quinta-feira, 30 de agosto de 2012

5 ExpoAnime no final de semana em Juazeiro do Norte



5º ExpoAnime Cariri

Dia 01/09: Exibições, Oficinas; Gladiador, Sala de Games; Área da Informática, Paintball, Conc. de Karaokê, Stands, Sala Temática;
Dia 02/09: Exibições, Oficinas, Paintball, Gladiador, Sala de Games, Área de Informática; Stands, Quiz Anime, Sala Temática, Conc. Cosplay, Show com a banda Nightlife.

Dias 01 e 02 de setembro de 2012
No SESC Juazeiro do Norte-CE
Entrada: 1kg de alimento não perecível
+ info: (88) 8825.2097 / 9653.9994.
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'Conversas Filosóficas': Economia Solidária dentro da Economia Criativa



Prof. Eduardo Vivia desenvolve e participa do movimento de economia solidária no Ceará objetivando ampliar uma nova forma de troca econômica em que se valoriza a cidadania, a relação pessoal, o sentido humano da produção em contraposição às relações coisificadas do mercado tradicional. O tratamento deste viés que traz estas características, não foge da forma como a economia criativa tenta se estabelecer. Ou seja, a economia criativa não é uma forma nova do capital se acumular e reproduzir mais eficientemente. (sinopse da divulgação do evento)

Conversas Filosóficas
Economia Solidária dentro da Economia Criativa
Convidado: Prof. Eduardo Vivia Cunha - UFC Campus Cariri
Sexta-feira, dia 31 de agosto de 2012, 19h
No Centro Cultural Banco do Nordeste Cariri (Juazeiro do Norte-CE)
Entrada gratuita.
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quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Exibição do filme 'A Mulher Faz o Homem' no Cine Café



Cine Café - Edição de 2º aniversário (com mediação de Elvis Pinheiro)
Exibição do filme A Mulher Faz o Homem
Título original: Mr. Smith Goes to Washington
Direção: Frank Capra
Roteiro: Lewis R. Foster, Sidney Buchman
Elenco: James Stewart, Jean Arthur, Claude Rains, Edward Arnold
Duração: 129 minutos
Ano: 1939
País de origem: Estados Unidos

"Um idealista, honesto e honrado homem do interior é convidado a se tornar senador dos Estados Unidos sem saber que sua escolha é baseada no fato de ser considerado um homem ingênuo e manobrável. Filme indispensável e estimulante para a reflexão sobre ética na política que tanto discutimos hoje em dia." (sinopse da divulgação do evento)

Exibição no sábado, 01 de setembro de 2012, às 17h30
No Centro Cultural Banco do Nordeste Cariri (Juazeiro do Norte). Entrada gratuita.
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Embalado pra viagem # 76

Choro bandido
(Chico Buarque / Edu Lobo)

Mesmo que os cantores sejam falsos como eu
serão bonitas, não importa
são bonitas as canções
mesmo miseráveis os poetas
os seus versos serão bons
mesmo porque as notas eram surdas
quando um deus sonso e ladrão
fez das tripas a primeira lira
que animou todos os sons
e daí nasceram as baladas
e os arroubos de bandidos como eu
cantando assim:
você nasceu para mim
você nasceu para mim

Mesmo que você feche os ouvidos
e as janelas do vestido
minha musa vai cair em tentação
mesmo porque estou falando grego
com sua imaginação
mesmo que você fuja de mim
por labirintos e alçapões
saiba que os poetas como os cegos
podem ver na escuridão
e eis que, menos sábios do que antes
os seus lábios ofegantes
hão de se entregar assim:
me leve até o fim
me leve até o fim

Mesmo que os romances sejam falsos como o nosso
são bonitas, não importa
são bonitas as canções
mesmo sendo errados os amantes
seus amores serão bons.



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Edu Lobo interpretando composição feita em parceria com Chico Buarque. Gravação do disco Edu Lobo & Chico Buarque - Álbum de Teatro, de 1997.

Neste 29 de agosto de 2012, quando Edu Lobo completa 69 anos de idade.
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segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Exibição do filme 'Meteorango Kid - Herói Intergalático' no Cinematógrapho



Cinematógrapho (com mediação de Elvis Pinheiro)
Exibição de Meteorango Kid - Herói Intergalático
Título original: Meteorango Kid, Héroi Intergalático
Direção e roteiro: André Luiz Oliveira
Elenco: Antônio Luís Martins, Carlos Bastos, Milton Gaúcho, Manoel Costa Junior, Antonio Vianna, Nilda Spencer
Duração: 80 minutos
Ano: 1969
País de origem: Brasil

"O filme narra, de maneira anárquica e irreverente, as aventuras de Lula, um estudante universitário no dia do seu aniversário. De forma absolutamente despojada mostra, sem rodeios, o perfil de um jovem desesperado, representante de uma geração oprimida pela ditadura militar e pela moral retrógrada de uma sociedade passiva e hipócrita. O anti-herói intergaláctico atravessa este labirinto cotidiano através das suas fantasias e delírios libertários, deixando atrás de si um rastro de inconformismo e um convite à rebelião em todos os níveis." (sinopse da divulgação do evento)

Exibição na quarta-feira, dia 29 de agosto de 2012, às 19h
No SESC Juazeiro do Norte-CE. Entrada gratuita.
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domingo, 26 de agosto de 2012

Flauberto Gomes apresenta o show 'O Canto Teu' na quinta-feira



"O Canto Teu" traduz-se em melodias que desperta e provoca uma inquietação positiva para a reflexão de temas tão presentes no cotidiano, mas tão pouco compreendidos. Por meio de sons e poesias, elementos tão peculiares da tradição popular, reaviva-se o brio dos valores e tradições nordestinas num anseio pulsante de cutucar o que há de mais nobre no sentimento humano e transcender o espírito.

O Cariri, o amor, a indignação, a contemplação ao tempo e suas transformações, o batuque peculiarmente nordestino, as formas sonoras de simplicidade são facetas que se sobrepõem nessa aventura do fazer musical.

Nesse emaranhado de acordes nasce o desejo de fazer com que os olhos voltem-se para nossa cultura e que os dias vindouros respirem ares mais puros, abrindo as janelas do coração para a simplicidade da gente nordestina. (sinopse da divulgação do evento)

Flauberto Gomes (viola,violão e voz)
Ranier Oliveira (baixo, sanfona e voz)
Vinícius Pinho (violão e vocal)
Remy Oliveira (bateria)
Maricélio Santos (perssão)

Show "O Canto Teu", com Flauberto Gomes
Quinta-feira, dia 30 de agosto de 2012, 20h
No Teatro Adalberto Vamozi (SESC Crato-CE)
Entrada gratuita.
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Semana com shows de Jefferson Portela em Juazeiro do Norte



No espetáculo musical "...Vão Vocês", o percussionista Jefferson Portela apresenta o resultado do seu primeiro trabalho, uma miscelânea de ritmos populares — como maracatu, xote, samba — que ao se unirem acabam gerando outras levadas que nem sempre se permitem ser rotuladas. (sinopse da divulgação do evento)

No Centro Cultural Banco do Nordeste Cariri (Juazeiro do Norte-CE)
Quarta-feira, dia 29 de agosto de 2012, 19h30. Entrada gratuita.

No SESC Juazeiro
Quinta-feira, dia 30 de agosto de 2012, 19h30. Entrada gratuita.
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sábado, 25 de agosto de 2012

Exibição do filme 'Juiz Priest', de John Ford, no Cinemarana



Cinemarana
(com mediação de Elvis Pinheiro)
Mostra John Ford: Uma Lenda do Cinema

Exibição do filme Juiz Priest
Título original: Judge Priest
Direção: John Ford
Roteiro: Irvin S. Cobb, Dudley Nichols, Lamar Trotti
Elenco: Will Rogers, Tom Brown, Anita Louise, Henry B. Walthall
Duração: 80 minutos
Ano: 1934
País de origem: Estados Unidos

"O juiz William Priest, um orgulho dos confederados veteranos, usa do bom senso e humanidade consideráveis para fazer justiça em uma pequena comunidade norte-americana." (sinopse da divulgação do evento)

Exibição na segunda-feira, 27 de agosto de 2012, às 19h
No SESC Crato-CE. Entrada franca.

Para saber mais sobre a Mostra e o diretor, leia o artigo John Ford: o cineasta que me ensinou a ver cinema.
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Embalado para viagem # 75

rascunhos dum delírio

a paixão atravessava
em derredor de meu grande corpo

um deleite e a sede brava
um desejo fausto e torto.

todas as contradições num só lugar
eis-me aqui inverossímil e mortal...
sem mais apuros e querente por mudar
no peito só a violência e a ponta do punhal...

agora era a hora de ir para casa
todo enviesado bobo e na solidão

comigo trago a dor e a mágoa na asa
por favor,
meu amor,
quando o ego elidir só me deixe a paixão.

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Da série "Beijos oblíquos: desterro, destempero, desalento", parte do livro Obras completas, ainda inédito.

Ythallo Rodrigues é poeta e cineasta.
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sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Leminski por Haroldo de Campos

Grifo nosso # 41

"Considero Paulo Leminski o mais criativo poeta de sua geração e um intelectual completo, armado de erudição e argúcia crítica: além de poeta, era tradutor, ensaísta, prosador, a culminar no Catatau, pleno de invenção e ousadia experimental, onde prosa e poesia confluem. Foi também um artista bem característico de sua geração, um hippie-zen, no plano existencial, plenamente aberto à aventura da vida. Nada melhor, como expressão de sua irreverente atitude perante a vida, do que o poema em que Leminski define-se como um 'cachorro-louco', zombeteiro, ou aquele poema-letra (belamente cantado pelo Caetano) em que, irônica e criticamente, anuncia que venderá os filhos para uma 'família americana' (...)"

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Haroldo de Campos, em depoimento para o livro Paulo Leminski: o bandido que sabia latim, de Toninho Vaz (Record, 2001). Trecho reproduzido no livro Oriente Ocidente Através: a melofanologopaica poesia de Paulo Leminski, de Fábio Vieira (Ideia, 2010).

