domingo, 10 de julho de 2011

O poder político no Cariri após a emancipação de Juazeiro

Centenário de Juazeiro do Norte # 88

Hoje lançamos mão de um tópico do livro Milagre em Joaseiro (Miracle at Joaseiro - tradução de Maria Yedda Linhares), escrito por Ralph Della Cava, historiador norteamericano.

O livro é um dos principais estudos sobre o mito religioso do Padre Cícero, e foi publicado originalmente em 1976 (pela editora Paz e Terra). O texto é a tese de doutoramento de Ralph Della Cava e uma das grandes referências em pesquisa sobre a atuação religiosa e política do fundador de Juazeiro do Norte.

O tópico escolhido para ser aqui reproduzido é o "Balanço do poder: Joaseiro e o Cariri", que integra o capítulo 9 ("Joaseiro no Plano Nacional"). No fragmento selecionado, o autor faz considerações sobre a importância política do Juazeiro e do Cariri no cenário político cearense entre os anos de 1914 e 1934, destacando a influência política de Floro Bartolomeu e Padre Cícero. Mostra também como o Crato e o Juazeiro dividiram uma liderança política e econômica no Cariri, fazendo com que a região virasse um ponto importante para as negociações políticas estaduais e até mesmo nacionais.
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Balanço do poder: Joaseiro e o Cariri
Ralph Della Cava

É inegável que Joaseiro lucrou, a curto prazo, com a “revolução” [a Sedição de Juazeiro]. No final de 1914, a Assembleia do Ceará deu ao município o estatuto de distrito judicial autônomo (comarca). Concedeu a Joaseiro, também, o seu próprio Juiz de Paz e um tabelião público (ou cartório de notas), talvez a instituição jurídica mais importante da República Velha. Em síntese, a revolução de 1914 completara, no mínimo, o processo de libertação de Joaseiro com relação ao Crato: a autonomia notarial e judiciária conquistada em 1914 confirmou a vitória política de 1911. Agora, em pé de igualdade, Joaseiro e Crato, apesar das repetidas tensões, assumiram a liderança conjunta do Vale. Barbalha, que tinha aspirado a essa participação com o Crato, entrou numa fase de longa decadência, da qual só começou a sair em 1960. No Crato, o cel. Antônio Luís também retomou o poder, na qualidade de prefeito e deputado estadual. A partir daí, sua amizade pessoal e aliança política tácita com o Patriarca e Floro foram muito importantes para evitar que se extravasasse o ressentimento do Crato, especialmente quando Joaseiro assumiu, gradativamente, a posição dominante que hoje ocupa na história contínua dessas duas cidades.

Entre 1916 e 1926, o eixo Joaseiro-Crato dominou o Vale do Cariri. Suas unidades do Partido Conservador deviam menos aos Accioly (como havia sido nos primeiros anos do século) do que ao prestígio político do Padre Cícero. Como vice-governador do Ceará (nas eleições de 1914, passou de terceiro a primeiro vice-governador), como líder real ou fictício da revolução, como distribuidor de favores políticos e de mão-de-obra barata em todo sertão, o Patriarca era coberto de deferência pelos coronéis do Cariri. Somente com seu conselho, eles nomeavam as autoridades locais, apoiavam os candidatos a deputado estadual e federal; e somente com o seu endosso eles solicitavam subsídios governamentais para obras públicas e desenvolvimento econômico. De fato, até 1926, foi concedido ao Patriarca, pelas instáveis coligações governamentais do Ceará, considerável mandonismo local em troca de seu apoio e patrocínio eleitoral. Em contrapartida, o Patriarca — ladeado por Antônio Luís e Floro Bartolomeu — usou sua influência em prol do Joaseiro e do Vale do Cariri.

