel não tem aroma

minha linda flor.

minha bela flor maligna
enxota este teu menestrel
receba somente este papel
com cantigas de vãs andanças.
não me culpe por atrevidas esperanças
e estas canções talvez indignas.

minha linda flor.

enxota este teu menestrel
com cantigas de vãs andanças
receba somente este papel
não me culpe por atrevidas esperanças
e estas canções talvez indignas.
minha bela flor maligna.

minha linda flor.

não me culpe por atrevidas esperanças
e estas canções talvez indignas
minha bela flor maligna
com cantigas de vãs andanças
receba somente este papel.
enxota este teu menestrel.

minha linda flor.

com cantigas de vãs andanças
não me culpe por atrevidas esperanças
receba somente este papel
minha bela flor maligna.
enxota este teu menestrel
e estas canções talvez indignas.


quinta: sofrimento

quando tu partiste naquele fim-de-tarde depois de estar coberta com os lençóis branquinhos recém vindouros da lavanderia da esquina em que costumo a seco encontrar aquela dona peituda que sempre chama minha atenção não pelos peitos mas pelo sonoro riso ou pela mentira dos desejos saio para duas horas de espera de bar-em-bar inconsequente encontro outro casal de ex-amigos para os quais não pronunciava sequer boa tarde bom dia bom qualquer ou patéticas reticências de um bem-querer que jamais existiu essa comodidade social de jovens que ao se afastar da família num lugar longínquo e se acompanha de quem não-necessariamente é necessário um absurdo desses só depois-de-amanhã sendo que agora resolvo atônito fugir dos olhares de outrem tomar uma cerveja gelada num bar em que uma moça de sorriso micho e peitos pequenos e pontiagudos me observa com demasiado desejo naqueles olhos duas esmeraldas opacos e translúcidas talvez fossem somente devaneios taciturnos de pensamentos infames dissidentes de uma ingenuidade mútua a cerveja não estava tão gelada e os pontiagudos desejos me puseram cabisbaixo intrinsecamente capturado nas memórias de um pai morto de uma vida oca de estar naquela tarde que deixava de ser duramente clara e espalhava todos os seus tons alaranjados em reflexos que atravessavam as vitrines de lojas barrocas com manequins sem rosto minha vida valeria o rosto que sei que tenho ou seria apenas o reflexo no espelho que me conduzia durante esses últimos trinta e cinco anos enviesados meio poeta meio louco meio nunca completamente nada sempre vaziamente tudo lembro do halley que passou por aquele céu trinta anos atrás que com o entardecer ficava menos azul piscina e mais azul marítimo

a cerveja. o dinheiro. o micho sorriso e os peitinhos pontiagudos da moça alquebrada.
a esquina. a lavanderia. os peitos enormes da mulher do riso eloquente.

voltar para casa foi a pior das decisões. a lógica fraturada de amores desfeitos.
os lençóis já não precisavam estar tão brancos.
tu foste embora.

passei aquela noite lendo revistas da marvel
e claro, sofrendo..
____.

Poemas: Ythallo Rodrigues
Ilustração: Ricardo Campos

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11 comentários:

  1. Ythallo, tem na sua poética e/ou no seu repertório intelectual, uma cor a mais, ou uma nota a mais, que nos dá, devido ao seu brilho (digo, aos seus contemporâneos) respeitabilidade por tabela.

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  2. Parabéns Ythallo pelos poemas muito bom, muito bom mesmo.

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  3. Valeu caros amigos poetas, fico feliz de participar dessa nossa trupe poética aqui do Cariri, grande abraço!!

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Muito massa Ythallo...Vontade de beber da porra!

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    1. Não fosse a gota serena que me estica no sofá, saía agora correndo pros balcões de qualquer bar. rsrs

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  6. Massa galera, é por aí mesmo... poesia com muita boemia.
    Valeu Vitim, beber aonde porra??? rsrsrsrs

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  7. O meu figo já fica mei cabrero, quando eu bebo um copo chei de cana. Eu não ando há mais duma semana, com a gota instalada no meu pé. Minha véia num faz mais cafuné, pois meu bafo lhe bota pra correr, se eu levanto começo a tremer e num tombo depressa vou ao chão, só me resta afinar meu violão pra tocar se o dia amanhecer.

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  8. Sem muito dizer, posso encontrar em poucos versos a amplitude do abraço que lhe devo. Serpentear palavras para que se acomodem mais ao fundo do peito é uma das sua virtuosidades...Parabéns! Você SUPER MERECE esse reconhecimento!!! Te amo Gordim!

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  9. Valeu Sandrinha um grande beijo em ti!!!

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