Em nossa pequena homenagem neste 24 de agosto de 2012, data em que Paulo Leminski completaria 68 anos de idade.
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Exibição do filme 'Cinema Paradiso' no Cine Café



Cine Café (com mediação de Elvis Pinheiro)
Exibição do filme Cinema Paradiso
Título original: Nuovo Cinema Paradiso
Direção: Giuseppe Tornatore
Roteiro: Giuseppe Tornatore (colaboração de Vanna Paoli)
Elenco: Philippe Noiret, Salvatore Cascio, Marco Leonardi, Jacques Perrin
Duração: 155 minutos
Ano: 1988
Países de origem: Itália / França

"Uma das maiores homenagens já feitas ao Cinema Mundial. Neste filme conhecemos o garotinho Totó e seu amigo, o projecionista do Cinema Paradiso, Alfredo. Com estes dois personagens elevaremos consideravelmente o nosso respeito e amor à sétima arte." (sinopse da divulgação do evento)

Exibição no sábado, 25 de agosto de 2012, às 17h30
No Centro Cultural Banco do Nordeste Cariri (Juazeiro do Norte). Entrada gratuita.
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Cine Dança exibe espetáculo 'O Tempo do Meio'



Cariri Quer Dancar - Agosto de 2012

Cine Dança - exibição de filmes, documentários, vídeo-dança ou registro de espetáculos com momento de reflexão sobre assuntos/temas e/ou propostas.

O Tempo do Meio (2012, Esther Weitzman - Esther Weitzman Cia. de Dança, RJ)
A Composição propõe a valorização de cada movimento como um acontecimento único, inusitado. Cada frase coreográfica é atentamente trabalhada para conceber a noção do devir como uma linha, que não se define pela ligação entre pontos, mas que simplesmente aponta para inúmeras direções que são desenhadas no espaço cênido. O movimento como uma flecha poética da expressão da vida. Mediação: Alysson Amancio. (sinopse da divulgação do evento)

Sexta-feira, dia 24 de agosto de 2012, 18h
Na ADC (Associação Dança Cariri)
Rua da Conceição, 1391 - Juazeiro do Norte-CE
Entrada gratuita
+ info: (88) 3512.3596.
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quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Um pouco sobre Nelson Rodrigues

Grifo nosso # 40

"Aplausos, críticas, vaias, elogios, indiferença, censura. Nelson Rodrigues conheceu um pouco de tudo ao longo de sua carreira. Apesar de acreditar que sua vocação era o romance, gênero que lia compulsivamente desde menino, resolveu escrever uma comédia para arranjar algum dinheiro, diante das dificuldades encontradas no início de sua carreira de jornalista. As marcas da infância e juventude acabaram por determinar sua produção teatral. O que seria cômico se transformou em drama terrível, e provavelmente poderia ser explicado por suas trágicas perdas familiares na juventude. Mas o que se evidenciava acima de tudo era sua verdadeira vocação: a elaboração de uma dramaturgia que revolucionaria o teatro brasileiro.

O texto polêmico e inovador do dramaturgo balançou os alicerces da sociedade brasileira da década de 1940, da crítica, da plateia, da intelectualidade, do governo. Dividindo opiniões e provocando debate, Nelson Rodrigues mudou o teatro que era feito no Brasil. A sátira à boa e velha moral e aos ditos bons costumes constituía a essência do texto rodriguiano. O público, acostumado a comédias, dramalhões e peças musicadas, escandalizava-se com tantos incestos, ódios, obsessões, taras traições e conflitos. Ao levar o oculto, o inconsciente, a 'imoralidade' da mente humana para o palco, Nelson foi chamado de tarado, incestuoso, pervertido. Críticos e amigos lhe apelidaram de 'flor de obsessão', por conta das ideias fixas que lhe povoavam o espírito. Muitas vezes incompreendido, outras vezes louvado, Nelson foi contruindo sua obra teatral. Mudou de estilo, fez duras críticas à realidade social, derrubou dogmas, provocou, fez graça, descortinou o subúrbio carioca e consolidou o teatro brasileiro, tornando-o conhecido mundialmente.

E não foi apenas pela temática tabu que a obra de Nelson foi decisiva na consolidação de um novo paradigma para o teatro. Sua compreensão e utilização dos recursos teatrais bem como as inovações que introduzia na tradição clássica da tragédia indicavam que ali estava um autor genial, logo reconhecido pelos mais importantes atores e diretores da época como Ziembinski, Fernando Torres, Kleber dos Santos, Vanda Lacerda, Itália Fausta, Nathalia Timberg, Fernanda Montenegro e Ítalo Rossi.

Nelson Rodrigues escreveu 17 peças ao longo de quase quarenta anos. A primeira reunião de sua obra teatral foi publicada pelas Edições Tempo Brasileiro, na década de 1960, e se intitulava Teatro quase completo de Nelson Rodrigues. Dividida em quatro volumes, a publicação seguia a ordem cronológica das 15 peças então escritas pelo autor. Suas duas últimas peças, Anti-Nelson Rodrigues (1973) e A serpente (1978), criadas posteriormente, foram publicadas em reunião com as outras 15 na edição do Teatro completo de Nelson Rodrigues lançada pela Nova Fronteira nas décadas de 1980/1990 [e em nova edição nos anos 2000].

(...)

Nelson, o 'tarado, pervertido, incestuoso', o destruidor da família, da sociedade e dos bons costumes, revela-se hoje um autor cuja obra é 'digna de imitação', 'foi consagrada pelo tempo', 'é da mais alta qualidade', tais as definições que se podem encontrar para esse adjetivo. Mas, acima de tudo, Nelson Rodrigues é hoje um clássico porque seu olhar crítico e seu estilo transbordaram a época na qual se inscreviam e chegaram até nós com a mesma contundência e genialidade. Esse amálgama de perenidade e transformação expande os limites do teatro de Nelson Rodrigues e renova sempre como um espaço de reconhecimento do Brasil e do humano."
julho de 2004
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Nota do editor, na edição Teatro completo de Nelson Rodrigues (Nova Fronteira, 2004).

Em mais uma postagem nossa no dia do centenário de Nelson Rodrigues.
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Artigo sobre montagem caririense de peça de Nelson Rodrigues

Ponto de fuga # 17



A caririense Engenharia Cênica tem viajado o país para apresentar o espetáculo Perdoa-me por me traíres, de Nelson Rodrigues, escritor que tem seu centenário de nascimento comemorado nesta quinta-feira, 23 de agosto de 2012.

Após apresentações em Crato, Juazeiro do Norte, Rio de Janeiro e João Pessoa, a montagem retorna a Juazeiro do Norte nesta sexta e sábado, dias 24 e 25 de agosto, quando se apresentará no palco do Teatro SESC Patativa do Assaré. Para mais detalhes sobre o evento, clique aqui.

E para ler uma opinião sobre a montagem confira o texto "Está na hora da Nelson-patia", assinado pelo Prof. Dr. Edson Martins (Prof. de Teoria Literária da URCA). Leia o breve artigo clicando no link abaixo:
http://edsonsbigstheories.wordpress.com/2012/08/04/esta-na-hora-da-nelsonpatia/
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Uma das tantas crônicas de Nelson Rodrigues sobre futebol(?)

Embalado pra viagem # 74

Conveniência de ser covarde

Há tempos, fui à rua Bariri ver um jogo do Fluminense. E confesso: — sempre considerei Olaria tão longíqua, remota, utópica como Constantinopla, Istambul ou Vigário Geral. Já na avenida Brasil, comecei a sentir uma nostalgia e um exílio só equiparáveis aos de Gonçalves Dias., de Casimiro de Abreu. Conclusão: — recrudesceu em mim o ressentimento contra qualquer espécie de viagem. Mas enfim cheguei e assisti à partida. Nos primeiros trinta minutos, houve tudo, rigorosamente tudo, menos futebol. Uma vergonha de jogo, uma pelada alvar, que não valia os cinco cruzeiros do lotação. E, de súbito, ocorre o episódio inesperado, o incidente mágico, que veio conferir ao match de quinta classe uma dimensão nova e eletrizante.

Eis o fato: — um jogador qualquer enfiou o pé na cara do adversário. Que fez o juiz? Arremessa-se, precipita-se com um élan de Robin Hood e vem dizer as últimas ao culpado. Então, este não conversa: — esbofeteia o árbitro. Ora, um tapa não é apenas um tapa: — é, na verdade, o mais transcendente, o mais importante de todos os atos humanos. Mais importante que o suicídio, que o homicídio, que tudo mais. A partir do momento em que alguém dá ou apanha na cara, inclui, implica e arrasta os outros à mesma humilhação. Todos nós ficamos atrelados ao tapa. Acresce o seguinte: — o som! E, de fato, de todos os sons terrenos, o único que não admite dúvidas, equívocos ou sofismas, é o da bofetada. Sim, amigos: — uma bofetada silenciosa, uma bofetada muda, não ofenderia ninguém e pelo contrário: — vítima e agressor cairiam um nos braços do outro, na mais profunda e inefável cordialidade. É o estalo medonho que a valoriza, que a dramatiza, que a torna irresgatável. Pois bem: — na bofetada de Olaria não faltou o detalhe auditivo. Mas o episódio não esgotaria, ainda, o seu horror. Restava o desenlace: — a fuga do homem. Pois o juiz esbofeteado não teve meias medidas: — deu no pé. Convenhamos: — é empolgante um pânico assim taxativo e triunfal, sem nenhum disfarcem nenhum recato. Digo “empolgante” e acrescente: — raríssimo ou, mesmo, inédito. Via de regra só o heroísmo é afirmativo, é descarado. O herói tem sempre uma desfaçatez única: — apresenta-se como se fosse a própria estátua equestre. Mas a covardia, não. A covardia acusa uma vergonha convulsiva. Tenho um amigo que faz o seguinte: — chega em casa, tranca-se na alcova, tapa o buraco da fechadura e só então, na mais rigorosa intimidade — apanha da mulher. Mas cá fora, à luz do dia, ele é um Tartarin, um Flash Gordon, capaz de varrer choques de polícias especiais.