Não resta dúvida de que o Cariri tinha, finalmente, alcançado um considerável poder de barganha dentro da política cearense. Durante as quase quatro décadas anteriores recebeu poucos benefícios de Fortaleza. Seus impostos, entretanto, destinavam-se a asfaltar e a iluminar as ruas da capital, assim como fornecer à classe média de comerciantes do litoral esgoto, água potável, bondes, teatros, novas igrejas, luxuosos clubes particulares, hospitais, clínicas e cinemas. O Cariri, durante muito tempo, clamou contra essa desigualdade, o que explica, em parte, por que os comerciantes do Vale sempre preferiram negociar com a praça de Recife. O porto de Recife, por estar mais perto da Europa e do Sul industrial do que Fortaleza, oferecia mercadorias a preço mais baixo; maiores facilidades de transporte dentro de Pernambuco reduziam os custo do comércio de varejo no interior. Apesar do comércio natural que existia entre o Vale e o litoral pernambucano, era o poder político e fiscal da eqüidistante Fortaleza que muito tirava do Vale e pouco retribuía.

sábado, 9 de julho de 2011

"Os romeiros de Padre Cícero" no Sem Fronteiras da Band

Centenário de Juazeiro do Norte # 87

Na década de 90, o programa Sem Fronteiras (da Band) exibiu o documentário "Os romeiros de Padre Cícero", de 1994, dirigido por Eduardo Coutinho.

Disponibilizamos um grande trecho do documentário dividido em duas partes. Em destaque os depoimentos de d. Assunção Gonçalves, Padre Murilo, Penitentes Aves de Jesus, além de moradores de Juazeiro e romeiros que visitam a cidade do Padre Cícero.

Parte 1:


Parte 2:

sexta-feira, 8 de julho de 2011

A tradição do Cordel em destaque na TV Brasil

Centenário de Juazeiro do Norte # 86

Na postagem # 65 e na postagem # 76 do Centenário disponibilizamos dois textos de Gilmar de Carvalho contando um pouco da história da Tipografia Lira Nordestina (a antiga Tipografia São Francisco) e dos xilógrafos de Juazeiro do Norte.

Destacamos a tradição da Literatura de Cordel e da xilogravura, como expressões das mais representativas da arte produzida em Juazeiro do Norte.

Hoje disponibilizamos um trecho do programa "Cultura ponto a ponto", da TV Brasil, em edição sobre tipografias brasileiras, que destacou a Lira Nordestina, com participação do xilógrafo José Lourenço e da cordelista Maria do Rosário Lustosa.

Embalado pra viagem # 31

O mar

O mar é triste como um cemitério;
Cada rocha é uma eterna sepultura
Banhada pela imácula brancura
De ondas chorando num alvor etéreo.

Ah! dessas vagas no bramir funéreo
Jamais vibrou a sinfonia pura
Do Amor; lá só descanta, dentre a escura
Treva do oceano, a voz do meu saltério!

Quando a cândida espuma dessas vagas,
Banhando a fria solidão das fragas,
Onde a quebrar-se tão fugaz se esfuma,

Reflete a luz do sol que já não arde,
Treme na treva a púrpura da tarde,
Chora a Saudade envolta nesta espuma!

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Augusto dos Anjos (Eu e outras poesias, Martins Fontes, 1994)

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Programação do Cine Cariri Shopping - de 08/07 a 15/07/2011

Cine I: Transformers: O lado oculto da Lua
(Transformers - Dark of the Moon, 2011)
Horários: 13h40, 16h50 e 20h
Origem: EUA
Gênero: Ação
Classif.: 12 anos
Duração: 154 min.
Distribuidora: Paramount Pictures
Lanç. Nacional: 01/07/2011
Sinopse: Quando um misterioso evento do passado da Terra explode nos dias de hoje, ele ameaça causar uma guerra tão grande na Terra que os Transformers sozinhos não conseguirão nos salvar.
Elenco: Shia LaBeouf, Rosie Huntington-Whiteley, Josh Duhamel, Patrick Dempsey, Ken Jeong, John Malkovich, Alan Tudyk, Vozes de: Hugo Weaving, Peter Cullen
Roteiro: Ehren Kruger
Produção Executiva: Michael Bay, Steven Spielberg
Produção: Ian Bryce, Tom DeSanto, Lorenzo di Bonaventura
Direção: Michael Bay
Trailer:



Cine II: Carros 2
(Cars, 2011)
Horários: 13h30, 15h45, 18h e 20h15
Origem: EUA
Gênero: Animação
Classif.: Livre
Duração: 106 min.
Distribuidora: Walt Disney Studios
Lanç. Nacional: 23/06/2011
Sinopse: o astro das corridas Relâmpago McQueen (voz de Owen Wilson) e o incomparável guincho Mate (voz de Larry the Cable Guy) levam sua amizade a novos lugares em Carros 2, ao atravessar o mundo para competir na primeira Grand Prix Mundial para determinar quem é o carro mais rápido do mundo. Mas o caminho para o campeonato é cheio de obstáculos, desvios e surpresas hilariantes quando Mate se vê envolvido em uma fascinante aventura de espionagem internacional. Dividido entre ajudar Relâmpago McQueen na corrida e se enganchar em uma missão de espionagem ultra-secreta, a extasiante jornada de Mate o leva em uma caçada explosiva pelas ruas do Japão e da Europa, seguido por seus amigos e assistido pelo mundo inteiro. Somando-se a toda essa diversão em ritmo acelerado há um maravilhoso elenco de carros totalmente novos que inclui agentes secretos, vilões ameaçadores e corredores internacionais.
Elenco: Vozes de: Owen Wilson, Jason Isaacs, Michael Caine, Michael Keaton, Emily Mortimer, Bonnie Hunt, Joe Mantegna
Roteiro: Ben Queen
Produção: Denise Ream
Direção: John Lasseter
Trailer:


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Preço do ingresso (+ pipoca):
De sexta a terça: Inteira: R$8,00 / Meia: R$4,00
Quarta e quinta: Inteira: R$6,00 /Meia: R$3,00

+ info: (88) 3572.9333

Mais dicas de filmes ou programação de outros cinemas:
http://www.orientcinemas.com.br

122 anos de romarias em Juazeiro do Norte

Centenário de Juazeiro do Norte # 85

Segundo relato do livro Padre Cícero: poder, fé e guerra no sertão, de Lira Neto (Cia. das Letras, 2009), foi no dia 7 de julho de 1889 que, pela primeira vez, chegou a Juazeiro uma grande quantidade de fiéis atraídos pelos relatos da hóstia transformada em sangue na boca da Beata Maria de Araújo.

O fato, portanto, antecede a emancipação política de Juazeiro, mas não pode passar despercebido em todo o processo de crescimento do município, pois daqueles dias até a atualidade, o Padre Cícero e as romarias são responsáveis diretos pelo crescimento da cidade de Juazeiro do Norte. Para entender o processo que motivou o início das migrações à terra do Padre Cícero, confira outra postagem do nosso blog clicando aqui.
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Abaixo segue trecho do relato de Lira Neto sobre a "primeira romaria" com destino a Juazeiro:

"(...) Moradores das cidades e localidades mais próximas chegavam de forma espontânea ao minúsculo povoado, atraídos pelas narrativas que davam conta do sangue de Jesus Cristo derramado em pleno agreste. Mas foi em 7 de julho, um domingo que marcava o ápice da tradicional festa cristã do Precioso Sangue, que Juazeiro assistiu pela primeira vez à chegada maciça e ordenada de milhares de peregrinos. Foi a primeira de todas as romarias. Naquela manhã, cerca de 3 mil pessoas — quase dez vezes a população do lugarejo — apinharam-se nas estreitas e diminutas ruelas do local. A maioria era proveniente do Crato e vinha sob as bênçãos expressas do novo reitor do seminário, monsenhor Francisco Rodrigues Monteiro. Conhecido pela oratória inflamada, monsenhor Monteiro conduziu uma procissão até a capela Nossa Senhora das Dores, naquele dia adornada com velas, flores e fitas coloridas. AO término da missa, com sua autoridade clerical e o estilo ardoroso de sempre, Monteiro fez um sermão histórico, durante o qual exibiu, com gestos arrebatados, uma toalha manchada de sangue. Segundo ele, não havia dúvidas de que aquele era o verdadeiro sangue de Jesus Cristo. (...)"
(Lira Neto, em Padre Cícero: poder, fé e guerra no sertão)

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Dois sonetos em homenagem ao Príncipe Ribamar

Centenário de Juazeiro do Norte # 84Embalado pra viagem # 30

Na postagem # 83 do Centenário, divulgamos um texto de José Wilker falando sobre o Príncipe Ribamar.

Hoje recorremos à antologia Juazeiro poético, organizada por Raimundo Araújo e lançada em 1988, e reproduzimos dois poemas que homenageiam o Príncipe.








Príncipe Ribamar
(Ivan Fernandes Magalhães)

Os filtros narcotizantes do amor
Que lhe injetaram na alma rudemente,
Minaram de tal forma a sua mente,
Que o fizeram um vulgar mercador

De sonhos! Viveu com tanto ardor
O seu papel de Príncipe Demente,
Que até uma Gioconda irreverente
Encheu o seu palácio de esplendor!

Seus éditos, chulos e sem graça,
Eram lidos em voz alta, na praça,
E riam todos de suas loucas visões...

Somente eu, Príncipe, não ria de ti,
— Porque como tu, eu também vivi,
Qual mercador de sonhos e ilusões!...
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Sua Majestade
(Eduardo José P. de Matos)

Com títulos de reinos incabíveis
Guardados em finíssimo escrínio,
Ribamar sonha com tronos e domínio.
— Coisas humanamente impossíveis —

Seus tesouros são tão inconcebíveis...!
Próprios das mentes em legal declínio.
Traz dragonas na roupa irreconhecíveis
E medalhões com brilho em extermínio.

Fala em realizações impraticáveis,
Tem ideias obscuras, inviáveis...
E as defende com têmpera sincera.

Por Príncipe, conhece-o a cidade.
E o povo que lhe deu a majestade,
Deu-lhe as chaves argênteas da quimera.

Lançamento do novo trabalho de J. Flávio Vieira



Lançamento:
O mistério das treze portas no castelo encantado da ponte fantástica
De J. Flávio Vieira (Zé Flávio)
Ilustrações: Reginaldo Farias

Quinta-feira, dia 07 de julho de 2011, às 19h
No Cine Teatro Moderno (Crato-CE)
Entrada Franca

63 anos de Arnaldo Baptista

Hoje, dia 6 de julho de 2011, o eterno mutante Arnaldo Baptista completa 63 anos de vida. Mas ele é muito mais do que "apenas um dos Mutantes" — o que já seria algo extraordinário, convenhamos — pois ele era a "mola mestra" da banda formada por ele e pelo seu irmão, Sérgio Dias, e por Rita Lee, com quem foi casado durante o auge da banda, no final dos anos 60 e início dos 70.

Após escapar de uma tentativa de suicídio (ao pular do quarto andar de um hospital psiquiátrico onde estava internado), desde o anos 80 Arnaldo Baptista vive em um sítio, no interior de Minas Gerais, com sua esposa Lucinha Barbosa e dedica-se principalmente à pintura, embora continue compondo e escrevendo.

Em 2008 foi lançado o documentário Lóki - Arnaldo Baptista, dirigido por Paulo Henrique Fontenelle, que conta a trajetória de Arnaldo Baptista, da infância até a volta dos Mutantes em 2006 (para alguns shows na Europa e no Brasil, com participação de Zélia Duncan no vocal). Vale a pena conferir o documentário, que mostra os altos e baixos da vida e da carreira de Baptista, que destaca a fase atual de uma rotina pacata, dedicada à arte e ao convívio com a natureza e à constante companhia da esposa.

Abaixo, a música "Vou me afundar na lingerie", do disco solo Lóki — que faço questão de sair do clichê de dizer que é "um dos melhores discos de rock já feitos no Brasil", pois acho que extrapola essa "esfera do rock", sendo um dos melhores discos já feitos no Brasil.