Pois bem. Ao contrário dos outros covardes, que escondem, renegam, que desfiguram a própria covardia — o juiz correu como um cavalinho de carrossel. Note-se: há, hoje, toda uma monstruosa técnica de divulgação, que torna inexequível qualquer espécie de sigilo. E, logo, a imprensa e o rádio envolveram o árbitro. Essa covardia fotografada, irradiada, televisionada, projetou-se irresistivelmente. E quando, em seguida, a polícia veio dar cobertura ao árbitro, este ainda rilhava os dentes, ainda babava materialmente de terror. Acabado o match a multidão veio passando, com algo de fluvial no seu lerdo escoamento. Mas todos nós, que só conseguimos ser covardes às escondidas, tínhamos inveja, despeito e irritação dessa pusilanimidade que se desfraldara como um cínico estandarte.

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Nelson Rodrigues, em crônica originalmente publicada no jornal Manchete Esportiva, no dia 17 de dezembro de 1955. Texto depois reproduzido no livro O Berro Impresso nas Manchetes: Crônicas Completas da Manchete Esportiva (Agir, 2007) e no fascículo especial da Bravo!: Literatura & Futebol (Abril, 2010).

1ª caricatura de Mario Alberto;
2ª caricatura de William Medeiros.

Em nossa homenagem pelo centenário do nascimento de Nelson Rodrigues, neste dia 23 de agosto de 2012.
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quarta-feira, 22 de agosto de 2012

O visionário Glauber Rocha - um condenado da terra

Grifo nosso # 39

Mais uma pequena homenagem ao grande cineasta baiano, Glauber Rocha, desta vez por ele mesmo, sem mediação. Primeiramente um texto seu, escrito na década de 1970, e na sequência escolhi dois trechos das aparições fabulosas do Glauber Rocha no programa Abertura, da TV Tupi, no final da década de 1970. Hoje optamos por vê-lo e ouvi-lo ao invés de ficarmos nas lamentações pela sua ausência. O texto abaixo foi extraído do site do Tempo Glauber, quem se interessar em conhecer esse espaço virtual, é só clicar aqui.
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Autocrítica de um condenado da terra

por Glauber Rocha (originalmente em francês, traduzido por Anita Leandro)

I. José Marti, Che Guevara, Frantz Fanon são intelectuais revolucionários do terceiro mundo. Os condenados da terra explodem depois do proletariado em 1917. A Rússia destruiu Napoleão, o czarismo, o capitalismo, Hitler. Depois da desagregação do império inglês, Fidel apareceu para destruir o imperialismo norte-americano. Fidel, o homem mais poderoso do mundo (força, beleza, inteligência, cultura, erotismo, o destruidor de Hollywood / CIA, comedor de mitos da lost generation etc / um homem mais que Errol Flynn / Hemingway / John Wayne / Fidel Castro e Che Guevara contra John, Bob e Teddy Kennedy, etc.) não recebeu lições de Marxismo, Leninismo, Trotzkismo, Stalinismo, Maoismo, etc. Fidel, absolutamente liberado, faz sempre sua autocrítica comunizando seu mito com o povo. Ele não é um Deus. O povo Cubano o chama amorosamente El Caballo. Ele é a violência e o amor. Os dois maiores escritores hispano-americanos são José Marti e Alejo Carpentier. “O Século das Luzes”. Cuba entra na guerra de Angola com a liberdade revolucionária tri-continental. Che Guevara, dividido entre o Cristo Selvagem e o Marx / Engels / Trotzky, não morreu num foco na Bolívia.

A Cultura Terceiro- Mundista explode nos anos 60. Os intelectuais burgueses mais velhos tremem diante da Revolução Cubana. As novas gerações são os filhos de Fidel / de Che / De Sartre, que escreveu “L'Ouragan sur Cuba” sem ter entendido Marti e Carpentier.
Fidel e Che se tornaram objetos da crítica materialista européia e vários intelectuais de vanguarda se deslocam para tentar decifrar a nova mitologia tropical. Guerras de independência, Tupac Amaru, Simon Bolivar, Toussaint Louverture, Revolução Mexicana, A Coluna Prestes, Golpes, Guerrilhas, intervenções – Fidel e Che entram no bordel tropicalista num iate com alguns companheiros e fazem uma revolução Socialista – intervenções, Fidel e Che entram no saloon tropicalista e fazem uma revolução socialista diante do Pentágono. O filósofo é um profeta, Lênin pôs em prática o sujeito de Marx / Engels. MAO - Deus oriental, reconhece o materialismo marxista-leninista. Também Fidel, que não era previsto por Lênin. O materialismo supera o tribalismo.

Angola demonstra que a razão está com Frantz Fanon e não com Jacques Lacan. O colonizador é cada vez mais aterrorizado pela metralhização dos Condenados da Terra. Loin du Vietnam.
O Mundo não acabará com o apocalipse atômico. Angola paga o mesmo preço que o Haiti, último QUILOMBO, mercado de escravos. O presidente do Brasil, Ernesto Geisel, reconheceu o MPLA.

II. - Fernando Pessoa era um poeta português de quatro cabeças. Fascista e revolucionário. Dom Sebastião e Luiz de Camões. Portugal descobriu o Brasil, o país mais belo, mais rico da terra, o underground dos ESTADOS UNIDOS. Eu sou baiano, meu povo veio de Angola e na Bahia eles criaram a dança guerreira Capoeira de Angola, mas existem também os galos guerreiros de Angola e etc. “O Leão de 7 Cabeças”, 1970, rodado no Congo, Brazzaville, e “Cabeças Cortadas”, 1970, rodado em Barcelona, e Claro, 1975, rodado em Roma: o cineasta colonizado destrói o núcleo do cinema colonizador, esquerdista, pequeno-burguês, mesquinho, ilusionista, fascista, machista, oportunista, capitalista da nouvelle vague de GAULLE: Jean-Luc Godard.

EU VOMITO GODARD NA CAMA DE LANGLOIS E MARIE MERSON.

Jean-Louis Comolli projeta seu sonho anarquysta no Brasil do Cinema Novo, mas ele filma o Maio de 68 na Roma retrô. O filme é lançado com a opinião favorável da crítica. O desmazelo de Cahiers du Cinéma, os filhos da nouvelle vague são Edoardo de Gregorio, André Techiné, Comolli (Garrel off). Regressão. Nenhum grande cineasta francês está no PCF. Godard, depois do maoísmo dziga-vertovista, virou pesquisador. Agora ele tem uma câmera de vários olhos da CIA. Nós não precisamos disso. O Cinema Novo veio para destruir Hollywood e a Nouvelle Vague. Godard disse várias vezes que a Mosfilm e Hollywood eram a mesma coisa. Depois da existencialista Karina, a materialista Wiazemsky. E o anar-mao Gorin. Depois de Número 2, o funeral da Nouvelle Vague. Pier Paolo Pasolini disse: eu exploro o cu do sub-proletariado masculino. Eu fui morto por isso! A Nouvelle Vague explora as mulheres. Paris é o maior bordel do mundo. A prostituição audiovisual. CU e POLÍTICA, eis aí a última questão dos intelectuais colonizadores que controlam o poder cinematográfico. Godard, surpreendido por Solanas, tentou comer o Cinema Novo dizendo (com o grupo Dziga Vertov): Glauber Rocha é um cineasta progressista. Ele disse também que o cinema cubano era imperialista. Em 1969, Godard vem me ver na casa de Gorin e me diz, como se ele fosse o chefe de uma revolução (ele dava uma de Trotzky traído): é preciso destruir o cinema!! É, Jean-Luc, é preciso destruir o Cinema Novo.

TERRA EM TRANSE tinha sido rodado em 1966, antes de Régis Debray. Desde a primeira leitura, eu achava “La Révolution dans larévolution” um livro provocador e dogmático, colonizador, Victor Hugo se fazendo passar por filho de André Malraux.

O Cinema Novo, o Cine Solanas / Gettino / Cine Cubano / Cine Allende / Cine Torre / Cine Mexicano / Cine Afro-árabe. O cinema é a principal arma ilusionista do colonizador. O poder infinito desse meio de materialização dialética da História (Eisenstein) é a luz do Terceiro Mundo. CORISCO É CHE GUEVARA!! ANTÔNIO DAS MORTES É FIDEL CASTRO. PAULO MARTINS É CHE GUEVARA, FIDEL CORTA AS 7 CABEÇAS DO LEÃO IMPERIALISTA EM PORTUGAL, ESPANHA, ANGOLA....... Críticos franceses já trataram “Claro” de "filme imprecatório ...." "...cometido em Roma..." etc.

III – Nenhum crítico europeu tomou conhecimento da situação política do Brasil. Os antropólogos estruturalistas têm medo da tradição antropofágica brasileira.

Lévi Strauss chama seu livro de “Os Tristes Trópicos”. Ele sim, é um homem triste. Não os tropicalistas. Não Oswald de Andrade. Alguns críticos se tornaram especialistas em Cinema Terceiromundista. Depois do Brasil, Chile, Argentina, Peru, México, a História sempre contra as teorias revolucionárias da esquerda colonizadora.

Árabes, asiáticos, africanos, são os condenados da terra. O colonizado, lembra Fanon, quer sempre estar no lugar do colonizador. A cultura produzida pelo colonizador não tem nenhuma utilidade para o colonizado. O esfomeado fala uma outra linguagem. Eisenstein foi comido no México. Artaud, Trotzky, o Eldorado não existe. Tragédia. O colonizado não mostrará ao colonizador a rota do Eldorado. Há séculos o colonizador tortura, mata, procura a via. Lévi Strauss passou a metade da vida lá, mas ele não teve a coragem de deixar ser comido.

A Academia Colonizadora é mais confortável. A França é um país pobre disfarçado com belezas notórias e um erotismo sexy-tradicional . É um país pobre, sem colônias, desemprego, imperialismo em crise, o terceiro mundo está no Champs Elysées.

A Revolução virá da Itália, a Renascença, porque a Itália é a cabeça do Terceiro Mundo, que come os bárbaros europeus. O imperialismo reflete diante dos condenados da terra. É por isso que a terra não será destruída pela bomba atômica, porque o materialismo é criador. Humanista.