Na sequência, uma reportagem de 1992 com colecionadores de material de Rita Lee e dos Mutantes, que no final apresenta uma descontraída entrevista com Arnaldo Baptista. Salve, Arnaldo!



terça-feira, 5 de julho de 2011

Príncipe Ribamar, o sonhador de Juazeiro

Centenário de Juazeiro do Norte # 83

Juazeiro do Norte possui na sua história figuras populares que ficaram conhecidas por sua arte, por atuações religiosas e algumas por serem consideradas sonhadoras, fazerem da imaginação uma ponte para uma vida mais mágica, menos burocrática, menos tediosa. Quem viveu na cidade até umas duas décadas atrás relata várias histórias de pessoas que circulavam pelas ruas e viviam nesse universo mágico do sonhar, sendo incompreendidas pelo mundo restritivamente "lógico", recebendo apelidos, sendo alvo de chacotas e outras invencionices em prol da "brincadeira".

Um dos personagens que entrou para a história de Juazeiro sob este prisma foi o Joaquim Gomes Menezes, que ficou conhecido na cidade pela alcunha de Príncipe Ribamar da Beira Fresca. Em texto (clique aqui para lê-lo), o escritor Daniel Walker afirma que o Príncipe Ribamar "era apenas um sonhador, um visionário, uma figura popular da cidade de Juazeiro do Norte e pessoa muito querida por todos que o conheceram". Por sua vez, o professor, historiador e sociólogo Titus Riedl classifica-o como "o personagem mais rico da história de Juazeiro".

Em vários relatos sobre o Príncipe Ribamar temos o depoimento de que se tratava de um exímio carpinteiro, que abandonou a profissão para perambular pelas ruas de Juazeiro e mostrar as condecorações recebidas, simbolizadas em medalhas penduradas na sua incrementada vestimenta. O Príncipe Ribamar faleceu em 1978 e hoje nomeia uma rua no bairro Carité, em Juazeiro.

Logo abaixo, reproduzimos um belo texto do ator juazeirense José Wilker, relatando histórias do Príncipe Ribamar e defendendo que o Aeroporto Regional do Cariri deveria se chamar "Príncipe Ribamar". Entenda o motivo no texto.
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O Príncipe Ribamar
José Wilker

(extraído da Revista Globo Rural, 1995, e republicado na edição 85 do JuaOnline, de 7 de janeiro de 2007)

Imagine uma pequena cidade do interior do Ceará aí pelos primeiros anos da década de cinquenta. Imagine Juazeiro do Norte nessa época. Aconteceu lá isso que vou contar. Pode ser que não tenha sido assim, mas é assim que eu me lembro e é assim que eu conto.

Havia lá um príncipe que se chamava Ribamar. Sempre vestido em seu traje de gala, todas as condecorações derramadas no peito, a solenidade atrapalhada pelas sandálias de dedo e um chapéu-coco. Com chuva ou com sol, ele descia a Rua Grande de Juazeiro todas as tardes, vindo de lugar nenhum e indo para nenhum lugar. Debaixo de um guarda-chuva branco, ele passeava sua solidão. É que o príncipe era noivo. A noiva morava num lugar distante, do outro lado do Oceano Atlântico. A viagem era uma aventura e ela demorava a chegar. O navio em que ela vinha, ele contava, enfrentando piratas, dragões, sereias e a inveja de outros príncipes preteridos, tardava, mas o amor era imenso e o mar pequeno. Ela, estava escrito, um dia chegaria.

Conheci o príncipe já perto dos anos 70 e, diziam, desde jovem ele esperava. A quem lhe perguntasse ou duvidasse, ele exibia as apaixonadas cartas de amor que ela escrevia e, para os mais incrédulos, o seu retrato. Com dedicatória: ao príncipe do meu coração, todo o amor da sua Gioconda da Vinci. O príncipe Ribamar era noivo da Gioconda, de Leonardo da Vinci.

Para muitos, o príncipe era maluco, um pobre coitado com o cérebro derretido pelo sol do sertão. Riam dele, roubavam e escondiam o retrato da Gioconda. Nestes momentos, o príncipe se imobilizava, uma explosão de dor o congelava. Eu me lembro dele, assim privado da sua amada, feito uma estátua no meio da praça. Parecia tão triste e ausente de si que, eu juro, flutuava a meio metro do chão, pendurado no guarda-chuva branco. Quando uma alma boa lhe devolvia seu bem mais precioso, a felicidade saltava dos seus olhos como um raio na tempestade. Talvez ele fosse realmente louco. Mas uma loucura que fazia nascer uma tal felicidade e uma felicidade que vinha de um amor tão grande me deixavam na dúvida.