Depois da Angola, haverá outras guerras coloniais mas a desagregação imperialista será mais rápida e nem a União Soviética, nem a China, nem os Estados Unidos não quererão mais Guerras.

IV – Diante de uma situação onde os homens começam a compreender que a violência não é um método humanista, é preciso ser otimista. O planeta é pequeno, pobre, ainda subdesenvolvido, os processos revolucionários são contraditórios, fim de século, morte da barbárie, nascimento da civilização.
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Programa Abertura, TV Tupi - Glauber Rocha, Severino e o Super-homem.



Programa Abertura, TV Tupi - Glauber Rocha entrevista Brizola.




Revista de Cinema, ano I, nº 05: uma matéria sobre Glauber Rocha

Do papel # 15

Hoje, na nossa virtualidade berrística, lembramos da morte de um dos grandes nomes do cinema nacional. Há 31 anos Glauber Rocha partia destas terras brasileiras e ia transar suas ideias com outros gênios por aí, pela eternidade.

No ano 2000, em setembro, era lançada nas bancas a Revista de Cinema, em seu quinto número. A publicação, ainda uma novidade na época, trazia na capa a imagem de Glauber Rocha (imagem ao lado). Trazemos então à tona esta matéria assinada por Newton Cannito. O texto, uma espécie de homenagem, foi escrito numa linguagem bastante simplória e não entra nos meandros mais complexos da obra do cineasta baiano. Para as pessoas que desconhecem o cinema de Glauber Rocha, pode ser um bom começo, para que se desperte e seja aguçada a curiosidade. Lembremos que naquela época, há 12 anos, ainda não havia iniciado o projeto de restauro da obra de Glauber Rocha, hoje já é possível o acesso a cinco dos seus longas-metragens em DVD e na internet facilmente se encontra os demais filmes, ainda em baixa qualidade, mas possível para uma primeira vista.

Alguns erros do texto estão com uma observação nossa entre colchetes. Clique nas imagens para ampliar as páginas da revista.
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Obra do maior representante do cinema novo volta ao debate
por Newton Cannito

Passados quase vinte anos da morte de Glauber Rocha, seus filmes voltam a alimentar debates, tanto no Brasil como no exterior. Na França, a 22ª edição do Festival dos Três Continentes de Nantes, que se realizará entre 21 e 28 de novembro desse está prometendo uma grande retrospectiva dedicada ao diretor, reconhecido internacionalmente como o principal expoente do cinema novo, movimento cinematográfico que teve seu auge nos anos 60. A iniciativa de Nantes pretende recolocar a obra de Glauber na pauta do debate estético. Além da mostra de filmes o Festival realizará um seminário com intelectuais e cineastas brasileiros e franceses, além de mostrar filmes sobre o próprio diretor, realizados em todos os cantos do mundo. A "Cahiers du Cinema", uma das mais prestigiadas revistas de cinema do mundo, manifestou seu interesse em lançar, ainda este ano, um número que investigue a atualidade das ideias e dos filmes de Glauber.

Acontece, porém, que o organizador do festival de Nantes, Philippe Jalladeau, não está conseguindo convencer dona Lúcia Rocha, mãe de Glauber, a ceder os filmes para a mostra. Para liberar os filmes, Lúcia cobrou U$40 mil a Jalladeau, mas ele afirma que não tem condições de bancar tamanha quantia. Dona Lúcia rebate: "O Glauber morreu na miséria, ele sofreu muito porque todo o seu trabalho foi feito na base da exploração. Não quero que a obra do meu filho continue sendo explorada como foi no passado, ele não gostaria que isso acontecesse mais". Lúcia Rocha acha que o valor não é alto, e que precisa valorizar a obra do filho. "Ele já teve seu cinema divulgado no mundo inteiro". Jalladeau acha que ainda vai conseguir chegar em um acordo com a família em tempo de concretizar a homenagem.

No Brasil a obra de Glauber está cada dia mais atual. Prova disso a recente safra de pesquisas, biografias e filmes que estabelecem diversas formas de diálogos com o próprio cineasta, com seus filmes e com o cinema novo. Além das tradicionais homenagens, Glauber vem despertando acirrados debates e, além do respeito comum aos clássicos, o diretor continua despertando ódio e paixão. Nos últimos anos Glauber voltou a ser um dos principais temas do debate estético atual, mostrando que sua influência permanece viva.

Não é à toa que Glauber suscita tantos debates. Sua trajetória pessoal diz muito sobre nosso país e apresenta caminhos alternativos aos artistas brasileiros. Como se não bastasse, alguns de seus filmes estão entre os mais importantes da história do cinema mundial, sendo idolatrados por cineastas como Martin Scorcesi [correção: Martin Scorsese], que elegeu "Terra em transe" como um de seus filmes favoritos. Sua obra, além da densidade política e social, também procurava um formato adequado à produção do terceiro mundo. A célebre frase "uma ideia na cabeça e uma câmera na mão" ficou identificada com o cinema de Glauber. O seu cinema existiu com maior ênfase na época da repressão militar e da censura. Por isso mesmo seus filmes são metafóricos, como "Terra em transe", o filme mais político de toda sua obra.

O jornalista

Glauber nasceu em 1939, em Vitória da Conquista, na Bahia, e cresceu assistindo filmes de bang bang. Mais tarde iria copiar seus diretores preferidos, como John Ford, em "Deus e o diabo na terra do sol". Em 1948 a família muda-se para Salvador possibilitando que ele participasse da intensa movimentação cultural de Salvador na década de 50. Em 1958 Glauber começa a trabalhar como jornalista policial. Logo começa a escrever críticas de cinema e assume a direção do "Suplemento Literário do Jornal da Bahia". A atividade como jornalista e como crítico de cinema é essencial para entender a obra de Glauber, até porque ele sempre se considerou um jornalista mesmo estando atrás das câmeras. O cinema que ele realizou nos anos seguintes foi baseado numa extensa cultura cinematográfica fazendo um permanente diálogo com outros filmes e com a história do cinema.

Como todo crítico, Glauber sonhava em fazer cinema. Na época em que escrevia Glauber também promovia saraus de poesias e se preparava para entrar no mundo do cinema. Em 1959 realizou seu primeiro filme, o curta-metragem "O Pátio" [o título não tem o artigo é apenas Pátio] um filme poético e não narrativo, baseado na beleza plástica do enquadramento e da montagem. Em seguida filma "Cruz na Praça", mas decide não terminar o filme: "quando vi o copião, percebi que essas ideias não funcionavam mais, que a minha concepção estética já não era a mesma", disse o diretor na época. Ao ver o copião o Glauber crítico entrou em ação e ele questionou a própria obra. A capacidade de mudar de opiniões estéticas e políticas mesmo que, para isso, ele tenha que contradizer a si mesmo, revolucionar seus próprios conceitos, será uma constante em sua trajetória artística. As suas ideias estiveram sempre em movimento, em permanente reação com a mudança do contexto histórico. Decorre daí a sua variedade de opiniões e sua permanente atualidade.

"Barravento": Glauber se contamina de realidade

A chance de dirigir seu primeiro longa-metragem veio por acaso. Glauber era produtor de "Barravento", filme inicialmente dirigido por Luís Paulino dos Santos, que abandonou a filmagem, abrindo a oportunidade que o diretor tanto esperava. O jovem Glauber não se intimidou, assumiu o filme e, além de controlar bem a produção, transformou a proposta estética inicial. O roteiro do filme narra a história de Firmino que retorna a sua aldeia natal após morar em Salvador e revolta-se contra a opressão de seus companheiros, explorados pelo dono da rede de pesca e alienados pelo culto a deusa Iemanjá. A crítica à cultura popular como alienação que evita a revolta do povo, coloca o filme em sintonia com o ambiente ideológico do início da década de 1960.

No entanto, no decorrer das filmagens, surge em Glauber o seu lado jornalístico. Convivendo com uma comunidade real de pescadores ele se deixa contaminar pelo ambiente, e leva essa contaminação para a narrativa do filme. Assim, ao invés de seguir rigidamente o esquema do roteiro, Glauber usa a câmera com funções documentais e contemplativas. De forma que a religiosidade popular, mesmo criticada no roteiro, é admirada por outros recursos de narração cinematográfica. Os tambores religiosos, por exemplo, são permanentes no filme e envolvem o espectador dentro do ambiente religioso. "Barravento" é concluído em 1961 e, no ano seguinte, recebe o prêmio Opera Prima no Festival Internacional de Cinema de Karlovy Vary.

A invenção do cinema novo

As ambições de Glauber eram ainda maiores. Além de dirigir seus prórpios filmes Glauber queria realizar um movimento Cultural que contribuísse para a transformação política do país. Já no Rio de Janeiro ele se junta aos jovens cineastas Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hirszman, Miguel Borges, Cacá Diegues, Paulo Sarraceni [correção: Paulo Saraceni], entre outros. Juntos eles lançam o chamado cinema novo, o movimento estético e político mais importante da história do cinema brasileiro. Dessa turma que mudou os rumos da cinematografia brasileira, Glauber foi o principal ideólogo do cinema novo. Com a publicação de "Revisão Crítica do Cinema Brasileiro" Glauber reconta a história do cinema brasileiro definindo os filmes que constituem a linha evolutiva que, na sua opinião, culminaria com os filmes do novo movimento, numa época em que os franceses estouravam com a "nouvelle vague" e os italianos com o "neo-realismo" [na verdade nesse período o neo-realismo italiano já havia sofrido muitas transformações e não mais existia como movimento cinematográfico, no entanto seria nesse período uma grande influência para os cineastas do Cinema Novo]. Os valores desse novo cinema estão centrados na ideia de brasilidade, de autoria e de produção independente, em oposição a produção industrial. Ele combateu, em especial, a Vera Cruz e a chanchada. Em um artigo publicado em 1962, Glauber definiu a linha estética do cinema novo, criticando os cineastas preocupados apenas com o cinema-espetáculo, mesmo que alguns desses filmes tinham [sic] temática social.