E, um dia, a dúvida se dissipou. Cansado do descrédito e do deboche em relação ao seu noivado, ele decidiu apressar seu encontro com a noiva. Chega de navios, ela viajará por via aérea. Para uma plateia de invejosos, ele leu o telegrama: “embarco hoje Roma-Juazeiro vg via Panair do Brasil pt amor pt Gioconda da Vinci”. Depois de um silêncio cheio de ironias, alguém perguntou: e o avião desce onde? Foi quando o príncipe resolveu construir um aeroporto. Depois de um tempo lutando para conseguir adesões, argumentando com uns e com outros para que lhe ajudassem a preparar o terreno, montou uma pequena tropa de trabalhadores e começou a construção. Havia quem trabalhasse apenas por farra, mas o príncipe não tentou enganar ninguém. Todos seriam pagos. Afinal, trazia na sua bagagem o tesouro do seu dote. Ribamar, sem nenhuma ambição material, todo amor, prometia dividir aqueles bens entre o que o ajudaram.

Um belo dia, o aeroporto ficou pronto. Ou melhor, uma longa clareira aberta no Vale do Cariri, delimitada de um lado por um jardim plantado com capricho e, de outro, por um pomar onde faziam sombra juazeiros e mangueiras. E Ribamar esperou com seus companheiros. Os dias se passaram, os companheiros se foram e ele continuou esperando, só. Não sei quanto tempo ele esperou. Na cidade, ninguém mais falava ou lembrava dele. De repente, num domingo de sol nordestino, Ribamar reapareceu. Todo de branco, com aquele ar de quem viu Deus, dirigiu-se para a Matriz de Nossa Senhora das Dores, ajoelhou-se diante do altar e esperou. Aparentemente ia se casar. Ninguém se preocupou com ele. Foi esquecido e lá dormiu. Na manhã seguinte segurando um buquê, caminhava de volta para sua casa, que ninguém sabia onde era. Depois desse dia, não o vi mais. Minha família mudou-se para Recife e, durante muito tempo, Juazeiro era uma lembrança, nada mais. Nunca mais soube do Ribamar. Entretanto, o atual aeroporto de Juazeiro do Norte, trazido pelo progresso, foi construído sobre o terreno aberto por Ribamar para a chegada da sua Gioconda. Eu acho que, por justiça, deveria ser chamado de Aeroporto Príncipe Ribamar.
José Wilker, 1995

II Roteiro poeticobohemio



II Roteiro poeticobohemio
Julho de 2011, em Juazeiro do Norte

09 de julho: Poesia com Daniel Batata e Harlon Homem
Som com Ciço Lifrate
Local: Casarão

14 de julho: Armazém 69
23 de julho: Kaosdos
30 de julho: Sede

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Apresentação da Dr. Raiz no Horto, em 2009

Centenário de Juazeiro do Norte # 82

Em 2009, a banda Dr. Raiz subiu a Serra do Horto, em Juazeiro do Norte, para fazer uma apresentação especial para o programa Som na Rural, da TV Brasil.

Disponibilizamos os vídeos da banda juazeirense tocando — com a escadaria e a estátua do Padre Cícero servindo de cenário — as canções "Presságio", "Borboletas azuis" e "Bendito seja".

"Presságio":


"Borboletas azuis":


"Bendito seja":

domingo, 3 de julho de 2011

Versos de João Bandeira em homenagem ao Mestre Nino

Centenário de Juazeiro do Norte # 81

Já abordamos nas postagens sobre o Centenário de Juazeiro, a tradição da cidade na produção de literatura de cordel, xilogravura, artesanato, etc. E nesta postagem recorremos à junção de literatura e escultura: trata-se da publicação de versos de João Bandeira de Caldas em homenagem ao escultor Mestre Nino (foto), por ocasião de seu falecimento, em 2002.