Para Glauber os filmes do Cinema Novo devem evitar o efeito fácil do espetáculo e realizar um cinema experimental. Dessa forma o diretor entrava em confronto direto com o filme de Anselmo Duarte, "O pagador de promessas" (1962), que tinha vencido o Festival de Cannes, elogiando apenas os filmes dos jovens cinemanovistas, em oposição a esse cinema-espetáculo. Somente em 1965 Glauber escreve "Uma estética da fome", manifesto mais famoso do movimento, que valoriza o uso criativo da precariedade econômica das condições de filmagem para alcançar resultados estéticos criativos.

Na verdade a principal preocupação de Glauber é como representar a miséria dos povos do Terceiro Mundo através do cinema. Para ele, os filmes que representam a miséria dentro de uma narrativa clássica absorvem a denúncia social como espetáculo, despertando no espectador a compaixão pela miséria e servem apenas para a expiação de culpa do público. O modo de superar isso é a violência estilística, que deve romper com as expectativas emocionais do espectador. Glauber preconiza uma estética da violência, um termo muito usado pelo diretor e pouco citado, que agrida o espectador através da forma narrativa.

"Deus e o diabo na terra do sol": o western da fome

O cinema, para Glauber, deveria sempre ter um engajamento. Seus filmes sempre foram respostas a situação política do momento. "Deus e o diabo na terra do sol" (1964), seu segundo filme, efetivou na prática as ideias da "estética da fome". Conta a história de um casal de camponeses que, em sua trajetória, se envolvem com um fanático religioso e com o cangaceiro Corisco. Para o filme, ambos são caminhos que afastam o camponês da consciência política e da revolução social. Nos dois casos, temos a interferência do Antônio das Mortes, o matador de cangaceiro, que liberta os camponeses da influência do fanático religioso e mata o cangaceiro Corisco.

Reconhecidamente o filme é influenciado pelo western americano, mas a direção de Glauber nacionaliza essa influência. O filme é construído a partir de canções populares e quebra as convenções narrativas do cinema clássico. O cego cantador, tradicional do sertão nordestino, atua dentro do filme como narrador, intervindo na história e conduzindo a narrativa. Com isso, o filme, ao contrário do western clássico americano, evidencia para o público o fato de ser uma história contada. O próprio personagem de Antônio das Mortes é elevado a categoria de personagem mítico, não humano.

Além disso, em "Deus e o diabo..." o uso da câmera na mão operada por Dib Luft [correção: Dib Lutfi] (um dos maiores câmeras da história do cinema), se sedimenta como o principal recurso estilístico dos filmes de Glauber. Mais do que um slogan "uma câmera na mão e uma ideia na cabeça", a câmera na mão é um recurso narrativo que aproxima o espectador do drama dos personagens e efetiva na imagem a noção de movimento histórico.

"Deus e o diabo.." é também a tradução cinematográfica do otimismo da esquerda brasileira pré-golpe militar de 1964. A corrida de dois camponeses no final do filme anuncia um caminho de continuidade para a história e traduz a esperança de uma breve revolução social. No entanto, essa visão esperançosa logo foi desfeita. Com o golpe de 1964, o otimismo cai por água abaixo. Glauber, sempre sensível ao clima da época, revê suas posições e realiza mais algumas obras-primas. "Terra em transe" (1967) e "O dragão da maldade e o santo guerreiro" [O dragão da maldade contra o santo guerreiro] (1969), são dois filmes de Glauber que traduzem esse momento.

A revisão da esquerda

"Terra em transe" (1967) conta a história de Paulo Martins, poeta e político, que transita entre as lideranças Porfírio Diaz, o líder de direita, e Felipe Vieira, líder populista com tonalidades esquerdistas. No começo do filme, Paulo já está próximo a morte e a história segue através de um grande flash-back, onde o personagem reavalia sua vida e os erros que o levaram ao fracasso.

A narração da câmera mais uma vez se deixa contaminar pelo personagem retratado. O líder de direita Porfírio Diaz é, em vários momentos do filme, visto numa escada com câmera frontal e fixa sem profundidade de campo. O reacionarismo de Porfírio é traduzido visualmente nessa imagem. O mundo da direita é estático, rígido, autocentrado. Não existe nada fora do enquadramento, um reacionário não olha para o lado, não vê nada além de si mesmo. Já a representação de Paulo Martins opta pelo uso permanente de câmera na mão, aproximando a narração de um filme documentário e expressando o permanente movimento e desespero do personagem. "Terra em transe" foi o filme mais polêmico de Glauber foi criticado pela esquerda e pela direita e acabou proibido em todo território nacional. Obteve, no entanto, imensa repercussão internacional.

"O dragão da maldade..." é uma sequência e uma revisão de "Deus e o diabo...". Contratado por um coronel, Antônio das Mortes recebe a tarefa de matar o último cangaceiro, Coirana. Depois de ferir o cangaceiro Antônio entra numa profunda crise de consciência revendo suas antigas posições. Antônio perde a onipotência e deixa de ser o herói mítico de "Deus e o diabo...". O recurso da câmera na mão, que expressava muito bem o movimento revolucionário pré-1964, dá lugar a enquadramentos estáticos e geométricos, forma adequada ao mundo estático pós-golpe.

O desespero

O desespero do povo, visto sempre como massa histérica, que pula e grita por todo o filme e termina massacrado por jagunços, é a tônica do filme. Desespero também, do padre católico e do intelectual que, no transcorrer do filme, veem suas crenças questionadas pela violência da realidade. Sequências como a que se segue a morte de Laura, onde o intelectual e o amante se alternam nos beijos ao cadáver, enquanto o padre corre em volta deles em círculos de desespero, lembram temática e estilisticamente o desespero expresso nos filmes do movimento do "cinema marginal", movimento que surgia no mesmo período.

A revisão de Antônio das Mortes não deixa dúvida: ele errou ao desprezar o potencial revolucionário da religião popular e do cangaço, tal como fez em "Deus e o diabo...". O inimigo é o coronel, o dono de terras, e para vencê-lo é necessário uma aliança dos intelectuais com a religião popular, com o banditismo social e com a igreja católica. "O dragão da maldade..." foi outro sucesso internacional e com ele Glauber conquista o prêmio de melhor diretor no Festival de Cannes.

Uma estética do sonho

Glauber, enquanto produz seu cinema, continua revendo suas posições estéticas e políticas. Seus filmes tornam-se cada vez mais experimentais, cada vez mais simbólicos e alegóricos, deixando de lado o didatismo político de seus primeiros filmes. Num texto de 1971, denominado "Uma estética do sonho" Glauber dá pistas dos novos caminhos que ele estava seguindo. Para Glauber a arte revolucionária não pode tratar o povo enquanto objeto a ser encaixado no modo de narração da burguesia. A boa arte revolucionária deve recriar novas realidades, inventando formas narrativas inovadoras a partir da cultura do povo. Para Glauber: "A arte revolucionária deve ser uma mágica capaz de enfeitiçar o homem a tal ponto que ele não suporte mais viver nessa realidade absurda" (trecho de "Uma estética do sonho").

Esse texto pode dar boas pistas para entender os demais filmes de Glauber, como "Cabeças cortadas", feito na Espanha, "O leão de sete cabeças" (1970). "O Leão..." por exemplo é um filme realizao na África e retrata a situação colonialista em que se encontra a região. É um filme simbólico, "porém de um simbolismo fundado em realidades concretas, porque a realidade da questão é complexa", afirmou na época. Ainda segundo Glauber o filme quer evitar a visão paternalista comum aos filmes que europeus de esquerda fazem sobre africanos.

Uma obra em movimento

A obra de Glauber não se esgota nunca, está sempre aberta a novas interpretações. Muitos de seus filmes ainda foram pouco debatidos. Há muito para ser explorado em filmes como "Câncer" (1968) [o filme Câncer foi filmado em 1968, no entanto foi finalizado somente em 1972], com imensos planos sequências onde atores improvisam sobre o tema da violência; "Di" (1977), um curta-metragem cult-movie secreto [sic], um poema sobre a morte do pintor Di Cavalcanti cuja exibição pública é proibida pela família de Di, que o considerou desrespeitoso e "A idade da terra" (1980), experiência "antiliterária e metateatral", que segundo o próprio Glauber é um filme que "não dá pra ser contado, dá apenas pra ser visto". São filmes que reinventam permanentemente a estética cinematográfica, porque, para Glauber, cada filme é a revisão da proposta anterior, uma nova experimentação criada em resposta a um novo momento histórico. Sua obra é uma permanente procura de linguagens que expressem melhor, ou de forma diferente, e por isso, mesmo contestadora, a realidade dos povos oprimidos do Terceiro Mundo. É justamente essa coragem de reinventar-se a cada filme que faz da obra de Glauber uma das mais criativas da história do cinema mundial.

As homenagens para Glauber nunca são suficientes. O diretor sempre foi catalisador de debates, o que ele sempre quis através de seus filmes, foi levar seu público a ação. Glauber morreu no dia 21 de agosto de 1981 [correção: Glauber morreu no dia 22 de agosto de 1981], mas se hoje ele pudesse receber pessoalmente essa homenagem, ficaria feliz de saber que ainda tem pessoas que admiram seus filmes. Mas talvez ele ficasse ainda mais feliz ao saber que tem pessoas que, até hoje, se incomodam com esses mesmos filmes e se preocupam em questioná-los. Glauber sempre soube que uma boa obra de arte nem sempre agrada o público. Muitas vezes, a arte é tão boa, mas tão boa... que incomoda. [sic]

Filmografia

1959 - Pátio
[1959 - Cruz na praça (inacabado)]
1962 - Barravento
1964 - Deus e diabo na terra do sol
1966 - Amazonas, amazonas
1966 - Maranhão 66
1967 - Terra em transe
[1968 - 1968 (realizado juntamente com Afonso Beato)]
1968 - Câncer [finalizado em 1972]
1969 - Dragão da maldade contra o santo guerreiro
1970 - O leão de sete cabeças
1970 - Cabeças cortadas
1973 - História do Brasil [1974]
1975 - Claro
1977 - Di
1979 - Jorjamado no cinema
1980 - A idade da terra

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Grifo nosso: Esse texto vale muito a pena também pela possibilidade de análise e observação da construção de segmentos jornalísticos especializados em cinema, no Brasil. Hoje existe uma série de revistas eletrônicas que desenvolvem trabalhos teóricos e críticos com seriedade e qualidade indiscutível. Ao mesmo tempo que os nossos impressos mais comerciais sobre a sétima arte sempre foram um tanto preguiçosos. O parágrafo final é quase risível e, claro, não pelo conteúdo, mas pela escrita mesmo.
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terça-feira, 21 de agosto de 2012

'Raul: o início, o fim e o meio' que nunca termina nem se esgota

por Luís André Bezerra

Nesta semana em que se completam 23 anos da morte de Raul Seixas (ocorrida no dia 21 de agosto de 1989), será lançado o DVD do documentário Raul: o início, o fim e o meio, em três versões (simples, com DVD duplo e com DVDs + CD e livreto especial), prometendo uma boa dose de extras do que foi visto na telona. O documentário, dirigido por Walter Carvalho, estreou nos cinemas brasileiros em março deste ano e conseguiu levar às salas de projeção mais de 170 mil espectadores — o que para um documentário é considerado uma audiência extraordinária no nosso país.

Tive a sorte de saber da chegada (atrasada) do filme aos cinemas da minha cidade já aos 45 do segundo tempo e assisti à última sessão do último dia. Naturalmente terei opiniões (e apenas "minhas opiniões") "mais precisas" sobre o filme quando puder revê-lo no DVD, mas por ocasião dos 23 anos da despedida do Maluco Beleza, completados hoje, resolvi falar o que me empolgou e o que, de certa forma, deixou a desejar no filme.

Endosso a opinião (meio lugar-comum, porém honesta) emitida pelo diretor Walter Carvalho em uma entrevista, ao dizer que o documentário retrata apenas o "Raul Seixas construído por Walter Carvalho" e que um filme não esgotaria (e não esgotará, certamente) o que se tem pra falar do compositor de "Metamorfose Ambulante". Mas não deixa de decepcionar um pouco ver o filme (que possui tantas imagens raras do Raulzito e alguns ricos depoimentos) tropeçar em algumas escolhas do roteiro e/ou da montagem.

Talvez o "Raul Seixas segundo Walter Carvalho" tenha tentado passar demais a imagem de uma figura pública brasileira mais conhecida pelas polêmicas, excessos e envolvimento com as drogas do que necessariamente alguém que construiu uma carreira artística durante três décadas (anos 1960-70-80). Durante esse período de vivência de Raul Seixas no meio artístico, o Brasil teve mais de 20 anos de Ditadura Militar; a Tropicália (com outros baianos, e não o Raulzito) revirou a música brasileira no final dos anos 1960, estabelecendo uma nova relação da MPB com a música internacional; as paradas de sucesso do país deixaram de lado os festivais da canção para buscar o filão nas trilhas das novelas; a "invasão Disco" seguida (ou misturada) com o período da "invasão Punk" no final dos anos 70; a New Wave; a explosão do BRock nos anos 1980; o fim da ditadura militar, etc. E tudo isso parecia estar no universo de outro disco voador, porque no universo do "Raul Seixas de Walter Carvalho" não estava. Seria interessante debater como Raul se posicionou artisticamente pelo menos em alguns desses momentos históricos citados.

A minha expectativa era acompanhar, em um documentário tão badalado e bem divulgado, como se deu o desenvolvimento artístico de Raul Seixas nas mais variadas fases, quais as concepções na criação dos seus discos, etc. E infelizmente isso se perde no início do filme, que começa prometendo bastante na montagem, mas aos poucos vai ficando mais preguiçoso e deixando que as entrevistas (nem todas essenciais) puxem o fio da meada. É verdade que algumas entrevistas são muito boas, como a inevitável com Paulo Coelho (o mais famoso parceiro de Raul). O depoimento narra a difícil relação entre os compositores, enquanto é "premiado" com a presença de uma mosca, que "Dom Paulete" diz não ser comum aparecer na Suíça (onde aquilo estava sendo gravado): então ele chama a mosca de Raul, a deixa ficar por perto um instante, até que pouco depois Paulo Coelho habilmente atinge a mosca com um tapa e sorri — explicando muito mais da relação de amor e ódio entre os antigos parceiros com esse gesto do que poderia fazer com qualquer depoimento. E Walter Carvalho mais uma vez foi sincero e honesto, ao dizer que aquilo foi uma sorte de documentarista. Nada ensaiado: aconteceu e ele teve a "sorte" de estar filmando. A competência foi saber usar isso na montagem. E funcionou bem.

Mas afora os depoimentos que falam bastante do Raul Seixas pai-filho-irmão-drogado-compulsivo-complicado-inconstante, o "Raul artista" esboça ganhar algum espaço em falas como as de Caetano Veloso, Tárik de Souza e Pedro Bial, que comentam a música e a reação que tiveram ao acompanhar o início da trajetória daquele criador "irreverente" e ao mesmo tempo de uma "violência enorme", um cara que com "Ouro de Tolo" ganhava as paradas de sucesso sem a mídia saber se aquilo era cult ou brega (ou talvez como ele quisesse: as duas coisas). Caetano Veloso define como "genial", pega um violão e canta "Ouro de Tolo" — nessa hora "o compositor Raul Seixas" me convenceu que merecia mais espaço com suas músicas naquele filme, para talvez ele, melhor do que ninguém, pudesse contar/cantar sua trajetória.


Comunicação através das músicas

Ainda quando criança, o pequeno Raul tinha o sonho de ser diretor de cinema, então escrevia e desenhava roteiros (que são apresentados numa montagem interessante no início do filme), mas com o tempo conheceu o rock e acreditou que a canção poderia ser a arte por ele utilizada para se comunicar com o público. Interessado em filosofia, esoterismo e tantos outros assuntos que procurou ler, conhecer e se aprofundar (mesmo que fosse por um breve período e na sequência já saltasse em busca de outros interesses), definiu que a música seria um canal para a difusão das suas ideias. Creio que esse seria um bom argumento para deixar que as músicas "roteirizassem" mais o que circundava a sua vida, e não o contrário como optou o diretor do documentário: deixou que as pessoas ligadas à sua vida privada falassem e algumas (poucas) músicas ilustrassem o que estava sendo contado.

Talvez não precisasse, obviamente, chegar ao extremo do recente documentário A Música Segundo Tom Jobim, de Nelson Pereira dos Santos, que apresenta uma sucessão de números musicais do maestro da Bossa Nova. E nada de depoimentos, a música fala por si! Com Raul Seixas isso seria difícil, justamente pela interpenetração entre vida e obra, que comumente evoca causos na mesma medida em que aparecem versos das letras. O problema, a meu ver, é quando nessa balança vemos a obra ser reduzida a meras ilustrações e a um corpus tão restrito, como foi em Raul: o início, o fim e o meio, que parecia fazer do baiano um compositor de meia dúzia de sucessos e nada mais.


Documentar o conhecido ou o desconhecido?

Um mês após a estreia de Raul: o início, o fim e o meio, o diretor Walter Carvalho concedeu uma entrevista no programa Roda Viva, da TV Cultura, e confessou que praticamente tudo o que estava no filme ele acabou sabendo apenas durante a pesquisa e as filmagens. Também revelou que não partiu dele a ideia de documentar o Maluco Beleza, foi convidado para o projeto e só depois disso resolveu pesquisar e conhecer um pouco mais sobre o Raul (de quem gostava nos anos 1970, mas conhecendo basicamente algumas músicas, pois segundo ele, sua geração "gostava mesmo era de Chico e Caetano").

No aspecto fílmico (mais especificamente do documentário) acho que não deva existir uma regra de filmar apenas aquilo que se gosta ou o que já se conheça (muito menos o contrário disso: documentar apenas algo que vá aparecendo ao sabor dos ventos — e esforços — da pesquisa). Mas talvez o tempo que Walter Carvalho teve para conhecer a obra de Raul Seixas não tenha sido suficiente para deixá-lo familiarizado com algumas canções e discos que poderiam ilustrar mais (e melhor) a sua montagem.

Para ficar em alguns exemplos dos quais me lembro:

O nome "Raul": numa passagem do filme, um cover do compositor baiano mostra o filho, registrado pelo pai com o nome "Raul Seixas" contra a vontade da mãe do garoto, que depois dessa resolveu se mandar; a história é complementada com o relato do ator Daniel de Oliveira, que fala da escolha do nome de seu filho: Raul. O filme abre mão do que Raulzito mencionava (inclusive num verso da canção "Lua Cheia", de 1983), que "Luar é meu nome aos avessos / não tem fim nem começo...", se referindo ao fato de "Raul" ser anagrama da palavra "Luar". E essa analogia não fica por aí, pois era recorrente nas composições ele citar a lua, luar, eclipse (como nas canções "As aventuras de Raul Seixas na cidade de Thor", "Gita", "As Profecias", "Lua Bonita"), além das inúmeras letras que falam sobre a noite, o escuro e/ou seu(s) contraponto(s): o dia, a luz, o sol.

Postura política: não é raro associarem o compositor de "Ouro de Tolo" a alguém de postura crítica perante a política do país. O filme toca nesse ponto apenas de passagem rápida, ao falar do episódio em que Raul Seixas e Paulo Coelho (em 1974, devido à "Sociedade Alternativa") foram "convidados" pelo Governo Militar a deixar o Brasil. Então seguiram voo com suas respectivas esposas para os Estados Unidos e lá passaram um breve período, até Raul Seixas voltar devido o estrondoso sucesso que estava fazendo com a recém lançada canção "Gita" (fruto da parceria dos "exilados" e que rendeu um disco de ouro).

Fora isso, apenas pequenas frases em entrevistas demonstrando a irreverência com que Raul Seixas criticava a política brasileira. Mas em momento algum são mencionados os tantos versos na sua obra que o alinham com o pensamento anarquista, principalmente na linha do "individualismo" defendido pelos escritos de Proudhon. Como está mencionado no livro Raul Seixas: uma antologia, de Sylvio Passos e Toninho Buda, o discurso da voz que fala nas canções de Raul está muito afinado com a crítica a qualquer sistema de governo (o "Monstro Sist"), tendo por toda a sua obra uma série de versos em que assumia a desconfiança com instituições como Igreja, Governo e Polícia. Exemplos são faixas como "Quando acabar o maluco sou eu", "Mamãe eu não queria", "Cowboy Fora da Lei" e a mais escancarada de todas (ao mesmo tempo em que é a menos "levada a sério"): "Carimbador maluco".