O poema está na edição comemorativa O estro de um cantador, que celebra os 45 anos (1961-2006) de cantoria de João Bandeira de Caldas.

Para saber mais sobre a vida de Seu Nino, clique aqui e leia texto de Dodora Guimarães falando (quando Nino ainda estava vivo) sobre a produção de suas esculturas em madeira.
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A morte de seu Nino
João Bandeira de Caldas

Tudo nessa vida passa
Pra quem no mundo nasceu
Para este, para aquele
Para você, para eu,
Tudo cai nas mãos da morte
Em Juazeiro do Norte
Mestre Nino faleceu.

Mas, quem era Mestre Nino?
- Um escultor de verdade
Artesão de preferência
Que não sabia da idade
Também não sabia ler
Porém sabia fazer
Arte com toda vontade.

Antes de ser escultor
Trabalhou na agricultura
Cortou cana para engenho
Para fazer rapadura
Depois tomou a carreira
E faz em lata e madeira
Sua primeira escultura.

Brinquedos para crianças
Fez de latas, de cavacos
Agradando a todo mundo
Aos fortes também aos fracos
E na sua construção
Chegou a confecção
Dos dezessete macacos.

Vendia de porta em porta
Os macacos que fazia
No Juazeiro e no Crato
Nas feiras ele vendia
E às vezes esses inventos
Trocava por mantimentos
Assim seu Nino vivia.

Fazia imagem de peixe
De pássaros, de Mateus
De caçador, de elefante
Nesses pensamentos seus
Esculpia gente e fera
Eu acho que Nino era
Um inspirado de Deus.

Na sua imaginação:
Um tronco de pau pedia
Parece que ele escutava
O que a madeira dizia
Um dizendo, o outro ouvindo
E terminava saindo
Como a madeira exigia.

O que mais lhe interessava
Era as caras das figuras
E os rabos dos macacos
Eram puras esculturas
Tinha de serem bem feitos
E não ficarem defeitos
Nessas suas criaturas.

Ele de tudo fazia
Mas, com especialidade
Fazia melhor macaco
E dizia sem raridade
Que seu macaco esquisito
Ele achava mais bonito
Que o macaco de verdade.

Hoje a fama de seu Nino
Está onde procurar:
No Cariri, Fortaleza,
No Centro Dragão do Mar.
No exterior, seu renome
Morre o homem e fica o nome
Para assumir o lugar.
João Bandeira, 28 de agosto de 2002

sábado, 2 de julho de 2011

Mestre Noza, um dos centros do artesanato de Juazeiro

Centenário de Juazeiro do Norte # 80

Além do turismo religioso que cresce a cada ano, outra atividade que causa a admiração dos turistas é o nosso artesanato. Uma amostra desse artesanato pode ser vista no Centro de Cultura Popular Mestre Noza.

O nome do centro é uma homenagem a Inocêncio Medeiros da Costa (Mestre Noza), artista popular pernambucano que veio para Juazeiro do Norte em 1912, depois de caminhar 600km. Em Juazeiro, tornou-se santeiro e xilogravurista. Expôs suas obras em todo o país e no exterior.

Se não mora na região e gostaria de conhecer algumas das obras que estão no Centro, basta entrar na galeria do fotógrafo Alex Uchôa clicando aqui.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

A crença popular nordestina no Globo Repórter em 1997

Centenário de Juazeiro do Norte # 79

Em 1997, pouco tempo depois da morte de Frei Damião (aos 98 anos), o Globo Repórter teve uma edição dedicada ao frade recém-falecido e à crença popular nordestina.

Um dos blocos do programa dedicou espaço à devoção ao Padre Cícero Romão Batista, em Juazeiro do Norte. Ganharam destaque os romeiros que viajam de todo Nordeste rumo à cidade do Padre Cícero, além do comércio popular — como das estátuas do Padre em gesso, que movimentam a economia local. No mesmo bloco também foram referenciados Frei Damião e Antônio Conselheiro.