A música do Plunct-Plact-Zum parte de um texto do Proudhon (ele mais uma vez!), no qual diz que "(ser governado) é ser guardado à vista (...), dirigido, legislado (...), registrado, selado, avaliado, rotulado...", termos proferidos na letra pelo "carimbador" (como se fosse um responsável por uma espécie de "Imprimatur"?) encarnado pelo próprio Raul Seixas, que decide o que pode e o que não pode — num show de ironia, como ele sabia fazer muito bem. E Raul Seixas levou isso para a tela da Rede Globo (ainda antes da abertura política), conquistou seu segundo disco de ouro e, para a criançada, proferiu uma mensagem anarquista. Episódio que foi omitido no filme, assim como o argumento de que um Raul esquecido pela mídia "se vendeu pra Globo", comentário que até hoje se escuta sobre aquela fase da sua carreira.

Outro ponto que merece menção é a opção pelo desbunde, maneira debochada com que alguns artistas da contracultura se posicionavam nas questões políticas, fazendo críticas sarcásticas e irônicas nos seus trabalhos. Os tropicalistas (Caetano, Gil, Tom Zé e cia.) e Raul Seixas compactuavam dessa mesma postura: nem alinhados com o Governo Militar nem adeptos da oposição feita pela esquerda da época.

E por falar em Tropicália e a virada da música brasileira no final dos anos 1960 e início dos 1970, o disco Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das Dez merecia um destaque maior, pela reverência que existe para com o disco no meio artístico, já que o álbum gravado em 1971 por Raul Seixas, Sérgio Sampaio, Miriam Batucada e Edy Star (sendo este último o único ainda vivo do grupo) é uma obra que merece maior destaque na revisão daquele período pós-tropicalista.

A morte de Raul Seixas: na última parte do filme o clima vai ficando pesado. A narrativa parece seguir o estado de definhamento, físico e criativo (?), de Raul. Drogas pesadas, bebidas, incapacidade de cumprir os (poucos) compromissos agendados. Uma leva de depoimentos relata a imagem degradante que tinha o compositor nos últimos anos de vida. Pena que mais uma vez o deconhecimento(?) da obra de Raul Seixas tenha impedido Walter Carvalho de lançar mão de várias composições de Raulzito que falam sobre morte, drogas, mistério(s) da vida: "Paranoia II", "Dona Persona", "Caminhos I e II", "Canceriano sem lar", "Check-up", "Não quero mais andar na contramão" e, escancaradamente, "Cavalos calados", do disco A Pedra do Gênesis, de 1988 ("o meu pulso não pulsou / (...) a minha morte aparente / (...) acordo semi-lúcido, entre a morte e a morte" e por aí vai) são alguns dos exemplos.

E o diretor fez a opção por ilustrar o episódio de sua morte principalmente com a canção "Canto para minha morte", que abre o disco Há dez mil anos atrás, de 1976. Recorreu a uma entrevista concedida por Raul a Nelson Motta, à época do lançamento do álbum. No vídeo Raul Seixas explica como ele encara a morte (recitando "venha mas demore a chegar..."). O problema é que fórmula parecida já havia sido utilizada no "mini-documentário-homenagem" Documento, de 1998, que lança mão dessa fala de Raul e depois cruza seu discurso e a letra da música com imagens do seu velório. Ao assistir foi inevitável a sensação de Déjà vu.

O disco A Panela do Diabo: esse álbum gravado por Raul Seixas e Marcelo Nova entrou no filme contextualizado pela série de shows realizados pelo ex-vocalista do Camisa de Vênus ao lado do seu velho ídolo. Os dois baianos roqueiros fizeram uma parceria, viajaram pelo país fazendo shows e acabaram por gravar o disco. Esse aspecto foi até bem inserido, buscando resgatar da época a sensação do que se tratava aquela parceria: uma chance de renascimento para Raul Seixas ou um calote do Marceleza, se aproveitando do nome de Raul e não respeitando sua debilidade física?

Se há méritos nesse trecho (ilustrados pelas falas de Caetano Veloso, ex-esposas e do próprio Marcelo Nova) também cito que faltou ser mencionado que o disco foi lançado na semana da morte de Raul Seixas. Outra ponte poderia ser feita com a parte em que falam da aproximação de Raul Seixas, Paulo Coelho, Toninho Buda e toda uma turma que "simpatizava" com um "diabo" sem ser o diabo pregado, desenhado e exorcizado pela Igreja (essa foi uma das boas sequências do filme e dialogou bem com a música "Rock do diabo"). O título A Panela do Diabo é sugestivo demais, além do disco estar repleto de canções que falam de morte e despedida (apesar de também ter várias faixas irreverentes, o que seria inevitável num fruto de tal parceria). E curiosamente as tais "músicas de despedida" só chegaram aos ouvidos dos fãs quando Raul Seixas já havia morrido.


Em um teatro nos anos 1970

Para não ficar apenas batendo na tecla de que há falhas e de que o documentário poderia ser melhor, quero encerrar falando de coisas que vale(ra)m muito a pena.

As imagens de arquivo são sensacionais: o reencontro entre Raul Seixas e Paulo Coelho poucos meses antes da morte do Maluco Beleza; cenas dos bastidores da turnê com Marcelo Nova; imagens das gravações de faixas como "Mosca na Sopa", nos anos 70; imagens da cidade de Salvador, dos locais onde Raul Seixas começou a curtir rock e fundou o fã-clube de Elvis Presley com o amigo Waldir Serrão; a fazenda do parceiro Claudio Roberto, onde Raul compôs várias músicas conhecidas na segunda metade dos anos 1970, entre elas "Maluco Beleza" e "O dia em que a Terra parou"; a presença inevitável do Sylvio Passos (presidente do Raul Rock Club), que era amigo do seu ídolo e um dos maiores responsáveis pela divulgação da obra de Raul após sua partida em 1989; o encontro dos ex-integrantes do Raulzito E Os Panteras; e o aparecimento do neto de Raul Seixas, filho da sua segunda filha, Scarlet, que mora nos Estados Unidos: o sonho de Raul Seixas era ter um filho homem, mas acabou tendo três filhas, o neto parece preencher um pouco desse sonho e impressiona o quanto lembra o avô quando jovem.

Mas acho que o que mais me impressionou positivamente foi ver e ouvir algumas apresentações ao vivo de Raul Seixas nos anos 70, como quando ele canta "Let me sing, Let me sing" e "Loteria da Babilônia" no Phono 73. Essa imagem há tempos já perdeu o status de raridade (pode ser encontrada facilmente na internet), mas ver e escutar aquilo na sala de cinema, com um som alto e impactante, passou um pouco da ideia do que era acompanhar um show de Raul Seixas no seu auge criativo (na primeira metade dos anos 1970). Isso foi potencializado pelo depoimento de Pedro Bial, quando conta que foi dezenas de vezes ao teatro assistir ao show de Raul Seixas no auge de seu sucesso. E relata aquilo como sendo um grande espetáculo, declarando que Raul era "vômito" (no melhor sentido da palavra!). O som que chega aos nossos ouvidos passa uma ideia do que era tudo aquilo. Extraordinário!

Obviamente que neste texto estão apenas minhas (humildes) impressões — e pareci mais sugerir um outro roteiro do que fazer uma crítica decente do filme. Afinal de contas, lembremos, o filme foi/é um sucesso:

Muita gente deve ter adorado os depoimentos (emocionantes e emocionados) das duas filhas mais novas (a mais velha contou ter tido pouco contato e não sentia nada pelo pai); as falas de quatro das cinco ex-esposas (a primeira, Edith Wisner, avisou via Skype que se recusava a falar sobre o cantor, alegando que ele traz lembranças ruins) que mostram um Raul companheiro e carinhoso, mas também infiel e inconstante nas relações amorosas; a emoção da empregada/secretária que tenta voltar, mais de 20 anos depois, ao apartamento onde encontrou Raul Seixas morto na manhã de 21 de agosto de 1989 (a emoção a faz voltar da porta do elevador e suas lágrimas ganham destaque na tela); o rosto de Raul Seixas no caixão, com algodão nas narinas; a grande comoção no seu velório, etc.

Tudo isso certamente agrada a um grande público, que talvez nunca tenha ouvido a música "Caroço de Manga" e se interesse mais pela figura polêmica de Raul Seixas e toda a aura de "maluco" que cerca a sua vida do que exatamente seus discos, suas composições. E o filme foi bem sucedido nesse intuito: consegue mostrar com competência um personagem curioso, cativante, que acaba conquistando muitos admiradores até hoje, 23 anos após a sua morte. Mas para quem esperava um "documentário sobre um cantor e compositor", ainda fica a esperança de que surjam novos filmes, novos olhares e ouvidos.

Duas horas de filme valeram a pena e certamente vou adquirir meu DVD, mas o assunto não se esgota e ainda há de surgir um Raul Seixas documentado que tenha a sua música, acima de tudo, dizendo o que ele queria dizer. Como cantou um dia o próprio Raul, "os homens passam, as músicas ficam".
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Teaser de Raul: o início, o fim e o meio:

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Exibição do filme 'O Bandido da Luz Vermelha' no Cinematógrapho



Cinematógrapho (com mediação de Elvis Pinheiro)
Exibição de O bandido da luz vermelha
Título original: O bandido da luz vermelha
Direção e roteiro: Rogério Sganzerla
Elenco: Paulo Vilaça, Helena Ignez, Luiz Linhares, Sérgio Hingst
Duração: 92 minutos
Ano: 1968
País de origem: Brasil

"Marginal paulista coloca a população em polvorosa e desafia a polícia ao cometer os crimes mais requintados. Conhece a provocante Janete Jane, famosa em toda a Boca do Lixo, por quem se apaixona." (sinopse da divulgação do evento)

Exibição na quarta-feira, dia 22 de agosto de 2012, às 19h
No SESC Juazeiro do Norte-CE. Entrada gratuita.
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'O caminho da vida é a morte!' (Raul Seixas)

Embalado pra viagem # 73

Caminhos
(Raul Seixas / Paulo Coelho / Eládio Gilbraz)

Você me pergunta
aonde eu quero chegar
se há tantos caminhos na vida
e pouca esperança no ar
e até a gaivota que voa
já tem seu caminho no ar

O caminho do fogo é a água
o caminho do barco é o porto
o do sangue é o chicote
o caminho do reto é o torto
o caminho do bruxo é a nuvem
o da nuvem é o espaço
o da luz é o túnel
o caminho da fera é o laço
o caminho da mão é o punhal
o do santo é o deserto
o do carro é o sinal
o do errado é o certo
o caminho do verde é o cinzento
o do amor é o destino
o do cesto é o cento
o caminho do velho é o menino
o da água é a sede
o caminho do frio é o inverno
o do peixe é a rede
o do pio é o inferno
o caminho do risco é o sucesso
o do acaso é a sorte
o da dor é o amigo
o caminho da vida é a morte!

"E você ainda me pergunta:
aonde é que eu quero chegar,
se há tantos caminhos na vida
e pouquíssima esperança no ar!
E até a gaivota que voa
já tem o seu caminho no ar!"

O caminho do risco é o sucesso
do acaso é a sorte
o da dor é o amigo
o caminho da vida é a morte!


Caminhos II
(Raul Seixas / Paulo Coelho / Eládio Gilbraz)

Assim como todas as portas são diferentes
Aparentemente todos os caminhos são diferentes
mas vão dar todos no mesmo lugar
Sim! O caminho do fogo é a água
assim como o caminho do barco é o porto
o caminho do sangue é o chicote
assim como o caminho de reto é o torto
o caminho do risco é o sucesso
assim como o caminho do acaso é a sorte
o caminho da dor é o amigo
o caminho da vida é a morte!


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Raul Seixas, no disco Novo Aeon, de 1975.

Em mais uma homenagem ao Raulzito, no dia em que faz 23 anos de sua morte.
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Em 1989: reportagem sobre a morte e o velório de Raul Seixas

Do papel # 14

Hoje, dia 21 de agosto de 2012, 23 anos após a morte de Raul Seixas, compartilhamos uma matéria publicada em 1989, repercutindo a tristeza dos fãs na despedida do Maluco Beleza.

Antes de tudo, a reportagem — da Revista Contigo!, assinada por Gláucia Padilha — será compartilhada pelo caráter histórico, por registrar um pouco do que se falava de Raul Seixas e sua morte à época dos acontecimentos. Para os que conhecem um pouco mais da vida e da obra de Raul Seixas, será fácil perceber no texto alguns deslizes, passando informações improcedentes.

Alguns erros do texto estão com uma observação nossa entre colchetes. Clique nas imagens para ampliar as páginas da revista.
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Morte de Raul Seixas leva fãs à loucura!
por Gláucia Padilha - Revista Contigo! (1989)

Há muito não se via uma manifestação popular igual. Desesperados, os fãs de Raulzito mostraram toda a dor no velório
Contorcidos de dor e desespero, milhares de fãs do "maluco" Raul Seixas prestaram sua última homenagem ao rei do rock brasileiro. Cantando os grandes sucessos do ídolo, uma multidão completamente transtornada beirou as raias da loucura. Lágrimas, desmaios e gestos tresloucados: houve invasão do necrotério de Vila Alpina (em São Paulo) e até tentativa de impedir que o corpo fosse sepultado em Salvador.

A tragédia se abateu sobre os fãs quando as rádios começaram a noticiar que Raul havia deixado de criar às 5 da madrugada de segunda-feira por causa de uma parada cardíaca. Sem acreditar na história, uma legião de jovens tomou as dependências do Hotel Aliança — onde Raul vivia há dois anos — na esperança de encontrar Raulzito com vida e, como sempre, rindo da situação.

Infelizmente o sonho dos fãs não se concretizou. Seu corpo jazia numa das câmaras mortuárias do Crematório de Vila Alpina. Quando a informação se espalhou, outra multidão se aglomerou na frente do crematório e, num momento de desespero, invadiu o necrotério. Mas o caixão do ídolo já tinha partido para o Palácio das Convenções do Anhembi, onde encontrou milhares de "seguidores" do autor de "Metamorfose Ambulante".

A noite foi longa e triste. Mas ninguém arredou pé um instante do local onde descansava o baiano que ousou e revolucionou o rock. Muitos — vestidos com camisetas de fãs-clubes do cantor — sacaram o violão e entoaram as músicas de Raul. Essa multidão acompanhou o carro do Corpo de Bombeiros que levou o caixão ao aeroporto para embarcá-lo num jatinho em direção a Salvador. Na Bahia, as manifestações se repetiram com a mesma intensidade. Só pararam quando os funcionários do Cemitério Jardim da Saudade despejaram a última pá de terra sobre o caixão.

Inquieto e sempre antenado em tudo, Raulzito não precisou viver mais que 12 anos para negar a educação conversadora recebida dos pais, Raul Varela Seixas e Maria Eugênia. Se jogou de cabeça no louco e maravilhoso mundo do rock assim que ouviu pela primeira vez Chuck Berry, Little Richard, Elvis Presley e Bill Haley. Ídolos que cultuou até o fim.

— Tinha um vizinho que trabalhava no consulado americano e me emprestava todos os LPs desse povo — lembrava sempre. — Fui ficando tão alunicado pelo som deles que resolvi criar meu próprio grupo.

Assim, em 1957, nascia Os Panteras, classificado pelo artista como um conjunto de rock genuinamente baiano [na realidade, o primeiro grupo de rock de Raul foi fundado em 1962, batizado como Relâmpagos do Rock, que no ano seguinte virou The Panthers e depois Raulzito e Os Panteras]. Só que a primeira investida de Raul Seixas na carreira musical não foi o que se poderia definir como sucesso. Mas, persistente, o roqueiro demorou bastante para se desiludir com os Panteras: doze anos! Somente quando mudou com a primeira das cinco mulheres para o Rio de Janeiro é que sacou que embarcara numa canoa furada.

— No Rio, gravamos um compacto e um LP que não deram em nada — contava. — Então dissolvemos o grupo.

Mas no VII Festival Internacional da Canção (FIC), da Globo, em 1972, o Brasil conheceu o Raul Seixas definitivo. Magro, alto, com roupa de couro pretas, óculos escuros e barba por fazer, simplesmente arrasou em "Let Me Sing, Let Me Sing", rebolando à la Elvis Presley. Mas esse foi apenas o começo. Mesmo porque só depois de "Ouro de Tolo" e "Al Capone" (feitas em parceria com o jornalista e poeta Paulo Coelho) [correção: "Ouro de Tolo" é apenas de Raul Seixas] é que ele arrebatou os milhares de seguidores que, não contentes em ser apenas fãs, cumpriam à risca todos os seus postulados.

— As pessoas me tomavam como um guru — dizia Raul, assustado. — Já teve gente que só apareceu em meus shows para levar os filhos doentes, pensando que eu poderia curá-los.

Tal carisma, entretanto, criou muitos problemas para o polêmico roqueiro. Depois do sucesso de "Gita" (1973) [na verdade, Gita é de 1974], o portador da carteirinha n.9 do Elvis Presley Rock Club de Salvador passou a "pregar" uma "Sociedade Alternativa". Foi o suficiente para a ditadura militar considerá-lo "a mosca que pousou na sopa" dos generais.

— Fui preso e torturado para denunciar a tal sociedade — relembrava. — Depois me "convidaram" a deixar o país.

Raul foi parar nos Estados Unidos, onde conheceu John Lennon, que o convidou para ingressar na fechadíssima seita Astrum Argentum (anti-sistema) [essa história do encontro entre Raul Seixas e John Lennon nunca foi confirmada por ninguém além do próprio Maluco Beleza. E pelo que se sabe, foi um dos mirabolantes contos que o autodenominado "bom ator" Raulzito inventou para brincar um pouco...]. Com a cabeça feita, retornou ao Brasil querendo ser um maluco. Aliás, na mesma época, lançou Maluco Beleza. E passou a ser o alvo predileto da Censura. Nunca mais deixou de ter problemas com aqueles que classificava de "castradores da arte".

Neste período, também, o corpo do roqueiro passou a registrar os primeiros reflexos dos abusos que cometia. Sorvedor compulsivo de uísque e consumidor assumido de drogas, Raulzito foi obrigado a baixar ao hospital no início da década de 80, para retirar metade de seu pâncreas.

O susto fez o artista jurar que acabaria com os excessos. Mas, na verdade, ele preferia ser "uma metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo". Talvez por isso tenha continuado a fazer de tudo. Principalmente o que os médicos lhe proibiam.

Depressões e crises de pancreatite se sucederam. Alternava períodos internado em clínicas de desintoxicação com fases de lucidez e produção artística. De uma irregularidade constante, sumia e reaparecia, deixando o público sem entender absolutamente nada.

— Não sou obrigado a dar continuidade a qualquer trabalho — explicava. — Não sou Gil ou Caetano. Sou louco, mas coloco todo ano um disco nas paradas.

Desaparecido por quase quatro anos do showbizz, eis que o demolidor solitário se junta a Marcelo Nova (ex-Camisa de Vênus), com o argumento de que o Nova era o único roqueiro que respeitava, pois os outros, "de Rita Lee ao 'Paralamas do Fracasso', todos são um engodo". Fez 50 shows neste ano e gravou o LP A Panela do Diabo, que chegou às lojas no dia seguinte a sua morte com a premonitória música "Canto Para a Minha Morte" [aqui um erro crasso: "Canto para minha morte" abre o disco Há 10 mil anos atrás, gravado em 1976: 14 anos antes da morte do compositor]. "A morte, surda, caminha ao meu lado", dizem seus versos. "E eu não sei em que esquina ela vai me beijar, com que gosto virá? Será que ela vai deixar eu acabar o que tenho de fazer? Ou será que ela me pegará no meio de um copo de uísque...?"
Gláucia Padilha
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Reportagem feita no Raul Rock Seixas (presidido por Sylvio Passos) um dia antes da morte do cantor. E na sequência do vídeo, o reencontro dos fãs no velório do artista.